quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Romance Moderno na Inglaterra


O Romance moderno na Inglaterra
Texto escrito em 1929. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica é de Iba Mendes (2017)

O aparecimento agora das traduções francesas de Ulissess de James Joyce, e de Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, chamaram a atenção para o romance moderno inglês. Depois de Kipling, Wells e Galworthy, o espírito britânico, excitado pelas correntes fortes do pensamento e da sensibilidade atual — Bergson, Freud, cubismo, futurismo, cinema etc. — reagiu para exprimir o ritmo da vida contemporânea, surgindo várias expressões novas, dentre os quais o imagismo, na poesia, que o americano T. S. Eliot (residente em Londres) orientou.
Como Shaw e Yeats, James Joyce veio da "ilha verde" e foi o grande dominador. Dedalus e depois Ulisses, este sobretudo, marcaram a literatura inglesa. Ulisses é um romance que secciona a vida, no tempo e no espaço. Um dia numa cidade, 16 de junho de 1904 em Dublin. Uma síntese, na análise profunda. Um homem que sai de casa, pela manhã e volta depois da meia noite. Não faz nada de extraordinário, vive apenas. Um banho, uma discussão, um enterro, um namoro, outros episódios triviais dominam o dia do herói, sem nenhum lance heroico, do judeu mr. Leopold Bloom. O romance, cuja descrição não faremos aqui, além de vários processos curiosos, como o diálogo interior, que Joyce leva às mais extremas consequências, obrigando o leitor a permanecer com o subconsciente alerta, ao menor toque de alarme; além de várias maneiras originais de construção, como o paralelismo entre os episódios do dia de mr. Bloom e o périplo de Ulisses, há de notar, por ser uma ideia dominadora do romance moderno inglês, o encurtamento do tempo.
Poucas horas, uma tarde, uma noite, um dia no máximo, chegam para o desenvolvimento da ação. Desde logo se sente a consequência inteligente do processo, intensidade do romance, realismo e introspecção. A vida, assim contada, pode ser fixada com maior minúcia e tirado dos seus fatos mais íntimos e imperceptíveis todas as possíveis e impossíveis consequências psicológicas. Influência de Freud, pesquisa no inconsciente. Processo de laboratório, não à maneira dos realistas, mas pelo panpsiquismo, desdobramento da realidade além do real, real oculto, verdade inconsciente. Já chamaram partida em "prise" direta sobre a realidade até aqui desdenhada. Tempo-mínimo, ou melhor tempo-schema, que chega para o desenvolvimento de toda à ação, livre e independente da vida. A mocidade inteira de Márion Tweedy, a cantora casada com mr. Bloom, do Ulisses, se passa no seu monólogo interior, quando deitada ao lado do marido. Aliás, o processo do tempo mental abreviando o tempo material foi largamente usado por Proust. Traz um inconveniente ao romance, monotonia. A ação, na cabeça do personagem, se move mais lentamente e quebra a sequência viva do desenvolvimento da ficção. A análise interior retarda a vida. Além de Ulisses, de Joyce, citaremos, no processo, Legenda de Clemence Dare, Noturno de Frank Swinnerton, Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf e Bty Martal de Bernard Gilbert.
A época presente da literatura inglesa, que, por um lado, reclama a abstração como "fonte todo poderosa", e, por outro, o classicismo, a maneira de uma "concentração da inteligência bastante forte para transcender a emoção pessoal a atingir, na realidade, ao objeto da visão," René Lalou caracterizou como de experiências e teorias, à espera de um grande artista que a defina. A preocupação de fugir da realidade, embora através da própria realidade, é dominante. Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf, A mulher transformada em raposa, de David Garnett, Henry Brocken, de Walter de Ia Maré caracterizam bem essa evasão do real, penetrando nesse "no man’s land, num país irresoluto", como chamou Pierre d'Exideuil. A influência dominante de Freud, que marca toda a tendência, mais se caracteriza em D. H. Lawrence (The Fox, Sons and Lowers) e Rebeca West, em The Judge, que gira em torno do complexo de Édipo. Em tudo, a nota psicológica prevalecendo sobre os vários caracteres convencionais do romance. O pitoresco, que sempre interessou o espírito inglês, volve-se agora para a pesquisa psicológica, era busca de emoções novas, de descobertas irreais. A composição se torna uma reconstrução.

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