sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A sorte (Conto), de Coelho Neto


A sorte
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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A bruma viera cedo apressando a noite, a noite maior, e trazendo o frio, o bom frio do São João. Não havia uma estrela, certamente Jesus as escondera para que o essênio bravio, que acabou às mãos de Menael, no fundo do cárcere de Machaerus, perto das cavalhariças de Herodes, onde brilhavam, como de neve, as trezentas éguas brancas da Arábia que Vitélio arrebanhou, maravilhado, não se aproveitasse de alguma para, com ela, incendiar o mundo. Não havia uma estrela, em compensação, de instante a instante, alguém bradava no terreiro anunciando um balão. Corriam todos contentes, em chalreada ruidosa, as crianças empurrando os velhos e, na varanda, ao frio, ficavam a olhar o fogo errante que lá ia oscilando, aos boléus, em direção às montanhas.

A fogueira alta ardia no terreiro espalhando um rubro clarão que chegava às árvores tingindo-as de sangue e tornando a folhagem rutilante. Por vezes, ao abater dum tronco encarvoado, fagulhava um enxame de faíscas alegres que estralejavam e morriam. As crianças levantavam alarido saltando e batendo as palmas: “As abelhas de São João! As abelhas de São João!”

Súbito, um foguete arrancava e lá subia serpenteando, explodia: dois, três estouros ou eram bombas que estrondavam. Feixes de cana, rimas de batatas e de carás esperavam a um canto, perto de uma aroeira, a hora do pagode, como dizia tio Chico.

Violas e cavaquinhos preludiavam e, lá dentro, na casa iluminada, era um ir e vir de gente apressada em torno da mesa florida, onde já os grandes bolos tostados, os cremes, as gelatinas, os sequilhos empilhados, os alfenins alvíssimos e as compoteiras desafiavam a gula da petizada e mesmo dos taludos que rondavam aquele altar esquecendo o outro, armado numa saleta, entre folhagens, onde São João, cercado de círios e de rosas, com o cajado e o malote ao ombro, seguido do cordeirinho, estendia a mão como a abençoar.

As velhas faziam-lhe a corte: volta e meia lá estava uma espevitando os círios, afastando um galho pendido ou contemplando, com enlevo, a imagem. Outras chegavam e, de mãos enclavinhadas, ficavam um instante a olhar, com um movimento trêmulo dos lábios. Só a dona da casa, muito ocupada com a ceia, não se detinha ante o santo — quase que nem olhava, tendo-o por uma “divindade doméstica”, um íntimo com o qual não fazia cerimônias. As outras que pedissem à vontade, ela não precisava; tinha-o todo o ano em casa e, quando quisesse alguma coisa, era só abrir o oratório e rezar um terço.

No peitoril duma janela, ao sereno, um copo de água esfriava — alguém ali o deixara, com um ovo dentro, para ver a sorte à meia noite. Tiravam-se os primeiros cantos, logo interrompidos pelas gargalhadas... recordações alegres de outros anos.

“ Quá, genti!” e lá iam os tangedores, dobrados sobre os instrumentos, ponteando com bravura, qual mais ágil, qual mais faceiro, repenicando os bordões que ressoavam cheios, pondo um arrepio em todas as raparigas. Mas a noite esfriava deveras; uma aragem gelada vinha de fora. Pipocavam foguetes, crepitava a fogueira; mas era inverno bravo, os dedos estavam duros. “Genti, issu assim não vai.”

Tio Chico entendeu as falas e foi logo, pressuroso, buscar o restilo para animar o povo. “Sim, que encarangados eles não podiam mesmo tocar coisa que prestasse e a noite estava dura. Ele próprio, que não era friorento, estava ali fazendo de forte, só Deus sabia como.” E lá foi o codorio no mesmo copo de vidro grosso, de mão em mão, e era um pigarrear satisfeito em todo o bando. “Agora pega, genti! mas pega olim sustância, nada d'afrouxá. Oia ca genti não sabe si chega pro ano!” “ Cruz! Credo!” rebateram o agouro. Havemos de chegar, por que não? O santo não tá aí? qui mais! Deixa di fala ansim. Que a morte tem de vir, todo o mundo sabe, mas o melhor ó não fala nela. Que venha quando Deus quisé”. “E que seja bem tarde!” disse um dos violeiros e Casimiro, que era folião, acrescentou com a sua voz cheia: “Permitia Deus que ela, quando tive di vi pra mim, dê uma topada no caminho e fique concertando o pé uns bons par de anos...” Houve riso e um “pois sim!” atirado num muxoxo.

