sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

D. João de Maraña (Conto), de Coelho Neto


D. João de Maraña
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Na lápide de uma tumba rasa, que serve de limiar à portaria da igreja da Caridade, em Sevilha, lê-se, em letras gastas pelo contínuo roçar dos pés, este epitáfio sombrio: “Aqui yace el peor hombre que fue en el mundo”.

Diz Mérimée que tais palavras, ditadas no momento da morte por aquele que debaixo delas repousa, como se quisesse ficar sob um perpétuo estigma ou sob um perpétuo anúncio, ou foram sugeridas por humilde arrependimento ou inspiradas por desmarcado orgulho. O corpo que ali jaz foi o de galhardo fidalgo destemido e afrontoso, horror de Sevilha e de Salamanca, herdeiro da fortuna e da nobreza dos condes de Maraña, infame rausor de virgens, profanador de claustros, grande acutilador e matador de homens.

D. Carlos de Maraña, vencedor dos Alpujarras, era de antiga e ilustre casa sevilhana, famosa nas crônicas esforçadas do tempo das grandes guerras. Depois de muito talhar mourisma, destroçando aduares, escalando muralhas e levando, à frente da sua mesnada afoita, a cavalaria do Islã batida e confundida, mui cangado de “montear” os cães de Mafamede e não menos enfastiado de aventuras, resolveu recolher ao seu palácio, nos arredores da cidade, no silêncio sombrio dum parque de velhas árvores, com muita terra de semeadura para o fundo, onde verdejavam olivedos e vinhas.

Os fâmulos, com as contínuas e demoradas sóridas do fidalgo, ficavam a cochilar no imenso e soturno palácio e, de tempos a tempos, acordados pelo mordomo, lá iam aos salões. Abriam largamente as janelas ao sol e ao ar, sacudiam a densa poeira que encobria os quadros, açacalavam as armas das panóplias, bruniam os mármores dos móveis, batiam as tapeçarias, mas o senhor não tornava e, de novo, o palácio recaía no silêncio, fechado à luz como solar abandonado e maldito.

Às vezes, um cavaleiro, coberto de pó, com as armas sem brilho, refreava, diante da grande casa armoriada, o ginete esfalfado, apeava e, com o punho da espada, batia de rijo na porta principal, chapeada de ferro, como a de uma fortaleza. O som estrondava longamente. Acudiam, a correr, os fâmulos sobressaltados, olhavam pelo postigo gradeado e, reconhecendo o cavaleiro, com esforço faziam rodar a porta emperrada e pesada, de cujos gonzos, no lento girar dos quícios, caía, como a farinha da mó, uma vermelha poeira de ferrugem.

O cavaleiro penetrava, era acolhido com alegre alvoroço, dava-se-lhe do melhor vinho e da melhor fruta e, à noite, em volta da grande mesa, ao chamejar da lenha, secando canecos, ele narrava à boa gente doméstica os feitos maiores do senhor, que lá ia, ao longo das praias, repelindo para o mar o ismaelita corrupto, levando-o, à ponta de lança, como o campino, na lezíria, apua a pampilho o touro. E até noite alta, quando o fogo morria, os fâmulos, em silêncio, maravilhados e orgulhosos, escutavam as descrições das proezas do lidador. Na manhã seguinte o cavaleiro apressado montava um animal robusto e, com outro à destra e machos resistentes, lá ia levando novas armas ao campeão que pelejava e vencia a peito descoberto.

Veio, porém, o fastio da vida errante e incerta e o fidalgo com mais duma ferida no corpo e um grande talho de alfanje na face acobreada, entrou no seu palácio e, suspendendo o montante e o morrião, despindo a couraça abolada, que foi brilhar, como um troféu, entre as luzentes armas dos Maraña, mandou abrir, de par em par, todas as portas e janelas, e, nesse dia, velhos morcegos, que se haviam acolhido, como em ruínas, aos ângulos daqueles salões, deslumbrados pelo grande sol que entrava fulgurante, puseram-se a esvoaçar pesadamente, indo de encontro às telas, ferindo-se nas ascumas, aos trissos, e foi para a gente doméstica uma divertida e ruidosa caçada.

