quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Na Rua do Bosque (Conto), de Valdomiro Silveira


Na Rua do Bosque

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Já se chamou do pito aceso aquela rua, e não foi à toa! Nunca se viu recanto de cidade onde houvesse gente mais levada das carepas, que ali. Aos domingos e dias santos, nem bem o folgazão do sol dava de iluminar a barra do céu, já por lá se reunia um povão de caboclos, que nem formiga, virando para um lado e para outro, dizendo lérias às tiribas que não faltavam naqueles cochicholos empinhocados, pintando a saracura. De tudo se via então: namoros descabelados com umas certas mocinhas que já estavam entre a igreja verdadeira e a igreja verde; cumprimentos rasgados de uns tais a umas tais, que todas se requebravam, no corpo e nos olhos, e até, para que se representasse também o trágico, muitas vezes a boca esguia de uma facada golfava sangue aos borbotões pela areia, ou desabrochava de uma garrucha, que dantes ninguém tinha visto, a flor amarela e fumacenta de um tiro.

Navegava pelo bairro, sempre roncando valentia e pisando no ponche dos mais, um fulano Bernardes, que era homem de más entranhas, a julgar-se pelo que fazia, pelo que prometia e, principalmente, pela fulva expressão de ódio que lhe reviam os olhos, onde quer que os fitasse: fulva se lhe tornava ela, ainda mais, porque os seus cabelos louros, anelados em voltas longas, desciam-lhe até a meio da testa, emaranhados e revoltos. A voz era-lhe quase um rugido, tanto se avezara a falar por monossílabos aquele demônio desguaritado, ao que então se dizia, de uma biboca qualquer do Rio Pardo, em que não havia com quem armar uma briga que valesse a pena do esforço.

Ganharam-lhe medo os frequentadores da rua. Quando o viam de longe, tratavam de evitá-lo com cuidado, com maior cuidado ainda em razão dos melindres que mostrava, pois era corrente que uma vez, como um mineiro lhe fugisse, entrando de sopetão em casa da moça que assistia perto do espraiado, ele tirou-o à força lá de dentro, sacudindo-o umas tantas vezes em plena rua e ensinando-lhe que um homem não deve temer-se de outro homem. Se se armava algum cateretê, e o Bernardes surgia na função, ninguém queria servir-lhe de parceiro, e fazia-se preciso que ele mesmo Bernardes saísse a campear um no meio da rapaziada.

Rosnavam que tinha feito ûa morte cá para os lados de canoas, além da divisa, e mudara de vida de repente, passando de homem de tramas a boiadeiro, deixando crescer a barba, pintando o cabelo de ruivo, quase de fogo, e espontando os dentes a lima. Boca do povo!

Mas ninguém não sabia que o Bernardes se chamava Chico Romão, não tinha mulher nem famílias e era situante no Jaguari, perto do Cercadinho. Plantava sua cana, seu arroz, seu milho, e ia vendê-los ao Guaçu, com um trabalho demasiado, principalmente quando subiu o preço da pinga e o açúcar estava por empenho. Tinha tido uma soneira louca pela tal Maria Nenê, a que depois deu em droga: e como não acharam bom o casamento, em casa, foi-se ficando solteiro, pensando bem que é melhor a um triste arrastar sua vida sozinho pelo mundo, que juntar-lhe a pobre coitada dûa moça que tem todo o direito de achar quem lhe queira deveras, como ele Chico Romão quisera à Maria Nenê.

Vivia então com a mãe e a Venturosa, única irmã, linda que nem três dias de sol e mais alegre que um periquito. Afez-se àquele viver sossegado, de animal que faz sua tarefa todos os dias, do romper da madrugada ao cerrar da noite, e recolhe ao pouso, amolentado e bambo. E haviam-se-lhe fechado as aspirações, uma por uma, no âmbito estreito da lavoura, que desejava ver sempre areada e próspera, tal qual um bando de araguaris que emigra, num grasnar esperançado, para muito ao longe, e volta mais tarde, entretanto, a habitar outra vez a mata natal, donde já não anseia mais por sair porque viu lá fora o perigo, sentiu as privações, as fomes, as sedes, as invernias e o terror.