Mas uma das violas rompeu e as outras, em concerto, com os trêmulos dos cavaquinhos e os graves dos violões, deram o sinal da dança.

Uma a uma, graciosamente, foram as moças cedendo aos convites dos rapazes e, em pouco, os pares revoluteavam e era um sorriso só em todos os rostos, um só brilho em todos os olhos e que aroma na sala, de canela e de lírios, lírios das águas, dos que nascem no meio das lagoas, nos remansos dos rios, tão brancos, que até dizem que são restos da lua cheia que ficam nas águas e que vêm à tona, de noite, pedindo à lua que os recolha.

As velhas, sentadas pelos cantos, enlevavam-se nas graças das filhas e, quem sabe lá se aqueles sorrisos, que lhes franziam mais os rostos encarquilhados, não se referiam às suas reminiscências, ao bom tempo de antanho, quando, novas e lindas como aquelas que ali dançavam, cingidas, por braços de rapagões, ai! deles, ouvindo-lhes as palavras iam, quase sem sentir o chão, fazendo voltas airosas e leves como se os mancebos fortes as levassem ao colo, carinhosamente, por um sonho fora. Ai! tempo.

E as violas zangarreavam alegremente e lá fora, com a grita das crianças, ia morrendo a fogueira. E a bruma crescia como o fumo de uma fogueira maior que ardesse longe, no céu, talvez, para recreio dos anjos.

 — Mas, gente, quede Luzia?!

A esta exclamação lançada, de improviso, no meio da sala que refervia, detiveram-se todos entreolhando-se pasmados. Os violeiros, que afinavam os instrumentos, levantaram as cabeças fitando a dona da casa que, de braços cruzados, olhava ora para um, ora para outro como à espera de uma resposta. A mocinha ali não estava, não estava lá dentro: dançara uma polca, a primeira, com o Firmiano, isso dançara, mas não a viram mais.

— Quem sabe se ela foi-se deita? Já olharam no quarto?

— Não está! afirmou a dona da casa com a voz oprimida.

Já as senhoras se haviam espalhado pela casa, invadindo os aposentos, chamando a mocinha. Tio Chico chegou à varanda e pôs-se a bradar para o terreiro, onde a fogueira morria esquecida:

— Luzia! Luzia!

Nada! Um balão fugia pelo ar escuro levado pelo vento; longe o risco de fogo de um foguete coriscou no negrume; as árvores buliam devagarzinho e, no silêncio, ouvia-se bem a queda da água no moinho, perto.

— Luzia! Onde se terá metido essa rapariga?

Chegaram outras pessoas à varanda, olhando, chamando.

As moças cochichavam reunidas e já pesavam suspeitas sobre a mocinha quando, de novo, a voz de Tio Chico se fez ouvir:

— Que ó aquilo ali embaixo? Vocês não estão vendo um vulto ali para os lados dos bambus?

— Sim. Parece. E o velho bradou de novo: “Luzia!” Um cão pôs-se a ladrar na sombra. “É gente! é gente conhecida. O Tigre que calou a boca é porque é gente de casa”. As senhoras romperam pela varanda aflitas quando um dos violeiros disse: “Vem gente ali, e é mulher. Luzia!”

 — Eh! responderam.

— Que é que você anda fazendo lá fora com essa noite, menina?

Era ela. Vinha devagarzinho com um punhado de lírios na mão e coroada de lírios. Entrou calada, sorrindo timidamente, a brincar com as flores. Cercaram-na e a dona da casa avançou sem poder conter a fúria:

— Que é que você foi fazer lá fora, pequena? Onde estava você? Fala.

