quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tomada de Ceuta (Conto), de Rebelo da Silva



Tomada de Ceuta

Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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INTRODUÇÃO

Haverá coisa mais corrente do que um prólogo, perguntam certos críticos?

Não sei; mas, se desculpam o atrevimento, responderei que sim.

Mais fácil é um artigo de política, ladeado de alusões, ou qualquer memória, em que se espreguice a prosa sonolenta de algum sábio, jubilado em ninharias.

O primeiro quase sempre apanha do chão o seu punhado de sal grosso, para carregar a sátira; a segunda, extrai-se dos volumosos cartapácios, onde ressona a erudição pueril, virgem de leitores.

Por mim o digo! Essas facilidades, que os felizes alardeiam, nunca as encentrei. Se quis andar, tive sempre de abrir o meu caminho; e creio sinceramente que o mesmo tem de suceder a muitos.

Uma introdução, medida e pautada pelas regras, não se traça de repente — e a prova tiro-a da experiência própria.

Por mais que se invocasse o divino Apolo, e os numes da sua harmoniosa corte; por mais que chamasse em meu socorro a inspiração romântica, filha das poéticas lendas e crenças, nem eles, nem ela, me acudiram!

Uma nebrina, fria e pesada, continuava a esconder-me o sol... Decerto as minhas fervorosas súplicas tinham sido var ridas por aquele fatal vento, que Virgílio aponta como inimigo dos mortais, e ainda remoinham nos ares longe, dos sacros ouvidos de propícios deuses.

Não sei por que, mas pegou-se-me o fio da narração com a pena, logo no começo destas linhas; e uma irresistível tentação, desvairando-me pelos espaços de fantástica digressão, e apoderando-se de mim inteiramente, representa-me vivas, como imagens de hoje, as recordações de outros dias bem doces, e bem curtos, por desgraça!

A razão é simples. Os quadros, que vou esboçar agora, mal, e toscos, há muito que foram desenhados na mente; e o pensamento, que lhes deu o ser, no meio de outros cuidados, e de outros pensamentos, nunca se esmoreceu.

Lendo uma vez debaixo das sombras dos olmeiros em um casal retirado, mas alegre, e cingido de viçosas flores e plantas, a Filha do Cirurgião, nas Crônicas da Canongate por Walter Scott, não sei que sentido novo acordou em mim, e caindo-me das mãos o volume, principiou a imaginação a sonhar com as glórias, e com os desastres do passado.

A visão rápida do que fomos, e a triste realidade do que somos, absorvendo-me, entalhou-me desde então no peito uma saudade tão funda e forte, que nunca mais sossegou, nem se desvaneceu.

Em breves minutos desenrolou-se a imensa tela da história diante dos meus olhos; e, acompanhando com orgulho cada um dos homens-gigantes, que levaram tão longe, e fizeram tão ilustre o nome português, o coração batia-me apressado de júbilo e de entusiasmo. Diante da vista do espírito — figuras animadas — via-os passar pelas grandes épocas, que imortalizam as suas proezas, ou que enlutam os seus infortúnios, e parecia que os tinha ao meu lado — que lhes falava, e que me ouviam!

Correram os anos; dentro de mim, e à roda de mim, o giro dos tempos trouxe as inevitáveis mudanças, desengano para uns, esperança e ilusão de outros, e a ideia, confusa sim, mas sempre firme destas cenas cada vez a apertar-me de mais repetidas instâncias, estimulando-me as impaciências, e repreendendo-me as ocupações, que não me deixavam exclusivamente votar a ela!

Por um lado, impelia-me o desejo, figurando tudo fácil; mas pelo outro, vinha logo a reflexão desanimar-me, apontando para a grandeza e dificuldade do assunto.

Queria, decerto, tomar mais esta ousadia literária; porém de que modo e com que forças? Como todas as vocações irresolutas e incertas, a minha encolhia-se na sua timidez, e a empresa ia sempre ficando de mês para mês, e de ano para ano.

Ainda hoje ignoro se fiz bem, se mal. Há coisas, que, perdido o ardor do primeiro ímpeto, afrouxam e descoram; e nas criações da fantasia receio muito que as horas de prudência valham menos do que as horas de aceso imaginar.

Finalmente um dia, ou antes uma noite, a vaga ideia, o sonho confuso, e quase indelineável, principalmente a tomar vulto.

Ao meu lado estava um amigo — que não existe já — e que todas as palmas, que lhe cortou a glória, nunca puderam consolar da oculta e incurável dor que o consumia por dentro.

Em certos momentos, quando se esquecia dos outros, e ficava só consigo, bastava contemplar-lhe o sorriso e o olhar para se perceber na pálida melancolia do rosto o sopro mirrador de amargosos desenganos, e de magoadas desilusões.

Como disse uma vez de si, com sincera tristeza, a vida da alma para ele reduzia-se a orar sobre um túmulo, e a velar junto de um berço. Não o prendeu deveras ao mundo senão uma saudade, e uma esperança. O resto... por mais que fingisse estimá-lo acima de tudo... podia matar-lhe, e matou-lhe decerto o corpo, mas nunca lhe envelheceu a viçosa juventude do espírito, nunca lho inclinou para a terra, abatido, senão instantes!... Pobre poeta!

Que noite aquela, e que recordações!

Tínhamos partido cedo: e saía já o sol na serra, quando chegamos à ribeira de Jamor, e do meio da sua ponte, alargamos a vista pela deleitosa várzea, que dali se encurva, e sobre a direita, abrigada com os montes, corre para Carnaxide.

Paramos cheios de suspensão. O campo estava de uma beleza, de uma frescura maravilhosas!

Ele que sentia, que dizia como ninguém estas formosuras e harmonias na natureza — julgo que deixou a memória de passeio semelhante nas páginas de algum livro, mas não me lembro agora em qual.

De que me recordo, perfeitamente, é da expressão de terno contentamento, com que, enlevado na paisagem, que tínhamos diante, principiou a recitar a gentil canção de Arnaldo de Merveille, cujas festivas alegrias parecem inspiradas por idêntico painel:

Oh que doce abril respira
Quando maio vê chegar!
Pelas noites sossegadas
Se escuta o doce cantar;
E nas frescas manhãs puras
Bandas aves gorjear.
Tudo em torno alegre folga,
Tudo ri, tudo suspira:
Como hei de eu conter no peito
Afetos que amor inspira?

— É isto! É assim — acrescentou ele, depois — tal e qual o bom do trovador o disse! Somente eu, se fosse chamado, e me obrigassem a escolher entre dois eméritos professores da gaia-ciência — e entre duas canções singelas e delicadas como estas — talvez, talvez que me deixasse seduzir... Percebe que seduzir, é o termo, e que não exagero?... pelo velho minnesinger, o conde Conrado de Kerckberg... Acho-lhe um sabor de campo e de ingenuidade — uma louçania desafetada. Conhece os versos deste conde tão fidalgo em Apoio, como na linhagem e nos alvarás?...

Tive de confessar que não.

— Pois isso não é bem feito! Há ali muito que aprender, e que aproveitar... sobretudo, do que se não ensina... simplicidade verdadeira, graça e sensibilidade... Mas vamos à canção... o sermão será depois.

E com aquele fino gosto, que ninguém igualava, quando lia, ou dizia coisa de curiosa e de interesse, parando, de três em três passos para respirar com a mão sobre o coração, como se quisesse encobertamente suster no caminho fatal a morte, que por ali o assaltava — começou os belos versos do velho minnesinger:

Seus tesouros de alegrias
Todos maio derramou,
Pelas sebes, que floresce,
Pelas sombras, que copou,
Onde o rouxinol amante
Em cada ramo pende,
Em cada flor que recende,
Sua doce melodia
Faz soar pela espessura.
Vinde, maio é o mês d’amor,
Da beleza e da ternura;
Cantemos, vinde, cantai-o;
Deus te salve, lindo maio!

Em maio, também, estávamos nós.

A luz, em torrentes, dando à campina aqueles tons de transparência e de vivo colorido, que a limpidez do céu tanto realça neste nosso clima, derramava como um vapor de ouro sobre o verde alegre esmaltado, que vestia as encostas e outeiros.

O Tejo corria à esquerda, e crespas com a viração, despendiam as águas no dorso mosqueado mil faíscas de diamante, e mil cambiantes variados.

À flor da praia, a areia, espelhada pelo sol, ora deslumbrava os olhos com a alvura, ora beijava pelo rolo das vagas, desaparecia por momentos, em nuvens de espuma, enquanto elas, gemendo, se espreguiçavam.

Das veigas, regadas pelo Jamor, até às colinas, onde velejam os moinhos, as searas, verdes e viçosas, ondeavam com a brisa.

Rodeada de belas árvores, descobria-se no mais fundo do vale a casa de Rodízio; e sobre um outeiro, defronte, levantada em socalcos, com uma alcatifa de flores aos pés, e uma cintura de pomares à roda, a pequena aldeia de Linda-a-Pastora, recendendo aos perfumes agrestes da montanha, e meia destoucada da nebrina diáfana da madrugada, revendo aos primeiros raios do dia a sua ingênua beleza alpina.

Quando nos saciamos de ver, e de tornar a olhar, não duas, nem cinco, mas cem vezes, seguimos pela encosta um trilho meio escondido nos arbustos e nas altas ervas, e por ele direitos, fomos bater a uma casinha branca, quase pendurada pela ribanceira, metida dentro de um palmito de faias, e cercada de um verdadeiro cesto de flores.

O nosso hóspede esperava-nos, e recebeu-nos Com o riso na boca, e a boa vontade pintada no semblante.

De estatura elevada, um tanto curva, pelo uso dos livros e da escrita, tinha estampadas nos olhos a paz e a serenidade da alma. A sua conversação concisa, jovial e prudente, era de homem que tinha visto muito, e que aprendera a conhecer-se, e a avaliar o mundo, tanto na fortuna, como na adversidade.

Descansamos ali as horas de maior calma, e passadas elas, teve tal condão a benevolência que encontramos, que sem pesar lhe sacrificamos a tarde, e parte da noite.

Quando nos despedimos, já a lua ia alta no céu, e ao seu clarão melancólico e desmaiado repintava-se na estrada os ramos, estremecidos pelo amoroso sopro de uma viração quase insensível.

Nenhum de nós tinha pressa, ou vontade de dormir, e as vistas, oferecidas por aqueles contornos frouxamente alumiados, e cheios de silêncio, eram tão arrebatadoras, que não havia ânimo para separar os olhos delas.

Falando, e caminhando conosco, a pé, o nosso hóspede guiava-nos, prometendo-nos um sítio, digno do pincel de Gesner, e, sobretudo, àquelas horas da noite, capaz de esmorecer a paisagem ideal do mais elevado idílio.

Com efeito, apesar de esperarmos muito, quando ele, apartando as remadas, e abrindo um claro, por onde entrássemos, nos disse — “aqui!” — ambos soltamos um grito de admiração.

Estávamos à margem do rio de Algés, ouvindo a chapinhar da água nas rodas das azenhas, e o sussurro contínuo da corrente, batendo sobre elas.

Lá em cima, nos outeiros, o rodar monótono e soturno das velas dos moinhos.

De um e outro lado, grandes e belas árvores debruçando-se para a veia, espelhada e cristalina do riu, que, dormente quase, como um lago, cintilava semelhante a fita de prata encastoada em esmeraldas.

Rompendo a custo por entre os ramos descabelados dos chorões e salgueiros, o luar caía de chapa sobre a torrente; e torcendo-se em voltas caprichosas, com murmúrios vagarosos, e quase sumidos, esta passava lenta, ralhando só mais alto, quando se quebrava, fervendo, em alguma pedra, ou, quando lambendo as relvas da borda, os seixos a demoravam, escorregando.

No ar uma serenidade, uma frescura temperada e uma escuridão quase clara; na terra massas de sombra, e clarões de luz pálida, alternando-se, e revestindo os menores acidentes de formas e cores quase fantásticas.

De espaço a espaço a profunda mudez desta solidão animada (perdoe-se o arrojo da frase) era interrompida pelo latir distante de um cão de guarda; e nos arbustos próximos saltavam, faiscando, os pirilampos, e sumiam-se rápidos como o pensamento.

Tudo naquele quadro respirava placidez, saudade, e meiga tristeza!

Sentamo-nos, e resolvemos aguardar que rompessem os primeiros arrebóis da aurora. Quando os horizontes começaram a avermelhar-se, e a coroa dos outeiros principiou a dourar-se com a tênue luz da manhã, tendo ainda a base mergulhada nas trevas, levantamo-nos no meio do gorjear das aves e dos aromas agrestes da montanha, e voltamos ao teto hospitaleiro da nossa pousada.

Nunca mais tornei àquele lugar, mas se fosse pintor, sei que o debuxava de cor! e entretanto não me perguntem pelo caminho dele, nem pelo nome, porque lhes afirmo que os ignoro o árabe e o hebraico.

O que nunca há de esquecer-me, por muitos anos que viva, é a doce intimidade daquela noite de maio, velada debaixo dos álamos e dos chorões, porque ali nasceu a novela ou a coleção de novelas, que se publica, e porque, entre os queixosos murmúrios das águas, e o brando ramalhar das folhas, foram ditas as palavras, que se me estimularam a riscar, enfim, o primeiro esboço desta obra, perdido o maior receio.

Mas o prólogo, esse prólogo, que nunca chega?

Cartas na mesa, leitor! Se tudo isto, e o que vou pintar, não servir de prólogo, receio muito que fiquemos sem ele... E no fim a desgraça não é grande.

Mas o pensamento do livro, as razões da sua existência, a ideia moral e as conclusões históricas? Se estamos ainda às escuras de tudo isto depois de tantas páginas!

É verdade! O mesmo dizia eu comigo.

E entretanto, por mais que lidasse com a ideia, não consegui senão tornar a perder-me com ela. Aonde me levou, ignoro; sei só que não era deste mundo o que eu vi.

Foi sonho? Foi abstração, ou digo rapto dos sentidos talvez.

Tinha adormecido, ou a mente, desvairando-se de saudade em saudade, de recordação em recordação, criou a visão fantástica, emprestando vida, gesto, e voz, aos que repousam para sempre longe das lágrimas e cuidados?

Não posso dizer!

Só posso afirmar, que voltei do reino das sombras, e que o diálogo que se travou lá, tão vivo se me esculpiu na memória, como se agora mesmo acabasse de se falar.

Quando acordei sobressaltado, ou quando tornei a mim do sonho-acordado, os olhos, turvos de espanto, procuraram ainda muito tempo em roda o impossível, e, frio de terror, a mão estendida hirta, parecia sentir ainda o gelo dessa outra mão amiga, tão poderosa pela pena que momentos antes apertava além do túmulo!

A noite ia adiantada, e a luz em vascas, a cada instante amortecia mais. Uma chispa, azulada e tênue, serpeava no meio das vermelhas chamas do fogão. Fora, a chuva caía grossa, com sussurro lento e monótono.

Cansado de lutar em vão, tinha deixado a mesa, e, sentado defronte do brasido, continuava a seguir com o pensamento o assunto, que me fuga, e a mão, distraída, demolia com o pôquer as pedras acasteladas, que umas após outras se desfaziam em cinza ardente.

Os olhos não viam, o corpo estava insensível, e o espírito, separado de quanto o rodeava, corria a essa hora longe de mim e da realidade...

Procurava ainda um prólogo obstinado em se negar, ou corrigia mentalmente a invenção, confundindo, como sucede nas cogitações absortas, as coisas, as pessoas, e os tempos?

Não sei.

De repente mudou a cena, e achei-me em um sítio conhecido — o mesmo que descrevi há pouco, nas margens do rio de Algés. Eram as mesmas árvores, o mesmo luar, e a mesma tristeza suave! Somente não estava ali só, como antes.

Aos primeiros passos, vi levantar-se um vapor fino da terra, condensar-se, e restituir-me as feições e os modos, a fiel imagem daquele, que só pertence hoje ao mundo pela glória de um grande nome.

Quis recuar, mas não pude. Quis falar, mas os beiços trêmulos moviam-se em vão; o som expirava neles.

Quando chegou mais perto, notei aquele brilho particular dos olhos, aquele sorriso, que se escondia a furto em uma ruga quase imperceptível, aos cantos da boca, e a palidez — talvez mais desbotada ainda — dos últimos tempos.

Trajava como de costume, e nos passos, no gesto, e no ar, era ainda o mesmo. Uma das mãos no peito comprimia a ansiedade mórbida do coração, a outra, direita para mim, acenava-me que esperasse.

Era ele! Era o mestre! O grande cantor!

Como e por que, ignoro-o, mas o primeiro terror estava dissipado. Julgá-lo-ia ainda vivo no meu sonho? Não posso dizê-lo. Lembra-me só que despedia da fronte e das pupilas tão brilhante luz, que a vista, cega do esplendor, mal a podia suportar.

— Então! aflitos nos vemos, e de passeio deitamos até aqui a ver se nos caía do céu um prólogo? Ora pois! Alguma volta se há de achar. Mas primeiro escondam-me essas tesouras. Nada de recortes — figuras, introduções, ou o que quer que seja não mo tire nunca dos livros dos outros. Nada de pecar contra o alheio. Temos de casa com que nos remediemos.

Era a voz, o modo, e o riso dele!

Não sei por que me contive, que o não abracei logo; mas deste momento em diante fiquei tão seguro e tranquilo na sua presença, como se tudo aquilo fosse natural, e a nossa conversação tivesse lugar dois anos antes.

— Sabe o que me traz? Vou começar as novelas, os contos, em que falamos — e como sempre é bom dizer alguma coisa de explicação...

— Hum! Pois olhe, se as novelas se não explicarem a si, creia firmemente que o prólogo não fala melhor, nem tão bem...

— Entretanto!... Ocorria-me figurar uma história de manuscritos achados... enterrados na sepultura!...

— Da alma do licenciado Pedro Carola? — que era uma bolsa de ducados? Tem bonitos e salgados contos o santo homem de Gil Braz!

— Não foi isso — acudi meio confuso, — A minha ideia era fingir que um mouro convertido no tempo dos Felipes escreveu estas memórias...

— Como o duque de Saint-Simon? Hum! Quer ver o seu mouro, quem é?

Passava neta ocasião por nós um homem de nobre aspecto, mais velho e acabado, porém, do que ele. Acenou-lhe, e sem falarem, entenderam-se.

O outro abriu a capa espanhola, e notei que lhe faltava a mão esquerda.

— O Sr. Miguel de Cervantes, dá licença? Temos aqui um pecador envergonhado, que se acusa para fazer reparação de um furto mental... Trata-se — nada menos — que de tirar a décima milésima cópia do nosso amigo Cid Hamet Benengeli.

Corei até à raiz dos cabelos, e, cortejando o heroico maneta de Lepanto, cedi a benefício de inventário o mourisco do meu prólogo.

Ele olhava para mim, sorria-se com aquela expressão de ironia branda que lhe dava tanta graça ao rosto, e que era indício quase sempre da sua amizade íntima.

Eu mordia-me, por dentro, de não poder inventar coisa, que não estivesse inventada, um ou dois séculos antes, pelo menos.

Nihil sub solo novum, disse o papá Salomão, e olhe que ele não foi nenhum herege de orelha!... Temos conversado bastante por aqui, e lá embaixo, por sinal, aqueles senhores da teologia parece-me que não atinaram muito com o verdadeiro sentido do Cântico dos Cânticos! sua majestade hebraica... Enfim, todos somos pecadores, e todos rosnamos dos outros... Mas deixemos isto; e continuemos a procurar o nosso prólogo. Ainda não achou?

Ocorreu-me um pensamento, e o primeiro sobressalto, tomei-o sinceramente por meu e só por decoro é que não bati as palmas.

— E se eu metesse em cena — exclamei — aquele nosso amigo de Linda-a-Pastora, e com ele arranjasse...

— Uma sensaboria? Pois não! Quer fazer do meu padre um Jedeah Cleishbotham dos tales of my Landhard? É um desacato; não consinto.

— Mas!...

— Tenha paciência, é preciso que o meu amigo sir Walter Scott, ao qual restituí, com perdas e danos, um certo João Mínimo, muito nosso conhecido, queira emprestar-lhe também o venerável mestre-escola e sacristão da paróquia de Gandercleugh. Em todo o caso, ele nos está ouvindo, e melhor sabe o que há de ser.

Olhei, e de feito, o autor de Wawerley tinha aparecido repentinamente ao nosso lado. Trazia o plaid escocês do Bailio Mac Jervis, e alegrava-lhe o semblante aquela benevolência patriarcal, que em vida era uma das prendas do fecundo romancista.

Caí, então, em mim. O padre de Linda-a-Pastora era, nem mais nem menos, a contraprova rasa do espirituoso Jedeah Cleishbotham, ou do erudito capitão Croftangry da Canongate.

— Nesse caso... — observei no maior enleio.

— Nesse caso... — prosseguiu sorrindo-se — estamos como no princípio, o que não é nem andar de caranguejo.

— E se eu metesse o abade?

— Qual abade?... Ah! copiava do escocês, assim mesmo... Sabe que não gosto do seu abade? E então lá em casos sérios!.

— Mas as novelas hão de ficar sem prólogo?

— Serra madeira — de carpinteira — Serramos nós...

— Não percebo...

— Olhe, quer que lhe exponha o meu voto — como se diz em estilo de pai da pátria?

— Se vossa excelência se dignasse...

Digno-me, sim, senhor. Não é por mim, mas nestas coisas, o pouco ou nada, que possa valer, nunca o neguei... Espero que lá onde estive me façam ao menos essa justiça, depois de tantos agravos e ingratidões.

— Depois de abatidos os fumos da inveja passa o homem, e a glória fica! — atalhei interiormente lisonjeado do relevo da minha frase.

— Hum! Não se vive só de loiros!... Mas ao que importa; daqui a nada tenho uma leitura de Lord Byron...

— Pois lê-se cá? — exclamei pasmado.

— Sim, senhor, e escreve-se também. O que não há é imprensa... nem zoilos, nem jornais. Vamos ao prólogo. Sabe como eu o fazia? Não adivinha, aposto!

— Decerto, não...

— Pois é o mais simples, que há... e por isso lhe não ocorreu ainda. Nunca achei coisa mais difícil de ver, do que a verdade.

— Mas!...

Ouça. Eu contava isto, que estamos passando, e mais o passeio rural de há três anos... Juntava-lhe meia dúzia de linhas para concisa notícia do livro... Acendia depois o meu charuto, e fumava-o, com a beatitude de um frade Bernardo entre dois solecismos.

— Mas a ideia moral, as conclusões históricas, e a razão de existência da obra?

— Tá, tá! Mande-as passear desta vez, as suas razões todas! Siga o meu conselho.

— Que se deixe de pontinhos... Nada de impertinências eruditas!... De tudo se faz prólogo... menos do que é dos outros. Entende-me? O que anima e dá cor a um livro são justamente os toques e as alusões atuais... A história basta que entre do capítulo I em diante.

Conheci que principiava a incomodá-lo, e dei dois passos atrás para me despedir.

Percebeu-me, e antes de me estender a mão disse:

— Não se esqueça. A verdade — só a verdade — ornada se quiser e tem o prólogo. Agora adeus — e volte o mais tarde possível...

Neste momento o sonho deu um daqueles saltos tão frequentes, e eu num instante vi a formosa mesa do whist e o marquês de Pombal, sentado a ela como o descreve o livro das viagens do visconde de Almeida Garrett. Não pude resistir, e perguntei:

— Vossa excelência tornou a falar com o grande marquês?... O que lhe disse da escassez das colheitas agora?

— Meu amigo, são coisas muito sérias para se brincar com elas... e Lord Byron está à minha espera!... Apertemos a mão, e adeus.

Acordei à sensação do frio que me causou o contato dos seus dedos nevados. Era a pedra do fogão, que regelava.

Abri os olhos — a luz tinha-se apagado, e a frouxa claridade, que chispava do brasido do fogão, alumiava apenas de meia cor os objetos em roda.

Dizer que acordei desassombrado era dizer uma falsidade. Por alguns minutos conservei-me imóvel, e como que tolhido. Não tinha ânimo nem para fitar os olhos com firmeza, e todos os objetos me repetiam a ilusão, de que acabava de sair.

Entretanto, mesmo recebido a dormir, entendi que o conselho era de aceitar.

Uma vez que a tentação das digressões me não consentia prólogo regular e grave, preferi estas páginas à triste folha branca, e aí as entrego à condenação, que merecer o seu arrojo.

Agora mais duas palavras antes de concluir!

As novelas africanas formam parte da coleção extensa, a que dei o título de Contos do Serão.

O assunto na ideia com que esbocei, deve abranger os mais briosos feitos, e os sucessos mais admirados das navegações e conquistas de Portugal.

As guerras da África, começadas pela aventurosa expedição de Ceuta, nos últimos anos do mestre de Avis, abriu naturalmente, por uma grande proeza, a cena, em que figuram tantos vultos, êmulos dos maiores homens de todos os tempos, desde de d. João I e Nuno Álvares Pereira, até Afonso de Albuquerque, Duarte Pacheco, e o conde d. Duarte de Meneses!

As Novelas compreendem, na primeira época, o glorioso período, em que, remida por seus valorosos habitantes, e consagrada pelas vitórias, a nacionalidade portuguesa se arremessou às praias mouras, cravando em desafio, diante de suas torres e alcáceres, a luva ensanguentada que Tarik lançou aos povos espanhóis.

Dominado pelas mais puras inspirações, este período ilumina, com um sol sem mancha, os derradeiros dias do mestre de Avis, e a carreira de uma geração de príncipes verdadeiramente seus filhos no valor e na honrosa temeridade.

Formados na escola de d. João I, cavaleiros e soldados adormecem ao lado do perigo, e encaram a morte de rosto jovial. As ideias generosas da cavalaria, tomadas na mais nobre acepção, e a viva fé em Deus, e na pátria, justificam o título que dou a este belo e saudoso ciclo.

A “Távola Redonda” ou foi a época de d. João I e dos infantes, de Afonso V, de d. Pedro, e d. Duarte de Meneses, e de Álvaro Vaz de Almada, ou não há outra, que lhe corresponda.

Eram leões na peleja, e peitos de ouro na lealdade. Os fumos da cobiça e a vileza dos instintos mercantis ainda não tinham ofuscado o lustre à cruz de Cristo, estampada nas suas armas.

Em Ceuta, Arzila e Tânger o sangue derramava-se pelo rei e pela fé, mas nunca se vendeu.

De d. João II a d. Manuel, corre outro período cujos episódios são ainda belos, cujas vitórias lembram sempre a geração de rijos fronteiros, que tão altas souberam hastear as quinas portuguesas. Mas aos cavaleiros sem temor da cruzada africana já começam a contrapor-Se os cavaleiros mercadores da Índia e da Guiné!

Os que moram nas praças de Ceuta, Safim e Arzila, cobrindo com os peitos esses lanços de muralhas meio derribados, e quebrando lança e espada no duro arnês do mouro, lutam desinteressados e representam as tradições honrosas da primeira época.

Para eles ainda há só o morrer pela crença e pelo rei; mas os olhos dos seus, distraídos pelo ouro e pérolas da Ásia, nem sequer lhes premiam com louvores o sangue espargido a todas as horas.

Os alterosos galeões, dobrando o cabo da Boa Esperança, e curvando debaixo das quilhas vencedoras os medos e tempestades desses mares, nunca navegados, levam consigo o coração e a esperança de Portugal.

Se o estandarte lusitano se não deixa abater, e não cede à mão ousada dos amires e xeques árabes, é porque as faces ainda se cobririam de pejo a todos, rendendo sem defesa aos infiéis essas pedras, onde a glória entalhou profundamente tantos nomes ilustres.

Por Deus e pela honra é o título que mais cabia a este segundo ciclo, e, adotando-o, estou certo de que não vou longe do sentido moral e histórico desta nova transição, que, alterando caráter e feições à monarquia, parece que a não elevou ao auge das prosperidades senão para de mais alto a precipitar, consumida de forças e gasta de brios, no imenso desastre, que sepultou a coroa do último rei cavaleiro, e a independência resgatada por d. João I, nos areais de Alcácer Quibir — nessa infeliz jornada, que foi o suspiro derradeiro do antigo esplendor guerreiro.

A agonia lenta, mas terrível, que se prolonga desde d. João III até d. Sebastião e o desmoronamento sucessivo de todas essas grandezas, levantadas no ar, e tão caras de adquirir, abrangeu o fatal, período de ruína, onde, assim mesmo, ainda relampejam alguns clarões de virtude e de abnegação.

Designá-lo por um título, que, julgo eu, exprime a infinita tristeza, que o domina: Século e meio a fazer um túmulo!