D. Carlos, porém, habituado à vida agitada dos acampamentos, sentindo-se muito só naquela imensa morada, pensou em tomar esposa. Como, pela vida que adotara, andasse sempre longe, não conhecia as damas sevilhanas, despindo, porém, as armas e cobrindo-se de veludos, com um gracioso florete ao flanco, antes adorno que defesa, fez-se o mais assíduo galanteador nos salões da nobreza, procurando, com sagacidade, uma donzela que fosse, em tudo, digna do seu nome e de seu amor. Achou o que buscava, não no esplendor da cidade, mas no retiro virtuoso de um paço de velha nobreza, calmo no seu recato, todo em sombras de árvores, à beira do Guadalquivir.

D. Inês, nascida e criada naquele pensativo solar, onde apenas viviam damas, que o pai lá lhe ficara em guerras, na costa do mar, junto do filho que o seguira, muito moço ainda, mas já ardente em batalhas, era duma pálida beleza, mais branca do que as imagens do seu oratório contíguo ao quarto em que dormia, fechado a ferros como uma cela de monja ou o ergástulo de galé.

O primeiro homem que os seus olhos calmos contemplaram com a demora de um olhar foi D. Carlos, o guerreiro acérrimo, junto de quem ela ficava como um lírio fraco e lânguido perto de anoso roble. De vê-la a pedi-la não houve demora e logo se anunciou pelas casas armoriadas o casamento do conde batalhador com a delicada filha dos fidalgos de Beira d'Água.

As bodas, como convinha a duas famílias de tanta prosápia, foram suntuosas. Três dias duraram as festas e a gente dos campos desceu a admirar a riqueza e a fulgurância do palácio dos Maraña.

Anos tristes passaram sem esperança de herdeiro. Uma manhã, porém, D. Inês, a chorar e a tremer nervosa, deu ao conde a notícia grata de que se achava fecunda, e, meses depois, na hora da tarde, com o canto dos frades que enchiam a capela, nasceu, robusto e lindo, o varão que devia honrar e continuar a glória das duas casas.

Levado à pia com solenidade — dobravam alegremente os sinos como nos dias grandes da religião — recebeu o infante o nome de João e cresceu entre os círios e as rosas da capela, onde a mãe; que o tinha por dom divino, com ele desaparecia a rezar.

O conde, taciturno, medindo os vastos salões a duras e largas passadas, murmurava contra aquele vergar d'alma, e, quando, longe das vistas da mulher, achava o filho curvado, a folhear velhos livros cheios de iluminuras devotas, lá o arrancava com violência e, trancando-se com ele na sala de armas, ia-lhe apontando, um a um, os retratos de avós, citando-lhe os seus feitos, descrevendo batalhas e, ora brandindo uma espada, ora embraçando um escudo, ora enristando uma lança, arremessando-se e recuando, aos brados estrondosos, dava-lhe ao vivo o exemplo dos combates quando, na confusão da peleja, os ginetes acobertados chocavam-se com estridor e as lanças voavam em estilhas de encontro aos aceiros rijos. E, como o menino, em cujas veias ardia o sangue bravo dos heróis de duas temíveis linhagens, se fosse inclinando aquele gosto que renascia no pai, deu-lhe o fidalgo um destro mestre de armas e, assim, entre esfiar de rosários e botes e arremetidas, devoções no oratório e retinir de espadas no salão ou no parque, foi crescendo o mancebo que devia continuar, com honra e denodo, a tradição dos Maraña.

Vendo-o o conde desenvolto e robusto, resolveu despachá-lo para Salamanca, onde florescia a Universidade.

D. Inês, ao despedir-se do filho, encheu-lhe os bolsos de rezas e amuletos, pedindo-lhe que se lembrasse sempre do quadro que havia na capela doméstica, representando as almas do Purgatório, sofrendo nas chamas, espicaçadas por demônios negros, entre monstros esvoaçantes.

Que a não esquecesse nas suas orações, para que a sua alma não chegasse a penar como penavam as da tela sinistra. D. Carlos, cingindo-lhe uma espada de boa tempera, lembrou-lhe a honra dos Maraña que ele ia continuar e engrandecer. E o moço partiu.

Em Salamanca fê-lo o demônio encontradiço com o estudante mais estroina da Universidade, D. Garcia, nobre e airoso moço que andava esfarrapado por gosto e blasfemava por bazófia.

Ligaram-se os dois. De dia dormiam pelos grabatos das baiucas ou nos alcouces das marafonas, entre restos de orgias; à noite, traçando as capas, com a guitarra e a espada, lá iam pelas ruas e calejas acordando as virgens que acudiam aos seus cantares sedutores.