Tio Chico quis intervir, já disposto a perdoar a escapada, mas a mulher, de pé diante da mocinha, com as mãos nas cadeiras, olhava-a a resmungar ameaças. Luzia, de olhos baixos, esmagava os lírios alvos sem dizer palavra, com um sorriso triste no rosto moreno e lindo.

Foi uma velha quem descobriu o segredo:

— Que horas são? perguntou.

— Vai para uma, disseram.

— Então está aí, Luzia foi à fonte. Pois vocês não estão vendo que ela está cheia de açucenas?

A rapariga levantou vivamente a cabeça e fitou a indiscreta:

— Pois fui mesmo, disse altiva; fui e que mal há nisso! Cada qual sabe de si e Deus de todos. Fui!

E, nervosa, desatou a chorar.

Foi bom assim porque a gente que a cercava sentiu um grande alívio, foram-se as suspeitas e as companheiras, que a julgaram mal, como se as picasse o remorso, cercaram-na carinhosamente consolando-a: “Que não chorasse! D. Ana não estava zangada. Tinham dado falta, não a viam, não a achavam em casa... Aquilo era um mato perigoso, podia ter acontecido alguma coisa, ficaram aflitos. Era natural. Ninguém estava zangado.”

Abafando os soluços ela foi seguindo entre as companheiras para o interior da casa. Os violeiros, querendo acabar com aquelas tristezas, deram o sinal para uma quadrilha e Tio Chico foi logo dizendo que era a última, antes da ceia, e como D. Ana, muito ansiada, ainda falasse do grande susto que lhe pregara a filha ele, que estava alegre, fez-lhe uma festa brejeira no rosto gordo:

— Está bom, não falemos mais nisso; a pequena foi à fonte ver a sorte, já está aí, com a graça de Deus. Vai ver a ceia, anda; sem isso não teremos comida senão lá para a madrugada.

— Com uma noite fria assim! até pode apanhar uma coisa no peito.

— Qual, história! em noite de São João não há moléstias. Vai, anda. Olha, a gente está fraqueando que até faz pena.

Dançava-se com entusiasmo a terceira parte da quadrilha, marcada, aos berros, pelo Gustavo da Boca nova quando um tiro estrondou no terreiro.

Os cães ladraram com fúria, mas quase ao mesmo tempo, uma das moças, que olhava para a varanda, exclamou corando:

— Mundico, gente!

Um rapaz desempenado estava parado à porta, de botas, chapéu à banda, o chicotinho enfiado no punho, sorrindo. Foi um alvoroço na sala, desfez-se a quadrilha; correram todos para o recém-vindo e quando Tio Chico viu o rapaz, alegre como estava, abriu largamente os braços e caminhou para ele:

— Quê, homem! Você por aqui! Quando chegou?

— Ontem e aqui estou que ó o mesmo que dizer que ainda não preguei olho. E tia Ana? E Luzia?

As duas apareceram e foi um espanto ruidoso:

— Meu Deus, Mundico! Quando chegou? Você fez exame? Foi feliz? Como está gordo!

E a velha mirava-o, sorrindo. Luzia, mais retraída, sorria também, mas de olhos baixos.

— Toma alguma coisa, rapaz; um pouco de vinho, um pouco de cana, café?

— Nada! Nada. Não estavam dançando?

— Sim.

— Uma quadrilha?

— Estávamos na terceira parte.

— Pois vamos continuar. Não há por aí uma dama? E voltava-se lançando o olhar em torno. Tens par, Luziazinha!

— Eu, não.

— Então, anda cá.

— Mas falta um vis-à-vis, disseram.

— Arranja-se. Tio Chico, titia... Venham.

— O quê?

— É para completar aqui o negócio, tenham paciência.

Os dois velhos, quase empurrados pelo rapaz, foram tomar lugar e os violeiros romperam. O Gustavo gritou logo, já rouco: En avant! E Mundico, inclinando-se disfarçadamente para a prima, perguntou baixinho:

— Então!

— Então?! Então é que eles desconfiaram. Eu bem dizia a você que estava demorando muito.

Ghâine de circunstância só para as madamas! esgoelou o Gustavo.

 E as violas repenicavam com fúria.

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