Desamparando os rotos muros de Arzila e outros castelos de África, d. João III traiu as ideias de elevada política, e de brioso impulso, que decidiram o mestre de Avis a passar o estreito, fundando em Ceuta a sede das conquistas, que sua nobre ambição lhe apontava.

A robustez do reino, e o seu vigor superabundante achariam sempre no império marroquino útil emprego para o braço não adormecer nunca aos cavaleiros, e o poder e influência do seu nome se alargar com proveito e honra.

Se aí os triunfos eram menos fáceis, do que entre jaus, malaios e naires, todavia ganhavam-se mais puros e duráveis.

A sede das riquezas, e a avareza sem entranhas, tratando com desprezo as vitórias lentas e rudes de alcançar na África, voltaram-se para a Índia, onde, debaixo da coura bordada, batia o cobiçoso coração dos mercadores de cravo e marfim; e a ideia do lucro, fruto de cruezas e ignomínias, matou a ideia da glória desinteressada, e o valor heroico dos primeiros lidadores.

Quando d. Sebastião, moço impetuoso e inexperiente, sonhando com as proezas de seus avós quis acordar o reino do seu torpor, fazendo cavaleiros os mercadores da Índia, achou quase um cadáver diante de si, e o que pôde foi ir acabar com esse moribundo aos mesmos lugares, nos quais um século antes os seus antepassados tinham triunfado!

Eis a verdade e a intenção do livro!

De 1415, em que Ceuta caiu, até 1578, em que d. Sebastião enterrou consigo o cetro, nos campos de Alcácer, conta-se mais de século e meio.

Foi quanto bastou para Felipe II consumar pela astúcia, e pela perfídia venal, o que o rei castelhano d. João I perdera de uma vez na lide de Aljubarrota!

Este é o desejo geral da obra; porém não me obrigo, e desde aqui o declaro, a rigores de cronologia, nem a tecer nenhuma série deduzida de quadros.

Dentro do mesmo ciclo usarei amplamente das imunidades do romance, e de todas as liberdades da invenção.

Nunca foi meu intento urdir uma crônica dialogada — mas sim, e unicamente, idealizar os homens e os sucessos, graças ao relevo da novela.

É por isso, que passarei de um assunto para outro, de uma cena terrível para um lance cômico sem me prender com as datas nem me enredar em falsos escrúpulos.

O que procurei obter foi a verdade dos costumes e do coração humano, e a cor das épocas e das localidades, caracterizando as duas raças, opostas em índole e crenças, e as fisionomias dos contendores, do modo que julguei mais oportuno para ambas elas sobressaírem à luz própria.

Tudo está dito: e à obra agora compete confirmar, ou comprometer, a ousadia do cometimento.

Não ignoro os escolhos, que a ameaçam, e, porque os vejo, me recomendo à benevolência da crítica.

Sem ela, era mais do que provável não exceder de dois ou três capítulos.


CAPÍTULO 1: EM QUE TODOS FALAM, E POUCOS ENTENDEM

A hora bien, dijo ei cura, traedme selor huespede, aquellos libros, que los quiero ver. — Que me place respondido él; y entrando en su aposento saco de una maletilla vieja, cerrada com una cadenilla, y abriendola hallo en ella tres libros grandes, y unos papeles de muy buena letra, escriptos de mano.
D. Quixote, Part. 10 cap. 32

— Santa Maria vale! Que fresca tarde, e corno estes sítios são risonhos!... Bem-aventurados monges! Aquilo não é mosteiro, é o paraíso!

— A penitência em tão viçosos ermos, e os jejuns com estas frutas, em estando maduras, não hão de emagrecê-los!

— Sabeis que me passa às vezes pela ideia despir os hábitos do mundo, amortalhar-me numa túnica, e acabar assim?

— Que não vos ouça alguém, que eu sei!

— Antes ouvisse! Tão mal me trata, que um dia...

— Temos reza e órgão na igreja, e vemos de cilícios e cogula um guapo donzel? Deixai-vos de cuidados. Penas de amor curam-se depressa.

Os dois interlocutores, que estão em cena, e que o nosso dever nos manda cortesmente apresentar ao leitor, eram dois mancebos.

Montavam possantes mulas, ajaezadas com riqueza, e vestiam com primor.
À exceção das cores, que um usava alegres e desvairadas, e o outro graves e compostas, parecia que a mesma mão lhes tinha talhado os trajos.

Os barretes de veludo, adornados com uma pluma ao lado, as calças de seda golpeadas, e os cintos de pele de gamo, lavrados de prata, apertando os gibões de estofo precioso, assaz diriam que ambos tiravam a sua origem de nobre linhagem, se o ar, os gestos, e certa altivez de modos, o não mostrassem ainda melhor.

Mesmo disfarçados em roupas humildes bastava contemplar o rosto moreno, e os olhos tristes de um, a tez delicada e as pupilas azuis do outro, para até um observador pouco penetrante se não enganar com eles.

O mais velho não teria ainda vinte anos; o mais novo apenas inculcava dezenove, e o sorriso fino, que lhe brincava nos lábios a miúdo, dava-lhe singular realce à fisionomia animada e zombeteira.

Alvo e rosado, cheio de faces, e com as madeixas castanho-claras, crescidas e apartadas até ao meio da testa, fugindo-lhe em anéis soltos por baixo do gorro, os seus movimentos rápidos e graciosos correspondiam à boa sombra da aparência.

As feições respiravam lisura e bondade; e as palavras, avivadas com o sal da malícia juvenil, pintavam a ditosa ignorância do mundo, com que a mocidade entra no caminho da vida, pisando ao de leve os primeiros espinhos.

O seu companheiro, mais sério, e menos comunicativo, na fronte elevada, na vista firme, e na beleza viril e severa do semblante, retratava o tipo do valor sereno, e da resolução inabalável.

No seu olhar fundo e reto espelhava-se a lealdade de uma grande alma, e a confiança mais decidida em Deus e em si.

Não custava a perceber que as paixões, ali, nunca voariam à superfície; mas que, arraigando-se, e tomando posse do espírito da vontade, chegariam a arder a ponto de o consumir.

Grosso de membros, sem ser pesado, tinha tanto de robusto e bem posto, quanto o amigo, que trotaia ao seu lado, tinha de airoso nas formas, e de gentil na presença.

Qualquer deles, via-se, não cingia a espada por mero enfeite. Em lance arriscado, ou em ocasião de brio, o seu braço, feito às armas, apesar da idade tenra, conhecia-se que não podia atraiçoar o coração.

Quando proferiam as curtas frases, com que abrimos esta mui verídica narração, iam subindo um pequeno outeiro, e do cimo, virando-se, é que descobriram, correndo para eles, primeiro, uma figura que por vista e sabida de cor, mesmo a distância, não lhes foi custoso batizar com o nome de irrisão, que lhe pertencia, e que mais longe, porém não muito, saindo de um coberto de ramadas, por entre rolos de poeira, divisaram um tropel de cavaleiros, que naquele momento mesmo descia pela vizinha encosta.

E estavam já tão perto, que as risadas e as falas altas soavam distintamente. Os dois sorriam-se e, colhendo as rédeas a um tempo, estacaram.

O sorriso era evidente que festejava a boa vinda do mais próximo dos de fora, que em falso nos estribos, e meio deitado sobre o pescoço do corcel, não cessava de acenar com o esquisito gorro, de que despira a cabeça, hirsuta e monstruosa, amiudando vozes e trejeitos, à medida que o cavalo, alargando a cada instante o seu galope desenfreado, e fogoso de impaciência, desobedecia à rédea que o não sabia conter, e à espora que, sem o castigar, o feria ao acaso, mas frequente.

— É Hanequim! — exclamou o mais moço, escudando os olhos, com a mão curva, dos raios do sol poente, que lhe batiam de chapa. — Formosa carreira! Mas o jogral e o ginete não se entendem!... Desta vez pagam as costelas do honrado maninelo as custas de toda a festa! Não será a primeira?

— Ei-lo conosco! — replicou o outro, repetindo as mesmas palavras, que a vista dos cavaleiros lhe arrancara antes.

— Hanequim, meu amigo, nesse passo não vais longe!...

— Acudam! Livrem-me! — bradou uma voz trêmula ao perpassar.

Foi um momento! Dentro de um relance, homem e cavalo rasparam, como setas, por junto dos dois mancebos, e alongaram-se ainda mais rápidos do que vinham.

— Achou quem o ensinasse, o histrião! — disse o mais alvo e rosado. — Que vos parece desta nova proeza do jogral de el-rei? Terei pena se o cavalo padecer! O que dizeis?

— O que diz o conto, Sr. Álvaro Vaz de Almada! O anão calçou as botas do gigante e há de cair por força... E caiu! Lá está!

— Mas ele o que vinha fazer em cima do cavalo do Sr. Infante — por que é o corcel de sua mercê, ou estou cego de todo? Adivinhais, Sr. Antão Vasques?

— Folias do seu ofício. O chocarreiro queria rir-se, e agora chora!

Efetivamente Hanequim acabava de apalpar a dureza maternal da terra com o corpo.

Meio na sela, meio no ar, segurou-se por milagre, até que o ginete, raivoso e endoidecido com a dor das esporas, que o cortavam, e com os balouços do bobo, que vacilava de uma parte para outra, coseu o ventre com o chão, e despediu a mais brava e férvida carreira de toda a sua ardente juventude.

Foi o que bastou!

Hanequim viu remoinhar as árvores, e chisparem-lhe lume diante dos olhos; viu o céu cor de fogo e a terra preta. Por instantes supôs-se enovelado nos furacões de um vulcão, e, perdendo a razão e o sentido, não acordou, senão achando-se esculpido na areia do caminho, felizmente para os seus ossos, porque lhe adoçou a queda, e apercebendo o malfadado autor de toda a sua desgraça, galopando, e fugindo direito à ribeira, com os olhos acesos em fúria, e as crinas soltas ao vento.

Quando Álvaro Vaz de Almada e Antão Vasques chegaram ao pé dele, trazendo as éguas pela rédea, Hanequim depois de um exame breve, mas cheio de consciência, tinha verificado já que todos os seus dentes continuavam a aderir aos queixes, e que pernas, costelas e braços, salvos de fratura e deslocação, lhe prometiam a mesma leal cooperação e bom serviço, que até ali lhe tinham prestado.

— Sois rijo voador, meu amo! — disse rindo Álvaro Vaz, enquanto o jogral com um dos cotovelos escovava a manga da sua opa variegada, e cuspindo uma dose de areia, amaldiçoava as cavalarias e os cavaleiros desde Amadis e o rei Artur até ao último homem de armas da hoste do Condestável.

— Cuidei que ias correndo em aposta com o vento! — observou Antão Vasques.

— Tio Álvaro, deixai-me respirar, e falaremos! — atalhou o folião cravando na cabeça com desgarre brutesco a sua touca, ornada de cristas vermelhas, e cingida de duas ordens de guizos, cujo tintinar impertinente anunciava a mordedura dos seus gracejos, como o cascavel da serpente adverte da proximidade do veneno.

— Respirai. Tendes razão para isso! Outros com menos... sei eu onde ficariam.

— Mas o cavalo do Sr. Infante?... — perguntou Álvaro Vaz.

— Que o tio Henrique se quiser o apanhe! — retrucou o bobo apurando as dobras do saio, silvado de rosas, com a serpe verde tecida no peito, e o escudo das vinte e cinco arruelas bordado na manga. Sua mercê não quer tomar juízo! Quantas vezes lhe não tenho dito eu que maus cavalos só para más cabeças? Que morra, que se constipe, ou que o levem num feixe para dentro da cavalariça, coisa é que não me há de tirar o sono. Menos do que este pó, que me enfarinha mais do que moço de moleiro derreado pelas sacas!

— E bem farinha sem sal são os teus ditos, folião maldito! — disse por detrás deles uma voz grossa.

Voltaram-se, e deram de rosto na corpulenta figura do capitão-do-mar, cujo cavalo, sopeado, escarvava a terra, relinchando.

— Já de volta, Sr. Afonso Furtado? — exclamou Antão Vasques, admirado. — Ainda a estas horas vos fazia longe daqui, entretido na vossa galé.

— Não vos prenderam as sereias nas águas, vê-se! — acudiu Álvaro Vaz.

— Tio Álvaro, as sereias sempre fugiram dos tubarões — atalhou o bobo, vingando-se em primeira mão das pesadas palavras do idoso cavaleiro.

Os mancebos reprimiam o riso a custo; mas o capitão-do-mar, carregando os sedosos sobrolhos, e vincando os cantos da boca, alçou o conto do venábulo, que trazia, e se Hanequim lhe não furta as costas, recebia imediatamente em moeda forte o preço dos seus insossos gracejos.

— Eu te ensinarei, cão desdentado, a ladrar às pernas do meu cavalo! — exclamou ele com desprezo. — Se el-rei tem tempo para aturar sandeus e se os senhores infantes, por cada momice parva, te não entregam os moços de monte para um bom almoço de açoites, conta comigo, eu te ensinarei. Que andem tantos cristãos aos remos das nossas galés, e que este mandrião velhaco e atrevido engorde com o pão que se rouba aos pobres!... Fora daqui, raposa! É apanhar já o ginete de sua mercê, se não quer aprender deveras.

Hanequim escutou com um ar de profundo arrependimento, e quase até o fim, a admoestação de Afonso Furtado; e o capitão-do-mar lisonjeava-Se já de haver domesticado a fera de el-rei, quando, repentinamente o truão sacudiu os guizos que lhe ornavam a touca, e os que lhe ornavam o saio, e traçando no braço as dobras do balandrau, arrancou do cinto a espada de lata, e posto no reto como cavaleiro que perdeu lança e corcel, principiou capear o seu adversário e a fazer-lhe à direita, e à esquerda as sortes, com que em estreito e bem cerrado circo, se endoidece o touro.

Ao mesmo passo, o maninelo, entre esgares e pulos, vozeava:

— Sus! Sus! Tem-te moirama, arreda-te Castela, que aí vem Barrabás!

Descrever a ira do velho lidador de Aljubarrota, vendo-se apupado pelo histrião era presença de pajens e novéis, seria empresa árdua.

As barbas, que usava longas, e aparadas sobre o peito, alvejaram de escuma. Os olhos fuzilaram, e a mão procurou inadvertidamente o punho da valente espada.

Soltando um bramido rouco e sufocado, como leão atravessando em espera à falsa fé, o capitão-do-mar terçou o venábulo, e arremessou-o com tanto ímpeto, que errando o alvo, foi cravar-se no chão a grande distância.

O bobo esquivou-se ao tiro, e empalideceu. Pelas mostras apreciou a vontade. Cosendo-se com a mula de Álvaro Vaz, e segurando o mancebo pelas abas do gibão, clamou cheio de ansiedade e de terror:

— Tio Álvaro, livrai-me daquele filisteu. Prometo.

— Promete uma novena a Santo Antônio. Se te salvo, chocarreiro, podes pesar-te a cera.

De feito, Afonso Furtado vinha com o cavalo trote sobre o jogral, quando Antão Vasques, interpondo-se e de braços cruzados lhe disse friamente:

— Vede, não me trilheis, Sr. capitão-do-mar! Sois insofrido, ao que parece. Cuidais que um palmo de menos, neste jogral, vos dará mais nome, ou vos praça? Vede que o bobo é de el-rei; e que não mas a d. João I açoitais na pessoa dele.

O gesto e as palavras suspenderam o antigo pelejador. Caiu em si, e teve pejo da ira, e das imprudências, que estivera a ponto de praticar.

Colhendo as rédeas, e sorrindo-se, mas ainda sombrio de parecer, cortejou o donzel, e acrescentou.

— Quis meter medo a esse cão tisnado, que tanto morde e grita! Venho agastado da jornada, e digo-vos, em amizade, que bebia agora com mais gosto uma vez de vinho, do que parava aqui ouvindo as necedades do truão. Por amor de vós, e pela memória de vosso pai, que era dos melhores, Antão Vasques, perdoo a Hanequim as duas orelhas, que lhe deixo ficar inteiras... Mas sentido! — ajuntou com um aceno ameaçador e expressivo. — Desgraçado de ti se tornas a atrever-te comigo. Juro-te pela alma de Barbadão de Veiros, meu parente, que não escapará da língua nem uma linha para contares do Caso!

Virando-se depois para Álvaro Vaz, que tornara a montar, e abrandando mais a severidade do rosto, Afonso Furtado prosseguiu:

— Vais a Alcobaça, pelo que vejo, Sr. donzel? Está lá el-rei?

— Se o buscais, com pressa, daí duas horas de folga a esse d. corcel, e segui para cima — respondeu o mancebo. — Sua real senhoria pensa no seu mosteiro da Batalha. Estes dias andou a monte, com os srs. Infantes, e ontem foi para Aljubarrota esperar o Condestável...

— Nuno Álvares Pereira não está em Arraiolos?

— Sua mercê, o conde de Ourém, a esta hora, há de estar rezando com d. João I em alguma das capelas de Santa Maria da Vitória!

— Caso grande... O Condestável fora das suas terras neste tempo!

— É como vos conto, De Abrantes mandou recado a sua senhoria, de como em dois dias, o mais tardar, viria beijar-lhe a mão, e o conde de Barcelos; e apenas o recebeu, el-rei pôs-se logo a caminho para a Batalha, com o Sr. Infante d. Duarte...

— E d. Henrique?

— Dorme esta noite em Alcobaça, e amanhã sobre a madrugada, caçando e folgando pelo caminho, parte para o mosteiro da Vitória.

— O Sr. Infante d. Pedro, e o prior, escusado é perguntar se acompanhou o mestre... digo sua senhoria, el-rei?

Antão Vasques tomou aqui a mão, e redarguiu:

— Do prior não sabemos, senão por vós! Ainda ninguém lhe pôs os olhos. Quanto a sua mercê o Infante, não há de andar longe. Somos da sua casa, e não haverá meia hora ainda, que o deixamos com o seu nobre brifalte, caçando às garças pelas margens da ribeira, lá embaixo.

— Podeis ensinar-me onde o encontrarei? — interrompeu o capitão-do-mar, com desassossego.

— Vamos com recado seu; mas o jogral, que não tem cuidados, se há de estar fazendo arremedilhos e negaças, pode ajudar-nos. Hanequim sabe onde o Infante corre a esta hora.

— Sei, sei, tio Álvaro Vaz; livre-nos Deus, de Barrabás. Quero morrer com todos os meus dentes.

— Escuta, sandeu! — bradou o cavaleiro. — Se me guias onde estão os príncipes, pelo atalho mais curto, não hás de arrepender-te!

— Nanja a pé, tio Afonso! — observou o truão, aproximando-se e arredondando o dorso.

— Um dos meus escudeiros emprestará a sua mula. Vamos! A cavalo!... Deus vos guarde, senhores, até nos vermos.

Antão Vasques, e Álvaro Vaz, aos quais endereçara as últimas palavras, corresponderam-lhe.

O bobo, depois de fingidas repulsas, e de infinitas visagens, consentiu, por fim, em montar uma égua, já de cansados anos, e com ar solene e compassado de um bispo, em procissão de corte, passou adiante do cavaleiro, e metendo por uma vereda, sobre a esquerda, cortou para o lado do rio, que se desenrolava a curta distância, escondido por uma cortina de verdura.

Os dois mancebos olharam um para o outro suspensos.

Donde vinha o capitão-do-mar com tanto recado, e que negócio o apertava, para, sem demora, e sem descanso, não parar senão diante de el-rei, ou do Infante?

E o prior do hospital, donde voltava, e por que se escondia? Tornaria de Castela, como da outra vez, em que a clemência de el-rei lhe abrira as portas da pátria; ou partira em segredo e recolhia do mesmo modo, para que ninguém lhe perguntasse novas da jornada?

Antão Vasques, por índole mais previsto e refletido que o seu companheiro, não careceu de muito cismar para descobrir que nestas idas e voltas dos dois guerreiros, validos de d. João I, havia coisa maior do que parecia à primeira vista.

Suspendendo o passo, e apertando o braço ao de leve a Álvaro Vaz, que se entretinha, entoando uma cantiga, hoje perdida, de Vasco de Lobeira à sua dama, o donzel, de repente, exclamou:

— Sabeis que mais, Álvaro Vaz de Almada? Ou me engana o coração, ou cedo temos novidade grande.

— Por quê? Fugiram os corvos de São Vicente?

Não. Porque deste segredo de muitos, tão bem guardado, por força rebenta façanha de ilustre. Fiai-vos no mestre de Avis para as tentar...

— E em seus olhos para as acabar! — acudiu Álvaro Vaz.

Decerto. São para muito eles... e ele. Mas d. João I coroou-se aqui, e antes de louvar os Infantes, hei de ver primeiro onde se armam cavaleiros!

E, dizendo isto, Antão Vasques apontava para uma ermidinha, que, assombreada por duas faias, alçava a cruz de um campanário na solidão da campina.

Era a igreja de São José e Santa Maria fundada pelo Condestável Nuno Álvares Pereira no mesmo lugar onde tinha arvorado a sua bandeira de batalha.

Insensivelmente, os dois mancebos tinham chegado a Aljubarrota. Pisavam o chão sagrado pelo valor de seus pais, e dos fortes que remiram Portugal do jugo estrangeiro.

As colinas, povoadas de castanheiros e de videiras penduradas pelos declives, arqueavam-Se risonhas, ondeando os colos amenos umas para as outras.

Depois, a perder de vista, desatava-se a planície, que fora mudo teatro de uma das maiores lutas.

Ali, em menos de duas horas, o duelo de dois remos e de dois príncipes fora decidido pelo braço armado dos exércitos; e quando se escondeu no horizonte o sol, que alumiou aquele dia, a terra tinha bebido o melhor sangue de Castela, e das duas coroas, disputadas, uma gloriosa ficava firme sobre o elmo de um rei cavaleiro, obra e orgulho do seu povo, enquanto, vencida e arrastada no pó, a outra ia abrigar-se do perigo atrás das ameias, mareando-se de lágrimas!

Trinta anos havia que as campinas agora desertas tinham soado com a brava alegria dos clarins e trombetas, e que ao faiscar das espadas nos bacinetes, e ao estalar das lanças no arnês, se misturaram as pragas dos que feriam e eram feridos, e os gemidos dos que tinham caído, para nunca mais se erguerem.

Álvaro Vaz e Antão Vasques olhavam suspensos para aqueles sítios assinalados pela vitória, agora ermos, e povoavam tudo com as vivas memórias da infância; as narrações dos heróis do feito estavam entalhadas no seu peito, porque entre os nobres corações que naquele conflito extremo tinham vindo ali mais a buscar honrada morte, do que na esperança de vencer, os pais dos donzéis contavam-se os primeiros; e seus filhos, percorrendo a vasta cena da epopeia recente, e assim mesmo já tão longe dos seus dias, admiravam silenciosos aquela geração de guerreiros, que tanto confiara em Deus e na pátria, jogando em um só dia, em uma hora só, e de uma vez a liberdade Ou a servidão do reino.

Ambos sentiam borbulhar as lágrimas recordando, em saudade, o vulto dos seus, de pé no combate, e com o montante alto, rompendo por densas florestas de lanças, e seguindo mesmo por meio das sombras que já amortalhavam o campo, o resto desse exército conquistador que partido em troços, fugia por todos os caminhos, lançando em todos o pregão do seu terror.

Vede! — disse Antão Vasques, fuzilando-lhe os olhos e tingindo-se-lhe as faces de leve carmim. — Vede! Naquela eminência era a barraca e oratório de d. João de Castela — foi ali, creio eu, que meu pai arrancou a bandeira ao alferes de el-rei!

— Sim! — atalhou Álvaro Vaz. — E por esta quebrada, ao longo, é que os homens de armas e as mais brilhantes lanças castelhanas virando rédeas, deram as costas aos nossos, que muitos, e meu pai era um deles! apenas vestiam braçais e cotas!... Não vos faz inveja, Antão Vasques? Na idade que temos, já os mancebos de então aqui pelejavam na Ala dos Namorados! Já tinham que contar. Havia homens então, digo-vo-lo eu.

— E nós também o seremos, e depressa, espero em Cristo! Os lances dá-os fortuna. Peito que não esfrie, e braço que não trema, como os melhores, sinto eu que os tenho, e vós, e muitos dos mesmos anos! Aguardai um pouco; diz-me o coração, que nós os filhos, louvores a Deus, também havemos de ter a nossa Aljubarrota.

— Prouvera ao céu! Mas receio bem que não. Dura há tanto a paz!

— Por isso mesmo; porque dura é que não vem longe a guerra, acreditai.

— Os anjos vos ouçam! — disse desconsolado Álvaro Vaz de Almada.

— O Condestável no mosteiro da Batalha, el-rei com ele e os Infantes atrás!... — insistia o outro mancebo, como se falasse consigo só. — Grande novidade se dispõe! E pouco viverá quem a não vir.

Falando assim, e arrebatados de ardor juvenil, os donzéis atravessavam uma paisagem mais formosa e enlevada, que a das vizinhanças de Alcobaça, que horas antes obrigara Antão Vasques a soltar a exclamação, por que principia o nosso capítulo.

Mas agora, as galas, com que a natureza os convidava, não lhes mereciam um volver de olhos!

A ideia corria longe, visitando as gloriosas tradições do passado. Sonhavam acordados com as lutas que a imaginação lhes pintava com tão expressiva cor, que, se tivessem diante de si os vultos, e nos ouvidos o fragor do combate, não sentiriam mais.

A tarde apagava-se nas primeiras sombras do crepúsculo; declinando, o sol recostava-se em purpúreos vapores, que os seus resplendores matizavam de finos e variados cambiantes.

Era tão puro o ar, e o céu estava transparente de modo, que a vista podia alcançar muito ao largo o recorte dentado dos cerros, apercebendo, como pluma ondeante, a rara nebrina, que subia, embalada pela brisa, do teto rústico dos casais.

Pelo azul puríssimo do firmamento, esvoaçavam, mudáveis e algodoadas, ora brancas de neve, ora tintas de luz, pequenas nuvens que, esfumando-se, e pairando, fugiam daí a nada diante da viração, que, à flor da terra, e quase insensível, bafejava o cair das flores, e as folhas tenras das plantas.

Em roda, e a distância, tudo era mudez e solidão.

A vista, dilatando-se, não descobria senão campos esmaltados, tapetes de relvas, e no meio deles os cerros arruinados das areias, e o rasto negro das charnecas.

Os perfumes agrestes embalsamavam a atmosfera, e uma claridade serena, e dourada, banhava a coroa dos outeiros, e, afrouxando, escurecia, fechando-se nas gargantas dos vales.

Quase entregues a si, e saindo do caminho mais trilhado, as mulas, que os donzéis montavam, meteram-se por uma vereda copada de ramos entrelaçados, onde o dia anoitecia mais cedo ainda.

À direita ouviam-se os murmúrios queixosos de uma corrente preguiçosa, ou o fervor da água nas pedras altas, que a tolhiam.

Os canaviais, inclinando-se ao brando sopro, que os meneava, davam aquele melancólico sussurro que fazem as suas folhas, beijando-se.

Uma cortina de verdura, às vezes tão espessa, que os olhos não podiam penetrá-la, outras tão aberta, que se viam distintamente todas as voltas do rio, e todos os acidentes das suas margens sinuosas, debruçava-se sobre a espelhada veia, e os ramos, sequiosos, com que se penduravam, para aplacar os ardores da calma.

A vereda subia, mas amena e suave; e sempre debaixo de um toldo virente, circulando por entre matas e arbustos floridos, ia morrer a uma ponte de tábuas e madeiras; aí a torrente, formando um cotovelo, e arremessando-se mais impetuosa, separava-se com ruído, e, repartida em dois braços, passava regando hortas e pomares.

Antão Vasques foi o primeiro que despertou do seu embelezado sonho, e que manifestou o deleite que lhe causava o encanto do sítio, da hora e da estação. Álvaro Vaz deu-lhe razão.

Entravam numa campina lisa.

Na orla dela, além das belas e musgosas árvores, que a cerravam, e diante de um grupo de graciosos outeiros, uns alcatifados de ervas rentes, outros cobertos de giestas em flor, divisavam-se confusas, e só avivadas no alto de luz desmaiada, as grimpas e torres do mosteiro da Batalha — cujas pedras ainda não tinham queimado, como hoje, o hálito dos séculos, dando os tons mais severos da idade grave dos monumentos à recente alvura, em que o cinzel do escultor abrira os mil devaneios do imaginador.

Estava ainda por concluir em bastantes páginas o livro de pedra, cujas sublimes e duráveis alegorias repetem os catos inspirados da grande epopeia da redenção nacional.

