quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Ânsia antiga (Conto), de Valdomiro Silveira


Ânsia antiga

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O Neco da Prata botou a viola na peitaria e cantou a primeira moda da função. Povo ficou de boca aberta, em roda dele, admirado. A parceirama estava que nem mexia, com gosto de escuitar a voz desse peito limpo assim. E como não tinha a mais pequena arage nessa hora, e a animalada não fazia rumor de qualidade alguma, a pelenga ia morrer nas beirinhas do ribeirão, enternecida de tudo:

“Todo’ os passos cantam bem
não cantam como a sabiá.
Chó! chó! passarinho,
chó! chó! sabiá:
que eu canto
pra não chorar.”

Só isso, mais nada, mas porém toado dûa maneira que só mesmo o Neco seria capaz de arranjar. O pinho, então, quando era pra acabar o verso, a mó’ que gemia que nem um cristão amaguado. As mulheres escorrupichadas pelos cantos da sala, na escada, na cozinha, tinham fechado a boca por milagre, falando mal e descortesmente: e punham cada olhos no folgazão que a gente não sabe como não o espatifavam! A candeia de azeite, pendurada num mancebo pra uma banda, perto da porta do terreiro, alumiava pouco, já dava uma luz murcha e tremida, sinal que estava desdeixada: o tempo não chegava pra se ouvir e aprender a moda nova daquele cantador tão cuera.

Assim que o Neco rasgou duma vez o pinho arrematando a cantoria, houve um reboliço, um terramoto na casa. Aí que lembraram da vida, que cuidaram na festa, nas lamparinas, na ceia. O dono da casa, um home de muitos anos, pombo devera, seo Romualdo, saiu do catira e foi lidar c’os trens de comer: e quem reparasse nele havia de ver que dois pingos d’água lhe paravam um numa ponta, outro noutra do bigode. Coisa que de vez em quando sucede: uma pessoa edadosa recordar-se do que passou, por ouvir um toquinho qualquer, e chorar de saudade.

Seo Romualdo tinha feito uma reza, promessa antiga a santa cruz, e depois da reza deu essa festa: toda a rapaziada da figueira e do dourado se reunira, os velhos também apareceram, e a gente ficou empinhocada no terreiro, perto da cruz. Capelão, foi o Zé Domingue, que tem um tino onça pra estas cerimônias e conhece rezas como ninguém. Logo que acabou a devoção, disperaram um dilúvio de salvas de garrucha. Nesse instante, nem mais e nem menos, levantou-se lá no cocuruto daquele morro a cara da lua, uma lua cor de sangue, muito esquisita, que depois foi ficando cor de rosa e afinal embarqueceu, que foi uma boniteza.

Êta! Caipirada do matão! Vocês são mesmo de virar e romper pra um divertimento! Seo Romualdo, que se pela por uma pândega dessas, ria-se a toda hora, alegre por ver os convidados alegres, entusiasmado c’a disposição dos mais. Subiu uns três palmos arriba do chão, c’a moda do Neco da Prata, porque de uns par de meses pra cá não se conheceu lindeza tamanha, nos pagodes da fazenda e dos arredores. E pegou a remorder a toada, indo e vindo de um lado pra outro, na cozinha, atabulando a ceia, caceteando a companheira, nhá Tereza, que não sabia o que fazer, de tão azoretada.

Enquanto se arranjavam os perparos da mesa, o Neco da Prata, que não quis mais ficar na roda p’r amór de a laranjada que estava arrebentando, encostou-se no cocão dum carro que se via pegado c’a porta, puxou sua faquinha da cinta, alisou uma palha, trouxe um coto de fumo da ‘gibeira, picou, que picou, e deu por pronto um cigarro. Ia tirar fogo da binga, já apertava a pedra nos dados da mão esquerda, em cima da estopa, e o fuzil na direita, quando sentiu um vulto mesmo rente consigo, parecido uma visão. A primeira coisa que fez foi estremecer um bocado; mas, da vereda que estremecia, pressentiu um chamado cochichado, depois dum aceno ligeiro c’um lenço. Caminhou na linha do aceno e topou peito a peito c’a Maria do Viriato.

Aquele corpo da Maria, tão cubiçado, de tanto tempo, foi ver o calor de uma fogueira, pro Neco, deixou-o bambo, bambo. Ela então ia-lhe explicando que agora estava às ordes dele, afinal chegara o dia que ele desejava com tamanhas paixões e que ela esperava com toda a vontade, mas porém com tamanho medo! Porque o Neco bem sabia (continuava a morena) que o Viriato era um tigre, de zangado: por qualquer miuçalha de nada armava um barulhão temeroso, quanto mais se percebesse a enleada! O Neco, aí, pôs-lhe as mãos nos ombros e pegou a contemplar os olhos tão pretos que foram a perdição e o desespero da sua vida, esses meses pra trás: e como a lua ajudasse, passada pelos vãos de uma arve-de-lagarto debaixo da qual proseavam, ele podia reparar que os beiços dela tremiam que nem os de quem está com febre assezoada.