Rara era a noite em que D. João, recolhendo, não referia ao companheiro um novo crime — ou de desonra, descrevendo, com lascívia cínica, a beleza profanada, ou de morte, comentando o golpe com que prostrara o desconhecido na treva deserta de uma esquina.

Tantos e tão seguidos foram os seus crimes que, a conselho de D. Garcia, que temia um levante dos burgueses e a rispidez do corregedor, abandonou Salamanca, passando-se a Flandres a oferecer a sua espada e sua lealdade ao férreo duque de Alba.

Tornando, porém, a Sevilha, onde o palácio, por morte dos fidalgos, reentrara no antigo silêncio, uma noite, num fim de orgia, gabou-se D. João de haver ultrajado no amor toda a casta de homens. rolara com mulheres no estrame do pastor serrano e em damascos de leitos reais; tivera mesmo nos braços, mia e ardente, aquela que, em Roma, todos inculcavam como amante do Santo Padre. Só lhe faltava, na lista dos traídos, um nome — o de Deus. Foi, então, que alguém se lembrou de o excitar ao derradeiro e mais hediondo ultraje e, para enraivecê-lo, sorrindo com incredulidade, desafiou-o a rematar a lista infame com o nome que faltava.

Pálido, oscilando, ergueu D. João o cântaro espumante e emprazou os companheiros para um festim que seria presidido por uma freira. Beberam todos e o sol, entrando pelas janelas enramadas de trepadeiras, dispersou-os.

Na manhã do dia seguinte estava D. João no leito quando ouviu tanger de sinos e lembrou-se que ali perto, na vizinhança, a curtos passos da sua residência, erguia-se um convento de freiras, casa de muita pureza, de onde jamais saíra para o mundo o eco mais leve do mais leve escândalo. Ali quis ele ensaiar a sedução e, vestindo-se às pressas, com austeridade, encaminhou-se ligeiramente para o seu posto.

Entrou e, seguindo, com ar contrito, por entre bancos e genuflexórios, foi ajoelhar-se junto às grades que separavam as freiras e as noviças da multidão dos devotos do ofício da manhã. Logo, lançando o olhar arguto ao gineceu sagrado, pude ver entre as monjas uma ainda moça e de perturbadora beleza. Tanto, porém, que deu com ela, bateu-lhe o coração e a si mesmo, baixinho, lançou esta pergunta: “Onde vi eu este rosto?” e a freira, por seu lado, tremia e baixava os olhos corando, com o que mais se lhe avivava a formosura.

Atentando na face da religiosa lembrou-se de certa donzela de Alcalá, herdeira de um nome puro que ele, em delírio sensual, enxovalhara. O nome subiu-lhe aos lábios: “Tereza”; com ele, porém, na mesma lembrança, veio toda a tragédia que rematou tristemente aquele caso de amor: o velho pai, que os surpreendera, ferido de morte no vão duma escada, um lacaio a escabujar em sangue e ela fria e pálida, cabida como morta e seminua sobre os linhos do leito profanado.

Teresa tremia, mas o amor, que não lhe deixara o coração, subiu como um fogo abafado que um sopro de brisa ateia e logo rebrilha e chameja.

Houve entre ambos o entendimento dos olhos, corresponderam-se com as centelhas das pupilas e, mais tarde, pondo D. João o jardineiro do seu lado, fácil lhe foi falar à monja e logo a rendeu, combinando-se, entre os dois, a fuga para a noite próxima. Uma liteira bem fechada e guardada por homens bravos viria esperá-la a par do muro, numa viela deserta; o jardineiro guiá-la-ia ao caminho e, para que não sucedesse, no caso de ser ele interrogado, dizer o que sabia, um dos lacaios devia emudecê-lo para sempre. Com tal recado dera-lhe o conde um dos punhais mais finos da panóplia venerável, arma que os de Maraña só haviam utilizado, com lealdade e bravura, defendendo a Fé, defendendo a Pátria ou defendendo a honra.

D, João não viveu as horas que o afastavam do momento alegre e de vaidoso triunfo em que devia aparecer entre os companheiros, conduzindo pelo braço a esposa do Senhor. Chegada que foi a noite, lá se foi ele postar no sítio mais escuro, à espera que soasse a hora determinada.

Era pelo começo do outono; um vento frio picava e as corujas passavam no ar brumoso com chirrio lúgubre.