O rio que Álvaro Vaz e o seu companheiro tinham atravessado mais de uma vez, e que parecia segui-los, a gemer por entre as folhas, era o Lena; o vale, que iam cortando, pertencia à famosa quinta de Egas Coelho, e fazia parte das terras de Santa Maria da Vitória.

Instantes depois, ambos pararam à portaria, e, perguntando por el-rei, ouviram da boca de um leigo em resposta, que sua real senhoria ainda não se recolhera, mas que pouco tardaria.

— Podeis esperar, e descansareis. São mais horas de rezar e dormir, do que de fazer jornada. Apeai-vos!

E, aconselhando-lhes isto, o bom do leigo, quase trôpego de velhice, erguia-se a custo do seu paiol de pedra, e dava para eles duas ou três passadas, com a mais festiva hospitalidade estampada no roto.

Quando os mancebos agradeciam as palavras, e o ar de riso com que eram acolhidos, repicaram os sinos do convento a saudação do anjo, e o leigo e os donzéis, descobrindo-se, segundo o pio costume da época, elevaram ao trono do Altíssimo as curtas e fervorosas orações, com que então se encerravam as fadigas do dia. Nas assomadas, que circundam a planície, onde se levanta um edifício, os últimos reflexos da luz poente esmoreciam vagarosamente; e pelas sendas, torcidas como fitas, das encostas para o vale, desciam os rebanhos do mosteiro, com os cães a correr diante, e os guardas em passo lento atrás.

No campo contíguo, alastradas, mas sem regularidade, alvejavam as casarias construídas para os mestres e artífices.

Aqui, e acolá, apenas cobertos de madeiras, e rotos por todos os lados, viam-se os telheiros, e, dentro deles, as pedras que o escopro começara a desbastar, os fustes canelados, e as laçarias e capitéis góticos, que só careciam dos apuros derradeiros do cinzel.

O terreiro achava-se juncado de toros de cantaria lavrada, polida, e pronta para assentar.

Nas casas principiavam a brilhar e a sumir-se algumas luzes. Debaixo dos telheiros expirara com a tarde o som dos maços, o ranger do ferro lascando a pedra, e o burburinho contínuo de muitas vozes.

Como vulto gigante, a igreja recortava-se na escuridão ainda clara, desenhando já confusas as suas esbeltas formas.

O portal, onde as colunas, os lavores e variedade de feitos e de figuras compunham uma ilíada religiosa, grande pela ideia, e pela alegoria, desde o primeiro mármore até ao remate, subindo a grande altura sobre a maior abóbada, deixava adivinhar ainda a majestosa harmonia do seu debuxo e o primor das esculturas.

As sombras, que a essa hora se condensavam mais e mais, quase que escondiam, no meio do frontispício, todos os arrendados sutis do espelho, que pareciam dobrados à ponta da agulha, ou embutidos na madeira.

As vidraças de finas cores, com pinturas de brasões, e divisas do reino, de empresas e tenções de el-rei ainda não tinham sido postas.

Crescendo dos terraços e alteando-se piramidais, todos rasgados em roda de sacadas, com parapeitos em volta, e coroados de metas como flores de lis, os coruchéus, terminados em pontas, já apagavam nas trevas os seus relevos crespos e caprichosos.

D. João I, a pedido do seu professor frei Lourenço Lampreia, fizera doação do mosteiro e do templo à ordem de São Domingos em 1388; e a fábrica, ajudada pelo zelo e ardor de uma verdadeira população de canteiros, escultores, imaginadores e entalhadores, tinha-se adiantado em vinte e sete anos, a ponto que tal como o primeiro arquiteto, mestre Afonso Domingues, o traçara, e o piedoso entusiasmo do fundador o concebera, o monumento existia já com a igreja — admirável livro de pedra escrito por uma raça heroica e crente — com o primeiro claustro acabado na sua majestosa simplicidade, com a famosa abóbada da casa do capítulo suspensa, e com a capela real quase concluída.

As outras partes da obra não corriam com menos diligência; mas a vontade e a mão liberal do monarca não podiam abreviar o tempo.

Em muitos lugares notavam-se de menos os mainéis das frestas; em Outros a coluna de pé esperava pelo capitel, ou a arcada fresca de ontem, aguardava os últimos ornamentos.

As varandas do claustro estavam por lajear; um dos arcos laterais das casas, e a torre do relógio, nem rompiam dos alicerces! Entretanto, mesmo cegos pela meia escuridade do anoitecer, os olhos ainda achavam com que se enlevar, e os donzéis, apesar de afeitos a esta vista, por largo tempo os conservaram pregados nela.

A elevação, e a sublimidade de pensamento, que o tinham inspirado, retratavam-se no grandioso aspecto do edifício.

Contemplando-se aquelas proporções tão formosas, pela casta elegância da sua disposição, pela miudeza e finura dos enfeites, ninguém diria que os séculos e os abalos da terra, passando por elas debalde, as haviam de respeitar.

A austera severidade, que tudo ali respira, a unidade de concepção, que liga as partes do todo, sem desmentir nunca nem mesmo na infinita variedade de execução, e a profunda sensação que nos causa, e que é devida só à majestade simples do tipo religioso e crente da sua beleza, prendendo os sentidos, e arrebatando o espírito, gravam na alma dos que absortos consideram a maravilha da arte — chamada Santa Maria da Batalha, esse indizível sentimento, que a admiração, o assombro, e o respeito, só incutem uma vez diante do que é verdadeiramente nobre e verdadeiramente sublime.

Ainda os mancebos olhavam, e, distraídos de tudo, parecia que as faculdades todas se lhes embebiam naquela gloriosa memória, legada ao futuro por uma época de grandes homens e de grandes coisas, quando Álvaro Vaz sentiu cair-lhe sobre o ombro, e mais pesada talvez do que desejara, a mão de um estranho, que ao mesmo tempo, dizia rindo:

— Por Deus e São Jorge, donzéis! Quereis medrar pelos olhos, ou largais espada e adaga pelo escopro e o cinzel! Há uma hora contada, que devíeis ter chegado, e ainda venho achar-vos aqui pasmados para essas figuras e cabeças, que imaginou o mestre mui sabedor Afonso Domingues, e seus discípulos lavram tão bem que parecem vivas?

Apenas ouviram as primeiras palavras, Álvaro Vaz e Antão Vasques voltaram-se sobressaltados, exclamando ambos ao mesmo tempo:

— Sua mercê!

— Lançando-se o falcão às aves anda-se depressa, agora vejo! — disse o mancebo que primeiro falara, tocando no ombro de Álvaro Vaz. — Vamos! — acrescentou — Onde está sua real senhoria?... E o Condestável?

— E o prior?

— E o mano Duarte?

Estas duas perguntas últimas foram feitas pelo capitão-do-mar e pelo jogral de el-rei, o sábio Hanequim. Repimpado em mula transparente e sisuda, o folião perdera o susto, e chegando bons cinco minutos depois dos outros, ainda se admirava da velocidade do seu Babieca.

Antão Vasques encarregou-se de responder a Afonso Furtado, enquanto o seu companheiro, de barreta na mão, informava o Infante d. Pedro — porque era o Infante — que el-rei d. João não voltara do monte, e que o Condestável tinha partido com ele.

O príncipe sorriu-se, escutando; e virando-se para o capitão-do-mar, disse-lhe em tom jovial:

— Vereis que meu pai não torna sem matar algum veado, ou algum veado!... Apanhou-se com os lebréus do Condestável! Queira Deus que o desenfado o não faça esquecer de nós.

— Sua senhoria, mesmo com os cabelos ruços, há de ser sempre o mestre de Avis! Deixai-o correr monte, que não falta! À hora, que houver dito, estará conosco. Todas as suas coisas serão repousadas e serenas. Nunca vi sono tão comprido e sossegado, como o que ele dormiu véspera de Aljubarrota. E mais!... Nenhum de nós sabia se aquela noite seria a última!... O que me admira o prior! Partiu adiante de mim!...

— E chegou primeiro! — atalhou de repente uma voz forte e agradável. — Tomei para exemplo o mestre de Avis, meu senhor. Nunca durmo sobre as promessas!

— E sobre as de Castela, tio? — vociferou Hanequim farfalhando os cascavéis da sua touca.

O golpe fora cruel, e Álvaro Gonçalves Camelo não era homem que não sentisse, e que, sentindo-o, perdoasse.

Mesmo na escuridão, Álvaro Vaz viu brilhar uma faísca nos seus olhos, e as dobras do manto da ordem militar do Crato, ondeando, indicaram no primeiro repente, que o braço quisera alçar-se, e vingar a afronta.

Não foi preciso, porém.

O Infante, mais ao alcance do truão, com a haste da lança curta, aplicou-lhe logo tão concisa e persuasiva correção, que o ilustre maninelo, receando embolsar o capital depois dos juros, tratou de meter terra entre os seus gracejos e as pessoas a quem tinha a honra de mortificar com eles.

Seguiu-se curta pausa.

Dos interlocutores presentes, nenhum sabia por onde principiasse, depois da mal-aventurada interrupção do bobo.

O prior, levado pela ambição, e queixoso do agravo da sua prisão, não duvidara efetivamente vender a espada ao rei de Castela, e como contrário dos seus naturais, atravessara a fronteira, e patenteara o caminho do reino ao Condestável de Castela.

Político e clemente, d. João I, terminada a guerra, estendeu a mão ao cavaleiro perjuro, e fez dele, de um dos principais fidalgos do reino, o vassalo mais fiel e dedicado.

A menor alusão às suas antigas culpas feria o orgulho de Álvaro Camelo, e desagradava a el-rei e aos Infantes, que apreciavam, como o monarca, a prudência e acerto, que encerrava a velhice robusta do prior, e o muito que valia por seus grandes espíritos e singular merecimento.

Hanequim, leviano truão, ignorava tudo isto; e ainda mais se arrependeria, se adivinhasse que, naquela hora, o capitão-do-mar e o prior eram os dois homens do seu reino, depois dos Infantes e do Condestável, que el-rei via com os melhores olhos.

O castigo pronto serviu para lhe lembrar a circunspeção, e aninhando-se em um dos vãos do edifício, e esfregando as costas molestadas, o digno jogral teve tempo de sobra para fazer em paz o seu exame de consciência, e para se entregar às suas reflexões, que naquele instante, decerto, nada tinham de risonhas.

Mas o prior era tão bom cortesão, como sagaz conselheiro, e experimentado militar.

Foi ele de todos o primeiro que se restabeleceu do abalo súbito, motivado pela irreverente e chula invectiva do bobo. Decorridos alguns momentos, ninguém seria capaz de descobrir no seu rosto, alegre e tranquilo, nem um apagado rasto da imensa ira que lhe sufocara o peito.

Afonso Furtado devia aprender ali!

Atando o fio quebrado da conversação como se nada a houvesse interrompido, Álvaro Gonçalves Camelo virou-se rindo para o capitão-do-mar, e disse-lhe com ar jovial e festivo:

— Nas galés sois vós um homem! Nem vento, nem tempestades vos turvam; mas em terra, sobre um cavalo como o meu, tende paciência, mas não vos dou licença, que chegueis primeiro. Cá vos esperava! E mais cedo ainda podia ser, se o recato com que fiz o caminho...

Aqui os seus olhos encontraram os donzéis, e reprimindo-se, ajuntou como para arredondar a frase, e cortar o primeiro sentido:

— Por causa dos calores me não obrigasse a andar mais de noite, que de dia. O que não contava era achar ainda o Sr. Infante!...

Ao príncipe não tinha escapado, nem a repentina suspensão do prior, nem o inconveniente da presença dos mancebos, que a vista penetrante de Álvaro Gonçalves lhe apontara na sua rápida interrogação muda.

Voltando-se para Álvaro Vaz, o Infante, como se ali mesmo se recordasse, disse-lhes no seu tom natural, com que lhes falara antes:

— Ide-me já, ali, ao mosteiro, e pedi-me tochas. Não tarda el-rei, e não quero que sua senhoria venha achar-nos no meio destas trevas.

Depois, respondendo ao prior, enquanto os dois se afastavam, d. Pedro acrescentou:

— E por vós só é que vim! Andando às aves, Afonso Furtado veio encontrar-se, e tais coisas me disse de si, do prior de Crato e do meu serviço que nesta embaixada me fizeste, que não tive ânimo de ir dormir esta noite a Alcobaça. É um pecado que d. João de Ornelas, se fosse meu confessor, não absolveria com pequena penitência. Que novas trazeis? O que vistes por lá em vossas viagens?

— Fiz juramento de o não dizer senão a el-rei, e aos srs. Infantes na sua câmara — redarguiu Álvaro Gonçalves.

— Não será grande a demora até então.

— Mas!... — observou o príncipe meio desconcertante.

 — Mas... — prosseguiu o prior, sorrindo-se — não quebrarei a minha fé, se disser a vossa mercê, que pela noiva, que perdeu em Sicília, lhe oferece a fortuna, rica, bela, e segura, outra mais para desejar em África. É Ceuta! São as minhas notícias.

— E por elas vos devo grandes alvíssaras!... Do mar já eu sabia por d. Afonso Furtado. Sois homem para tudo, d. Álvaro Gonçalves!

— Até para vender a Deus, como vendeu el-rei e o reino? — rosnou do seu canto mestre Hanequim, tendo o cuidado, contudo, de medir a voz, para que não chegasse aos ouvidos de nenhum dos três.

— El-rei tarda! — disse o capitão-do-mar. — E daqui a Alcobaça, onde tenho pousada para esta noite, é um bocado de caminho!

Neste meio tempo voltavam com as tochas os donzéis, e o Infante; para lhes arredar o ânimo de qualquer suspeita, disse alto o prior:

— Muito me contais, Sr. Álvaro Gonçalves, dessas terras por onde andastes! Fazeis-me ter desejos de correr um dia as partidas do mundo!... Álvaro Vaz de Almeida! — ajuntou, chamando o mancebo. — Quereis ser dos meus, se eu for, e acompanhar-me aos lugares santos?

— Por onde andardes, senhor, andarei eu, e onde ficardes hei de eu ficar... Na vida e na morte contai comigo sempre!

O príncipe sorriu-se. Mal sabia ele, que a promessa do novel, ali em Aljubarrota, sacramentada depois sobre a hóstia em Alfarrobeira, a havia tão lealmente de cumprir o conde de Abranches, que os dois nomes, unidos pelo sacrifício, nunca mais poderiam separar-se na história!

— Bem! Tenho já donzel certo para as minhas empresas. E vós, Antão Vasques?

— Só desejo que Deusa me dê ocasião de estar ao lado de vossa mercê em dia parecido ao de Aljubarrota!

— É um denodado voto... Saís a vosso pai, mancebo, e não o haveis de envergonhar... Ora pois, alegrar! Se Cristo nos socorrer, ambos tereis o que pedis, e nós todos muita glória. Afonso Furtado, dizei-me: o que vistes de mais gosto entre os estranhos?...

Antes de responder o capitão-do-mar, assaltado assim de súbito, empinou o rosto, passeou os dedos pela emaranhada barba, e com os olhos nas estrelas, que principiavam a luzir, redarguiu:

— Conforme!... Vi... sim... vi!... Em Itália homens sem barba cantando em voz de meninos!

O Infante e o prior salgaram de uma risada imensa, que teve eco no covil, onde se escondia Hanequim, a inocente admiração do velho guerreiro. E este, desoprimido do grande peso a pergunta do príncipe, longe de a levar a mal, acompanhou-os de boa vontade.

D. Pedro, porém, não estava ainda resolvido a deixá-lo livre por tão pouco. Continuando, disse-lhe:

— Agora contai-me! O que vos causou em toda a jornada maior enfado?

Sua mercê esperava outra simplicidade, mas iludiu-se. Neste capítulo Afonso Furtado sabia a lição de cor; por isso replicou sem titubear:

— Foi ver em Ceuta cativos um velho cavaleiro da minha criação e sua filha tão formosa, que os anjos não podem sê-lo mais, e não lhes poder valer!

— Nem oferecendo resgate? — acudiu o príncipe.

— São escravos de Salat Ben Salat, alcaide da cidade, e pelos lindos olhos da dama morre de amores o filho do mouro!

— São Jorge nos ouça! Mas ela?...

— Está disposta a padecer tudo pela fé! É o que enfurece o infiel.

— Fazeis-me curiosidade! E o cavaleiro chama-se...

Lopo da Cunha. Sua filha, que esteve para entrar no paço covilheira, é d. Leonor da Cunha.

Um suspiro tão fundo e dolorido, que se cortava o coração ouvindo-o, escapou dos lábios de Antão Vasques, apenas os dois nomes foram proferidos.

Álvaro Vaz, sabendo todos os segredos do seu amigo, conhecia a dama dos seus pensamentos, como se dizia então, ou antes o amor ardente e leal, em que se lhe comprimia o coração vendo a palidez mortal de Antão Vasques, o tremor dos lábios, e a mão a abrir-se, cortada pela mágoa, e a deixar fugir a tocha.

Os outros não repararam naquela agonia muda.

A esse tempo uma cavalgada vinha descendo pela encosta de um outeiro, pouco distante, e o toque das cometas de caça, e os latidos dos cães diziam que era d. João I, que se recolhia.

— É el-rei, meu senhor! — gritou o Infante. — E volta vencedor. Não ouvis a alegria dos seus coiteiros? Vamos encontrá-lo.

Apenas eles se afastaram, Álvaro Vaz, encostando as tochas, e batendo no ombro do companheiro, que a dor parecia tornar insensível e adormecido, exclamou magoado:

— Antão Vasques, meu amigo! Maior do que todos nós é Deus. Ponde nele a esperança, e coração forte! Daqui onde Leonor está não é longe. Atravessaremos o mar, e ou havemos de tomar os três, ou ficaremos os dois. Quereis?

— Obrigado, Álvaro Vaz! — replicou o outro mancebo, erguendo o rosto banhado em lágrimas. — Nunca me hão de esquecer essas boas palavras. Ficam em dívida. Mas não aceito... De hoje em diante a vida não é minha. Acabo de a prometer em juramento...

— A Deus? — acudiu Álvaro Vaz.

— Não. À redenção dos cativos. Somente — acrescentou o donzel com um sorriso lívido — pagarei em ferro, e não em ouro.

— Antão Vasques, agora também eu vos digo, não sei o que me fala o coração, mas estamos em vésperas de um grande feito. Esperai por ele.

— De hoje em diante não tenho que esperar, senão pela morte. O mais para mim é fumo, e como fumo passou. Se queria glória e nome era para ela só.

Neste momento soavam já próximas as vozes dos cavaleiros do acompanhamento de el-rei.

Vendo-o acercar, Hanequim desenroscou-se do seu ninho, e correu para lhe sair ao estribo.

Quando passava pelos dois mancebos, cuja conversação escutara escondido, o bobo disse em ar de festa:

— Primo Antão Vasques, por amor das minhas orelhas não digas nada!... Sabes aonde ei-rei vai, mas os Infantes, e o prior?... É a Ceuta! É a Ceuta!


CAPÍTULO 2: 
NEM PRETO, NEM BRANCO 

Ó que caça tão real,
Que se caça em Portugal!
Diogo Velho, Cancion, de Resende.

Partiu com a graça, de que, triunfando,
No ardor da cruz alcançou vitória,
Per mando do rei, que vai imperando,
Por gram vencimento de eterna memória.
Luís Henriquez, Cancion, de Resende.

— Por São Jorge, o guapo cavaleiro! Não vos recebo por má nova essa resposta, Sr. prior! Louvado Deus, havemos de achar em casa, com que nos remediemos. Para um dos filhos de d. João I cingir uma coroa sobre a sua capelinha de aço não será preciso irmos até a Sicília... Andam por lá grossos e cavados os mares.

— E a rainha Branca é formosa, como se diz? — perguntou um mancebo, assentado junto do que falava, e ao qual a pergunta fora dirigida.

— Mais ainda que o seu retrato. É um assombro! — respondeu Álvaro Gonçalves Camelo.

— E de grandes espíritos, vê-se! Querer só um rei, ou herdeiro de rei!

— Ah, moço Infante, moço Infante! — exclamou o cavaleiro, que primeiro ouvimos. — Em os cabelos se vos fazendo ruços, como estes, prometo-vos menos curiosidade... Quereis quebrar a lança pela gentileza da rainha da Sicília?... Falai a Afonso Furtado, que tendes homem!

E dizendo isto ria-se dos olhos redondos e pasmados, que abriu o capitão-do-mar, vendo-se designado para mantenedor de damas.

— Se outra empresa, mais alta, porque é de Deus, me não levasse todos os pensamentos — acudiu o Infante d. Pedro, que era mancebo com quem se travara o diálogo —, asseguro-vos, senhor, que bem empregadas seriam, não uma mas dez lanças, em justa leal, sendo vossa senhoria, ou o Condestável, o juiz da liça!

— E não vos quero mal, por isso, Infante meu filho! Pena é que vos não ouça Mem Rodrigues de Vasconcelos, o da Ala dos Namorados!

— Ele, ou outro!... Não lhe voltaria o rosto, protesto, pelo bem-aventurado apóstolo do meu nome.

— Não! Não! Louvores à Virgem! Mas, sabeis, filho? Ponde os olhos em d. Lançarote do Lago e aprendei.

E fechando com estas alusões das cavalarias do rei Artur, então muito em voga, a rápida conversação, que o leitor decerto conheceu logo, afagava a barba, em ar de regozijo, e por baixo das pálpebras sorria-se para prior do hospital, e para Afonso Furtado, que, descobertos, e de pé aos lados do comprido e estreito espaldar da sua poltrona, acabavam de dar conta, perante o conselho, do efeito da embaixada com que el-rei, sem muito segredo, os enviara à Sicília, propondo à rainha d. Branca por esposo, em vez de d. Duarte, seu sucessor, que ela desejava, o infante d. Pedro, seu filho segundo.

Como era de supor, a princesa escusou-se do consórcio, e as galés de Portugal, armadas de ricos toldos quarteados de cores, e em som de festa, como tinham partido, tornaram a entrar no Tejo, alegrando com as salvas das trombetas e as músicas dos instrumentos guerreiros as praias, apinhadas de curiosos.

O povo, no meio do qual rompera a notícia, imaginava que d. João I a receberia com desprazer, e que os enviados não ficariam no agrado e privança de sua real senhoria, coisa que os burgueses cobiçavam tanto, ou mais, do que ver uma procissão bem enfeitada de andores e danças, ou o castigo de açoites, vibrados ao meio-dia, na picota, sobre o corpulento e espadaúdo costado de um rico e usurário flamengo.

Entretanto, segundo escutamos, é claro que o mestre contava com aquela repulsa, como hábil político, que soube disfarçar o dissabor.

Longe de se mostrar severo com os dois fidalgos, tudo inculcava no semblante do vencedor de Aljubarrota, que ainda os via melhores olhos, se é possível, e que lhes tomara a viagem frustrada em conta de serviço.

Defronte de el-rei estava um bufete de carvalho, gigantesco nas proporções, todo lavrado de relevos antigos.

Dos pés do móvel, torneados em colunas enroscadas, de um trabalho raro, nascia uma espécie de escabelo, que, embebido pelos topos, oferecia incômodo assento às pessoas, que assistiam a esta conferência, em nada semelhante a uma sessão desembargatória.

O conselho compunha-se, neste dia, dos Infantes d. Duarte e d. Pedro, do conde de Barcelos, do prior do Hospital e de seu rude colega Afonso Furtado, do Condestável d. Nuno Álvares Pereira, de Gonçalo Lourenço de Gomide, escrivão da puridade, e de alguns outros personagens, todos confidentes experimentados, e homens de grande préstimo pelo valor, ou pela capacidade.

O lugar da cena era uma das quadras, que serviam de aposentos reais no mosteiro da Batalha.

Das paredes, forradas de couros, e tauxiadas em volta dos alizares com pregos de cabeça reluzente e larga, rompiam quatro braços de ferro, para os pajens de noite segurarem as tochas que haviam de iluminar a câmara.

Fronteiro à cabeceira do bufete ficava um balcão de pedra, e a janela de arco pontiagudo, meia cerrada, deixava entrar uma golfada de sol, que, em réstias de luz dourada, brincava pelo pavimento, refletindo as vivas cores e os vultos devotos, pintados nas vidraças.

Do teto, de castanho apainelado em almofadas rendilhadas, pendia uma cadeia, e suspensa nela balouçava-se uma lâmpada, ao menor tremor da casa.

Em roda os ornamentos eram modestos e singelos. Limitava-se a algumas cadeiras de linhas angulosas e aprumadas, e a duas ou três arcas enfileiradas.

Em outra janela, dividida perpendicularmente por um gracioso pilar, e recortada de finas laçarias, franzindo no meio a cortina de tela transparente, divisava-se um vulto, meio sumido no fundo, e que, estranho inteiramente a quanto em roda, debruçava a cabeça, a cada instante, recostando-se sobre o cotovelo, e como espreitando ansioso alguma novidade fora.

De vez em quando os olhos de el-rei seguiam a mesma direção, e, com sinais de impaciência, volviam-se logo depois para um relógio de parede, invenção que se começara a generalizar havia pouco.

O aspecto do monarca, embora as palavras joviais tentassem desmenti-lo, denunciava inquietação. O contínuo arquear do sobrolho, uma como nuvem rápida, que lhe descia da fronte sobre a vista, e a ruga quase imperceptível, que de momentos em momentos lhe contraía os beiços nos cantos, assaz o revelavam.

Depois, a mão fechada sobre um rolo de pergaminho, e batendo frequentemente e distraída, dava mostras evidentes, de que não estava ali todo o espírito, e que o tempo, correndo, era a principal causa da sua preocupação.

Um belo açor-prima, ornado de cascavéis de prata, e de caparazão verde, pousava-lhe no ombro direito com a familiaridade de um valido; e um alão real, de raça inglesa, alvo de neve, e de esbeltas e delgadas formas, ressonava aos seus pés, aproveitando o calor do sol, que lhe frechava a orelha longa e derrubada, e o focinho comprido e fino.

Em cima de um escanho baixo, encruzado à turca, e arredondando a corcova, que lhe empolava o dorso, o nosso antigo amigo Hanequim arregalava os olhos com a beatitude estúpida, ou velhaca, seria difícil discernir, de uma figura china de porcelana; e entretinha os seus ócios chocarreiros em adicionar mais duas cristas, de veludo escarlate, às três, que lhe assarapantavam à o gorro.

El-rei, ou mestre, como por lapso, ou antes por ingenuidade de afeto lhe chamavam ainda os seus populares, el-rei ergueu-se da cadeira, e apontou ao balcão, resguardando a vista com a palma.

O amor, com que o povo sempre o abençoou em todas as suas empresas, regando-lhe as cinzas de sinceras lágrimas, quando, diante da pedra ainda fresca do seu jazigo da Batalha, repetia — Ali jaz d. João de boa memória! — esse amor desinteressado e verdadeiro rebentou nas espontâneas aclamações, com que o saudaram artífices, vilões, e burgueses, apenas viram assomar à janela.

Mas ainda que viesse da capela dos túmulos, e que não poupa-se perguntas e avisos aos imaginadores e escultores sobre o desenho e a fábrica do monumento, a ideia da morte não era a que mais prendia naquela ocasião o ânimo do filho de d. Pedro o Justiceiro.

Outros cuidados o assaltavam; e o observador, que atentamente lhe estudasse a fisionomia, acharia, depois de curto exame, que o monarca, sob o véu de levianos gracejos, ocultava de propósito graves pensamentos.

Na época em que entramos, d. João I não era já o rei-moço, braceiro, e torneador, ao qual, no viço da sua florescente idade, e galopando por entre a Ala dos Namorados e o esquadrão da Madressilva, a voz amiga dos cavaleiros, que iam firmar-lhe a coroa com as lanças, repetia alegre, como se uma batalha ferida fosse uru dia de festa louca: — Amores! Amores!

Tinham passado por ele os anos, e os cabelos pretos e curtos principiavam a salpicar-se de malhas brancas.

A testa pequena, mas nobre, e nada acanhada, confessava nas rugas, já visíveis, as inquietações e o longo cismar de uma vida larga.

Eram, porém, só estes os únicos indícios do tempo!

Negros e cheios de brilho, os olhos, que, fitando-se, parecia que iam ler no íntimo do coração, e que um repente bastava para tornar fogosos e juvenis, quando a ira, o brio da peleja, ou a ideia de arriscado feito os iluminava, diziam de mais, que a alma, até ao último suspiro, havia de ser nele vigorosa e moça sempre.

