quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Quebrante (Conto), de Valdomiro Silveira


Quebrante

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Que vontade a Maria Peneireira não tinha de ter um filho! Vivia rezando pra São Bento não fazia conta dela, a mó’ que. Promessa e mais promessa, jejuns em louvor de quanto santo conhecia, resguardo e rejume louco, dava tudo em água de barrela, dizendo, verdade era que dentro de três anos nada tinha arranjarava. Andava caindo no desânimo, duma vez, quando, em razão duns barulhos caseiros, largou do Nastácio e foi campear a querência antiga, a casa dos pais.

Foi pouquinho, o tempo que passou na querência antiga. Pissuía um coração mole, enrabichou-se de repente por um tropeiro que navegava dos três ranchos pra cá e de cá pros três ranchos, por nome de Juquinha Hortênsio. Bateu as asas, um belo dia, e arranjaram o ninho ali pro Chico Marques, mais pra ali, mais pra além, por aí assim. Ê lá vida boa, a que eles gozaram! Só Deus c’os anjos poderão saborear uma vida semelhante!

As orações da Maria Peneireira na certeza tiveram mais favor, dês que ela pegou de amores c’o Juquinha Hortênsio: na certeza, porque, revirados poucos meses, ela pricinpiou a sentir enjoos de estômago, entojo por quanta coisa havia, tonturas e outros sinais de esperança; revirados mais uns dias, mais uns poucos de meses, deu de engordar à vista de todos; correram trinta dias por um mês, mais um, mais outro, e São Bento afinal teve compaixão da Maria, mandando-lhe um filho bonitinho que era ûa maravilha.

Aconteceu o que havia de acontecer: a criança foi levada à igreja, batizada por Bento, mas não chorou quando o padre lhe botou sal na boca. A mãe, que estava junto, sentiu um baque no coração, porque é ruim quando a que vai pra pia não estranha o amargo do sal. Mas o sacramento chegou ao fim, ela segurou o filhinho, beijou-o, beijou-o um dilúvio de vezes, e troteou pra casa, que não era tão nas vizinhanças, pois uma légua e um quarto não se vencem c’a ponta dos beiços. O menino, enrolado numa roupa muito linda e enfeitada de fitas de quase todas as cores, nem mexia, parecia ir dormindo.

Quando frontearam a venda que tem pro lado esquerdo, na encruzilhada, a irmã da Maria Peneireira, que estava ali se pouso, chamou-a, e desejou ver o nenê. A Maria bem quis dizer: qual, Valência, é melhor deixar o coitado dormir seu sono sossegado −, mas não teve ânimo, e entregou-o dormindo à Valência. A outra desembrulhou o xale que o encobria, reparou firme no rosto mimoso, fez uma cara alegre e risonha, e disse:

— Ah! Que belezinha, Maria, que belezinha! Eu, se tivesse um capanga assim, até me contemplava a mais feliz de todas as mulheres! E tem um dormido tão mando! Ah! Que graça, que encanto!

Ora, quando a Maria Peneireira entrou em casa e foi pôr o pequetito na cama, o pequetito ficou co’a cabeça descaída pra um lado, amolengada e sem jeito. Ela cuidou que fosse o sono, arranjou o travesseirinho, amaciou a colcha, deitou-o: mas a cabeça pendeu pra uma banda, que nem um trapo meio pesado, os olhos entortaram-se, a boca franziou-se dum modo esquisito. E aí a pobre da mãe, desatinada, clamou a céus e terra que o Bento ‘tava nas últimas, morre-não-morre, e que aquilo não passava de quebrante.

Por volta da meia-noite, mais ou menos, a criança fechou pra sempre os olhos, passando desta vida pra outra feito um cuitelinho. A Maria, a princípio, não sabia que pensamento havia de escolher, dentre tantos que lhe alvoroçavam o espírito aloucado de dor: mas quando, mas quando, tendo posto mais atenção no vulto do filho morto, viu ainda aquela triste cabeça como que desconjuntada, começou a chorar e saluçar alto, perdidamente.

Os galos já estavam violando, a noite era de lua. Ela conservara-se de pé junto da cama, tremendo como um ramo de folhas noviças, que o vento sacode, cada vez que os gemidos a queriam estrangular. Aí então afastou-se de soco, c’os cabelos arrepiados e um fogo temeroso nos olhos, gritando:

— Foi aquela desgraçada da Valência que botou quebrante no meu filho! Foi aquela bica à toa, aquela juruveva, aquela potranca danada! Mas há de me pagar, há de me pagar tamanha desventura que me dá.

Tomou o filho morto nas mãos, saiu pela estrada, sozinha, corre-que-corre. Ninguém pôde ter mão dela, a violência era demais. Seguiram-na de longe. Assim que se aproximava da venda da encruzilhada, já ia aos brados chamando pela irmã:

— Ó Valência! Valência!

A Valência, acordada assim fora de horas, atemorizou-se, escondeu-se bem nas cobertas. Mas logo que reconheceu a voz da irmã, voz cortada de lágrimas, saltou da cama, pichou um xale na cabeça, rompeu na porta.

A lua ia empalidecendo, queria enfiar a cabeça no seio da montanha mais alta que se via duas léguas em roda. E a Valência, vendo o jeito desmantelado da irmã, cujos peitos se levantavam e baixavam a todo instante como se fossem dois polmões que estivessem latejando, chegou pra perto dela. O Juquinha Hortênsio e as mais pessoas que tinham acompanhado ainda vinham a umas cem braças.

Neste artigo a Maria Peneireira, pondo com muito cuidado o filhinho em riba dum pranchão rente da casa, atirou-se à Valência, agarrando-a pelo pescoço, apertando-lho, c’umas unhas que pareciam tão afiadas como as do canguçu. E rugia, que rugia:

— Você deitou quebrante no meu filho, ordinária! Você botou quebrante no meu filho, lagacha!

A Valência debateu-se, sufocada, tremeu, estremeceu, endireitou-se toda, ficou depois toda convulsa, depois rija que era ver um defunto.

E assim que o Juquinha Hortênsio puxou a Maria, contendo-a pela força bruta, ela fez menção de ajoelhar-se, rogando:

— Pelo amor de Deus, deixe que eu mate aquela malfadada!

Arrastaram-na para longe. E de longe ela gritava ainda, até desaparecer na baixada do caminho:

— Ah! Piguancha sem sangue, você botou quebrante no meu filho!

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