Impaciente ia e vinha o fidalgo, quando ouviu um coro de vozes tristes que pareciam entoar um canto religioso. Devia ser no convento, pensou — alguma prece noturna. Mas não, era um canto merencório, de morte, e ele, que olhava, viu aparecer ao longe uma procissão sinistra.

Duas longas filas de penitentes negros, com círios, encapuchados em cochilas, precediam lentamente um esquife forrado de veludo e trazido aos ombros de monges de longas barbas brancas e armados como guerreiros.

Apesar do vento as chamas dos círios conservavam-se direitas e as estamenhas dos homens mantinham-se imóveis, duras como as roupagens de pedra das estátuas e, sendo eles numerosos, não se ouvia, entretanto, o mais surdo rumor de passos.

A procissão encaminhava-se para uma velha igreja arruinada e desprezada. Como o primeiro penitente passasse junto do fidalgo, cuja curiosidade ia crescendo sempre, ele dirigiu-lhe a palavra perguntando: “Quem era o que levavam a enterrar?”

O penitente levantou a cabeça e o nobre moço viu dois olhos que pareciam arder e um rosto agudo, macilento e marmóreo como o de um morto e o estranho andejo disse sinistramente:

— Senhor, é o conde D. João de Maraña.

Ele sorriu afetando indiferença, certo de que o informante, que o reconhecera, quisera zombar do seu ânimo e foi com a procissão como atraído.

O cortejo seguia no mesmo andar pausado e surdo, e achava-se ainda a alguns passos da igreja quando, entre os velhos muros, reboou tristonha e fúnebre, a voz grave do órgão e logo, no limiar, apareceu um grupo de padres entoando cavernosamente o De profundis.

Deposto o esquife no cenotáfio, formaram alas os penitentes para a vigília funérea. Então, já aterrado com todo aquele cerimonial, o conde adiantou-se e dirigiu-se a outro penitente, perguntando-lhe:

— Quem ali jazia? e o homem, em voz cava, respondeu como o primeiro:

— Senhor, é o conde D. João de Maraña. Alucinado, o moço fidalgo arremeteu e, querendo empurrar os penitentes, a sua mão impetuosa passou através dos corpos como por um fumo negro. Subiu, em desvario, os degraus do cenotáfio, chegou ao esquife.

E esse momento na torre do mosteiro soava vagarosamente a hora do sinistro ajuste. Teresa, ansiosa e medrosa, devia vir pelo jardim silente supondo-o escondido na sombra quieta das árvores.

Violentamente descobriu o rosto do cadáver, inclinou-se e viu: Era ele que ali estava estendido, as mãos duramente enclavinhadas no peito, lívido, hirto e frio; era ele próprio, bem lhe haviam dito os penitentes: era D. João de Maraña, filho do conde Carlos, rausor de virgens, roubador e matador perverso. Em torno, sombriamente calados, imóveis, velavam os penitentes negros.

Curvavam-se-lhe as pernas, um suor frio escorria-lhe da fronte, faltava-lhe o ar. De repente levantou-se na igreja uma grita estrondosa e medonha: “A nós, o infame! A nós, o dilapidador! A nós, o devasso!” E, de toda a parte: das ruínas dos nichos, dos vãos dos velhos altares, dos escombros do coro, quebrando, com estrepito, as lajes sepulcrais que assoalhavam a nave, surgiam sombras pálidas e nelas ia o conde reconhecendo as suas vítimas amorosas e as que haviam caído a golpes de espada e punhal — lindas moças conspurcadas, velhos cujas barbas brancas esvoaçavam, mancebos duma graça inda infantil e todas mostravam as feridas sangrentas ou vociferavam contra o enganador que as manchara e esquecera.

A velha igreja enchia-se, atroavam os clamores e, nas cimalhas, nos florões dos capitéis, nas cornijas, demônios rubros, de cornos em brasa, riam com esgares, balançando-se suspensos das caudas, brandindo garfos que chamejavam.

Na manhã seguinte alguém passando, por acaso, pelas ruínas da igreja viu, caído entre os destroços dum muro, o moço nobre — a seu lado jazia a espada nua e úmida do orvalho. Não lhe acharam no corpo ferimento algum.

Recolhido ao palácio ali esteve, entre a vida e a morte, longas e tristes semanas, a cuidado de um velho dominicano e, melhorando, viram-no os fâmulos sair, envelhecido e curvado, seguindo com o religioso para desconhecido sítio.

Tempos depois todos os bens dos Maraña eram convertidos em esmolas e mais um frade rezava no coro dos dominicanos.

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