El-rei trazia jórnea de veludo claro, curta como saio, e enrocada em pregas, sobre uma jaqueta de seda mais escura, bordada com as silvas e amoras da sua empresa. A monteira preta, posta ao lado sobre a mesa, e a cometa de prata, pendente a tiracolo completando o trajo, manifestavam que se dispunha para sair à caça, apenas o conselho se encerrasse.

Magro, mas bem proporcionado e airoso, ninguém, vendo-o, lhe julgaria a robustez de forças, que podia desenvolver sem fadiga aquele corpo, que tão poucas prometia.

Em pé, e agradecendo em gesto lhano e prazenteiro as saudações dos populares, d. João I, a despeito da sua mediana estatura, realçava a majestade real pela nobreza do aspecto; e a lisura rasgada dos modos, sacudidos e um tanto jogueteiros, que herdara de seu pai, não desmentia a boa sombra das suas feições.

Depois de estar olhando um pouco para as veredas, que desciam das colinas vizinhas para o mosteiro, o mestre, demos-lhe ainda o seu primeiro título, encolhendo os ombros, recolheu-se com certo enfado; e apertando o braço do Infante d. Pedro, deixou-lhe cair no ouvido estas palavras, que ninguém mais ouviu:

— Por São Jorge, tarda-me teu irmão! Ruins pajens o servem, que não o acordam a horas. Há mais de duas, que o esperamos, e que devia ter chegado!

— Alguma novidade o deteve. Bem sabeis senhor; ele não usa ser esquecido, nem remisso.

Nesse tempo, o honrado Hanequim ofendido da profunda indiferença, com que o seu real patrono olhara até então para as esquisitas momices e esgares, que desde o almoço não cessara de variar, tinha-se levantado do seu coxim, e com a orelha afiada para não perder palavra, trepou-se ao peitoril de uma fresta, e abraçado ao mamei de lá resmungava, alta cúspide, em tom lastimoso as cópias coxas e desasadas de uma trova satírica, composta durante a noite para pagar em verso, ao prior do Grato, a correção em prosa, que lhe custara o chasco às viagens de Castela.

El-rei tinha passado por ele, sem o ver, encaminhando-se para a janela, onde se conservava ainda o vulto, que já notamos; e o Infante d. Pedro, tomando de parte a Álvaro Gonçalves Camelo, insistia nas perguntas da véspera, que o esforçado cavaleiro, religioso e cortesão, aparava, sorrindo-se, na já sabida desculpa do seu juramento.

Gonçalo Lourenço de Gomide, com a manga direita da garnacha preta, arregaçada no punho, e com a barba quase fincada nas tiras de pergaminho, que ia enchendo de notas, de espaço em espaço levantava a cabeça de súbito, e com os olhos frios e penetrantes corria de relance todos os semblantes; depois, tornava a inclinar-se, e a pena principiava a ranger de novo debaixo dos seus dedos.

O Infante d. Duarte, o conde de Barcelos e Afonso Furtado formavam um grupo defronte do balcão de pedra, e é escusado acrescentar que a simplicidade crítica e o juízo vesgo do robusto capitão-do-mar derretiam em risos e chistes amigáveis as impaciências do conde, e a gravidade precoce do príncipe.

Dos outros dignitários, que só aguardavam que el-rei os despedisse, uns recordavam em alta voz os feitos memoráveis da sua mocidade, outros, em alusões discretas e com falas comedidas, arriscavam conjeturas, e mesmo não temia algum embrenhar-se no perigoso labirinto das profecias políticas.

De repente, sobre os murmúrios de todas estas vozes abafadas, soou, como nota de clarim, o falsete arranhador do jogral de el-rei:

— Alvíssaras, tio João! Alvíssaras! Lá vem que tu esperas! Aí tens o mano Henrique! Se queres ver um formoso chouto, chega-te, e olha!

Dizendo isto, Hanequim dobava no ar a sua touca de guizos, em sinal de júbilo, e arremedava com mestria o hino belicoso do marido da galinha, e os rufos ufanos e impertinentes do peru.

Todos se voltaram.

Efetivamente era o Infante, que se aproximava; e minutos depois, ainda coberto de pó, e com as vivas cores da jornada, dobrava o joelho, beijando a mão a seu pai.

D. João I recebeu-o sério; mas a vista carinhosa desmentia a expressão da face, e o tom seco das palavras, que lhe disse.

D. Henrique era o filho mimoso de d. João I que interiormente via nele o continuador dos seus cometimentos arrojados, e admirava no seu caráter aventuroso o mesmo ardor, de feitos ilustres, que, nos dias de juventude e de ilusões, tantas vezes tinha desvairado os altos pensamentos do mestre de Avis, quando, mancebo ainda, e ferido pela quebra da ilegitimidade, voltara as esperanças todas para a glória, que a lança lhe poderia conquistar, pelejando ao lado dos cavaleiros de França, ou dos ásperos lidadores de Inglaterra.

Entretanto, fiel ao costume de guardar consigo o segredo da sua preferência, el-rei deixou levantar o Infante, e enquanto ele enxugava o rosto do suor, disse-lhe meio grave meio risonho:

— As vossas madrugadas nascem com o sol alto, filho! Haverá mouras, ou tesouros encantados em Alcobaça? Vistes o veado do d. Fuas Roupinho, no caminho, salvo sejais de tentação?

— A caça que levantei é caça real, senhor! Demorei-me a ouvir as queixas dos vilões dos coutos de Santa Maria!

— Ah!... — exclamou el-rei, cruzando os braços, e olhando suspenso para seu filho.

— Logo vos direi tudo, senhor; agora baste-vos saber que, pousando na Batalha o rei de Portugal, há quem chore e brade por justiça, mas em vão!

— Santa Maria da Oliveira! E quem pode mais aqui que o mestre... do que d. João!?

— Apartemo-nos, senhor. É coisa de recato.

— Senhor conde de Ourém, podeis seguir-nos! — disse o monarca, recolhendo-se com seus filhos e com o Condestável ao vão profundo, que abria o arco pontiagudo da janela.

Os curiosos, e eram todos os presentes, apontaram logo a vista para o lugar, onde os Infantes e Nuno Álvares falavam retirados, e cada um tratou de ler na fisionomia de el-rei a novidade, que a revelação de d. Henrique viera explicar.

Decorrido breve espaço, d. João I elevou a voz, e como para pôr termo à conferência, exclamou:

— Ah, o abutre pousou-se no altar, e de lá empolga-me a presa?... O pastor tosquia-me as ovelhas, e deixa-mas fluas, e a escorrer sangue?... Por alma de meu pai! Eu o farei arrepender! Fechei os olhos a muitas culpas, mas seria pecado não os abrir hoje. Que dizeis, Sr. conde de Ourém?

Os olhos do Condestável, de ordinário vivos e severos, lançavam chamas. Parecia que as pupilas chispavam lume.

Os lábios tremiam; e as sobrancelhas, carregando-se e fazendo sombra sobre as pálpebras, ainda aumentavam mais a expressão terrível do semblante.

A mão, contraída, encaracolava entre os dedos a barba ruiva, aparada em ponta, e os que de perto conheciam a Nuns Álvares, não ignoravam que este gesto nele significava o esforço de uma vontade forte para conter o ímpeto das paixões.

Dir-se-ia até que a ira comprimida lhe acrescentava a estatura!

O famoso Condestável, como seu amo e mestre de Avis, era de estatura ordinária; mas o peso do braço igualava nos recontros a altura dos espíritos. Contemplando-o, como então estava, com o rosto comprido, afogueado, e as feições convulsas, julgar-se-ia a águia real, pairando de cima sobre a presa, para numa volta baixar sobre ela, rápida e fulminante como o raio.

Quando d. João I lhe fez a pergunta, que referimos, o Condestável procurou chamar aos lábios um sorriso, e dar à voz a serenidade que faltava ao seu ânimo perturbado.

Mas o sorriso banhado em fel transformou-se-lhe em uma contração nervosa, e a fala presa e sufocada atraiçoou a tempestade que o revolvia.

Não foi sem violência, que redarguiu:

— Depor os soberbos e exaltar os humildes é um dos louvores de Deus, senhor; e na terra o rei é como Deus, consola os que choram, e castiga os que erram!

Nunca talvez em toda a sua vida o conde de Ourém subira a esta eloquência, que sem ofensa do herói da independência, fora bebida, em boa parte, nas devotas homilias do seu capelão; mas a indignação, o poeta o disse, forja o verso, e onde ela clama, agitada e comovida, tudo aquece, e se torna incisivo e elevado.

O Condestável nunca passara por um dos maiores admiradores do orgulhoso donatário, que assim convertia em vara de tormentos o báculo pastoral; mas a notícia, de que, entre as vítimas mais perseguidas, se encontravam um dos seus, um valente escudeiro, que ele vira obrar proezas em uma das alas, na batalha de Aljubarrota, acabou de declarar em ódio e sede de vingança a inimizade latente.

A injúria era pública; e o desprezo do seu nome não podia ser mais claro!

Prendendo nas cisternas do seu castelo, e desonrando com o azorrague dos serviçais do mosteiro um soldado brioso da sua casa, que lhe devia a criação, só porque defendera a pobreza do seu pai com palavras de humildade, o abade de Alcobaça acabava de lhe arremessar a luva ao rosto; e o conde de Ourém, afeito a ir buscar a sua por entre selvas de lanças, não era homem que deixasse impune tamanha afronta.

Rude, e indomável, como os barões da sua época, durante os anos atribulados da guerra, os populares em mais de uma ocasião tiveram motivos para se agravar da aspereza do seu trato e até do rigor com que despojara alguns para acudir aos apuros da luta.

Mas os anos tinham-lhe amaciado o ânimo: e fiel às afeições arraigadas no meio dos perigos, tocar em um dos seus era o mesmo que feri-lo na face a ele.

Por isso os seus olhos relampejavam, e a mão convulsa se fechava, como se tivesse diante o inimigo, e se o golpe fosse a descer!

Depois de curta pausa, correndo a vista pelo rosto dos Infantes, e de el-rei, que mudos observavam a sua cólera, também silenciosa, o Condestável acrescentou:

— Se vossa real senhoria não precisa de mim aqui, quero-me ir até Alcobaça. Desejo experimentar no abutre o meu açor novo, e nas portas desse castelo tão forte para os fracos a têmpera da minha acha de armas. Ainda não há de estar embotada.

— Quem há de ir a Alcobaça, Sr. conde de Ourém, não é o Condestável, é o rei de Portugal! — atalhou o mestre de Avis, cujas pupilas faiscaram, e cujos lábios, apertados, apenas descerravam as palavras por entre os dentes. — A quem esse frade soberbo esbofeteia as faces é a d. João I. El-rei d. Pedro castigou por suas mãos um bispo mau, e o Sr. papa não o excomungou. Um abade não é tanto como um bispo... e eu não sou menos rei, do que meu pai!

Ninguém respirava!

A luz fulva, que despediam os olhos do monarca, a palidez repentina do seu rosto, e o tremor da voz cava e incisiva, eram indícios, mais do que suficientes, para quem o conhecia, e nenhum, nem mesmo os Infantes, ousaria, naquele momento, afrontar-se com a cólera do leão.

Nuno Álvares, satisfeito, inclinou a cabeça, certo de que, a contar deste instante, el-rei tomara a si a vindita de todos.

Os príncipes, silenciosos, apartaram-se com plena segurança de que seria feita brevemente completa justiça.

E os cortesãos, que tinham escudado as últimas frases proferidas pelo Condestável e pelo mestre procuravam encobrir a agudez do seu ouvido, com a máscara da indiferença.

Dois homens somente, apesar de afeitos a vencer-se, não puderam ocultar, no primeiro ímpeto, a expressão dos seus íntimos sentimentos.

Inimigos ambos do abade, o coração pulou-lhe de júbilo, vendo-o perdido e condenado.

A cara lívida e escaveirada de Gonçalo Louren de Gomide iluminou-se de um sorriso, semelhante ao clarão mortiço de tocha fúnebre, batendo na face de um cadáver.

O semblante do prior do hospital, tão risonho de ordinário, ainda se tornou mais aprazível, dizendo: — Não invejo esta noite a ceia de sua reverência!

Se não fossem os reflexos metálicos, que se cruzavam nas pupilas, e que faziam lembrar a ferocidade fagueira do tigre, cuja vista brinca de longe com a vítima, dir-se-ia que o virtuoso Álvaro Gonçalves Camelo, obediente ao preceito do Evangelho, estendia a outra face à pesada mão do orgulhoso donatário, que todos do conselho fora o único empenhado em desviar el-rei do perdão, que lhe concedera.

O incidente, que descrevemos, correu em menos de metade do tempo, que nos levou a desenhá-lo; e os atores desta rápida e agitada cena, tornando a avizinhar-se do balcão de pedra, e do bufete, ainda revelavam nas feições perturbadas parte da ira, que ela lhes excitava.

Os Infantes d. Pedro e d. Henrique, desviando-se, foram continuar longe dos olhos de seu pai e a mesma conversação; o conde de Ourém, que o príncipe d. Duarte parecia consultar, sorria-se à flor dos lábios, mas ainda conservava na fronte, que a mão comprimia a miúdo com disfarce, uma nuvem sombria; finalmente, o mestre de Avis, depois de medir por duas vezes, em passos precipitados, todo o comprimento da câmara, teve poder em si para asserenar quase subitamente, a restituir à fisionomia transtornada o ar jovial e os modos benevolentes, que lhe eram habituais.

Vamos, senhores! Quem nos visse cuidaria que acabou de passar por nós um morto, e que o susto nos entalou a voz!... D. Henrique, meu filho, tendes um grande pecado que levar aos pés do confessor.

— Poderei saber qual, se não o estranhais, meu senhor e pai?

— Podeis, podeis, mancebo! Que formoso veado, por vossa causa, salta ainda a esta hora pelas matas de Leiria!

— Mano João — gritou Hanequim interpondo-se —, quantas vezes hei de eu dizer-te que vais perdido nas tuas caçadas?... Se tu não consultas pessoas de siso, e inchado com o teu livro das montarias não sonhas senão com ele!?

— Ah! Ah! Senhor chocarreiro! E então o que me aconselha o vosso grande siso, em caso de tanto aperto?

— Que principies por acabar com os ratos que se engordam nas tulhas do teu celeiro, e com os gatos, que furtam mais do que eles. Ajuda a minha ignorância.

— Vamos, sabedor jogral! E onde estão eles?

— Ali e aqui! — bradou o bobo, indicando Gonçalo Lourenço de Gomide, que se fez fulo, e o prior do hospital, que alegrou duas, ou três vezes mais ainda o seu aspecto prazenteiro. — Aquele é o rato preto; e este é o gato branco; ambos caçam de meias, e por tua conta! Quem paga é a tua despensa!...

Eu bem sei quem é
Tira li ló lé!

— Folião maldito! — rosnou o jurisperito apunhalando a pessoa rolha e garrafal de mocem Hanequim com a vista odienta.

— Jogral, olha as varas! — gritou o mestre franzindo o sobrolho.

— Mais outra à conta! — murmurou o prior, acariciando o histrião com o olhar quase mavioso à força do temo.

— Mandai atrelar os cães! — disse el-rei a um pajem, que acudira ao seu chamado, e procurando por esta maneira desviar a atenção. — Veremos, Sr. conde de Ourém, se os vossos alões são para o que dizeis!... Estes montes não se parecem com os campos do Alentejo.

— Não hão de ficar mal, prometo eu — observou o Infante d. Henrique.

— Até ver, até ver, Infante! Vós os moços nestas coisas, e em todas, pondes os velhos a um canto; mas hei de mostrar-vos que viver é aprender. Na vossa idade não me trocava por nenhum dos monteiros mestres de el-rei, meu irmão, que santa glória haja!... E mais sabeis como ele era primoroso e sabedor de caça!

— Quereis ser dos nossos, e desenfadar-vos, senhores? — acrescentou d. João I, calçando a luva e afivelando o cinto, como quem ia a partir.

Era um modo cortês de despedir, e escusando-se com grandes reverências, foram saindo uns após outros os fidalgos, menos o Condestável, o prior, e Afonso Furtado, que responderam por uma inclinação de cabeça afirmativa ao convite de el-rei.

Hanequim não dava sinal de se dispor a despejar o aposento; mas o mestre fez-lhe com a mão um aceno imperioso, e o digno folião, roçando-se pela parede, tratou de mudar de pouso, achando turvos e grossos os ares, que ali corriam.

Entretanto, já entre portas, não pôde resistir à tentação, e desbarretando-se, no meio da chocalhada infernal de todos os seus guizos, exclamou para o prior do hospital:

— Compadre, dizei ao mano João, se quer açores finos, que vá a Ceuta! Oh, que bela caça real para um rei de Portugal!

E sem esperar a recompensa, o folião desatou em uma corrida louca pelo extenso corredor, até desembocar no patim de uma escada íngreme, que desceu aos saltos.

Ninguém moveu um passo para o seguir. Olhavam-se confusos e pasmados.

O plano, calado entre poucos com tanto recato, estava roto, e na língua volúvel e chocalheira de um jogral, não tardaria a soar pelas ruas e praças!

D. João I não podia conceber, por que artes Hanequim penetrara os mais reservados pensamentos e os Infantes, igualmente, recordavam, sem a encontrar, a imprudência que entregara tão grave segredo a um histrião. 

O prior do Crato foi o primeiro que falou, e, escutando-o, quem não suporia que se inclinaria extremosamente ao bobo?

Ex ore parvulorum! — exclamou ele. — Na boca dos inocentes a verdade! Quem nos diria que a viveza de Hariequim havia de colher no ar o que todos ignoravam! Queira Deus que fique nele.

— Segredo em boca de bobo é o mesmo que neve ao calor! — atalhou o Condestável. — Mau foi o truão furar tão fundo!

— E que remédio agora, Sr. conde de Ourém? — respondeu Álvaro Gonçalves. — Havemos de cortar a língua ao jogral?

— Dai-mo até ao embarque, senhores, e juro-vos que não falará! — acudiu Afonso Furtado. — Onde eu o hei de meter não vê sol, nem lua... Até espero que esfrie a cabeça por uma vez.

D. João I passeava, entretanto, perplexo e inquieto.

A segurança de uma grande empresa, no caso de a tentar, dependia de não se romper a notícia, senão quase à hora de desembainhar a espada; e de resto, entre os curiosos paroleiros, de quem tanto importava resguardar o caso, o jogral era o mais fatal.

Mas o coração generoso do mestre repelia com horror os meios cruéis, e as prevenções violentas.

As reflexões macias e quase amorosas do prior do Crato, subentendendo a necessidade de emudecer mocem Hanequim, pareciam ditadas pela prudência, chave do bom conselho; e o comentário rústico e positivo do capitão-do-mar servia de complemento a esta necessidade rigorosa.

Como havia el-rei de conciliar a sorte de um feito ilustre com a voz da afeição e da piedade, que interiormente advogavam perante a sua alma o perdão do bobo?

Eis o que perturbava o ânimo do vencedor de Aljubarrota, carregando sobre suas nobres feições um véu de tristeza.

O diálogo continuava, entretanto; e Nuno Álvares Pereira, depois de refletir, perguntou a Afonso Furtado onde contava arrefecer o histrião, e prender-lhe a língua? O cavaleiro, com a sua usual rudeza, admirado da interrogação, e de que um simples folião merecesse tantos cuidados, redarguiu:

— É boa! Na cisterna do castelo de Almourol. No meio do rio, e com água até aos peitos, se o maldito escapa duas semanas, é mais forte do que um javardo!

Esta brutalidade fez estacar de repente o monarca. Gelando com a sua vista de águia, acesa e irada, as doutas observações, com que o capitão-do-mar se dispunha a fundamentar o voto, d. João I encarou-o, e alongando o braço lentamente, disse-lhe:

— Não lhe toqueis num só cabelo da cabeça, Afonso Furtado, ou haveis de arrepender-vos! Hanequim fica a meu cuidado!... Agora, Sr. prior, dizei-nos o que vistes. Ceuta, a descrida, será nossa? É, como nos afirmam, a pérola de África?... Afonso Furtado? As galés e caravelas, acharão fundo?

Enquanto ajuntava umas às outras estas rápidas perguntas, d. João I tinha o sorriso na boca, e os cuidados do príncipe nos olhos e na fronte.

Tornando a sentar-se na sua cadeira, e recostando-se no alto e esguio espaldar, inquiria os dois mensageiros, mais ainda com a vista penetrante, do que com as palavras.

Os Infantes e o conde de Barcelos a um aceno de seu pai tomaram lugar perto da cabeceira do bufete, e o conde de Ourém, de pé, como o prior, e o capitão-do-mar, reprimia a sua impaciência, apalpando no punho os lavares do seu estoque, e encaracolando a barba pelas pontas entre os dedos.

Houve então uma curta pausa.

Afonso Furtado calava-se, esperando que Álvaro Gonçalves falasse; e este, refletido e sereno, não rompia também o silêncio, aguardando que el-rei desse às suas precipitadas interrogações mais ordem e mais sossego.

Nos outros cavaleiros era tamanha a atenção, que nem se atreviam a respirar, temendo perder a mais pequena circunstância da notícia.

— Vamos, senhores, estamos sós! Podeis falar. Levantai as vistas ao bacinete, e rosto liso! Aqui me tendes para ouvir a verdadeira embaixada... Afonso Furtado, o que me dizeis do que fostes ver?

Assim chamado à autoria, em primeiro lugar, o velho capitão tropeçou no exórdio, que viera tecendo pela jornada, e caindo nele, perdeu o fio do discurso, e ficou de palmas abertas, e olhos espantados, diante do mestre de Avis, que se o conhecesse menos, julgaria que o honrado pelejador havia esquecido a sua missão, não se lembrando de a cumprir senão ali, e no aperto daquela hora!

Mas o que tinha fugido simplesmente a Afonso Furtado era a memória, coisa nele bastante frequente. Enquanto corria para ver se a alcançava, procurando a mal-aventurada frase, que o atraiçoara, d. João I voltou-se com ar prazenteiro para o prior do hospital e disse.

— Com este hei de ser mais feliz! Sr. Álvaro Gonçalves Camelo, que novas me dais de Ceuta, do sítio em que está, e dos muros, torres e barbacãs, que a defendem?

Os olhos inclinaram-se logo para o experimentado cavaleiro, cujo semblante festivo, mesmo antes de responder, já dava esperanças de vitória.

Não foi, portanto, sem grande assombro de todos, que o prior, adoçando ainda mais o sorriso, e amaciando a voz, redarguiu a el-rei:

— Senhor, se quereis saber o que vi, e achei em Ceuta, haveis de conceder-me as quatro coisas que pedir!

— Dizei-as! — acudiu secamente o mestre de Avis, cavando a ruga frontal, e franzindo o sobrolho, como se a sombra de uma suspeita lhe passasse pela mente.

— Não hei de empobrecer as arcas do vosso tesouro! — replicou Álvaro Gonçalves com certa malícia, porque não lhe escapara nem o tom, nem a alteração da fisionomia no monarca. — O que preciso para dar o meu recado não é muito. Alguns punhados de areia, um novelo de fita, uma medida de favas, e uma escudela, creio eu, não hão de engordar o gato, que se faz parceiro dos ratos das vossas tulhas... segundo disse aquele folgazão de Hanequim homem de segredo, e de chistosa ideia!

Descrever o efeito que tais palavras produziram em quantos as ouviram, não seria fácil coisa.

El-rei que tinha ambas as mãos firmarias nas cabeças dos dragões, que rematavam os braços da sua poltrona, achou-se de pé sem o sentir, e instantaneamente.

Os Infantes imitaram-no, olhando uns para os outros no maior enleio; e o conde de Ourém, absorto, adiantou-se coisa de dois passos, indagando com a vista ansiosa se as feições serenas e reflexivas do prior davam indícios da loucura, que as suas palavras pareciam inculcar.

— Santa Maria da Oliveira! — exclamou el-rei meio irado, meio inquieto. — O que significa isto? Pergunto-vos por uma e nobre santa empresa, e dais-me em troca os remoques do meu jogral, e uma adivinhação de escudela e fitas?... Tornaríamos nós os velhos ao nosso tempo de crianças?

— Senhor — retrucou o prior sem se alterar, e com a maior placidez —, já contava com esse desagrado, e não me ofendo. Velho serei... mas sandeu ainda não, louvado Deus. Nunca me atrevi a joguetear com vossa real senhoria, e agora menos. O que disse, repito. Sem as coisas que apontei, não posso dar-vos o meu recado.

D. João I, cada vez mais confuso perante a gravidade do prior, e cada vez mais perplexo com a sua estranha pertinácia, correu a vista pelo parecer de todos, e lendo o mesmo espanto, cruzou em passos lentos toda a casa, como para tomar tempo de refletir, ou antes de conter a cólera.

O Condestável, que se tinha conservado silencioso, e em ar de meditação profunda, quando el-rei, na volta, tocou por ele, ergueu de repente o rosto, e deixou-lhe cair no ouvido estas palavras:

— Façamos o que ele pede, senhor. Aqui anda mistério.

Foi como um raio do sol, atravessando por nevoeiro denso.

O semblante do mestre desanuviou-se, e a severidade dos olhos e dos lábios fundiu-se numa risada alta, e sincera, pelo menos na aparência.

Aproximando-se do prior, e batendo-lhe no ombro com soltura jovial, o monarca observou-lhe cravando na dele a sua vista escrutadora:

— Adivinhai lá, d. Álvaro Gonçalves, o que Nuno Álvares acaba de me dizer?

— Sem ser adivinho, apostaria em como sei — replicou tranquilamente o prior.

— E o que perdeis e não for o que apostais?

— O primeiro bote de lança nos mouros de Ceuta, que já daqui requeiro!

— Ah! — murmurou d. João I, trocando com o Condestável um lance de olhos, que significava: não vos enganais, aqui anda mistério!

— O que sua mercê o conde de Ourém disse, é o que eu pedi. E sabeis por que falo tão certo, como se o escutasse? porque leio nos olhos do Condestável, que adivinhou metade do meu segredo — disse o prior com a sua usual tranquilidade.

— Seja! — exclamou o mestre, que, em coisas de guerra, não levava a bem, que outro, mesmo o conde, fosse mais pronto e entendido do que ele. — Faremos o que desejais; mas contai que não estamos em Ceuta, e que nessa areia não lavareis de leve as mãos da embaixada, que vos dei!...

E virando-se para os Infantes, que em presença do tom picado de seu pai, e do dissabor que lhe notavam, ainda não haviam proferido palavra, acrescentou:

— Vede, que bem concertadas respostas para tal feito! Um, perguntado, abre as mãos, que nem que lhe fugisse delas o açor, e põe os olhos no teto, como se lá estivessem as praias e os rochedos de África. O outro, estou-o inquirindo sobre as coisas que tanto me importam, e fala-me em feitiços, ou em alprestos para eles! Quem havia de cuidar, que homens destes anos, e de tanta autoridade, seriam capazes de responder assim ao meu recado?

E virando-se para Afonso Furtado, que baixara a cabeça, como réu convicto, escutando a repreensão do príncipe, disse-lhe em ar de zombaria:

— Não deixeis mal o prior. Ouvistes por lá alguma profecia, que nos conteis? Só nos falta isso para o auto sair em tudo gracioso!

À palavra profecia, o capitão-domar se soubesse grego, teria exclamado eureka!

O exórdio, que havia boa meia hora buscava em vão, assentava de feito numa profecia, e el-rei, sem o prever, acabava de restituir àquela alma inquieta o fio para se desembaraçar do labirinto.

Alçando a fronte, e estendendo o braço, Afonso Furtado saudou o monarca, e tão desassombrado como o prior do Crato, que as agudezas e as queixas do mestre achavam insensível, começou a sua resposta, depois de prover largamente os pulmões comprimidos, aspirando com estrondo uma forte golfada de ar:

Vossa senhoria o disse! — gritou ele. — Ceuta será nossa. Está escrito nas estrelas do céu, e repetiu-mo no chafariz da Almedina um mouro, chorando pelas barbas abaixo! Que mais precisais? Quando Deus é o piloto, não há recifes, pedras, nem ventos! O mar obedece, e os muros...

— Assopram-se, e caem! — atalhou rindo el-rei, que esta rude eloquência comovera pouco.

— E não seriam os primeiros! — observou o prior. — Vossa real senhoria há de lembrar-se que em Jericó ao som das trombetas se fez o milagre!... Descrida e pagã é Ceuta aos olhos de Deus, e não vale mais.

O Condestável inclinou devotamente a cabeça, e d. João I imitou-o, ajuntando, todavia, como corretivo, que se Jericó valia Ceuta, ele estava muito longe de valer Gedeão, abençoado pelo Senhor.

