segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A onça e o bode (Conto), de Sílvio Romero


A onça e o bode
(Contos populares do Brasil – Sergipe)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Uma vez a onça quis fazer uma casa; foi a um lugar, roçou o mato para ali fazer a sua casa. O bode, que também andava com vontade de fazer uma casa, foi procurar um lugar, e, chegando no que a onça tinha roçado, disse: “Bravo! Que belo lugar para levantar a minha casa!” O bode cortou logo umas forquilhas e enfincou naquele lugar, e foi-se embora. No dia seguinte a onça lá chegando, e vendo as forquilhas enfincadas, disse: “Oh! Quem me está ajudando?! Bravo, é Deus que está me ajudando!” Botou logo as travessas nas forquilhas, e a cumeeira, e foi-se. O bode, quando veio de novo, admirou-se e disse: “Oh! Quem está me ajudando?! É Deus que está me protegendo.” Botou logo os caibros na casa, e foi-se. Vindo a onça, ainda mais se espantou, e botou as ripas e os enchimentos e retirou-se. O bode veio, e envarou a casa e foi-se. A onça veio e cobriu. O bode veio e tapou. Assim foram, cada um por sua vez, e aprontaram a casa. Acabada ela, veio a onça, fez a sua cama e meteu-se dentro. Logo depois chegou o bode, e, vendo a outra, disse: “Não, amiga, esta casa é minha, porque fui eu quem enfinquei as forquilhas, botei os caibros, envarei, e tapei.” — “Não, amigo”, respondeu a onça, “a casa é minha, porque fui eu que rocei o lugar, botei as travessas, a cumeeira, as ripas, os enchimentos, e o sapé.”

Depois de alguma questão, a onça, que estava com vontade de comer o bode, disse: “Mas não haja briga, amigo bode, nós dois podemos ficar morando na casa.” O bode aceitou, mas com muito medo. O bode armou a sua rede bem longe do jirau da onça. No outro dia a onça disse: “Amigo bode, quando você me vir frangir o couro da testa, eu estou com raiva, tome sentido!” — “Eu, amiga onça, quando você me vir balançar as minhas barbinhas ali nas goteiras e dar um espirro, você fuja, que eu não estou de caçoada.” Depois a onça saiu, dizendo que ia buscar de comer. Lá, por longe de casa, pegou um grande bode e, para fazer medo ao seu companheiro, matou-o, e entrou com ele pela casa adentro. Atirou-o no chão e disse: “Está, amigo bode, esfole e trate para nós comer.” O bode, quando viu aquilo, disse lá consigo: “Quando este, que era tão grande, você matou, quanto mais a mim!” No outro dia ele disse à onça: “Agora, amiga onça, quem vai buscar de comer sou eu.” E largou-se. Chegando longe, avistou uma onça bem grande e gorda, disfarçou e pôs-se a tirar cipós no mato. A onça veio chegando, e, vendo aquilo, disse: “Amigo bode, para que tanto cipó?” — “Fum! Para quê?! O negócio é sério, trate de si... O mundo está para acabar, e é com dilúvio...” — “O que está dizendo, amigo bode?” — “É verdade; e você, se quiser escapar, venha se amarrar, que eu já me vou.” A onça foi, e escolheu um pau bem alto e grosso, e pediu ao bode para que a amarrasse. O bode enleou-a perfeitamente, e, quando a viu bem segura, meteu-lhe o cacete como terra, até matá-la. Depois arrastou-a; chegou em casa, largou-a no chão, dizendo: “Está; se quiser esfole e trate.”

A onça ficou espantada e com medo. Ambos dois temiam um ao outro.

Num dia o bode pôs-se junto das biqueiras, tomando fresco; olhou para a onça, e ela estava com o couro da testa frangido. Ele teve receio e abalou as barbas, e largou um espirro. A onça pulou do mundéu e largou na carreira, o bode também abriu o pano. Ainda hoje correm cada um para o seu lado.

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