Proseavam longe da casa umas dez braças, pra uma banda do paiol, e só mesmo quem fosse muito desconfiado ou muito especula era capaz de calcular que os dois se reuniram tão vizinho c’a festa. O Neco percurava assossegar a amante, mas qual! A Maria era só aquela tremedeira! Por último, vendo que ela estava assustada e medrosa demais, ele pregou-lhe um pito acochado:

— Ah! Nhá Maria! Então é assim que vancê me quer bem? Pois se me estima de verdade, escusa de ‘tar que nem uma varinha de taquari, bule-bulinho p’r amór de o vento. Quem tem amor, não deve pensar no perigo. Vancê nunca ouviu dizer que, quanto mais perigoso, mais gostoso? Olhe, nhá Maria: não se atemorize à toa. Lembre-se do verso que fala: um home nasceu pra outro, a sorte Deus é quem dá. Nhô Viriato...

Neste repente houve um reboliço macota na sala do fandango. A moça, nem bem lhe bateu nos ouvidos semelhante guaiú, correu pra dentro, esquipado e violento como uma veadinha. O Neco teve tempo só de recambiar o corpo e sumir numa touceira anexa à arve junto de que se achava: e saiu um pelote de gente pro terreiro, fazendo uma gritaria que não tinha mais jeito.

Era uma briga séria. O Viriato, que já andava político, de dias, c’um tal Serrador, passou beirando co’ele e puxou pigarro da goela. O Serrador não gostou da leréia, disse-lhe uma liberdade, o Viriato rebateu-lhe com outra, e a coisada principiou braba de tudo. Num momento tiveram que romper pra fora, porque a caboclada enrolou-se co’eles num pacote, e abriu.

No terreiro, a fúria aumentou que foi uma disparidade! O Serrador, que era senhor dûas mãos deste porte e duma destreza perigosa, deu logo de dançar e corcovear perto do outro, feito um tamanduá-bandeira no sujo. E o Viriato, que já se via ocasionado duma vez, corria em riba dele, virava, que virava, c’um refe na mão direita, mas em pura perda de tempo, que o Serrador era mesmo ventana, ver uma cobra.

Mas porém houve uma hora tirana: o Viriato, com certa manha e tramóia, foi levando o Serrador até junto do carro, que estava entestado c’a parede da casa, encurralou-o a conta inteira... E ia passar-lhe o refe, sem apelo nem agravo, pois o Serrador tinha só destreza e no mais era um perrengue, magricela e franzino, quando o Neco da Prata pulou no meio da história, falando acelerado:

— Ora já se viu que desmancho sem propósito! Vocês vêm pra festa de seo Romualdo e armam um banzé deste feitio? Quem quer rixa escora o parceiro na estrada, não é na casa dos mais, principalmente se está de favor, como agora. Larguem mão disso, é melhor!

O Viriato buzinou, que foi uma tristeza. Disse as do cabo pro Neco, arreliou-se em demasiado. E o Neco, assim que não pôde mais, assim que viu que nem um companheiro lhe assistia, apaziguando o brigador, não teve remédio senão recuar dois passos pra trás, segurar um fueiro do carro e descê-lo com vontade nas munhecas do Viriato: uma das pauladas acertou-lhe no chato da cabeça, e o Viriato caiu redondo no chão, feito um macuco, apesar que inda revolvia o refe pro ar.

Tudo ficou ali num silêncio que dava altura de se ouvir ûa mosca. Mal apena o ofendido gemia um pouco; pra mais longe, sim, os animais disparavam, relinchando, espaventados. Foi preciso que o próprio Neco falasse:

— Home, vocês não serviram pra apartar as dúvidas, sirvam ao menos pra me prender, que eu ‘tou na alçada da justiça, reconheço.

E os moleirões dos fandanguistas, corridos, envergonhados, chegaram pra perto dele, passaram-lhe uma corda nos braços, amarraram-no, imediato, no tronco da mesma árve-de-lagarto à sombra da qual ele tinha conversado, fazia poucas horas, c’a Maria, a sua tão querida, tão desejada Maria, que agora o olhava da porta, co’a suspiração tomada, quase louca.

Trataram de levar o preso no sofragante. Ele perpassou pela Maria, deu-lhe adeus:

— Adeus, nhá Maria, vancê me desculpe, sim?

A Maria sentiu um nó na garganta, não pôde arresponder-lhe.

Ele falou mais baixico, assim meio resmungado: 

— Nhá Maria, pode-me esperar, que eu faço logo a minha livração e volto. O caboclo morre, não tem como não morra. E eu escolhi uma casião muito boa, vancê bem viu...

Depois, quando a comitiva garrou chão, ele foi cantando, cantando, até desaparecer na dobra do morro. Dobraram o morro, e a Maria ainda escuitou, muito tempo, o finzinho da moda:

“que eu canto
pra não chorar.”

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