— Sois grande sabedor, d. Álvaro Gonçalves, mas se não me trazeis melhores notícias do que Afonso Furtado, receio muito que meus filhos se armem cavaleiros na Sé de Lisboa, depois de vistosa justa!

— Deus tal não permita, senhor! — exclamaram os príncipes.

— Dai ao prior o que ele pede, e veremos! — acudiu o Infante d. Pedro.

— Darei! Darei! Mas se anda nisto mistério, como quer o Condestável, espero que não serão nenhuns feitiços... Demais, afronta fora crê-lo, de tão religioso cavaleiro!

E, saindo, foi ele próprio mandar trazer o que Álvaro Gonçalves tinha requerido.

Apenas el-rei se apartou, Álvaro Gonçalves, pegando na mão do Condestável, e sorrindo-se, perguntou-lhe:

— Dir-me-eis, Sr. conde de Ourém, que astrólogo vos ensinou a adivinhar os segredos alheios? Por que julgastes que havia mistério na minha resposta?

— Porque, vendo-vos, com todo o vosso juízo, falar assim a el-rei, recordei-me de uma história dos romanos antigos, que uma noite nos contou o meu capelão em Arraiolos.

— Ah! E julgais?

— Que aquele imperador d. Tarquínio, que andava no seu jardim degolando as papoulas, podia muito bem ser o mestre do prior do hospital.

— Adivinhastes, Sr. Condestável. É também em figura que eu quero mostrar Ceuta a sua senhoria.

Ao mesmo tempo o Infante d. Henrique, tomando pelo braço a Afonso Furtado, dizia-lhe:

— Que profecia era aquela do mouro, em que tocastes a el-rei meu pai?

Santo nome de Deus! — exclamou o capitão-da-mar benzendo-se contrito, e abrindo excessivamente os olhos. — É um caso, que se outro mo contasse, pregava-lhe no rosto com um: mentis pela gorja! que o ensurdecia. Antes de lá ir agora, já eu sabia, que Ceuta havia de ser de el-rei!

— Como dizeis? — insistiu o Infante d. Pedro avizinhando-se mais.

Então Afonso Furtado referiu-lhes a história da sua profecia, com todas as miudezas, em que era fértil a sua retórica militar, não se esquecendo de apimentar os pontos mais notáveis com os esconjuros, e devotas exclamações, que o assunto suscitava.

Sendo criança o capitão-do-mar tinha acompanhado se pai à África, onde o enviara el-rei d. Pedro; e desembarcando ambos em Ceuta, e discorrendo pela cidade, foram parar a um chafariz, onde bebiam alguns cavalos.

Deteve-os a gentileza dos animais, e demorando-se ele um pouco mais a admirá-los, um mouro velho, que ali chegava, perguntou-lhe de que nação era, e sabendo ser português, quis que lhe dissesse o nome de el-rei.

Ouvindo que se chamava d. Pedro, interrogou-o acerca dos filhos que tinha, e repetindo-lhes que não passavam de três, d. Fernando, d. Dinis e d. João, tomou a inquirir se não haveria outro. Depois de muito cismar, Afonso Furtado, que, segundo observamos, não realçava pela agudeza da memória, ocorreu-lhe citar a d. João, mestre de Avis, que por ser filho natural não tinha apontado ainda.

Ouvindo este nome, o velho suspirou, e emudeceu de tristeza; e instando-o para que ele explicasse esta mudança repentina, a princípio não respondeu, senão desatando em pranto.

Por fim, vencido das perguntas do mancebo disse-lhe em português, que falava corretamente: — A minha dor é pelo futuro, e não pelo presente. Esse d. João, que dissestes, será aclamado rei, e depois de grandes guerras e vitórias contra o senhor de Castela, feita a paz, há de passar o mar com uma formosa armada, conquistar Ceuta em um só dia, e os seus cavalos virão beber a este mesmo chafariz!

— Assim que — prosseguiu o honrado cavaleiro — vendo eu cumpridas até aqui todas as profecias do mouro, e coisas tão longe da ideia de todos, vede se não terei razão para crer, que não nos faltará mais esta. Tão salva seja a minha alma, como eu espero em Deus ver Ceuta em um só dia, e ouvir missa na sua mesquita no seguinte.

— Por São Jorge, boa palavra dissestes, senhor Afonso Furtado! — bradou o Condestável. — Se eu não cresse em profecias, acaso teria ido aonde fui, e a Aljubarrota, depois do que ouvi ao alfageme de Santarém?

— A escudela e o mais está disposto no aposento vizinho — disse da porta da câmara a voz cheia e vibrante de d. João I. — Quererá agora d. Álvaro Gonçalves dar-nos o seu recado?

O prior sorriu-se, inclinou a cabeça, e sem proferir palavra, seguiu os Infantes e o Condestável.

Apenas entraram, e antes de se aproximar da mesa, o cavaleiro do hospital virou-se para d. João I e disse-lhe:

Se as novas, que te trago de Ceuta, e que vou dar-vos, forem alegres como creio, fé e palavra de rei, prometeis-me, senhor, que será meu o primeiro bote de lança contra os infiéis?

O mestre de Avis assentou-lhe a mão no ombro, respondendo em tom jovial:

A bilha de leite ainda vai à cabeça, senhor prior: vede não ma quebreis, pedindo fora do lugar.

— Vossa real senhoria o dirá! Mas por este prêmio, que requeiro, juro-vos que não trocava o maior, que me quisésseis dar.

— Ah, d. Álvaro Gonçalves, bem sei eu que há aí mais de três cavaleiros moços, que vos invejarão o feito. Sela! Tereis o primeiro passa, e o primeiro bote da lança em Ceuta... ainda que eu vá adiante, ou o Condestável.

E voltando-se para os Infantes, acrescentou, no mesmo tom prazenteiro:

— Vedes, mancebos, como são os velhos do meu tempo? Não é cedo ainda para nos pordes ao canto, como ruins, que prestam para pouco! Se formos, por lá, vereis o que se fez em Aljubarrota e Valverde!

Dirigindo esta frase laudativa ao seu fiel companheiro de perigos e vitórias, o Condestável, d. João I acenou ao prior, que podia começar, e com a atenção de um general, e a curiosidade de um guerreiro moço, principiou a seguir todos os movimentos de Álvaro Gonçalves, primeiro encrespando a testa, e encolhendo os ombros, como desconfiado ainda, e depois, expressando sem rebuço na fisionomia a admiração e o prazer, à medida que a demonstração visível lhe falava aos sentidos e à inteligência.

O Condestável parecia a estátua do silêncio, e só nos olhos retratava todas as impaciências da sua índole ardente, e do seu espírito consumado nas artes da guerra.

Quanto aos Infantes, postos em círculo em volta do prior, e sem pestanejar, procuravam ler-lhe na vista, ainda antes das mãos o realizarem, qual seria a significação daquele enigma.

O único indiferente e senhor de si era Afonso Furtado. Esse reputava inútil o estudo e a prudência. Tinha a segurança do êxito na profecia do mouro, estava certo da queda da cidade, quer a acometessem dez, quer cinco, quer mesmo um só dos esforçados cavaleiros de el-rei.

Entretanto Álvaro Gonçalves tinha formado de areia o monte, em que Ceuta se levanta, cingindo-o em vez de muralhas com a fita, assinalando as torres, casas e ruas com as favas, de modo que aquela imagem rude, mas verdadeira, mostrava a todos a fiel representação da praça.

Quando terminou, e voltado para el-rei, parecia esperar que o interrogasse; o ânimo real e o grande coração do mestre de Avis não puderam conter-se, e lançando-lhe os braços ao pescoço com viva efusão, exclamou:

— É maravilhoso! Sois muito sabedor, senhor Álvaro Gonçalves!... Fui injusto, duvidando; d. João I devia lembrar-se de que um recado confiado ao prior do Grato ficava tão seguro e bem entregue, como a ele próprio em pessoa!... Senhor conde de Ourém, vós é que não vos enganastes!

Estavam saldadas as contas. As palavras do mestre de Avis acabavam de apagar a mágoa, que poderiam ter causado os repentes e suspeitas de el-rei!

Álvaro Gonçalves, beijando-lhe a mão, esqueceu nela uma das raras lágrimas, que havia chorado em sua vida, e quando abriu a boca para agradecer, a voz, trêmula de satisfação íntima, balbuciou momentos antes de poder soar clara:

— Ceuta será de Portugal, e não há no mundo quem a mereça como vós! A pérola do Mahgreb, o paraíso das formosas, segundo os descridos a apelidam no seu orgulho, só a mão vitoriosa de d. João I podia conquistá-la. As proezas da Távola Redonda não sairão fabulosas desta vez, diz-mo o júbilo da minha alma!... Nunca senti o que agora sinto senão em vésperas de grandes feitos!

— Ah! d. prior, d. prior! O rei bem velho o tendes já para aventuras e dos bons cavaleiros da Távola Redonda uns são mortos, e outros...

— Choram a falta de um rei Artur, flor de lis, e senhor deles, que os saiba conhecer! — atalhou o Condestável, carregando o rosto, e dando à voz o tom rude e imperioso, que anos atrás faziam Nuno Álvares Pereira tão desagradável pela aspereza do seu voto no conselho, como pelo arrebatamento das palavras fora dele.

— Os cavaleiros da Távola Redonda — prosseguiu ele — não farão míngua em Ceuta, enquanto estiver aqui Álvaro Gonçalves, que é tão bom como d. Galaaz, e Afonso Furtado que não cede nem a d. Tristão; e eis-me a mim também e não sou soberbo, que não valho menos que d. Lançarote... Assim não corteis em nossas famas, e na de vossos Infantes novéis, porque tal veja eu agora aqui, vestido de seda, e fino de corpo, que lá, com braçais e cota, não voltará o rosto nem a mil daqueles cães!

O mestre de Avis percebeu que agastara o Condestável, e querendo asserená-lo, sem descer todavia a desculpar-se, replicou sorrindo:

— Não tirei da conta o rei Artur, conde de Ourém, porque velho e cansado o fiz; mias assim mesmo, não é esquecido. Vamos, Sr. prior! Explicai-nos o vosso desenho; e vós, filhos, aprendei de Nuno Álvares e Álvaro Gonçalves a fazer primorosas todas as vossas coisas. Com homens assim tem razão o prior; as proezas da Távola Redonda nunca se hão de chamar fábulas! E vós, Afonso Furtado, não nos direis senão mofinas profecias? Tem água o porto de Ceuta, para nadarem as galés? Vede bem, capitão-do-mar! Seria grande afronta da cruz de Cristo, que os infiéis do alto das ameias apupassem uma armada de Portugal!... Marcastes os escolhos?

Quem reparasse no rosto do honrado cavaleiro, só a custo suspenderia o riso.

Ouvindo as perguntas do mestre de Avis, as faces rugosas abrasaram-se-lhe, e os olhos, dúbios entre o receio e o pesar, exprimiram uma espécie de queixa silenciosa.

O Condestável compadeceu-se do seu enleio, e atribuindo-o a menos cuidado no desempenho do encargo, quis meter a mão no diálogo, poupando ao seu companheiro de armas alguma censura mais severa.

Para atrair a atenção de el-rei, Nuno Álvares Pereira exclamou:

— Tomara-me eu sempre com as profecias de Afonso Furtado! Se em Aljubarrota o coração nos não dissesse que havíamos de vencer, qual de nós, vendo aquele imenso poder, não julgaria próxima a última hora?

— Falais pelo vosso alfageme, Sr. conde de Ourém? De mim afirmo, que melhor astrólogo foi o segredo. Se metade dos que pelejaram, como leões, soubesse a hoste que iam ter nos braços, juro-vos, que bem poucos aguardariam ali a morte!

— Quem sabe, senhor? Em Valverde rodeavam a sina do mestre de Santiago muitos mais, e nenhum dos meus voltou as costas! São lances.

A recordação das passadas proezas, para o mestre de Avis, era a mais deleitosa prática, que podiam oferecer-lhe; mias a ideia de Ceuta, não menos gloriosa como feito, despertou-se com memória das suas cavalarias na guerra de Castela, e o capitão-do-mar, que, cheio de regozijo, escutava os dois guerreiros, viu-se novamente entalado entre as interrogações de el-rei.

Apesar dia sua fervorosa crença nos vaticínios do velho da Almedina, Afonso Furtado, como homem de consciência, tinha executado as ordens do monarca; e aproveitando a escuridão da noite, dentro do seu esquife, ou escaler, sondara o fundo da baía do Ceuta, e à força de zelo e de obstinação havia gravado na lembrança todo os acidentes daquelas paragens.

Confiando-lhe as galés e caravelas de Portugal, d. João I podia ficar seguro de que não as veria esmigalhar contra as praias, tentando em vão o cometimento da bela cidade, que o ciúme do Islão encerrava em um cinto de grossas e torreadas muralhas, como a sultana cativa nas delícias do harém.

Não menos perito nas artes da guerra marítima, do que Álvaro Gonçalves Camelo nas pelejas e assaltos de terra, o que prendia a voz na garganta ao cavaleiro velho fora o receio de soltar perante o soberano e os Infantes algumas daquelas frases suas, e só suas, que nas horas de ócio, e com grande mortificação do orador, serviam de saboroso pasto às risadas dos príncipes, e por eles baixavam à mordacidade inexorável dos pajens.

Em uma palavra a moléstia de que adoecia o capitão-do-mar era falsa vergonha. Não sabia distinguir, que nas coisas do seu ofício longe de excitar o riso, merecia conceito e crédito!

Mas os olhos de el-rei, acesos em curiosidade, viravam-se para ele, e por mais tempo não podia escusar a resposta. Se fosse Alexandre decerto cortaria o nó górdio com os gumes da espada; não o sendo, preferiu calar-se.

Cruzando, pois, os braços, e armando-se de uma ousadia tal, que ele mesmo se espantava, saiu do apuro, como os diplomatas costumam evadir-se a iguais apertos.

— Senhor — acudiu convulso e rouco —, o que vi não é segredo meu, mas vosso. Depois de me ouvirdes, à puridade, falarei diante de todos, se quiserdes. Até lá, mais fácil será matarem-me do que dizer eu uma palavra!

— Seja; mas com uma condição, ou penitência! — observou o mestre de Avis. — No fim do vosso recado hei de saber por miúdo toda a profecia do mouro, com quem falastes em Ceuta!

Os príncipes não levaram a mal a escrupulosa abstenção de Afonso Furtado; mas quem pode agradar a todos?

O Condestável, esse encolhia os ombros, e sorria-se. Para ele o súbito recato do capitão-do-mar tornava-se mais do que suspeito.

Da sua parte, el-rei, com a mais viva esperança nos olhos, e uma alegria juvenil no rosto, assentava-se para ouvir o prior, cujas palavras iam decidir do êxito da empresa.


CAPÍTULO 3: ARMAS E AMORES.

En Granada está el-rey moro
Que no osa salir della:
De las torres del Allambra
Mirando estaba la rega
Mirava los sus moriscos
Como corrian la tierra.
    Timoneda, Rosa de Amores.

Bem te conheço, ventura,
Que me quiseste mostrar,
O prazer quão pouco dura,
Quando o queres desviar!
Diogo de Mello, Cancion de Rezende.

— Grande empresa figurais, senhores! — exclamou o mestre de Avis, erguendo-se com o gesto e o rosto iluminados de nobre ardor. — Se d. João I — acrescentou — ainda contasse os vinte e sete anos, que tinha em Aljubarrota, ouvindo-vos agora, sabeis o que faria? Amanhã vestia a cota, afivelava a capelinha e com a bandeira da serpe em uma das mós, e Jesus na boca, ia ganhar fama sem mácula, ou morrer com a glória do martírio, rompendo esse robusto cinto de muralhas, donde a infiel, reclinada e segura, desafia as iras da cristandade! Mas!...

Aqui desceu uma nuvem de repente sobre a fronte do monarca, e os cuidados do príncipe cortaram a voz ao cavaleiro.

Os infantes, já de pé também, com as faces acesas nas abrasadas cores do entusiasmo, parecia que nem pestanejavam, tão fitos e ansiosos cravavam os olhos em seu pai.

O Condestável, sereno, mas com as pregas da fronte mais fundas, e a vista distraída atrás do pensamento, que naquele instante lhe voava longe com a alma, recolhia-se consigo, e na ousadia galharda do seu espírito, medindo os perigos futuros pelos passados, abria com júbilo o coração à risonha esperança de reverdecer as cãs no meio do fragor das armas, entre aclamações e triunfos.

A presença dos embaixadores destacava de todas pela tranquilidade.

Em Afonso Furtado o semblante exprimia a rude confiança, estribada na crença, que nada teme, nada prevê e nada calcula.

No prior do hospital, o aspecto guerreiro e venerável, os cabelos e a longa barba, caindo em fios de prata sobre a gola bordada, revelavam a certeza do êxito, filha do valor indômito, e da reflexão sisuda, que o mesmo impossível não soçobra, porque sem o desprezar, conta com os poderes da inteligência e da vontade, para lhe dizer, como Vasco da Gama aos mares tenebrosos, e Aníbal aos penhascos intransitáveis dos Alpes: — Abrir-vos-eis diante de mim; chegou a vossa hora; Deus o quer!

Franzindo o pesado reposteiro, que vedava a entrada, quem, penetrando, pudesse ler naquele momento o segredo, que assim fazia estremecer tantos peitos generosos, sairia convencido de que a ocasião é tudo, quase, nas ações humanas, ainda nas maiores; e que uma palavra ou um lance inopinado bastam às vezes para decidir da sorte dos grandes homens e dos poderosos impérios.

Um só de menos, na sala do conselho da Batalha, e Salat Ben Salat no veria talvez a sua velhice afrontada, fechando tranquilamente os olhos no soberbo castelo, donde contemplava as ondas, que se debruçavam como cativas, para banhar os pés à sua formosa cidade.

Uma voz de prudência, que falasse, e no ímpeto do primeiro e cego arrojo, Portugal, abraçando-se além do estreito com a orgulhosa Amazona do Mahgreb, apercebia para a luta, talvez desfalecesse no encontro, como século e meio depois se prostrou com o seu rei nos areais de Alcácer!

A hora dos reveses não tinha soado ainda; Deus mandou os dias de esplendor adiante dos dias de lágrimas e de tudo!

Ceuta estava fadada para se dar começo nela aos belos rasgos da mais pura e justa das nossas cruzadas; e rodeado de seus heroicos filhos, flor e esperança da coroa popular, cingida pela vitória, d. João I era o rei apontado pela providência para levantar nas praias da África a luva, que Tarik arremessara contra as Espanhas, quando ousou estampar o selo da servidão na formosura profanada das suas opulentas cidades.

Do alto dos montes africanos, subjugados, é que o Infante d. Henrique alongou depois a vista e a ideia pelas águas tempestuosas e nunca navegadas; e foi ali, decerto, que a visão gloriosa do futuro império, prometido a seus netos pela constância do descobridor, lhe apareceu no silêncio profundo das horas de aceso imaginar.

O sangue espargido em Ceuta era a semente; o Oriente devassado serviu de prêmio.

Depois, abertos os caminhos, e consumados os desígnio do céu, anoiteceu para nós, e os anos de declinação precipitaram-se rápidos e sucessivos.

Quando o reino, com os prantos ainda por enxugar, viu alçar nas torres e galeões do Tejo os leões de Castela, havia muito que em Arzila se haviam arriado nas quinas levantadas por Afonso V!

A agonia principiou ali; Filipe II o que fez só foi torná-la menos lenta, e mais dolorosa!

Depois do que se leu no capítulo antecedente, escusado é observar que a exclamação que acabamos de ouvir a el-rei tinha sido arrancada pela pintura, que Álvaro Gonçalves Camelo ajuntara à imagem de Ceuta, tão artificiosamente representada.

Sem esconder, nem atenuar as dificuldades; pelo contrário, avultando-as como capitão e conselheiro, o prior concluíra, recomendando o feito a d. João I, e assegurando-lhe que a fortuna havia de socorrer a audácia, sem se esquecer ao mesmo tempo de notar que um reinado confirmado no campo da maior batalha, que pelejara Portugal, não podia encerrar-se melhor, do que uma proeza temerária e arriscada no parecer de todos, mas entretanto infalível e segura, sendo preparada com recato, e executada com vigor e celeridade.

Falar ao mestre de Avis esta linguagem era despertar na sua alma, elevada e sempre cobiçosa de glória, todas as recordações e impulsos da idade florescente.

Mas os trabalhos do governo são da melhor escola da prudência, sobretudo para os que nasceram com as raras qualidades do filho de d. Pedro o Justiceiro; e embora cedesse aos fogosos instintos da sua índole cavaleirosa, d. João I acalmou-se, apenas a razão lhe disse as primeiras palavras.

A par da ideia de Ceuta rendida surgiu a lembrança dos sacrifícios requeridos para a empresa, e da incerteza do resultado.

Travando, pois, do braço ao conde de Ourém, e apertando-se, o mestre, antes de proferir a resolução final, quis certificar-se acerca do valor das suas dúvidas, expondo-as sem rebuço perante o homem, que era depois dele, sem contestação, o mais competente para as resolver.

Enquanto os dois falavam, os Infantes, ardendo em impaciência, apertavam de perguntas o prior, e Afonso Furtado, não se cansando de aplaudir a famosa liça que a bela cidade oferecia à sua honrosa emulação.

Álvaro Gonçalves merecia o conceito de discreto, e contava com viveza.

O capitão-do-mar, a despeito da taciturnidade, que proclamara com a última prova da sua diplomacia rústica, nas coisas do seu ofício sabia ser claro e conciso sem estudo; e ambos tinham examinado a cidade com os olhos diligentes de quem busca na armadura do contrário a malha rota por onde a lança deve romper.

— Senhor — dizia o prior do Crato ao Infante d. Pedro — Ceuta dorme, porque a soberba não imagina que nenhum braço a alcance! Não a acordemos, e vereis que entre o sono e o temor, antes de dar bem por nós, as armas hão de cair-lhe da mão e ficará rendida. Não sou novo nestas coisas, nem as converso de leve. Se el-rei, vosso pai, quiser ouvir-me, ponho a cabeça em como conquistará a melhor joia da sua coroa com menos sangue do que nos custou o cerco de Coria ou a entrada de Caliza.

— Ah, prior meu amigo, receio bem que vos enganeis — acudiu por detrás deles a voz cheia e sonora de d. João I. — No dia em que formos sobre Ceuta, não sé ela acorda, mas toda a mourisma de África, se não tivermos ainda por cima nos braços os bizarros cavaleiros de Granada. Julgais que assim se perde uma cidade, que é chave de dois mares, e porta franca de Espanha?

— Se lho disserdes, decerto! — respondeu Álvaro Gonçalves, simplesmente sorrindo.

O Condestável encarou-o momentos, e, pegando-lhe na mão, e interrompendo o silêncio que guardara até ali, perguntou:

— Ensinai então o modo de armar galés e caravelas, e de embarcar besteiros, escudeiros, e a flor da cavalaria, sem sermos sentidos?

O prior não se perturbou. Risonho, alegre, e inalterável, como sempre, correspondeu ao gesto amigável, e redarguiu:

— Seria ensinar o mestre. D. Nuno Álvares Pereira não se esqueceu ainda do seu tempo, nem de como o adiantado de entre Tejo e Guadiana costumava bater às portas de uma cidade descuidada, enquanto algumas lanças, correndo o campo por outro lado, traziam o mestre de São Tiago, e os seus, atrás de si, enganados como crianças!?

— Desta vez adivinho eu primeiro do que o Condestável!

— atalhou el-rei com uma risada. — Poremos o ramo em uma porta, e os olhos na outra. Mas ainda assim, aonde hei de ir juntar navios e cavaleiros para tamanho feito? Quereis que os vá pedir ao mouro do chafariz da Almedina, que Afonso Furtado ateima que há trinta anos me via já senhor de Ceuta?

— Senhor, onde Deus está tudo se faz! — exclamou o Condestável com ar grave. — E certo foi Deus que inspirou a suas mercês os Infantes a ideia desta empresa. Aqui a tendes diante de vós, a cidade que é hoje a esperança e a altivez dos infiéis; e diz-me o coração, que três meses não serão passados sem que os nossos cavalos bebam na mesma fonte onde agora bebem os de Salat Ben Salat.

E, dizendo isto, o conde de Ourém apontava para a mesa, em cima da qual o prior tinha figurado sobre areia os contornos e muralhas da cidade.

— E em meu lugar, desta nobre terra, passaríeis a África, vós, d. Condestável, só fiado nessa esperança, que um rolo do mar mais forte, ou uma onda de mouros mais valente, pode sepultar? — instou o mestre de Avis, que ainda resistia talvez para obrigar assim os conselheiros a pesarem melhor os obstáculos.

— Passaria! — replicou Nuno Álvares Pereira, pondo ao mesmo tempo os olhos cheios de viveza e de valor no rosto de João I onde era fácil descobrir o combate dos desejos do guerreiro com a prudência do monarca.

Houve uma curta pausa.

Os Infantes, silenciosos, dobravam o joelho diante de seu pai, enquanto o prior do hospital indicava com o dedo um dos lugares da cidade figurada, acrescentando com íntima confiança:

— E querendo São Jorge e a Virgem aqui temos, sem engenhos, nem trons, aberta no muro a porta para a entrada!

D. João I seguiu com a vista o gesto de Álvaro Gonçalves, e daí correu-a por todo o plano da praça. Depois a ruga frontal cravou-se-lhe mais, as pálpebras baixaram-se, e por mais de três minutos conservou-se como adormecido.

Quando tornou a erguer a cabeça, as pupilas despediam chamas, e o semblante parecia radioso.

Todos soltaram um grito, ou antes uma aspiração de alegria.

O mestre de Avis acabava de ver em espírito a vitória, e Ceuta estava ganha!

Daquela hora em diante, de todos era ele o mais impaciente.

— Senhor Álvaro Gonçalves, se o Condestável de Portugal afirma que o rei pode passar e ir a Ceuta, d. João I não ficará atrás, nem dirá que não. Mas a cidade nunca será entrada por onde vós marcais. Não a vi, mas ou me engana esta figura, ou vos seguro que Ceuta cai num dia, senão perdemo-la para sempre. Vede!

E sentando-se defronte do bufete, principiou a notar os sítios mais defendidos, e os mais acessíveis, como se da popa da sua galé, ou correndo a cortina dos muros, os estivesse designando.

É que cl. João I, como César e Alexandre, nascera fadado pela vitória. Num relance, e por inspiração, adivinhava, em momentos, o que outros, embora consumados e experientes, não podiam alcançar nem depois de largas meditações.

Deixando-o no meio do conselho, que o escuta com mudo assombro, aproveitemos a ocasião, e lancemos também os olhos para a pérola do Islão, que a essa hora descansava bem alheia dos perigos, que a aguardam. Transportemo-nos a Ceuta, e demos uma ideia rápida da sua riqueza e formosura.

Para sabermos quanto ela merecia as lágrimas inconsoláveis, que os seus derramam, será necessário ressuscitar do passado a sua imagem, emprestando-lhe as cores da vida.

O que hoje resta dela é apenas a sua sombra, ou parece antes o esqueleto da bela cidade que Salat Ben Saiat pedia pelo resgate de um Infante, pelo filho do seu conquistador!

Como todas as terras, que deixaram memória de si na existência das nações, Ceuta esconde a origem nas trevas dos tempos.

Antiga cabeça da Mauritânia Tangitana, levantada na África citerior, como vigia e guarda de dois mares, as suas galés, despedidas como flechas, podiam dentro em horas vencer a distância, que separava os mouros de Granada e de Gibraltar de seus irmãos na crença.

Quem a fundara?

Em que século se coroaram de torres os altos, em que jaz assentada, e se fecharam de muros as praias, onde, desdenhosa e gentil, veio pedir às águas que lhe beijassem quase o cinto, zombando da fúria das vagas, quando a tormenta as quebra contra ela?

Eis o que ninguém sabe com certeza.

Os romanos, chamando-lhe linda, disseram-lhe que tirava o nome dos sete montes, que por semelhança apelidavam os sete irmãos.

Os árabes, mais imaginas os e ardentes na sua admiração, exclamaram, vendo-a: és o paraíso das formosas!

Nada mais. Que lhe amassassem os cimentos os netos de Noé, duzentos e trinta anos depois do dilúvio, segundo querem fábulas orientais, ou que se ignore a data do seu princípio e o nome do primeiro fundador, o que é mais natural, a sua grandeza era invejada pelas suas opulentas rivais, as filhas do andaluz; e a nobreza, de que sempre se ufanara, nunca lhe fora disputada.

Romana, goda, e árabe, cada senhor, que a apertou nos braços, brindou-lhe novas joias para unir às que já tinha; e entretanto nenhuns a prezaram mais do que os crentes do Profeta.

