quinta-feira, 25 de maio de 2017

Oswald de Andrade: a estrela de absinto



Oswald de Andrade: a estrela de absinto (São Paulo, 1927)
Texto publicado em 1928. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)


A coisa mais característica neste romance de Oswald de Andrade é a visível inteireza do homem na obra. Oswald de Andrade vive em seus bonecos. Se parece com eles. Essa constatação não é propriamente “incondicional”, vitoriosa. Mas é, em parte, muito verdadeira e de fácil poder observativo pro leitor agudo, perspicaz. Basta tomarmos como prova a figura simpática de Jorge de Alvelos, moço escultor, elegante, libertino etc.
Autobiografia? Não. Não chego a tanto. Mas a figura é escandalosamente impressionante, viva. Tão viva e tão verdadeira que a gente quase desconfia que ela é a encarnação do próprio autor. Oswald vai seguindo, com um admirável jeito penetrativo de anotador, o desenrolar dos fatos e das coisas. Sem enfarar. Deliciosamente. Sem se preocupar muito com o final da história. Como quem diz: “no fim dá certo...”
Pra maior documentação do que seja o “por dentro” de suas personagens Oswald de Andrade não hesita em fornecer-nos detalhes da vida passada deles. A meninice de Jorge no inexplorado Amazonas. Os bonequinhos de lama. Primeiros indícios de sua patente vocação prá escultura.
“Ele era como os rapazes da região que, estalada a puberdade, migram, deixando o mulherio ficar numa prévia viuvez, de coxas ardentes e semiabertas, sonhando casamentos absurdos e prostituições impossíveis.”
Temperamento ultra - sensual (Freud...) de onanista insaciável. Etc. Decadência moral, objetivada pelo excesso de “carícias habituais”. Esgotamento histérico. Nevrose etc., e — daí a descoberta de um novo mundo nos seios “em pera”, pequenininhos, de Alma. Elástica. Serpentina. Flexuosa. Pequena “escolada” enfim, como se diz. Às vezes Oswald de Andrade abandona de lado o pessoal e cai, de prancha, num estado passageiro de lirismo subconsciente. E faz poesia da boa, quase. Mal de prosador poeta. (Plínio Salgado, por exemplo). Como naquele pedaço da romaria em Pirapora. Negros dançando. Caracaxás. Pandeiros.
Um pouquinho de tristura brasileira. Pra não perder o jeito de ser triste. Poesia?
“E o coral empolgante, religioso, gritava de toda parte, por cem peitos metálicos de fêmeas e de machos, num desfalecido estreitamento de ancas e de sexos”. Gozei à beça com este pedaço. Oswald de Andrade não escreve por escrever, como qualquer sujeito interessante não. Escreve afirmando tudo muito direitinho. Suas ideias e conceitos emitidos. Sem titubear. Com firmeza. Porque sempre foi assim que ele fez. Há pedaços fortíssimos no livro em que Oswald de Andrade se revela um psicólogo formidável! Puro Rafael Lopez de Haro (com perdão dos senhores que não vão à missa do já célebre romancista espanhol).
A linguagem empregada no estrela de absinto é, sem dúvida, admirável.
E aí o autor se afirma mesmo um dos melhores prosadores nacionais. Entre antigos e modernos.
Um livro como este vale por duas vezes. Pela originalidade única do seu autor. E pelo traço forte com que ele marcará, p’rás gerações vindouras, a espaventada atitude de ousada independência espiritual de Oswald de Andrade.

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