Ora, uma vez, como viajasse para Santa Cruz, a tratar um carro de bois com um conhecido antigo e se demorasse uns três dias na viagem, achou gente de menos, na volta: e quem faltou foi a Venturosa. A mãe, com os peitos apertados pela raiva e pela dor, contou-lhe que aquilo fora coisa-feita, ao depois que o Sarapião escrevia pelo bairro, porque desde então a moça não tivera mais sossego, acabando por fugir com ele. O Sarapião era um diabo. Deus que nos perdoe! Viera desses mundos de terras que não se conhecem, e lidava nos empreitos. Diziam que era casado, mas que largara a mulher sem mais nem menos, como quem larga um gato ou um jaguariva numa casa desamparada. Boca do povo!

Nem um barulho, nem um ameaço: o Chico Romão escutou a conversa com o coração em tropel desordenado, mas o rosto não se lhe demudou, nem a alma perdeu a compostura. Perguntou, à mãe e aos vizinhos, por onde seguira o Sarapião e a Venturosa. Ninguém podia responder ao certo, porque a fugição foi de noite, mas o rasto dos cavalos era na estrada do Cocais, caminho de Casa Branca.

No dia seguinte o Chico Romão ensilhou o melhor cavalo que tinha, um chita veloz feito um raio, e abriu-se. Virações p’r amór da lavoura, segundo todos disseram. E ficou por isso.

Da capela para diante não teve mais notícia alguma da irmã e do outro. Em uma vendinha à beira da estrada, antes das mais casas da povoação, soube que o Sarapião (aquele jogador de vermelhinha, foi como lhe falaram) tinha passado por ali a cavalo, dias antes, trazendo engarupada ûa moça bonita e tanto, descascadinha e de olhos espertos, alegre e viva que parecia um feitiço. Não deu fé maior daquilo: fez que não se incomodava com semelhante dito, deu a entender que a nova não lhe importava. Saiu da vendinha, andou corre-correndo as últimas casas das saídas do povoado: nada mais.

Resolveu ficar de espera no bairro do Senhor Menino, andar o mais que pudesse, até um dia topar os dois fugitivos, e falava sempre consigo mesmo:

— Deixe estar, que aquele canhambora desavergonhado há de me pagar bem doído!

Chegou esse dia: transpunha a porta da igreja do Rosário, quando viu grande ajuntamento de povo nas cercanias da cadeia, em roda de dois homens que traziam, aos ombros e pendente ao comprido de um varal, um morto qualquer.

Acostumado aos solilóquios o Chico Romão pegou a perguntar de si para si:

— Que diabo de sinagoga será aquela, atromentando um defunto fresco? E esse pobre coitado que vem no catiguá, que nem uma paca, que será, quem não será?

Foi-se aproximando do grupo a ver quem era o matado (com certeza haviam feito algum crime), e a primeira fisionomia que lhe bateu na vista foi a do próprio Sarapião, um dos carregadores do corpo, que ia meio penso, de cansado, e suando em bica.

Começou o Chico Romão a tremer, a tremer, e por um triz não o agarrou logo ali, cheio de fúria, como um demente. Mas teve mão em si, esperou que todo o reboliço esmorecesse, o auto fosse lavrado, e mais tarde, assim que o Sarapião deu de ir embora, o foi acompanhando de longe, com toda a cautela, fingindo um passeio à toa.

O Sarapião caminhou pouco: enveredou para a esquina do urias, passou a casa do capitão Vicente, afundou-se na rua da Estalage. Quando chegou a uma casa pequenina, de janela de rótula, e bateu, quem lhe apareceu foi a Venturosa, já no meio desfeita a cabo de tão poucos dias, com os olhos empapuçados de choro e os cabelos despenteados. O Chico Romão bem que sentiu piedade, bem que teve ímpetos de voar à irmã, arrancá-la de tão triste morada: mas lembrou-se da traição que lhe fizeram, conteve-se. Também o Sarapião não esquentou lugar na casa, rompeu logo.