Okba, governador de África pelo califa Yezid, depois de contar os triunfos pelas batalhas, voltando os passos para o Ocidente fez de Ceuta e de Tânger as duas pérolas da sua coroa de conquistas.

Mas dos que a amaram, nem todos foram generosos como ele.

O ciúme custou-lhe muitas vezes lágrimas e ruínas.

Abdul-Mumen não lhe perdoou a fidelidade com que hasteou as bandeiras da raça desditosa dos Almorávides; e não contente de a humilhar, despovoou-a; e os infelizes habitantes, com os olhos turvos de pranto, embrenhando-se pelos desvios das serras, gemeram a última saudade, descobrindo, ao longe, as labaredas enroladas no teto hospitaleiro, que fora o abrigo da inocência de seus filhos e da velhice de seus pais.

A vingança do bárbaro inscreveu-se terrível nos panos derrocados dos muros, nas torres e ameias derribadas, e nas paredes rotas e denegridas pelo incêndio.

Sentada, como a antiga Jerusalém, à beira das suas praias desertas, e sobre os restos da passada magnificência, a desconsolada filha de Habat, quantas vezes não estendeu a vista chorosa pelos mares, ermos das suas galés, e sobre o solo requeimado e deserto, que anos antes ornavam as artes da paz, e as voluptuárias e suntuosas criações da arquitetura dos poetas artífices de Sevilha e de Granada?

Ao cabo de largos dias de silêncio e solidão, Iacub Almansor compadeceu-se e oferecendo a mão vitoriosa à prostrada cativa, disse-lhe: Erguete para tornares a ser bela entre as formosas!

E à voz do califa, voz de império e de restauração, os risos e cantos nasceram; os destroços e a mudez converteram-se em júbilos e grandezas; e Ceuta, esquecendo que o infortúnio tanto deve servir de lição às cidades, como aos homens, embriagou-se nos deleites; e, desvairada e soberba, não cuidou no futuro castigo, que a esperava.

Um dia (ano 1303) as galés de Mohamed Ai-Ornar cerraram as portas do mar à cidade despercebida, e os cavaleiros granadinos de Farax, de Málaga, em corrida atropelada rasparam-lhes as pontas das lanças pelos muros.

Ceuta despertava do longo sono da loucura nas amarguras de apertado cerco; e, sem defensores dentro, sem aliados fora, para se salvar, foi constrangida a pôr o joelho em terra, e a estender os pulsos aos ferros.

Al-Omar desonrou a vitória. Depois dos seus rigores a triste cidade, pela segunda vez despovoada, só tarde recuperou as galas perdidas, e abriu o seio quase infecundo pelas mágoas aos moradores errantes.

Os vestígios de tão repetidas assolações nunca se apagaram inteiramente da sua face; e os dias de prosperidade também nunca mais correram, como dantes, sossegados e ditosos.

O que lhe permitiu levantar-se, e rejuvenescer ainda, depois de tais reveses, foi a sua posição marítima, que nos louvores, cantados pelos poetas de Granada, é comparada ao trono de alabastro, onde reina a alva sultana das águas, senhora de lindeza e de poder.

Situada sobre o Atlântico e o Mediterrâneo, à boca do estreito, não tinha rival na costa africana, e o reino de Fez, apontando para ela com orgulho, não via quem lhe fizesse sombra, senão além das águas, nas deliciosas veigas por onde se espreguiça o Ganil.

Ao poente a ilha, em que está a Almina, comunicando a cidade por uma ponte, lançada sobre o fosso, que as divide, alongava-se em distância de uma légua, patenteando seguro ancoradouro.

Próxima e do mesmo lado, a serra de Ximera, denominada Alcudia pelos mouros, estampava nos céus os toques dentados. Da parte do Alcácer-Ceguer, em sítio fresco e puro de ares, o viçoso vale, marchetado de casas de recreio e de hortas enramadas de pâmpanos, toldadas da verde sombra dos pomares e arvoredos.

Defronte, o mar ora sereno, ora tempestuoso, quebrando na areia e nas rochas, das suas praias; e mais adiante, a Europa, a Espanha, mas tão vizinhas, que do monte de Gibraltar se veem brilhar as luzes em Ceuta, e que da cidade moura, em dias claras, podia Salat Ben Salat, nos eirados do seu castelo, descobrir toda a ribeira de Granada e toda a costa de Andaluzia!

Dentro do recinto fortificava ricos bazares e opulentas oficinas, porque os navios árabes eram infatigáveis em trazer à princesa do Mahgreb o tributo de todas as artes do Oriente.

Opulenta pelo comércio dos seus habitantes, Ceuta competia com os melhores alfagemes de Damasco, e com os mais apurados ourives e abridores de Bagdá.

As sedas lavradas nos seus teares, os tapetes tecidos pelos seus artifícios, e os panos de lã e de linho, obrados para consumo dos seus mercados, e até para regalo dos nazarenos, não tinham êmulos, em Marrocos, nem nas vistosas cidades dos reis da Alhambra.

Cortando de Tarifa, a galé do prior, e a de Afonso Furtado, passaram perto de Gibraltar, correndo com vento à popa, iluminadas pelo esplêndido sol de um dia de primavera.

No céu do mais fino azul, nem uma nuvem esvoaçava; e a atmosfera estava transparente de moda que os olhos ora buscando uma, ora outra costa, não perdiam o menor acidente do terreno, recreando-se no admirável espetáculo, que elas na sua oposição oferecem.

De ambos os lados as montanhas sobem em contornos grandiosos, e a severidade do seu aspecto condiz com os graves pensamentos, que inspira a vista destas paisagens, colocadas nos extremos de dois mundos, e com a ideia das duas civilizações tão diversas e contrárias, que, a algumas horas de caminho, se contemplaram com o mar de permeio, sem até hoje e entenderem.

Nas águas azuladas do estreito levemente crespas, a quilha do ligeiro baixei apenas rasgava uma fita de espuma; e os dois cavaleiros de d. João I, da popa, e a metade da jornada, já podiam distinguir sem esforço os aduares das tribos rústicas pousadas nela encosta das sombrias serras, e os rebanhos pendurados de fraga em fraga quase até o mar.

Fronteiro às águas, e banhando nelas as raízes, apresentava-se-lhes o monte dos sete irmãos, recortando os cumes da mesma feição, no crepúsculo da tarde, que declinava.

Mais alguns minutos de faina depois para os remadores, e os exploradores, que lhe vinham devassar os segredos, acharam-se dentro do porto de Ceuta, na península, que forma a extremidade meridional dia montanha, tendo diante de si do lado do meio-dia o vulto de Gebel-Zetut (serro dos bugios), e da parte leste o famoso Ahyla, hoje o Acho, eminência alterosa, sobranceira à cidade, e correspondente ao Calpe, ou monte de Gibraltar, a outra coluna de Hércules.

Adiante delas, a navegação antiga encolhia o voo às suas velas, ferida de terror, exclamava: non plus ultra!

E era assim!

Além, estão as regiões incultas; os povos rudes; e os costumes bárbaros. Além a civilização tem tudo a conquistar e a humanidade tudo a renovar, se quiser descer, com o seu orgulho, até à infância do mundo. Os filhos da Europa e do progresso coletivo de tanto séculos não voltarão soberbos, se, meditando sobre o nada das vaidades, que os cegam, tiverem ânimo para não desprezar o berço, donde saíram, quase semelhantes, os primeiros que os ensinaram.

Nem ao prior, nem ao capitão do mar lhes ocorreu decerto a mais leve sombra destas reflexões; o seu espírito e o seu coração estavam noutra parte; e que não estivessem, aqueles não eram ainda os tempos de tentar as abstrações filosóficas, que tentou o século seguinte, e que o imediato desenvolveu.

O seu empenho de guerreiros limitava-se a investigar na armadura de pedra da cidade querida do alcaide de Benallarin o ponto menos defendido para dar por ele entrada aos cavaleiros do mestre de Avis.

O resto pertencia ainda ao futuro, e os dois eram muito crentes para não se inclinarem reverentes perante a onipotência daquele, que tem fechados nas mãos o presente e o porvir dos homens e das nações.

D. João I, os Infantes, o Condestável, e os embaixadores discursaram por muito tempo, ponderando, com o plano defronte dos olhos, o risco ou as vantagens de cometer o assalto por um, ou por outro lugar; e as informações, que o leitor acaba de percorrer, e que procuramos substanciar, desatadas pelas perguntas e réplicas, entraram no exame como pontos capitais. Quando el-rei se ergueu, encostado ao braço do Infante d. Duarte, e, no meio dos príncipes d. Pedro e d. Henrique, se dirigiu paria o extenso corredor por onde se passava da sala do conselho para a comprida escadaria, que desembocava em um dos pátios interiores, os dois pajens Antão Vasques, e Álvaro Vaz de Almada, saindo ambos do profundo vão de uma das estreitas frestas pontiagudas, por onde a luz penetrava no dormitório, deram alguns passos para o monarca, e descobertos, e com os joelhos no chão, mostraram no seu respeito silencioso, que esperavam de d. João I a mercê de algumas palavras.

Todos se detiveram sobressaltados.

Os dois mancebos eram estimados na corte pela nobreza da índole, e pelo valor, que já prometiam apesar da verdura dos seus anos.

O Infante d. Pedro, sobretudo, que um deles servia, não pôde conter-se, que não exclamasse para seu pai, indicando-lhe Antão Vasque, cuja palidez quase lívida contrastava com o clarão febril das pupilas.

— Reparai, senhor, como vem desmaiado o vosso donzel! Grande caso tem, que não é ele dos que pedem socorro, se o pode escusar!

— Ouçamo-los, e depois veremos! — redarguiu o mestre de Avis, que não menos penetrante lera no semblante de mudado do pajem os sinais de uma dor inconsolável.

Adiantando-se então, com o riso na boca, e a maior brandura na voz, el-rei, com um gesto cheio de benevolência, fez erguer os dois novéis, e correndo a vista pelo seu rosto, disse para Antão Vasques:

— Que é isto, Antão Vasques? Tendes os olhos pisados como se chorásseis? Um donzel, que um dia há de calçar esporas de cavaleiro deixa vir a mágoa às faces?

O mancebo inclinou a cabeça, e quis responder; mas as palavras prendiam-se-lhe na garganta, e por maiores esforços que empregasse, não pôde suspender o pranto, que em fio se lhe desprendeu.

— Senhor — acudiu Álvaro Vaz de Almada —, o que Antão Vasques tem a dizer-vos não pode passar dos ouvidos de el-rei, e dos srs. Infantes; são dois minutos só que vos pedimos.

— Podeis falar! — redarguiu o mestre, encostando-se ao peitoril da fresta, enquanto Álvaro Vaz lhe contava a história dos amores de seu amigo, e o cativeiro da sua dama.

Enquanto ele falou, secaram-se as lágrimas do outro mancebo, e à palidez sucederam as mais vivas cores. Os olhos parecia que chamejavam; e quando o pajem do Infante d. Pedro chegou à conclusão do seu discurso, que, apesar de ignorante nos artifícios retóricos, soubera conduzir com tal destreza, que d. João I o escutara atento e comovido, el-rei exclamou:

— Por Deus e São Jorge, o santo cavaleiro! Não permita a Virgem, que tão guapos clonzéis vão acabar nas correntes da escravidão. Sós contra tantos os que fariam os dois?

— Ao menos, eu, acabarei junto dela! — suspirou Antão Vasques, que o seu respeito pelo mestre não deixava explicar em alta voz.

D. João I não era rigoroso com a mocidade, e por experiência avaliava que para as grandes almas o amor é força e estímulo de nobres ações.

Pegando com a bondade na mão do donzel, e cravando-lhe aqueles olhos perscrutadores, que liam até ao mais íntimo do coração, el-rei perguntou-lhe com amizade:

— A tua dama é formosa? E sabe a ternura com que a serves?

— Linda como as estrelas! — atalhou Álvaro Vaz, cuja índole impaciente não lhe sofria reprimir-se, nem mesmo diante de el-rei, que era o ídolo da sua admiração.

— Ah, ah! E vós, pajem travesso e paroleiro? também tendes inclinação, que vos leve a Ceuta, e vos faça abraçar o cativeiro, como a maior ventura? — acudiu o filho de d. Pedro!

— Triste donzel, e pior cavaleiro ainda, senhor, será aquele, que, enristando a lança, ou jogando um talho com a espada, não sentir a consciência limpa para bradar — Jesus! e não tiver na alma uma doce imagem para lhe dizer — amo-te!

— Sois poeta, Álvaro Vaz, agora o vejo! E os vossos amores também gemem na escravidão?

— Eu é que peno como servo, contando os dias que para mim são anos.

— Boa resposta! Mas não me contastes que íeis a Ceuta com Antão Vasques, se eu vô-lo concedesse? Deixais então?...

— Depois de Deus, senhor, pela fé jurada, deixarei sempre tudo no mundo, e até a própria vida!

Seguiram-se alguns instantes de silêncio.

Observando a lealdade daqueles dois generosos corações puros, que apenas principiavam a abrir-se à vida, e que entretanto podiam ser apontados por modelos aos mais finos cavaleiros, o mestre recordou-se dos anos ditosos e descuidados, em que também ele amara, não a coroa, mas a beleza ingênua de uma mulher, e involuntariamente enxugou os olhos úmidos.

Naquela idade a ação de Álvaro Vaz, oferecendo-se a afrontar todos os perigos para não faltar aos deveres sagrados da amizade, não se lhe representaria rara.

— Um já eu conheço — murmurou ele consigo —, agora O outro!

E virando-se para o donzel, disse-lhe:

— E vós, Antão Vasques, aceitastes? Consentis que Álvaro Vaz vos acompanhe?

— Senhor, para morrer, ou acabar com os pulsos carregados de ferros, não era preciso vir aqui. Se vistes lágrimas de criança nos olhos de quem a desgraça já fez homem, é porque o braço perderia a força, e o coração todo o valor, se ele me seguisse. Perdido eu, tendes um pajem de menos, e nada mais. Mas se Álvaro perecer por minha culpa, diz-me não sei que voz cá dentro, que ninguém remediará o mal!

— Sois dois bizarros moços ambos! — exclamou o mestre comovido. — E se o rei de Portugal, depois de ouvir, deixasse que um de vós se fosse arriscar, sem fruto e sem glória, merecia que lhe tirassem a coroa da cabeça. Antão Vasques, não haveis de morrer, e dentro de três meses, promete-vos d. João I que beijareis livre, e no seu paço, a mão de vossa dama. Fazei por sair a vosso pai, e o cavaleiro poderá então dizer-lhe, e a seu pai o que no pajem seria atrevimento.

— Três meses! — gemeu o donzel, em ar de dúvida.

— Tendes a palavra da sua real senhoria, Antão Vasques — atalhou Álvaro Vaz de Almada —, e é como se já vísseis cumprida.

— Por essa confiança, quero dar-te uma promessa também a ti — clamou el-rei. Se desejais ser armado cavaleiro até agosto não deixes o serviço de meu filho. Cansa-nos a paz, não é verdade? Pois bem! Até lá é provável que algum feito grande venha empregar as nossas lanças. Já não posso com estas sedes e estas guerras fingidas de montarias. Será bom que façamos todos uma caçada real, mas longe daqui, e com perigo de sangue e vida.

E dizendo isto, o mestre sorria-se, e nos olhos e no aspecto mostrava-se tão novo, e tão viçoso, como os dois pajens, que o ouviam estremecendo de júbilo, e de orgulho, porque el-rei lhes dera a entender a eles, mancebos sem autoridade nem experiência, o que ocultava dos anciãos mais consumados.

Mas é que d. João I antes de falar tinha-os sondado até ao fundo da alma, e estava certo de ambos, como de si.

Reportando-se, pois, e pegando na mão de Antão Vasques, el-rei acrescentou:

— Mancebo, quase que duvidastes da palavra do mestre de Avis; mas perdoo-vos, porque o amor é injusto, e cego. Por forte e bem guardada, que esteja Ceuta, e por cioso e feroz, que seja o mouro, que requesta a vossa dama, repito-vos: dentro de três meses haveis de beijar-lhe a mão. Agora segredo. Que ninguém saiba que d. João I vos disse isto! Nunca faltei a promessa que desse. Se não sabeis a última qual foi... perguntai em Aljubarrota, ou que interrogue seu pai, Álvaro Vaz de Almada! Assim, pois, ânimo, e esperança! Apercebei-vos Quero-vos extremosos amadores, e bizarros cavaleiros; porque se tornar a sair a campo hei de levar outra Ala dos Namorados!

E separando-se dos mancebos, depois destas palavras, que os esforçaram, e a que responderam as suas lágrimas de gratidão, o mestre de Avis, aproximando-se do Condestável, e dos outros fidalgos, disse alto calçando a luva, e afivelando o cinto da espada.

— Antão Vasques! Que me tragam o meu cavalo! Até aqui consolamos os que choravam segundo manda a caridade. Vamos agora depor os soberbos e castigar os que erram, que também é preceito divino. Não digam os nossos inimigos que esquecemos a vara da justiça. Quereis acompanhar-nos a Alcobaça? É para cavaleiros tais um passeio.

— Deus é justo! — disse consigo o prior do hospital metendo o pé no estribo no pátio da Batalha. — Mesmo pelo primeiro bote de lança em Ceuta não me queria eu ver como sua reverência, logo se verá diante de el-rei... Tanto bate a água na pedra até que a quebra!

Daí a momentos, rei, Infantes, Condestável, e pajens, tudo despedia a trote largo caminho do mosteiro de Santa Maria.

Pobre abade d. João de Ornelas! — que triste cena para o teu orgulho!


CAPÍTULO 4: O REVERENDO ABADE DE ALCOBAÇA

Vós mi difendestes senhor,
Que nunca vos dissesse reu,
De quanto mal mi per vós veu:
Mas fazedeme sabedor
Por deus, senhor, a quem direy
Quam muyto mal levey
Por vós, senon a vós senhor?
Cancion, de D. Dinis.

E de cabo: fere o teu filho da vara, e livrar-lhas a alma da morte. Sempre deve seer nembrado, o abbade e o que é, o nembrar-se o que é dito, e saber ca a quem chus é dado, chus lhi seeré demandado.
Regia de São Bento Abbade, Inéditos de Alcobaça.

— Deus é grande, e a sua misericórdia é infinita! — tinha exclamado o poderoso e opulento abade de Alcobaça, quando um escudeiro, coberto de pó, e escorrendo em suor, mais o fogoso cavalo em que montava, lhe entregou em segredo duas regras, rabiscadas a correr por um dos amigos do mosteiro de Santa Maria, que, ao conselho na Batalha, não deixara cair no chão as ameaças do Condestável, os sorrisos venenosos do prior do hospital, e as frases severas e irosas de el-rei.

— Não sou dos que inclinam a cabeça ao primeiro golpe, nem o furacão me lança por terra, ainda que leve adiante e si árvores e tetos! — prosseguiu o orgulhoso donatário. — Sua real senhoria pode vir quando quiser. Achará a quem procura!

Proferindo estas palavras, d. João de Ornelas levantou-se da sua cadeira abacial, toda esculpida de relevos, e alçando a fronte, que o peso de setenta e nove anos não vergara, encaminhou-se, com passos ainda firmes, para a porta da câmara imediata ande dois noviços, de olhos baixos e faces nédias, aguardavam as suas ordens.

Abrindo os dois batentes com certo ímpeto, e correndo pela casa os olhos vivos e perscrutadores, o abade tocou de leve no ombro ao mais novo, e, como se nada o inquietasse interiormente, sem reparar até que a sua presença parecia ter convertido os mancebos em estátuas, disse em tom alto, e com voz repousada:

— Chamai aqui Martim Anes, anadel dos meus besteiros, e Lopo Soares, capitão dos meus ginetes. Tenho que lhes dizer, e é recado de pressa! Despachai-vos!

Enquanto o correio, com toda a ligeireza de sua viçosa idade, e ardendo em zelo desprendia uma formosa corrida, que só parou à portaria, dando de peitos com o honrado anadel que recolhia, espreguiçando-se, d. João de Ornelas, com o mesmo gesto, e a mesma tranquilidade aparente, virou-se para o outro noviço, e acrescentou:

Vasco, ide à casa da leitura, e dizei a frei João Escacha que vos acompanhe com o livro da Regra de São Bento. Vede, não vos demoreis!

E sem mesmo seguir com a vista o segundo correio, que acabava de expedir, e que partira de tiro, com velocidade pelo menos igual à do primeiro, sua reverência tornou a tomar assento na sua poltrona, e com os cotovelos recostados em cima do maciço e lavrado bufete, esperou sem impaciência a chegada dos assessores temporais e espirituais, que mandara convocar.

A demora foi curta.

Em Alcobaça obedecia-se ao prelado, com presteza ignorada em alguns modernos tribunais, onde é pouco todo o tempo para sorrir do hirto e aprumado titular, que, na sisudeza pertinaz, homizia de ordinário a indigência mais lastimosa de todos os dotes do engenho e do estudo.

No momento, em que frei João Escacha entrava por uma porta dobrado em dois, arrastando, porque seria o mesmo impróprio dizer que transportava, o códice pedido, encadernado em couro de anta, e chapeado, como a burra de usurário antigo, o anadel dos besteiros entesava a sua corpulência hercúlea no meio da outra porta, cabeceando desengonçado mais de trinta cortesias, em dois minutos, e apagando em repetidas interjeições o teimoso pigarro, que trouxera do passeio às adegas de alguns vilãos seus protegidos.

O capitão dos ginetes, espécie de guarda de honra, que d. João de Ornelas compusera para maior glória da sua devota e reverenda pessoa, e que d. João I, nos dias de benevolência ou de aperto e necessidade, o autorizara a manter, mesmo depois de, terminada a guerra de Castela, o capitão dos ginetes não se apresentou tão cedo, e por uma razão digna de toda a indulgência de seu religioso amo.

Tinha ido ao couto de Evora arrecadar as multas, a que o prelado clemente sentenciara três vilãos cobiçosos, denunciados por um meirinho vingativo, pela culpa imperdoável de venderem mais barato o seu vinho antes de exaustas as cubas e os tonéis do mosteiro!

Lopo Soares, varão de consciência apertada, não quis deixar para outro dia o que podia acabar naquele; e apenas sua reverência lhe declarou o nome dos delinquentes, e o exortou a portar-se com inexorável rigor na correção, meteu o pé no estribo, e com cinco ou seis homens de armas, saiu a trote para despir os pobres, obra de caridade, às avessas, em que era entendido, como qualquer oficial de diligências, ou procurador de ausentes, hoje.

És o motivo, por que faltava ao ponto dado aquela seguríssima coluna militar da casa de Deus; e naturalmente, relendo o aviso do seu confidente da Batalha, o abade recordou-se da missão extraordinária, e levou-a em conta ao servo cuidadoso. Para estes serviços a memória dos grandes é sempre segura.

Entretanto, como o prelado conservava o rosto inclinado, e parecia abismado nas suas reflexões, nem o frade, nem o anadel ousavam transpor o limiar da porta; mas o primeiro, amarrado ao livro, desfazia-se em suspiros; e o segundo, em crua luta com o pigarro, amaldiçoava a traição da pipa, que lhe constipara uma garganta calejada à força de proezas.

Por fim, o abade despertou da meditação, ergueu os olhos, e dando por eles ambos, estendeu o braço, recostou-se ao espaldar, e disse-lhes simplesmente:

— Podeis entrar!

A voz do arcanjo, à boca do purgatório, não é decerto mais grata às almas ansiosas de ver o céu, do que o foram estas duas palavras do seu padre espiritual ao pobre frei João Escacha.

Mirrado de carnes, e trêmulo, não decerto por abusar das abstinências, mas talvez por ter esquecido demais o preceito do jejum, e o horror à gula, que os seus preciosos manuscritos esconjuravam com o feio nome de gargantoíce, o venerável monge adiantou-se, abraçando o ponderoso códice, e pôs no semblante grave do seu superior uns olhos mais do que piedosos, onde qualquer observador sagaz poderia ler sem custo ou grandes saudades mundanas ou veementes apetites culinários.

Esta muda súplica foi logo atendida.

D. João de Ornelas poupava o rigor para as ocasiões, e quando carecia de um serviço, adoçava com agrado a usual altivez da sua autoridade.

— Tendes aí um escabelo perto, frei João, assentai-vos, e esperai um pouco.

Voltando-se então para o anadel, que durante o incidente não interrompera, nem um instante, os mergulhos das suas cortesias, e a estafada ronca do seu pigarro, o abade acenou-lhe que se aproximasse.

— Quantos besteiros há no mosteiro de Santa Maria de Alcobaça? — perguntou sua reverência.

E, sem resposta, prosseguiu:

— Que armem os trons do castelo. As levadiças içadas e as portas com guardas! Dez homens, com bestas e virotes, em cada uma das torres! As ameias guarnecidas. Guardai-me todas as entradas do mosteiro menos a portaria. Se alguém entrar, não o deixeis sair depois, seja quem for!

— Mesmo el-rei, ou suas mercês os Infantes? — acudiu Martim Anes espraiando pelas faces rústicas um certo riso alvar, que, a seu ver, queria inculcar finura.

— Nem mesmo el-rei, e os Infantes — tornou o abade, erguendo-se —, tu o disseste! Se te pedirem as chaves do castelo — continuou d. João de Ornelas, no tom seco e breve, que lhe era habitual, quando ditava as suas ordens, ou as fazia executar — responderás que teu senhor, o árabe de Alcobaça, não as entrega senão àquela de quem as recebeu. Que vá tirá-las de cima do altar da Virgem. Se quiserem arrombar as portas, se chegarem à barbacã, os teus besteiros que retesem os arcos, e disparem os virotes, e os vilãos que armem os engenhos. Ao primeiro que acertar o tiro prometerás um prêmio.

O honrado anadel já se não ria; porque o ar e os modos do prelado ainda exprimiam mais do que as palavras.

Era claro, era evidente, que sua reverência contava com visitas, e que se dispunha a hospedá-las à moda antiga, como fizera aos castelhanos fugidos de Aljubarrota na ponte do Chaqueda; e para bem da justiça convém ajuntar em elogio de Martim Anes, que nele a alma não correspondia ao corpo, professando por isso decidida antipatia aos arremessos, às lançadas, e aos talhos de montante, ou de estoque.

Afeito às doçuras da paz, tinha aprendido a apreciar longe dos perigos a imensa indiferença, que vai de um homem morto, ou aleijado, a um homem vivo, inteiro e sadio; e estava na firme resolução de se divorciar da glória, porque só lhe aparecia coxa, torta, e manca!

Com tais disposições não admira, pois, que o anadel tremesse, como vime, e desbotasse em repentina palidez as assanhadas cores do rosto.

Lances daqueles eram o pesadelo contínuo das suas noites, e aziaga tarde se lhe figurava esta, em que se via obrigado a entalar os membros repletos, e mimosos de todos os deleites da carne e da preguiça nas duras solhas de um laudel, afogando a canseira dentro da oca e amaldiçoada panela de ferro chamada bacinete.

E por que havia ele de expor os dois olhos de açor, com que a natureza o brindara, e o precioso tronco, vaso de eleição, onde se despejava a flor das cubas dos moradores dos coutos reconhecidos ou antes lembrados de alguns esquecimentos das suas unhas rapinantes?

Corriam acaso risco as dobras, cem vezes recortadas, que aninhara para uma precisão em seguro esconderijo?

Ameaçava-o nos bens, ou na honra algum desar? Não! Era simplesmente sua reverência, acordando aborrido da velhice, que se lembrava de tornar às empresas guerreiras de há trinta anos, e que, sem compaixão pelos incômodos e calafrios de um servidor leal, o mandava cobrir de ferro, e oferecer o corpo aos tratos da armadura, que lhe esfolava a pele, e às setas e talhos de inimigos, que nem ao menos tinha a consolação de saber quem fossem.

Pareceu-lhe intolerável, injusto e atroz.

Era zombaria cruel!

Estes pensamentos, que o anadel não conseguia disfarçar na grosseira expressão do rosto, e que a vista penetrante do prelado não deixava escapar, chamaram de súbito uma nuvem à fronte de d. João de Ornelas.

