sábado, 14 de outubro de 2017

Armazém Progresso de São Paulo (Conto), de Alcântara Machado


Armazém Progresso de São Paulo
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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O armazém do Natale era célebre em todo o Bexiga por causa deste anúncio:
AVISO ÀS EXCELENTISSIMAS MÃES DE FAMÍLIA!
O
ARMAZÉM PROGRESSO DE SÃO PAULO
DE
NATALE PIENOTTO
TEM ARTIGOS DE TODAS AS QUALIDADES
DÁ-SE UM CONTO DE RÉIS A QUEM PROVAR O CONTRÁRIO

N. B. — Jogo de bocce com serviço de restaurante nos fundos.

Isso em letras formidáveis na fachada e em prospectos entregues a domicílio.
O filho do doutor da esquina, que era muito pândego e comprava cigarros no armazém mandando-os debitar na conta do pai com outro nome bulia todos os santos dias com o Natale:
— Seu Natale, o senhor tem pneumáticos-balão aí?
— Que negócio é esse?
— Ah, não tem? Então passe já para cá um conto de réis.
— Você não vê logo, Zezinho, que isso é só para tapear os trouxas? Que é que você quer? Um maço de Sudan Ovais? E como é na caderneta?
— Bote hoje uma Si— Si que é também pra tapear o trouxa.
O Natale achava uma graça imensa e escrevia: Duas Si-Si pro Sr. Zezinho — 1$200.
O Armazém Progresso de São Paulo começou com uma porta no lado par da Rua da Abolição. Agora tinha quatro no lado ímpar.
Também o Natale não despregava do balcão de madrugada a madrugada. Trabalhava como um danado. E Dona Bianca suando firme na cozinha e no bocce.
— Se não é essa coisa de imposto, puxa vida!
Mas a caderneta da Banca Francese ed Italiana per l'America del Sud ria dessa coisa de imposto.
— Dá aí duzentão de cachaça!
O negro fedido bebeu de um gole só. Começou a cuspir.
No quintal o pessoal do bocce gritava que nem no futebol. Entusiasmos estalavam:
— Evviva il campionissimo!
O Ferrucio entrou de pé no chão e relógio-pulseira.
— Mais duas de Hamburguesa, Seu Natale.
Meninas enlaçadas passeavam na calçada. O lampião de gás piscava pra elas. A locomotiva fumegando no carrinho de mão apitava amendoim torrado. O Brodo passou cantando.
Natale veio à porta da rua estirar os braços. Em frente a Confeitaria Paiva Couceiro expunha renques de cebola e a mulher do proprietário grávida com um filhinho no colo. Esse espetáculo diário era um gozo para o Natale. Cebola era artigo que estava por preço que as excelentíssimas mães de família achavam uma beleza de preço. E o mondrongo coitado tinha um colosso de cebolas galegas empatado na confeitaria. Natale que não perdia tempo calculou logo quanto poderia oferecer por toda aquela mercadoria (cebolas e o resto) no leilão da falência: dez contos, talvez sete, quem sabe cinco. O português não aguentaria mesmo o tranco por mais tempo.
— Dona Bianca está chamando o senhor depressa na cozinha.
Resolveu primeiro apertar o homem no vencimento da letra. E acendeu um Castro Alves.
A roda de pizza chiava na panela.
Con molte alici, eh dama Bianca!
— Si capisce, sor Luigi!
Natale entrou.
— Vem aqui no quarto.
Natale foi meio desconfiado.
— Que é?
Bianca quando dava para falar era aquela desgraça.
— José Espiridião, o mulato, o do Abastecimento, ora, o da Comissão do Abastecimento...
— Já sei.
...estava ali no quintal assistindo a uma partida de bocce. Conversando com o Giribello, o sapateiro, o pai da Genoveva...
— Já sei.
Bianca foi levar lá um prato de não sei o quê e o sem-vergonha do mulato até brincara com ela. Disse umas gracinhas. Mas ela não ficou quieta não. Que esperança. Deu uma resposta até que o Espiridião ficou até assim meio...
— Já sei.
Pois é. Ela ficou ali espiando o bocce porque era a vez do Nicola jogar. E como o Nicola já sabe é o campeão e estava num dia mesmo de...
— Sei!
Pois é. Ela ficou espiando. E também escutando o que o Espiridião estava dizendo para o Giribello. Não é que ela fazia questão de escutar o que ele falava. Não. Mas ela estava ali perto — não é? — então...
— SEI!
O Espiridião falava assim para o Giribello que a crise era um fato, que a cebola por exemplo ia ficar pela hora da morte. O pessoal da Comissão do Abastecimento andava até...
— SEI!
Ela então não quis ouvir mais nada. Veio correndo e mandou o Ferrucio chamá-lo para lhe dizer que desse um jeito com o português.
— Já sei...
Se não aproveitasse agora nunca mais. O homem que desse em pagamento da letra as...
— Dona Bianca! Venha depressa que o Dino quer avançar nas comidas!
— Mais um copo, Seu Doutor.
José Espiridião aceitava o título e a cerveja.
— Pois é como estou lhe contando, Seu Natale. A tabela vai subir porque a colheita foi fracota como o diabo. Ai, ai! Coitado de quem é pobre.
Natale abriu outra Antártica.
— Cebola até o fim do mês está valendo três vezes mais. Não demora muito temos cebola aí a cinco mil-réis o quilo ou mais. Olhe aqui, amigo Natale: trate de bancar o açambarcador. Não seja besta. O pessoal da alta que hoje cospe na cabeça do povo enriqueceu assim mesmo. Igualzinho.
Natale já sabia disso.
— Se o doutor me promete ficar quieto — compreende? — e o negócio dá certo o doutor leva também as suas vantagens...
Espiridião já sabia disso.
Dona Bianca pôs o Nino na caminha de ferro. Ele ficou com uma perna fora da coberta. Toda cheia de feridas.
Então o Natale entrou assobiando a Tosca. — A mulher olhou para ele. Percebeu tudo. Perguntou por perguntar:
— Arranjou?
Natale segurou-a pelas orelhas, quase encostou o nariz no dela.
— Diga se eu tenho cara de trouxa!
Deu na Dona Bianca um empurrão contente da vida, deu uma volta sobre os calcanhares, deu um soco na cômoda, saiu e voltou com meio litro de Chianti Ruffino. Parou. Olhou para a garrafa. Hesitou. Saiu de novo. E trouxe meia Pretinha.
Dona Bianca deitou-se sem apagar a luz. Olhou muito para o Dino que dormia de boca aberta. Olhou muito para o Santo Antônio di Padova col Gesù Bambino bem no meio da parede amarela. Mais uma vez olhou muito para o Dino que mudara de posição. E fechou os olhos para se ver no palacete mais caro da Avenida Paulista.

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