Caminhava agora para o lado do cemitério, o Chico Romão seguia-o de longe; endireitou no rumo da igrejinha da Boa Morte, o Chico Romão lá ia feito uma sombra; fez direção para a rua do Bosque, o Chico Romão não torceu nem uma linha. Entrou numa casa, fechou a porta: e o silêncio da rua, quebrado a essa hora apenas pelo áspero ranger daquela porta preguiçosa, reatou-se de novo, como uma grande tristeza de desamparo e de ruína. O Chico Romão olhou demoradamente para aquela casa quieta, querendo adivinhar o que passava dentro, e depois, a afastar-se, murmurava escumando de raiva:

— Antão é aí que você mora, roubador de moça? Eu hei de lhe mostrar como é que o urutu se vinga de quem um dia pisou na cacunda dele. Espere só!

O Sarapião não teve que esperar muito tempo.

Era num dia primeiro do ano. A caipirada repontara dos sítios, desde pela manhãzinha, e a cidade estava dura. Havia uma congada como nunca, de creoulos entusiasmados e cantadores loucos de bons. Assim que rompeu a alvorada, já se ouviu a cantoria que vinha descendo da estação, arrastada e lânguida: 

“Senhor rei, bamos embora,
ai!
Senhor rei, vamos embora!”

Cada congo era um brinco. Aparecia um, vestido de cetim e todo cheio de fitas, que puxava a dança; quando proferia as últimas palavras do verso e agitava desabaladamente o adufe, viam-se-lhe encher os olhos de água e a boca tremer convulsa, de pura comoção. Outro, que todos contavam ter fugido de uma fazenda do norte e era o melhor pulador do bando, não dava uma volta sem olhar para todos os lados, com os olhos sempre possuídos do susto selvagem. E um se notava entre os mais corpulentos e reforçado, que cantava com soberana soberbia, passando a todo instante a mão enorme sobre as plumas que lhe arfavam festivamente na cabeça. O rei congo era um velho: ficava já quase imóvel entre os companheiros, pensativo e cansado, talvez a cismar que em breve a coroa teria de passar a outro, a um outro que ali estava, de olhar muito audaz a romper de um rosto esguio, e que, como é costume entre os príncipes herdeiros, em todos os reinos, já mostrava sua ambição e sua valentia nas mais pequenas conversas.

Quando a congada chegou à rua do Bosque, não houve mais passagem para uma criança que fosse: a grama das beiradas das casas ficou amassadinha? A bica por onde vinha a água da chácara do capitão Vicente sumiu no meio do povo. A mulher do Sarapião, que era uma paranista bonitona, estava à porta da casa e olhava a congada, junto do marido e dos filhos: e todos tão entretidos, que ninguém viu a hora em que o Bernardes chegou a cavalo, sabe Deus como! – em frente àquele povo. Logo que reconheceram, ficou a cangada quieta, como por um milagre, e foi só o negralhão soberbo quem se afrontou a dizer:

— Bamo’ co’isso, que aqui não aconteceu nada!

Mas o Bernardes não tinha que ver com aquele prosa. Olhou-o, sacudiu os ombros. Aproximou-se da porta do Sarapião, mirou-o e remirou-o bem, perguntou-lhe sufocado:

— Você me conhece, Sarapião? Não conhece, eu bem ‘tou vendo! Pois olhe: eu sou o Chico Romão, aquele do Cercadinho, o irmão da Venturosa, que você tirou da casa da mãe e ponhou nûa meiágua, lá pra esses fundos. Conhece agora? 

O Sarapião não respondia. E o Bernardes tomou-o pelo peito, falando rouco:

— Quem deve paga, Sarapião. Você paga hoje a conta velha. Como você não presta, eu ‘tou sentindo, é a sua mulher que fecha as contas.

Aferrou a mulher do Sarapião pelos braços, com uma força sobre-humana. Nada valeram gritos e queixas, de nada serviu a defesa frouxa daqueles braços que se enfraqueciam pelo terror. Não houve quem punisse por ela, nem quem dissesse coisa com coisa.

O Bernardes correu as esporas no chita, saiu pausado e rindo-se. Quando se alongava, quando torcia a esquina que vai ao largo da boa morte, ouviu uma palavra dolorida e raiventa:

— Ai! A minha mulher é tão de bem, meu Deus de misericórdia!

Entreparou, voltou-se:

— A minha irmã também era boa, desgracionado!

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