Aproximando-se, lento e majestoso, do vulto colossal de Martim Anes, e batendo-lhe no ombro tão de rijo, que o gigante vergou, como se lhe caísse em cima o campanário do mosteiro, o abade mediu-o de alto a baixo com um olhar, aceso em chamas, que lhe atravessou o coração, disse-lhe com a voz fria e resoluta, que nos seus repentes fazia tremer os mais audazes:

— Martim Anes, o que disse ficou dito! Nem a el-rei, nem aos Infantes, nem ao Condestável, nem a ninguém! No arsenal dos teus besteiros há virotes bem aguçados, e nos eirados do castelo os trons ainda não se emperraram, nem às polés. O primeiro estranho que chega à barbacã, o primeiro cavaleiro que entra no mosteiro sem ser pela portaria, custa-te a cabeça. Em Santa Maria de Alcobaça, enquanto d. João de Omelas for abade perpétuo, não hão de comer pão covardes, nem traidores. Sabes que nunca falto ao que prometo; agora escolhe!

Mediaram bons cinco minutos antes que o queixo inferior do anadel pudesse unir-se ao seu vizinho. O medo paralisava-o.

Entre duas espadas afiadas, via a morte em qualquer dos lados para onde se voltava.
No castelo, se uma frecha viesse pescá-lo, ou se, tomado à viva força, lhe pedissem contas da resistência!

Fora dele, se não defendesse o mosteiro, ou o entregasse inerme, porque as ameaças do prelado nunca mentiam, e muito menos as que acabava de ouvir, e que o terror lhe agradava dentro da alma em letras de fogo!

Seguiu-se uma pausa, cortada de ansiedade, para Martim Anes, e cheia de impaciência ara cl. João de Onelas, que já se cansava de esperar que os dentes do anadel se descerrassem, e que a heroica resposta do seu zelo se transmitisse do coração aos lábios.

Como Martim Anes teimava na mudez, e dava ares de repetir o prodígio da estátua da mulher e de Ló, o abade, travando-lhe do braço, e arrastando-o quase, apesar da debilidade dos seus anos, e da corpulência da massuda vítima, levou-o ao profundo vão de uma fresta, e com ambas as mãos sobre largo peito do infeliz, exclamou, trêmulo de ira e de sobressalto:

— Martin Anes, reparai! Logo chega aqui el-rei, vem com ele o Condestável, e os Infantes. Se um só passar o arco da levadiça do meu castelo, custe o que custar, tens duas horas para te despedir do mundo; porque te juro pela alma de meu pai, e pela glória de meu bem-aventurado padre São Bernardo, que amarrado de pés e mãos te mando atar, como pelouro, a uma catapulta, e que te espalho os ossos partidos em mil pedaços por esses campos

— Senhor, Jesus! — gritou o anadel com os cabelos eriçados, e as mãos erguidas. — Que pecado é o meu para que me ameaceis assim?

— O anadel que treme como uma criança, mesmo nas costas dos inimigos, o que fará vendo-os ante si na hora da peleja? — replicou severamente d. João de Onelas.

— Senhor, vede se vos tomais desta vez com el-rei, que não ficará pedra sobre pedra no castelo, e que eu, e todos, morreremos pendurados numa forca! — clamou, dobrando os joelhos o honrado Martim Anes, enquanto as lágrimas vinosas lhe saltavam dos olhos inflamados, correndo em fio pelas barbas crespas e revoltas.

— Aí está! — atalhou o abade com um sorriso cheio de fel, e cruzando os braços.

O anadel, na sua inocência, ou antes do delírio do medo, persuadiu-se sinceramente de que abrandara com as suas magoadas palavras o coração de rocha de seu prelado, e mais animado, continuou:

— Vede que d. João I tem braços, que alcançam até Castela, quanto mais a Alcobaça. Pelo amor de Deus, senhor, não levanteis sobre nós a sua espada!

— Vilão fraco e aleivoso, que vozes de mulher são essas que estás soltando diante de mim na tua loucura? Cuidas que a idade me abateu, ou que d. João de Ornelas encosta o báculo, e tira a mitra, senão para empunhar a lança, e cobrir a cabeça com a sua capelinha de aço D. Rei, Infante, ou Condestável, em vindo a minhas terras, como contrários, imaginas que os hei de receber melhor, do que recebi os cavaleiros de el-rei de Castela, e as bandeiras de Leonor Teles?! Despacha-te, e obedece! D. João I pode pendurar-te na forca peã e popular dos teus iguais; mas eu, se, por cobardia tua, perdesse um palmo das barbacãs, ou das barreiras do meu castelo, asseguro-te que tal exemplo faria em ti, que a memória dele por muitos anos não esqueceria a cães desleais, capazes de morder a mão, que os alimenta!

É impossível pintar o estado em que ficou Martim Anes, depois destas palavras. Um defunto no seu caixão talvez tivesse mais cor nas faces. Uma criança castigada, talvez não chorasse mais.

Não havia forças, que o erguessem dos pés do abade, e este, que nunca observara tão rematado tipo de covardia, começava a afrontar-se com o espetáculo, e a votar interiormente as opulentas nádegas do anadel às cordas dos besteiros ou ao açoite dos cavalariços.

Sua reverência, conhecendo só agora toda a pusilanimidade daquela criatura, que a natureza por escárnio enriquecera com as aparências robustas, e o aspecto belicoso de um Aquiles, maldizia o apuro, em que se achava, forçado a confiar a segurança do mosteiro, e o timbre do seu orgulho, a mãos que só o roçar do ferro pelo ferro era demais para desmaiar.

— Quem o diria! — murmurava o prelado, olhando com desprezo para o anadel. — Cuidei que tinha comigo o açor, deixei-lhe cevar as garrar na relé dos meus coutos, e no fim vejo-me com um milhano, que até o cantar dos galos fará fugir! E Lopo Soares que não volta!

Como se potência oculta respondesse ao desejo do abade, pesados passos soaram pela escada próxima, e a figura do capitão dos ginetes apontou à porta.

Este é que não enganava. De presença mediana, largo de peitos e de ombros, cheio de carnes sem ser gordo e anafado, como o seu ilustre colega em Marte, bastava contemplar-lhe o rosto denegrido, e lavrado de cima a baixo por uma formosa cutilada, que lhe dera a alcunha, e o emprego, para se afirmar logo sem receio de equívoco, que dentro daquele peito batia um coração tão estranho ao medo, como a consciência parecia alheia de remorsos, e a alma de piedade.

Ministro sabido de todas as violências e extorsões ordenadas pelo seu prelado, Lopo Soares tosquiava sem misericórdia as ovelhas abaciais, e, se as ouvia gemer mais alto, consolava-as com o bastão da lança, ou com a prancha do estoque, para as ensinar, dizia ele, a conhecerem o seu bem, e a abençoarem a fortuna, que, não o merecendo elas, as felicitara, concedendo-lhes tão virtuoso e clemente senhor.

Segundo é fácil de supor, os vilãos, vexados, e roubados pelo capitão dos ginetes, pagavam-lhe em ódio e pragas os tormentos, que padeciam; e os próprios alcaides e ovençais dos coutos não podiam vê-lo, sem ocultamente lhe desejarem no triplo todos os males e humilhações a que os sujeitava na sua brutalidade.

Mas, como em casos graves o capitão se acolhia à sombra do abade, e este lhe desculpava os maiores excessos, em atenção à agudeza das unhas fiscais, e ao valor provado, os funcionários do mosteiro, e os pobres moradores de Évora e Turquel devoravam as afrontas e as lágrimas com o amargo pão, que tão caro lhes custava.

Vendo a Lopo Soares, d. João de Ornelas respirou. O que receava é que na expedição contra os três delinquentes, de que falamos, o seu oficial houvesse tido mau encontro. De feito, por duas horas não sucedera assim.

O prior do hospital, tão bom caçador de homens como de lebres e veados, farejando ao longe nova presa, em vez de acompanhar a cavalgada de d. João I, desviou-se com o Condestável e o Infante d. Pedro, e por um rodeio, veio meter-se em Alcobaça, passando pelos contos.

Se Lopo Soares não fosse tão expedito e sumário nas suas diligências, é mais do que provável que os papéis se trocassem ali, e que o perseguidor mudasse para vítima.

Um dos três vilãos, multados, era filho do velho escudeiro, que Nuno Álvares jurara vingar, e para lhe mitigar as saudades de seu pai, sepultado nas masmorras do castelo, e a pena do dinheiro extorquido, injustamente, o capitão dos ginetes não se apartara dele sem dois homens de armas lhe infamarem as costas com o açoite dos cavalos.

O paciente não soltou um suspiro, nem deitou uma lágrima!

Branco de jaspe, e com os olhos cavados e cheios de luz sombria, apenas terminou o suplício, ergueu-se, e respondeu aos toscos motejos de Lopo Soares e dos seus verdugos, com uma só palavra:

— Obrigado!

Nada mais.

Mas proferindo-a com aqueles lábios lívidos, e aquela vista, que se assemelhava a um punhal ardente, dir-se-ia que era o morto, que se levantava da sepultura, e sacudia o lençol para dizer ao vivo: “Não tarda o dia, em que ajustaremos as nossas contas!”

O capitão “Cutilada”, ou o “Maldito” porque ambos os epítetos lhe eram aplicados indiferentemente pelos populares, ressentiu-se da concisão do mancebo, e por instinto levou a mão ao punho da misericórdia ou punhal, que rematava o seu estoque; mas suspendeu-se a tempo.

A sua alçada não subia tão alto, e o assassínio, sem causa motivada, e em presença de testemunhas, levá-lo-ia sem remissão perante as justiças reais, onde, se não apodrecesse em ferros, era pelo menos de crer que deixasse quase todas as penas, que havia arrancado aos outros.

Por isso se conteve, e encolhendo os ombros, como pessoa muito acima das reticências ameaçadoras de um vilão açoitado, deu de esporas ao cavalo e ausentou-se.

Assim que ele desapareceu, principiou um coro de imprecações, afinado em todos os tons, desde o tiple das crianças e o soprano mulheril, até ao tenor vibrante dos moços, e ao baixo profundo dos homens idosos.

Pero Calado, que assim se chamava, o paciente, foi o único silencioso, confirmando pelas obras o apelido.

Somente os vizinhos mais experimentados, vendo-o sorrir-se, enquanto sua irmã lhe banhava de vinagre os vergões e cortes das correias, benziam-se e rosnavam uns para os outros:

— Mau-olhado acertou hoje no maldito! Por todas as riquezas do mosteiro não queríamos estar-lhe na pele. Que se guarde do filho do escudeiro.

Ainda estes sisudos comentários duravam, quando o conde de Ourém, Álvaro Gonçalves, e o Infante, seguidos dos dois pajens, que vimos aos pés de d. João I no capítulo antecedente, e de uma reforçada escolta de homens de armas, desembocaram pela vereda do monte, e a trote rasgado vieram colher as rédeas aos cavalos, mesmo no centro da povoação, alvorotada pelas proezas do capitão “Cutilada”.

Escutando da própria boca da vítima, que se lhe abraçara ao estribo, a narração das vilezas e tratos, por que passara, os olhos do Condestável faiscaram, e o peito arquejando, denunciou a imensa cólera, que lá dentro se acumulava.

O Infante, mais reservado por índole, também não pôde reprimir-se de modo que lhe não subisse a ira em chamas ao semblante e aos olhos, que se afoguearam subitamente.

Mais senhor de si, e das suas paixões, o prior do hospital escrutava sem mover os lábios o efeito desta cena sobre o ânimo dos seus nobres amigos, e contentava-se com algumas exclamações que, lançadas a propósito, produziam a explosão que o morrão acende, pegando no rastilho.

— E teu pai? — bradou o conde de Ourém com respiração presa, e os punhos cerrados.

— Jaz há seis semanas na cisterna do castelo de Alcobaça, com os pés metidos na água, e uma lájea a tapar-lhe o ar e a luz!

— Não o viste depois? — acudiu o Infante.

— De joelhos e mãos postas pedi ao anadel dos besteiros, que se compadecesse da sua velhice e da minha dor! Mas ele!

— Negou-te essa triste consolação? — atalhou Álvaro Gonçalves, que já previa a resposta.

— Negar-ma era o de menos; mandou-me deitar fora da sua presença pelas varas de dois serviçais, bradando: “Aqui tens o que se dá aos sabujos que ladram a seu senhor!”

— Tripas de Judas! — gritou o Condestável. — Por vida de minha filha! Antes que anoiteça amanhã o lobo cerval esperneará pelo pescoço nos esgalhos de uma das figueiras de seu amo!

— Ah! d. João de Ornelas, d. João de Ornelas! — disse a meia voz o prior. — Até onde queres que chegue a paciência de el-rei, e de nós todos?

— A minha mão! — clamou Nuno Álvares. — Se a palavra de d. João I se quebrasse, nas minhas terras ainda há cavaleiros, e nos meus paços homens de armas para lavar as faces de uma afronta. Mas, sua real senhoria tomou a si a injúria, e em boas mãos ficou.

— E por que prenderam teu pai, e te açoitaram a ti, como mouro fugidiço? — perguntou o Infante d. Pedro, que não podia afastar os olhos do rosto pálido e viril dó filho do escudeiro.

— Porque ele respondeu ao mordomo do mosteiro que, pago o foro, os seus rebanhos eram dele, e não do abade; e que se o braço de sua reverência era pesado, sabia de dois bem capazes de lho dobrar pelo cotovelo.

— Ah! — exclamou o conde de Ourém.

— E disse-lhe quais? — interrogou Álvaro Gonçalves.

— Disse; e foi a sua grande culpa! — redarguiu o mancebo.

— E então? — interrompeu o Infante.

— Então, como meu pai ousara bradar que era escudeiro e homem livre, e que acima da má vontade do abade estava a justiça de el-rei, e o poder do Condestável, seu senhor, veio de noite o capitão dos ginetes prendê-lo, e amarrado, com uma mordaça na boca, lá o levou para a cisterna do castelo, atravessado em cima de uma azêmola. Quando o estavam atando, Lopo Soares ria-se, e, em ar de mofa, dizia-lhe: “Chama agora por el-rei ou por teu senhor o Condestável! Veremos se eles te valem!”

— Sangue de Cristo! — clamou o conde de Ourém, batendo com ambos os punhos fechados sobre a cota. — A mourama vestiria a cogula branca dos monges de Cister? Eu mostrarei a esse abade que Nuno Álvares nunca está longe, quando os seus na aflição bradam pelo seu nome. Vamos, senhores! Tenho pressa de pisar debaixo das patas do meu cavalo a soberba de d. João de Ornelas. Peça ele a Deus, que me tenha da sua mão! Sinto ímpetos de o enterrar com as duas feras, que traz, soltas, dentro da mesma cisterna, onde o padre de Satanás sepultou os escudeiros honrados!

Dizendo isto, as faces do Condestável, de ordinário descoradas, estavam marcadas de vergões vermelhos, como se os dedos de um robusto inimigo se houvessem estampado nelas; e a voz, usualmente forte e clara, enrouquecia cava e convulsa.

Para quem conhecesse o conde de Ourém, estes sinais não eram duvidosos. A sua alma ardia em labaredas, e a raiva, que o cegava, tocara quase as raias do delírio.

— Um cavalo para este moço! — ajuntou o vencedor de Valverde. — Quero que el-rei saiba da sua boca as crueldades do padre, que por escárnio de Deus, e das justiças do reino, levanta a hóstia nas mãos, que mereciam ser raspadas, e carregadas de ferros!

Ninguém respondeu a uma palavra; o Infante, porque a custo se continha, e não desejava exacerbar a cólera de Nuno Álvares; o prior, porque receava desviar com a sua voz o pensamento do Condestável da vingança implacável, que revelavam os gestos e as palavras.

Pero Calado não se fez rogar.

Apenas o conde acabou de proferir a ordem, o cavalo apareceu, como por encanto, e o mancebo apartou-se correndo para voltar logo, trazendo a sua besta e o arsenal atestado de virotes.

Do cinto de couro, que lhe apertava o seio, pendia uma cutela afiada, e a ascuma ou lança curta, que servia de arremesso, e de pique ao mesmo tempo, luzia-lhe nas mãos.

Assim que montou, partiram todos a bom andar, encomendados a todos os santos do paraíso pelas orações dos vilãos, que fiavam agora as suas esperanças todas da ira temerosa do Condestável, manifestada sem rebuço perante eles.

— Sabes o que o filho do escudeiro leva na besta, Pedro Gudiz? — disse um velho de Turquel, que viera de visita a Évora, onde o seu interlocutor o hospedava.

— Não, se mo não disseres, Mendo Ameias — replicou o outro.

— A vida de Lopo Cutilada! Virote onde Pero desde pequeno pusesse o olho nunca errou o alvo; e quando o vi levar assim a rir as dores dos açoites, disse logo comigo:

“Ruim terra há de comer-te cedo, lobo cerval de Alcobaça”. Podeis rezar-lhe por alma ao capitão dos ginetes.

— Rezar, eu! Só se fora para que quantos demônios o atenazem no inferno, como de maldades deixa neste mundo o cão danado.

— Pois tende por certo, que fez hoje a última. Contai com grandes novidades amanhã. Bendito seja o senhor que me deixou viver para louvar ainda por elas o seu santo nome!

A chegada de Lopo Soares aclarou, como notamos, o ânimo perplexo do abade, que sem fazer mais caso do anadel, prostrado aos seus pés, saiu a receber o virtuoso executor das suas prepotências com ar de riso, e mostras de grande agrado.

Na presença de seu amo, o capitão perdeu os modos rústicos de aspereza, que o faziam detestado, e curvando a cabeça com o gorro nas mãos, esperou silenciosamente que ele o interrogasse.

— Fez-se o que mandei? — perguntou d. João de Ornelas no tom de quem se informa com a certeza de ter sido satisfeito.

— Lá ficam as cubas arrombadas aos vilões, e um deles com trinta açoites por conta! — redarguiu o oficial do mosteiro, arregaçando os beiços num sorriso feroz. — No princípio cuidei que tínhamos dança; vi todas as vespas fora do cortiço a zunirem-me aos ouvidos, mas o cabo da lança é milagroso, dois ou três, que deitamos a terra atordoados, tiraram aos outros o gosto de continuar.

— Bem! Nada de branduras com vilanagem! Se os deixasse vinham às adegas de Santa Maria espichar os meus tonéis, e vender-me o vinho, mesmo às portas da igreja.

— Não lhes há de sobrar a vontade agora! respondeu o ministro das execuções monásticas. — Protesto, que por este par de meses até o cheiro do vinho os há de enjoar.

— Lopo Soares — prosseguiu o abade, dando um passeio curto até à fresta onde batia nos peitos o anadel, rezando um ato de contrição —, em que masmorra jaz aquele escudeiro velho, que foi de Nuno Álvares, e que se prendeu, por que tinha mais comprida a língua, do que seu amo a lança?

— Desci-o por cordas ao fundo da cisterna do vosso castelo, haverá seis semanas, e lá descansa da parolagem sem ver sol nem lua!

— Deixaste-o falar com algum dos seus, depois de preso?

— Deus nos acuda, senhor! Era preciso ter enlouquecido. Ninguém!

— Mas quem disse então a el-rei e ao Condestável o que sucedeu? — tornou o abade, cravando a vista aguda e penetrante no semblante de seu confidente.

— Quem? — exclamou este, engolindo uma praga meio mastigada entre os dentes, e acompanhando-se de uma ação grosseira, própria da sua nobre índole. — Nenhum de nós, protesto! Mas, quando se leva o mastim, os cachorros ficam ladrando. Só se foi Pero Calado, que hoje mandei servir de bons açoites por faltar ao respeito de vossa reverência.

— Ah! O escudeiro tinha um filho, homem feito?

— Feito, direito, e mais atrevido ainda que o pai.

— Lopo Soares, vais-te fazendo velho! Desconheço-te. Por que prendeste a raposa velha e sem dentes, e deixaste solto o rapaz, que tanto gritou e chamou por socorro, que os seus brados chegaram aos ouvidos do Condestável e de el-rei?

— Se eu adivinhasse, vossa reverência não se queixava agora. Mas o vilão enganou-me. Vi-o tão sandeu e atado aquela noite, que não me receei dele... Fica-me de lição. É verdade que eu devia saber o adágio: cão que não ladra...

— Morde! — atalhou o prelado. — Agora não tem remédio. Esse escudeiro de mal pecado parece que era grande valido de Nuno Álvares, e que fez suas proezas em Aljubarrota. Sabendo dos açoites, com que lhe ensinaste a venerar a seu senhor, e da prisão em que o meti, o conde de Ourém pediu a el-rei que o desagravasse, e d. João I, esquecido do que deve a d. João de Ornelas, prometeu-lhe vir ele próprio a Santa Maria soltar-lho... Há de custar-lhe! — acrescentou o abade com um sorriso equívoco. — Pode tirar-mo...

— Tal não permita Deus! — bradou o capitão dos ginetes, apalpando o punho do estoque.

— Mas não será enquanto eu me chamar prelado desta santa casa, e senhor de Alcobaça, e das catorze vilas dos seus coutos.

— Então resolveis?... — perguntou Lopo Soares com grande ardor no rosto.

— Fechar as portas, alçar as levadiças, e armar os trons do castelo!

— Bem, meu nobre senhor, nem outra coisa era de esperar de vós. E recolhei-vos dentro dele, com os vossos homens de armas, para que el-rei e o Condestável saibam que ameaçar é mais fácil do que cumprir!

— Não! D. João de Ornelas, mesmo velho, quando alguém o busca não se esconde! Graças a Deus, temos homens de armas e besteiros, que chegam para guarnecer o castelo, e o mosteiro. As chaves ficam em cima do altar da Virgem, e que as levantem de lá se ousam! Se algum mais impaciente se aproximar das barreiras — seja quem for — preguem-no com um virote; se todos acometerem... que as manganelas e as catapultas os tratem como castelhanos! Entendeste-me? No mosteiro basto eu! Agora, vês ali aquela mulher, em trajes de homem, carpindo-se, e pedindo mercê?

— Por minha vida que vejo! É Martim Anes; é o anaclel dos vossos besteiros!

— Diz antes que era. O pão do mosteiro de Alcobaça não se faz para o esmigalhar aos corvos. Sabes por que ele chora? Tem medo!

O capitão dos ginetes gargarejou uma risada seca, que se lhe sumiu entre os dentes, e estendendo excessivamente os lábios com desdém retorquiu:

— É a moléstia que se cura! Nós o poremos rijo e firme, como um dos da companhia de Mem Rodrigues de Vasconcelos. Jesus! Com tamanho corpo, quem diria que a águia não era senão galinha?

Passados momentos, virou-se para frei João Escacha, muda testemunha de toda esta cena, e disse-lhe, como sé nada tivesse ocorrido:

— Agora nós! Procurai-me nesse livro da Regra o capítulo das obrigações dos abades, e em sentindo el-rei principiai a leitura em voz alta. É das obras de misericórdia ensinar os ignorantes.


CAPÍTULO 5: QUEM É O REI AQUI?

El andava triste mui sen sabor
Como quen é tã coytado d’amor
E perdendo o sen e a color.
Pero quando me vyo dysse m’assy:
Ag! Senhor, ide rogar minha senhor,
Por deos que haja mercée de my.
Cancion, de D. Diniz.

E sabba o abbade demergersse à culpa do pastor, que quer que o padre famílias nas ovelhas meos poder achar de proffeitança...
O pastor d’ellas, solto no juizo de nostro senhor diga cun o propheta nostro senhor:
A ta justiça non ascondi no meu coraçom, a ta verdade, e a ta saude dixi, mays esses displinzintes desprezarom my. Estonces aas ovelhas non obedientes a se guarda, seera lhis pena raran te essa morte.
Regla de San Bento Abbade, Ined. de Alcobaça.

Quando o Infante, o Condestável, e o prior do hospital cravaram as esporas, e saíram a trote largo dos coutos de Évora, no meio das bênçãos dos vilãos, o sol já principiava a declinar no horizonte, dourando a coroa dos outeiros.

Pelas viçosas ladeiras serpeavam em suave declive as veredas, torcendo-se como fitas entre as relvas e flores; e as árvores, afagadas pela fresca viração, balouçavam as copas, sussurrando brandamente.

De vez em quando, ao longe ouvia-se o tinir metálico dos chocalhos dos rebanhos; e a espaços, uma voz rude, mas harmoniosa, entoava, em lenta melopeia, a cantiga melancólica de Gonçalo Mermigues, o trovador, que, perdido pelos olhos negros da moura, despindo as armas, veio sepultar no mosteiro, não a paixão, que debaixo da mortalha fria do hábito continuou a arder, mas a verde mocidade, todas as esperanças, e os mais ternos afetos.

Monge da saudade, ajoelhando abraçado à cruz de um túmulo, nunca mais se ergueu!

Nuno Álvares Pereira, naturalmente calado e de si pouco risonho, caminhava com os olhos baixos, e a cabeça pendida sobre o peito.

Álvaro Gonçalo Camelo, seguro de que o orgulhoso abade, seu inimigo, ia receber da mão de el-rei o prêmio dos venenosos conselhos, reprimia a custo o júbilo interior, afinando a fisionomia pelo aspecto grave e taciturno do conde de Ourém.

Poucos passos atrás, com a vista distraída, e a mão da rédea frouxa, o Infante d. Pedro, enlevado nos seus pensamentos, deixando o cavalo seguir os outros, levanta a ideia, além das águas, e bem longe dali, para os fortes muros de Ceuta.

Menos impetuoso do que seu irmão d. Henrique, mas no ânimo, e nas prendas, mais príncipe, e mais semelhante a seu pai, o nobre filho de d. João I sonhava acordado com essa festa guerreira, que o desejo lhe pintava tão formosa pelos perigos, como pala ousadia da empresa.

Os dois pajens, que na Batalha quase que tinham arrancado ao mestre de Avis o segredo do grande feito, que devia coroar o seu glorioso reinado, um ao lado do outro, como sempre, observam-se sem falar, e em toda a jornada apenas haviam trocado palavras soltas.

Antão Vasques, com a pálida tristeza do seu cuidado estampada no semblante, consumia consigo as acerbas penas, que o ralavam, e em alguns momentos sentia-as tão penetrantes, que afastava o rosto com disfarce para esconder do companheiro as lágrimas envergonhadas, que, rebentando, sem as saber conter, se lhe gelavam, deslizando pelas faces.

Álvaro Vaz, embora afetasse o contrário, a cada instante fitava de relance no amigo as pupilas azuis, que já não riam, como dantes, desviando-as logo tocadas de certa sombra de pesar.

Quem mesmo o examinasse de mais perto, descobrindo a nuvem, que lhe carregava as feições tão joviais há pouco, sem dificuldade adivinharia o motivo por que já não respiravam travessura e malícia juvenil.

Antão Vasques, ele próprio o dissera, fizera-se homem com a dor; e Álvaro Vaz, fiel como raros às leis da amizade, não podia abrir o peito à antiga e ditosa alegria, vendo negro de luto o coração daquele, que era mais do que irmão pelo sangue, porque lhe chamava desde a infância seu irmão pela alma!

Depois de olhar para o outro donzel, que, embebido na sua mágoa, parecia estranho a quanto o rodeava, o pajem do Infante decidiu-se a interromper o silêncio, cortando com as consolações do seu afeto a profunda melancolia que a tudo se mostrava insensível. Correndo os dedos pelas madeixas, e debruçando-as com graça pelo colo, o mancebo fingindo nos lábios o sorriso, que trazia bem distante da vontade, estendendo o braço, pousou-lhe a mão de leve no ombro, dizendo:

— Santa Maria vale! For que não dobram os sinos a finados? Nem que levássemos numas andas o corpo de algum amigo morto! Fora com tantas tristezas! O que há de ser, Deus o sabe! Tendes a promessa de el-rei, e ainda não estais contente? Se vos pesa ficar dois meses mais, uma caravela depressa parte, e para mim, esperar em Ceuta, ou aqui, é tudo o mesmo. As esporas de cavaleiro tanto se ganham logo, como amanhã. Vede o que mandais; mas, por São Jorge, não vos quero ver com esses olhos e esse rosto, que me cortam a alma!

— Cuidais que os da triste cativa estarão mais alegres, ou menos pisados? — respondeu o pajem, levantando a vista e falando com a voz sufocada e o peito oprimido.

— Não, por Deus! Mas quem traz à cinta um estoque, e ouviu da boca de d. João! o que ele nos disse, levanta a esperança, e deixa as lágrimas para os que não têm senão essa consolação. Um homem como vós, Antão Vasques, não chora, vinga-se!

— Álvaro Vaz, se não contasse com a lança e a espada de meu pai, cuidais que estava agora aqui?... Desligai-me da palavra que vos dei, deixai-me partir só, e matar o meu desejo, o meu ódio, que eu vos juro, que virão recados de Ceuta, que vos façam arrepender da palavra que soltastes!...

