quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Chapeuzinho Vermelho (Conto), de Bento Serrano


O Chapeuzinho Vermelho ou A Fada e o Lobo

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Era uma vez uma menina da aldeia, a mais bonita que podia haver: sua mãe adorava-a, e sua avó, que era a Fada dos jasmim, ainda mais. Esta boa mulher deu-lhe de presente um chapeuzinho vermelho, que lhe ficava tão bem, que a chamaram o Chapeuzinho Vermelho.
Um dia sua mãe, tendo feito alguns bolos, disse-lhe: — Vai ver como está tua avó, pois que me disseram que ela estava doente; leva-lhe este bolo e este pote de manteiga. O Chapeuzinho Vermelho partiu logo para casa de sua avó, que morava em outra aldeia. Passando num bosque, encontrou um lobo com cara de gente, que tinha boa vontade de a comer; mas não ousou fazê-lo, por temor de alguns carvoeiros que estavam na floresta. Perguntou-lhe onde ela ia; e a pobre pequena, que não sabia que era perigoso dar atenção a um lobo, respondeu: — Vou ver minha avó, e levar-lhe um bolo com um pote de manteiga, que minha mãe lhe manda. — Ela mora muito longe? perguntou o lobo. — Não, senhor, respondeu o Chapeuzinho, é além daquele moinho, que você vê lá ao longe, na primeira casa da aldeia. — Pois bem, disse o lobo, eu também quero ir vê-la, vou por este caminho, tu irás por aquele, e veremos quem chega lá primeiro. O lobo pôs-se a correr a toda a pressa pelo caminho mais curto; e a pequenina foi pelo caminho mais comprido, divertindo-se a colher avelãs, a correr atrás das borboletas, e a fazer ramalhetes das flores que via. O lobo não tardou muito a chegar a casa da avó, e bateu à porta: truz, truz, mas ninguém respondeu, porque a Fada dos jasmins, sabendo quem era, quis fazê-lo persuadir que não havia gente em casa.
Tendo o lobo batido mais duas vezes, sem que lhe respondessem, supôs que a avó do Chapeuzinho Vermelho havia saído, e resolveu entrar na casa, para esperar as duas e comê-las. Assim resolvido, levantou a aldraba, e abrindo-se a porta, entrou na casa, onde não viu ninguém; porque a Fada se havia escondido em um armário, que estava à cabeceira da cama, de onde via e observava tudo. O lobo deu duas voltas pela casa, e, vendo-a sozinha, fechou a porta com a aldraba e foi deitar-se na cama da avó, à espera da primeira que aparecesse. Pouco tempo depois chegou o Chapeuzinho Vermelho, que bateu à porta: truz, truz,— Quem está aí?— O Chapeuzinho Vermelho, que ouviu a voz grossa do lobo, teve medo ao princípio; mas pensando que sua avó estava rouca, respondeu: — É sua neta Chapeuzinho Vermelho, que lhe traz um bolo e um potesinho de manteiga, que minha mãe lhe manda. O lobo gritou-lhe, amaciando a voz: — Levanta a aldraba. A pequenina levantou a aldraba, e a porta abriu-se. O lobo, vendo-a entrar, lhe disse, escondendo a cabeça debaixo dos lençóis: — Põe o bolo e o potesinho de manteiga em cima da mesa, e vem-te deitar comigo. O Chapeuzinho Vermelho foi-se meter na cama; mas ficou muito admirada de ver sua avó despida. A pequenina lhe disse: — Ó minha avó! como os seus braços são compridos!— É para melhor te abraçar, minha neta. — Ó minha avó! como as suas pernas são grandes!— É para correr melhor, minha neta. — Minha avó! as suas orelhas são bem compridas!— É para escutar melhor, minha neta. — Minha avó! que olhos tem tão grandes!— É para ver melhor, minha neta. — Minha avó! para que tem dentes tamanhos!?— É para te comer. E dizendo estas palavras, este mau lobo lançou-se sobre Chapeuzinho Vermelho para comê-la; mas estacou de repente, ficando sem movimento, porque a Fada, saindo do esconderijo, lhe tocou com a sua varinha de condão. O Chapeuzinho Vermelho deu um grito de alegria ao ver sua avó, que tirou a netinha de ao pé do lobo, mais morta que viva, pelo susto que tivera. Então disse a Fada para a netinha: — Que castigo se há de dar àquele malvado lobo, que te queria devorar?— Dê-lhe, minha avozinha, o castigo que quiser, respondeu o Chapeuzinho Vermelho. — Pois então vai para a janela, que verás o que nunca viste. Estando o Chapeuzinho Vermelho à janela, viu sair de casa o lobo, todo coberto de busca-pés (é deste tempo que data o descobrimento da pólvora) desde a ponta do rabo até à do focinho, e ouviu dizer a sua avó: — Vai, malvado, correndo por aí fora até que vás apagar o fogo no poço do moinho, onde morrerás afogado. Isto dito, começaram os busca-pés a arder, dando tiros tão medonhos, que o lobo fugiu espavorido, e julgando apagar o fogo com água, foi lançar-se ao rio, que corria perto, afogando-se justamente no poço do moinho, que desde então ficou sendo o poço do lobo.
Depois disto disse a Fada para o Chapeuzinho Vermelho: — hás de prometer-me que de hoje em diante, quando tua mãe te mandar a algum recado, não te hás de demorar pelo caminho, nem conversar com quem não conheces, dizendo-lhe o que vais fazer; e se assim o fizeres, dou-te por dom que serás mui formosa e casarás com um grande fidalgo.
E assim foi: pois crescendo o Chapeuzinho Vermelho, fez-se tão discreta e tão formosa, que foi pedida em casamento por um grande fidalgo da vizinhança, com o qual casou e viveu muito feliz.

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