— Agora sim, que vos torno a conhecer! Falastes como deve falar o filho de vosso pai, como eu, que vos quero, que meu irmão não fosseis não podia ser mais, nem tanto esperava ouvir. Ia desconfiando, já sabeis, pelo vosso ar, que tivesse de vos deixar em Alcobaça, feito Gonçalo Henriques; e apertado lance veria consigo d. João de Ornelas se vos aceitasse os votos!...

— Entre agonizar sobre a lájea de uma igreja, ou cair varado pela frecha de um infiel — redarguiu Antão Vasques, alçando a fronte —, escolho amortalhar-me no meu laudel. O trovador teria feito melhor, se buscasse a morte ao lado de Gonçalo Mendes da Maia, nos campos de Beja.

— Por esse dito vos seguiria já a Ceuta com os olhos fechados! Ânimo e valor! Dois meses depressa correm, e bem sei eu quem há de obrar proezas tais, que os cavaleiros da Távola Redonda se dariam por ufanos, contando-as como suas. Largai-me o coração à ventura, e espírito grande. Também eu tenho dama, e se uma galé de mouros ma cativasse, asseguro-vos, que não fazia senão mandar passar de novo o fio à minha acha de armas, esperando...

— Que à força de tormentos a donzela fraca e desamparada quebrasse as prisões da dor, e deixasse o mundo chamando em vão pelo covarde, que a deixava em ferros, sem ao menos se atrever a levantar o braço, sem ter o ânimo de levar o corpo ao mesmo sítio em que ela padecia? Obrigado, Álvaro Vaz! Mas os cavaleiros da Távola Redonda, com esse exemplo, digo-vos que não achariam que aprender.

Falando assim, o donzel, com as faces coradas pela íntima comoção, e os olhos acesos em vivo clarão, erguia a cabeça, e na veemência da paixão revelava o terrível incêndio que o abrasava por dentro.

Seguiu-se breve silêncio, durante o qual o semblante de Antão Vasques, traindo o combate dos encontrados afetos que o dilaceravam, em curtos instantes mudou de expressão umas poucas vezes.

— Não, não! — exclamou por fim, e como se não pudesse resistir ao fogoso ímpeto dos sentimentos exaltados. — Quando vós chegardes, já eu lá devo estar, morto com honra, ou vivo, mas também em ferros! Álvaro Vaz, por quanto prezais no mundo. Pela amizade da nossa alma nunca vos pedi coisa que me negásseis. Compadecei-vos deste martírio, de que não adivinhais sequer metade. Viver como eu agora, nesta aflição de todos os momentos, é mil vezes pior do que os perigos de peleja desigual, ou do que os tratos da escravidão. Desde aquela triste notícia, acabou-se tudo, e na terra há só um afeto, que me prenda — o vosso! Tirai-me de cima do coração o peso da promessa, que vos fiz, se não quereis ver-me louco de mágoa e de desesperação. Nunca amastes, por isso não sabeis o que é sentir o sangue a arder em chamas, a alma a fugir-vos sempre para a saudade, banhada em pranto, e o ciúme, como um punhal ardente, a rasgar-vos a cada hora as feridas do coração, apontando-vos para outro, mais feliz, ainda que desprezado, que ao menos tem diante de si, e em seu poder, a formosura do seu enlevo!... Álvaro Vaz, em nome de tantos anos de afeição leal, deixai-me partir só. Convosco, o braço perderia a força, e a vontade nada tentaria. Eu que não receio, porque me dispus para tudo, eu que ouço cá dentro uma voz, que me diz que serei feliz, se for ousado, vendo-vos ao meu lado tinha medo!... Se morrer, não lhe ficais vós a ela para a amparar e a mim para me vingar? Perdidos ambos, o que lhe resta à minha Leonor senão um cativeiro eterno e inconsolável?

Escutando estas sentidas vozes, Álvaro Vaz não pôde suster-se, que não se orvalhassem as pálpebras de lágrimas.

De feito, era necessário que o mancebo não pudesse já com ânsia para romper em queixas tão opostas ao seu caráter.

Antão Vasques, apercebendo os olhos arrasados de égua do seu amigo, apertou-lhe a mão com alvoroço continuando:

— Grande alma tendes, Álvaro Vaz! Mas que estas palavras nunca passem de nós!

— Não ireis sem mim! — exclamou o outro donzel rompendo o silêncio com esforço. — Quando quiserdes, mandai. Mas deixar-vos partir só ao encontro da morte, ou da escravidão!... Sabeis o nome que tenho. Meu avô nunca o desonrou; meu pai se uma nódoa lhe caísse nele estalava de vergonha, e eu... se tivesse uma hora de fraqueza julgaria cem anos pouco para a resgatar. O que pedis é uma deslealdade, uma vileza! Irei aonde vós fordes. A lança que vos ferir há de passar-me primeiro, e os ferros, que vos deitarem, hão de cobrir-me também de glória a mim. Só se fugirdes, vos não seguirei!

— Vede o que fazeis! — acudiu Antão Vasques. — Tirai-me a vida com essa vontade; porque não me alenta hoje outra esperança; e perdendo-a, sei, juro-vos que não aturo mais tempo este martírio. A cada momento parece que me arrancam o coração do peito, e que a razão se escurece. Pelo doce extremo da vossa mãe, que era uma santa, deixai-me partir!... Dói-te do que eu sofro, Álvaro Vaz; para te dizer, como aqui te digo, ficar é a morte, mas a morte em trevas, e no meio de todas as agonias, imagina o meu tormento!

— E se fores adiante, e não vierem novas tuas, consentes que atravesse o mar, e te procure? — acudiu o mancebo, abalado e comovido pela dor profunda do amigo.

— Se ao cabo de um mês não tiver voltado é porque descansei para sempre; ou porque as cadeias do mouro me ligam os pés. Nesse caso!... Responde-me primeiro a uma pergunta: amas, como eu, alguma dama de linhagem e gentil?

O rosto do pajem do Infante d. Pedro, com a súbita interrogação, afogueou-se de vermelhidão, e a vista inclinada pintou o enleio. Nos lábios tremia um meio sorriso, mas não passava a voz.

Antão Vasques, depois de o contemplar momentos, prosseguiu em tom ainda mais triste:

— Álvaro Vaz, meu irmão de armas, em que mereci que me escondesse a tua alma? Amas, e não mo dizes!

— Oh! perdoa; mas tu não sabes! Três vezes tem estado este segredo a voar-me da boca para o teu coração e três vezes se me sufocou a fala. Ainda ontem...

— E deixavas os teus amores ditosos e cheios de esperança e sorrisos para, na companhia de um louco, ires aparar no peito a frecha de um bárbaro, ou gemer de saudade nas trevas de um aljube?... Cuidais que serei menos generoso, menos irmão do que tu no afeto? Não! Partiremos com el-rei. Dois meses depressa se contam!

— Irás! Irás! — clamou o outro mancebo, fuzilando-lhe nos olhos o clarão do entusiasmo juvenil. — Se venceres, d. João I como bom e leal perdoará a falta. O rei Artur, ainda que baixe a viseira, e mostre enfado, por fim sempre há de levar nos braços, a poder que possa, o galhardo, que por Deus e o seu amor se arrisca a tão perigosa aventura. Não te detenho mais. Vai! Somente se te demorares, repito que Álvaro Vaz, depois, pedirá contas aos infiéis de Ceuta do sangue de seu irmão. Consentes? Bem vês, não te requeiro muito!

Antão Vasques refletiu alguns instantes, e virando-se de repente, e cravando a vista perscrutadora nos olhos do donzel, redarguiu:

— Responde-me com lisura. A tua paixão é sincera e verdadeira como a minha?

— É. Tomo a Deus por testemunha, de que no teu lugar fazia o mesmo.

— Bem! E ela, a dama, é nobre, e formosa; merece-te?

— Bela como os anjos; nobre como a mais fidalga de Castela e Portugal.

— O seu nome, podes dizê-lo? Quero ver!

A mesma cor, que já subira às faces do pajem, tornou a acender-lhe o rosto. Baixando os olhos, e hesitando, Álvaro Vaz como que não ousava responder.

— É quase como se falasses a um morto! — insistiu o amigo com melancolia. — Os milagres são raros, e para voltar donde eu vou, bem sabes, que só por virtude e graça divina!

— Hás de voltar, e triunfante, e feliz, diz-mo o coração! — atalhou o donzel do Infante. — Antão Vasques, queres saber por que me não atrevia a declarar-te o maior segredo da minha vida? É porque a dama, que adoro de joelhos, e que prezo mais que a luz e a vida, chama-se d. Beatriz de Almadia.

— Minha irmã? — gritou sobressaltado, e ao mesmo tempo radioso de júbilo, Antão Vasques.

Houve uma curta pausa. As lágrimas desatavam-se em fio pelas faces viris do — amigo do futuro conde de Abranches, e as deste não estavam também enxutas.

Quando o calor e o tumulto dos afetos íntimos lho permitiram, o pajem, estendendo a mão a Álvaro Vaz com simplicidade, disse-lhe:

— Já éramos mais que irmãos!... E Beatriz... quer-te como deve, como deseja um coração grande e puro como o teu?

— Sou tão feliz por ela, Antão Vasques, que não invejaria a bem-aventurança aos que moram no paraíso, se te visse alegre e ditoso conosco.

— Ainda o serei! — atalhou o donzel no tom de quem sente o contrário do que diz. — Beatriz era a única prisão, o único remorso, que me abraçava a este desterro de misérias e de lágrimas, que chamo vida. Entrego-a à lealdade do teu afeto, Álvaro Vaz. Bem sabes que ela, desde menina, nunca me teve senão a mim para lhe servir de mãe no carinho, e de pai no desvelo. O teu amor de hoje em diante será para ela tudo. Agora já posso partir sem cuidados... A minha perda não lhe custará mais do que lágrimas e saudades! Deixo-a ditosa e amparada.

— Antão Vasques, pelo céu que nos cobre, pela alma de meu pai, que pede por mim a Deus a esta hora, e pela terna amizade da nossa infância, juro, que não lhe seja satisfeito.

— Obrigado, Álvaro Vaz! É a liberdade que me dás. Estava cativo, e chamando pela minha antiga força, não a encontrava cortado pela mágoa. Hoje sim, já posso levantar o braço e a esperança. Morto, ou vivo, devo-te o maior júbilo da minha alma e no dia de maior tristeza. Agora, também eu creio que Deus me terá da sua mão, e que hei de voltar!

— Se tardares, conta com a minha promessa. Mesmo no altar, que me visse com tua irmã, dava-lhe o nome de esposa, dava-lhe o primeiro e o último ósculo de amante... e partia! Não te arrisques em vão. Vê que jogas a ventura de três.

Calaram-se. O Infante, colhendo as rédeas, aguardava-os; e no seu rosto, mais sério do que o usual, lia-se uma preocupação estranha às reflexões, com que se entretinha antes. D. Pedro não tirava os olhos das torres do castelo de Alcobaça, que já se divisavam próximas, e de um bando de homens de armas e cavaleiros, que, do alto de uma colina, mostravam observá-las!

Ao conde de Ourém, e ao prior também não escapara o caso, e ambos parados esperavam pelo filho de d. João!.

— Não sabeis o que aquilo quer dizer? — replicava Álvaro Gonçalves Camelo falando ao Condestável. — Eu vo-lo explico.

É o abade de Alcobaça que nega as chaves dos seus castelos ao rei de Portugal! Nada mais.

— Por São Pedro apóstolo! — bradou Nuno Álvares. — Quase que dava o melhor alão das matilhas de Arraiolos para que fosse isso. Mal avaliais o gosto com que veria por terra muros e paredes naquele ninho de hipócritas.

— Se não desmentis a aposta, perdei o amor ao vosso alão, que é meu. D. João de Ornelas foi decerto avisado, e sua real senhoria, só de lança em punho entrará pelas barbacãs,

Neste momento chegava o Infante, e não lhe custou a convencer-se das razões do prior. Quem conhecia o abade não ignorava que o seu orgulho era capaz de se despenhar por um precipício, contanto que não cedesse uma linha do seu poder, ou não inclinasse a soberba perante a autoridade de ninguém.

Poucos minutos de galope levaram d. Pedro, o Condestável, e Álvaro Gonçalves ao sítio apontado; e como o prior suspeitara, d. João I acabava de receber da arrogância do poderoso donatário a resposta afrontosa, de que as portas do castelo só se abriam a d. João de Ornelas, ou quem levantasse as chaves de cima do altar da Virgem na igreja de Alcobaça!

Na sua carreira tão inquieta, raras vezes o mestre de Avis se vira sobressaltado por lance tão inopinado, e tão fora dos seus pensamentos. Por mais ousado e violento que julgasse o abade, nunca se persuadiu de que o vassalo se atrevesse a medir por tal arrojo o báculo com o cetro, esperando sereno e descansado, na cela do monge, que o leão acometesse, ardendo em raiva!

No primeiro ímpeto, d. João I, cego e desvairado, esteve quase em termos de descer de corrida o outeiro, e de trazer arrastado pelo cabeção da cogula o velho louco até aos parapeitos da barbacã, obrigando-o com a espada alta a abrir de joelhos a seu senhor. Mas a prudência não tardou em mitigar a ira, e arredando-se pensativo e silencioso, o monarca tomou tempo para meditar, e com o ânimo mais plácido resolveu-se a castigar, mas a castigar de forma, que nem o papa, nem os bispos, achassem nos seus atos motivos de censura. Quando tomou a virar o cavalo para se aproximar de seus filhos, o semblante do príncipe não denunciava, já nem vestígios remotos da imensa cólera, que lhe tinha, revolvido o peito. Somente algum dos seus conselheiros antigos, que o visse então, não deixaria de interpretar como bem ameaçador para d. João de Ornelas o pálido sorriso, que lhe brincava nos lábios, desmaiados e confrangidos. Pelo menos o prior do Grato, apenas fitou a vista no parecer de el-rei, adivinhou logo que a sorte do abade estava decidida, e que o mestre contava seguro com a vingança.

— Sabeis o que me faz lembrar aquele sorriso de sua real senhoria? — segredou ele quase ao ouvido do Condestável. — Recorda-me o ar prazenteiro com que o mestre de Avis, há mais de 30 anos, pegou no braço do conde Andeiro, nos paços de Apar São Martinho, na manhã em que a sua boa espada nos livrou dele. Muito me engano, ou d. João de Ornelas paga hoje caras, e de uma vez, todas as maldades.

— Deus vos ouça! — retorquiu o conde, encolhendo os ombros, e carregando o sobrolho. — Mas se d. João I perdoasse, Nuno Álvares não se esquecia. Contai com isso.

— Bem-vindos, senhores! — bradou el-rei apenas os descobriu. — Grandes novas ides saber! D. João de Ornelas fez-se traidor, e bate com as portas dos seus castelos na face do rei de Portugal. O que vos parece?

E falando assim, o mestre de Avis ria-se à flor dos beiços, e tinha os olhos tão alegres, que, se o conhecessem menos, o conde, e Álvaro Gonçalves, diriam que tratava de leve a ofensa, e disfarçava, metendo-a a zombaria.

— Guarde-me Deus do riso de el-rei, e da excomunhão de Roma! — murmurou o prior a meia voz. — Se o abade soubesse o que o espera, não parava na fugida senão em Oviedo!

— É como vos digo! — prosseguiu d. João I. — Mandou-me tirar as chaves de cima do altar da Virgem; e olhando para os vãos das ameias vê-se luzir o ferro dos bacinetes, e sentem-se ranger as polés dos engenhos, que estão a armar!

São Jorge nos defenda! Mas, por minha alma, tornaríamos aos tempos da guerra de Castela? Seja! Veremos se o monge tem o braço tão comprido como a língua. Não quero que se diga que d. João I, mandando abrir o castelo de um vassalo, deixou de entrar... custe o que custar! Não me achais razão, Sr. conde de Ourém?

— Mal vos iria, senhor, se o vosso pendão fugisse diante dos homens de armas de um monge! — retrucou o Condestável, alongando a vista para os muros do alcácer.

— Vereis agora! — replicou el-rei. — Segui-me! Quero saber se os traidores encurvam os arcos e jogam os trons contra o seu rei. Ai do abade, se tanto ousar!

E soltando as rédeas ao corcel, o mestre de Avis deitou a grande galope pela encosta, acompanhado dos seus cavaleiros e homens de armas.

Quando chegaram defronte da barbacã, que rodeava de um parapeito o fosso profundo do castelo, o capitão dos ginetes, Lopo Soares, saiu-lhe ao encontro, e com a mão acenou-lhes que parassem.

O honrado confidente de d. João Ornelas vinha coberto de uma armadura de solhas e trazia baixo o carnal do bacinete; Pero Calado, filho do escudeiro, tinha os olhos, que viam mesmo por cima do aço.

— É o maldito! — gritou ele retirando a corda da sua besta de torno, e escolhendo com atenção, e entre muitos, o seu melhor virote.

— Que ninguém se mova! — bradou a voz sonora de el-rei, cujos olhos faiscaram.
Virando-se depois para o executor das vinditas abaciais, o monarca, no tom firme que lhe era próprio, exclamou:

— Vilão! Manda já desarmar os arcos aos besteiros, se não queres pagar por teu amo!

— Nas terras de Santa Maria — redarguiu Lopo Soares com ousadia —, não se cumpram senão os mandados de d. João de Ornelas, se ele vos quiser abrir...

— Quem é o rei aqui? — repetiu o mestre de Avis, em voz de trovão, crescendo para ele, e atravessando-o com os olhos, que a ira tornava dois punhais ardentes.

— Em Alcobaça — retrucou sem se alterar o capitão dos ginetes —, depois da Virgem nossa padroeira, o rei é o abade. Arredai-vos, pois! Um passo mais, e trinta bestas farão seu alvo da vossa cota de armas! Avisei-vos.

E recolhendo-se com o mesmo sossego pelas portas das barreiras, o verdugo dos coutos, em altos brados, para ser ouvido de fora, deu todas as ordens para repelir o assalto, como se, em vez de d. João I, tivesse diante das ameias um troço de castelhanos.

Martim Anes, o anadel dos besteiros, tiritava de medo, como se em dezembro acabasse de sair dum charco.

Passando por ele, e vendo-o branco de jaspe, e todo convulso, Lopo Soares chamou dois dos seus homens de mais confiança, e gritou-lhes, apontando para o infeliz e roliço companheiro:

— Não vos tireis do seu lado! Ao primeiro passo que ele fizer para trás, tendes espadas, não o poupeis. Sua reverência não quer que os covardes comam de graça o pão do santo mosteiro.

Em virtude desta clara e rude monitória, o desditoso Martim Anes perdeu todas as esperanças de sonegar a sua volumosa pessoa aos tiros dos inimigos, e não desejando voar como pelouro de cima dos eirados, resignou-se, gelado e espavorido, a fazer a guerra como estátua, já que a fraqueza do seu ânimo lhe não consentia os brios, e o ardor com que bem poucos, é verdade, coadjuvavam o destemido capitão dos ginetes na defesa do orgulho abacial.

Explicar o que sentiu el-rei, ouvindo a réplica arrogante do homem de armas de Alcobaça, não seria fácil.

D. João I nunca imaginou que um vilão se atrevesse com tal arrojo a desprezar a soa voz, e pasmado, confundido, com o que observava, jurou consigo não sair dali, sem punir exemplarmente os autores e os cúmplices daquele rasgo de audácia nunca vista.

Menos sofrido, o Condestável, apenas Lopo Soares se recolheu, atirou o cavalo quase a beijar o parapeito da barbacã, e, indiferente ao perigo, não respirava senão vingança.

Atrás dele, os cavaleiros, para não ficarem deslustrados em um transe, onde tinham por testemunhas um rei guerreiro e três filhos dignos da sua glória, adiantaram-se com igual denodo, não sendo os Infantes decerto os últimos.

— Tende mão! — clamou o mestre de Avis, ao qual a ira represava ainda a voz. — Os traidores são capazes de jogarem com os trons, e o virote de uma besta pode trespassar em peleja, em honra, o peito de um de vós. O abutre está no seu pouso. Deixemos estes milhares, que não valem senão a corda do verdugo, e vamos arrancar-lhes as penas a uma e uma.

Já era tarde. Ainda el-rei não acabara de falar e já a luta estava decidida.

Vendo aproximar o conde de Ourém, e as lanças da sua companhia, o capitão dos ginetes, sem titubear, e com a sua frieza habitual, ordenou que se disparasse, para os deter, um dos engenhos apontados contra aquela parte: mas por mais que repetisse os brados e os gestos, nenhum dos defensores do prelado se bulia, ou mostrava obedecer.

A rebelião, se não rebentara ainda, principiava já pela imobilidade.

Supondo que o respeito do soberano atava as mãos dos seus, o que não era absolutamente errado, Lopo Soares por um feito arriscado quis levantar-lhes os espíritos, e tirando o arco das mãos de um dos besteiros, com violência, debruçou-se a descoberto pelo vão de uma das ameias, bradando:

— Atrás!

Mal a palavra lhe tinha fugido dos lábios, quando os dedos desfalecidos deixaram cair a arma, e um gemido abafado lhe escapou do peito.

O filho do escudeiro pagara, rápido como o pensamento, a dívida de seu pai, e a sua. O virote, despedido por ele, atravessou a garganta do capitão dos ginetes, e deu com ele em terra; e foi tão pronto e certeiro o tiro, que só o Condestável o seguiu com os olhos, e percebeu o efeito.

Os outros todos, suspensos com o silêncio, que sucedera repentinamente ao ruído, olhavam-se sobressaltados, e não atinavam a causa.

De feito, as batalhas do capitão dos ginetes estavam concluídas; e com ele terminava toda a resistência.

Martim Anes, que o funesto exemplo do seu colega horrorizara, mandou sem demora abrir as portas do castelo, e, prostrado aos pés de d. João I, suplicava e obtinha o perdão da desobediência, carregando, como é de crer, o defunto com todas as culpas; e porque este já tinha pago a mais pesada pena, que podia aplicar-se, ninguém se lembrou senão do abade, que fora o verdadeiro causador da afronta, e que as vozes dos vilãos não poupavam nas suas aflitas demonstrações de afeto ao monarca, aos Infantes, e ao Condestável.

Deixando o conde de Barcelos no alcácer, o mestre de Avis com o prior, e o conde de Ourém ao lado, encaminhou-se para o mosteiro, e apeou-se à portaria.

O primeiro monge, que a curiosidade fez sair ao seu encontro, serviu-lhe de guia até à cela do prelado; e quando o altivo donatário menos esperava, ouviu soar no aposento próximo a voz de el-rei, que ainda julgava longe.

D. João de Ornelas, como atilado, entendeu logo que o desenlace da contenda lhe tinha saído desfavorável, e preparou-se para representar com dignidade o seu papel até o fim.

Um gesto seu constrangeu frei João Escacha a folhear o ponderoso códice, encadernado em couro de anta, e um dos noviços, expedido a toda pressa, partiu a chamar o prior para um recado do momento, que não devia ouvir da boca de sua reverência senão em presença de d. João I.

Ainda estas ordens não tinham sido cumpridas, e já o filho de d. Pedro o Justiceiro entrava na câmara, no meio dos inimigos declarados do abade.

Este, vendo-os assombrar aos umbrais, ficou tão sossegado, como se aquela visita fosse toda em honra sua, e do mosteiro.

Os olhos penetrantes, não se baixaram diante dos reflexos metálicos, que faiscavam as pupilas de d. João I.

No rosto nem uma só feição perdeu a serenidade; e a mão, que estendeu para os recém-chegados, segura e alçada, não tremeu.

Era um homem deveras, aquele d. João de Ornelas, e sabia cumprir as suas promessas. Quando alguém o buscava não se escondia — nem mesmo diante do rei cavaleiro, que em Aljubarrota tinha prostrado as soberbas aos leões de Castela!

O mestre de Avis, no primeiro repente, não reparou na sobranceira e venerável presença do prelado, que de pé, com as mãos encostadas ao báculo, e a mitra defronte, em cima do bufete, parecia de todos o mais assombrado e senhor de si.

No meio do silêncio, que sucedera ao tropel da entrada, o vencedor de Aljubarrota deu alguns passos com precipitação para o abade, e cruzando os braços, disse-lhe em tom imperioso:

— Quem é o rei aqui?

Era a segunda vez que o monarca repetia a pergunta, e escutando-a d. João de Ornelas ainda se perturbou menos do que seu capitão dos ginetes, que jazia sobre as lájeas do castelo.

— Em Santa Maria de Alcobaça — replicou ele —, Deus é que é o rei. Pelo menos, nós os monges não conhecemos outro.

— D. abade! — bradou el-rei, alçando o punho, escarlate de ira; mas atenuando nos cabelos brancos, e no valor tranquilo do prelado, deixou cair o braço, como arrependido.

— Senhor rei, enquanto d. João de Ornelas for o indigno prelado deste mosteiro, nunca ouvireis outra resposta. Sei o que vos traz. Tendes poder, podeis mandar. Ide à igreja, tirai do altar da Virgem as chaves do castelo, e metei-lhe dentro os vossos homens de armas. Lá está em Roma quem há de julgar o feito. Por vontade e palavra minha nunca sereis mais do que hóspede dentro desta casa.

Decorreram minutos antes que d. João I pudesse conter-se para não romper em algum excesso.

— Sabeis o juramento, que fiz, ao entrar o portal do castelo, que um vilão traidor negou abrir-me por ordem vossa? — perguntou el-rei, cujos olhos despediam chamas.

— Vossa real senhoria não o disse! — tomou o prelado no mesmo tom, com que encetara a prática. — Naturalmente não podia ser senão um voto cristão e pio, como de tão religioso príncipe deve esperar-se.

— Sois cortesão e galante em vossas falas, d. João de Ornelas. Mas vem tarde o remédio. Jurei por Jorge e por Cristo crucificado, que esta noite haveria abade novo em Alcobaça!

Nas faces do altivo donatário nem um músculo deu sinal de tremor.

Sorrindo com orgulho, e carregando com ironia nas palavras, contentou-se em replicar, encolhendo levemente os ombros:

— El-rei não teve receio de fazer um juramento temerário?

A ira represada rebentou então do coração do monarca.

Batendo com a mão fechada sobre o bufete, e olhando para o abade que ficou ereto, e firme como se a tempestade o não ameaçasse, d. João I aproximou-se tanto, que o fogo dos olhos parecia queimar-lhe o rosto.

— D. João de Ornelas, lembrai-vos do bispo do Porto, e de el-rei d. Pedro. O azorrague, que fustigou a luxúria de um padre adúltero, nas mãos do filho do Justiceiro, pode castigar ainda a soberba e a crueldade de um monge. Quem vos pôs aqui, pode tirar-vos!

— Descerei, mas porque eu quero, e não porque vós mandais! Há duas horas que d. João de Ornelas depositou a mitra em cima desse bufete para nunca mais se cobrir com ela. Para os tempos, que vejo, sou velho demais. Quanto ao azorrague, que infamou as costas de um fidalgo, desacatando o sagrado ministério de um bispo, sabei que ninguém no mundo o levantaria para d. João de Ornelas sem se arrepender amargamente.

E falando com esta ousadia, os olhos do abade, inflamados e severos, contemplavam o sentido da ameaça.

D. João I conheceu que se excedera, e aguardou calado, que o prelado concluísse.

— Senhor rei — prosseguiu este —, conto setenta e nove anos de idade, e trinta e quatro de prelado. Devo consagrar à penitência as últimas horas de uma vida larga em dias e em cuidados. Hoje mesmo escrevi ao senhor papa, e enquanto Roma não resolve, o prior conventual frei Gonçalo é o abade de Alcobaça. Torno ao que fui. Vedes outra vez em mim o monge, que não tem de seu mais do que sete palmos de terra para a sepultura, e a estamenha grosseira do hábito para a mortalha. Frei João Escacha! — exclamou elevando a voz, e alçando a mão. — Chamai o vosso prior, e dizei-lhe que os homens de armas de el-rei e do Condestável entraram à força em Santa Maria, e que nos querem pedir resgate!... Deus vos tenha em sua guarda, senhores!

E inclinando a cabeça, com isenção diante do monarca, d. João de Ornelas recolheu-se pelo dormitório de cima, à cela, que tinha designado horas antes em segredo, prevendo o que de feito acontecera.

O mestre de Avis demorou-se dois dias só em Alcobaça, e partiu para Lisboa com seus filhos.

O Condestável passou a Santarém, depois de pagar com um abraço ao velho escudeiro da sua hoste os tratos, padecidos na cisterna do castelo.

Quando se perguntava depois ao monarca, ou ao conde de Ourém pelo abade d. João de Ornelas, ambos se punham logo sérios, e era raro que não respondessem:

— Deus o tenha em sua glória. Se fosse papa víamos todos os reis aos seus pés como escravos!

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