sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Um simples (Conto), de Coelho Neto


Um simples
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Não sei se ainda vive, no fundo das suas terras mineiras, cuidando a horta e o pomar que tinha uma escancarada voragem em torno da qual florejavam laranjais, o prudente, acautelado Fraga. É natural que viva porque, como o seguro morreu de velho, Fraga há de ir além do século que nasceu com ele.

Não o levarão moléstias nem desastres: acabará sossegadamente, sentado no limiar da sua casa, olhando as árvores que plantou, sem agonia e sem pecado, como uma lâmpada que se extingue à míngua de óleo.

O Fraga, que me foi apresentado numa tarde brumosa, à hora doce da Ave-Maria, anunciada pelos sinos da velha e escavacada cidade, tão rota nas suas terras como uma fidalga que houvesse sido assaltada em caminho por um rol de bandidos e ficasse sem uma moeda e sem uma joia e crivada de golpes atirada, como morta, ao fundo de um valado, era um homem alto, magro, ossudo que, ao aparecer na varanda alpendrada da casa colonial, me fez lembrar o tipo esgalgado do cavaleiro D. Quixote.

Recebeu-nos com a bonomia patriarcal que caracteriza a gente hospitaleira de Minas e, recolhendo-nos à sua sala, alva, caiada de fresco, onde reluzia a mobília negra, de jacarandá esculpido, ofereceu-nos café e fumo. No interior da casa senhorial crianças faziam alegre algazarra e, no pátio, fronteiro à varanda, o gado doméstico, que chegava dos pastos, mugia baixinho.

Veio o candeeiro, que um negro suspendeu a um ferro e, dentro do círculo de luz, em volta da mesa redonda, sobre a qual havia um vaso cheio de cravos frescos, entabolamos conversa e, de assunto em assunto, falamos de viagens e foi, então, que o velho Fraga emitiu a sua opinião de homem prudente, que prefere ir devagar, pousando em ranchos, com a sua tropa espalhada no campo e os camaradas estendidos em peles, à beira de um fogo, tocando e cantando até à chegada do sono, a meter-se num vagão de comboio, trancado, oprimido, com a poeira a entrar-lhe pela boca e a empanar-lhe os olhos.

— Olhe, meu amigo, os homens percorreram todos os mares sem o vapor e trilharam toda a superfície da terra sem as locomotivas. Para levá-los pelas águas os navios eram como grandes aves viageiras — à hora da partida abriam as azas largas e lá iam sem risco de explosões e, em terra, eram os carros de bois que rodavam, eram os cavaleiros que passavam a galope, eram os elefantes carregando às costas famílias inteiras, e camelos que trotavam pelos areais abrasados. A viagem era vagarosa, mas a gente tinha a certeza de chegar ao seu destino.

Para civilizar o mundo o homem não precisou dessas complicadas “máquinas”, agora que está tudo pronto é que os tais progressistas se lembram de estender trilhos e de aquecer caldeiras, para quê? Olhe, meu amigo, depois de jantar o meu feijão podem vir os melhores manjares deste mundo porque eu nem os provo — estou farto. É assim também com as tais “máquinas”.

Agora que o mundo está conhecido de pólo a pólo é que vêm vapores, estradas de ferro, o diabo... Por que não inventaram essas coisas antes? Com que companhia de vapores se entendeu Moisés para transportar os israelitas através do Mar Vermelho? Em que comboio fugiu Nossa Senhora para o Egito? Os primeiros efetuaram a travessia a pé e a Virgem fez a viagem montada num jumento. Histórias! E veja o amigo: Quem viaja a cavalo ou em carro de bois sente um alegrão doido quando vê na estrada, ao longe, outro cavaleiro ou quando ouve o rincho de outro carro de bois; e no trem? Se a gente vê vir, na mesma linha, outro comboio em sentido contrário, só tem uma coisa a fazer: é encomendar a alma ao Criador, porque está frito. Não, meu amigo. Deus não quer pressas, devagar se vai ao longe. O dia continuada ter as mesmas 24 horas, nem mais, nem menos; os infantes nascem com o mesmo tempo e, se se precipitam, não resistem. Não contrariemos as leis divinas.

O meu amigo, para prolongar a conversa, que nos interessava, perguntou ao excelente velho: “Que faria se fosse forçado a mudar-se para terras distantes?” Fraga cruzou as pernas, enclavinhou as mãos nos joelhos e disse tranquilamente:

— Eu tenho aí uma cadeirinha ainda em estado de servir, possuo excelentes animais de sela, bons carros e gado de primeira ordem. Se tivesse de mudar-me arranjava a cadeirinha para a velha, metia a criançada em um carro coberto, metia noutro as criadas, arrumava os cacarecos em dois ou três, fazia uma boa matalotagem e, com o rebanho entregue aos rapazes, que são de confiança, uma manhã, com a fresca, antes do sol, saía por aí fora, devagar. Água não falta por essas terras de Deus. Quando o sol apertasse, buscava a sombra das árvores, com a tarde retomava o caminho e, à noite, se houvesse rancho, muito bem, se não houvesse, melhor. Havia de chegar a são e salvo, isso havia! afirmou.

O que está dando cabo do mundo é justamente essa pressa ambiciosa. Para que havemos de correr? Quem vai no seu passo, chega ao fim da vida descansado e sem remorso de haver pisado muita criaturinha inofensiva. Eu, que aqui estou, nunca me apressei para nada — vou devagarinho e vou vencendo, e assim parece que a velhice também vem chegando devagar. Os senhores de agora querem ver muito, querem saber muito — que lucram com isso? Aquela árvore que está ali fora nunca se arredou daquele lugar — ali nasceu, ali, todos os anos, fica coberta de flor; ali dá os seus frutos, os passarinhos já a conhecem; não é feliz?

— Não sei, disse eu.

— Garanto que é. A felicidade é a flor da satisfação. Quem se contenta com o que tem, é mais que venturoso, porque não conhece o desejo que gera a inveja e a ambição. Quantos soes bastam para aclarar o mundo? um. Tudo que Deus fez anda devagar; depressa andam as criações do diabo, como os ventos que destroem, e os raios que fulminam. Vamos devagar, nada de trens, nada de vapores. Volta e meia é um desastre... Para quê?

Levantou-se, acompanhamo-lo à varanda. A lua subia lenta e branca no céu, os grilos cantavam na erva, um aroma de flores agrestes perfumava o ar e, no interior da casa senhorial, onde se fizera silêncio, uma voz meiga cantava a ninar crianças.

— Pois é como lhe digo: trens não me apanham. Tenho a minha bestinha viageira, dócil ao freio e de bom passo, que me leva a toda a parte, sem risco. Eu, quando penso nos túneis, fico todo arrepiado. Deus me livre! Para sepultura basta a que me espera no cemitério. E não sou tatu! concluiu.

Euskin, o grande esteta, o visionário que sonhou a Saint George's Guild, essa herdade modelo onde o homem, sem o auxílio de máquinas agrícolas, semeava e colhia, e a mulher cardava a lã, levava a maçaroca ao fuso, fiava-a cantando e depois, estendendo a trama no tear, punha-se a urdir o tecido, como a Arachné pagã; Ruskin, o adorador da natureza, não só fugia aos trens, como os combatia, não permitindo sequer que os objetos que lhe eram dirigidos (como os livros que o seu editor lhe enviava de Orpington para Londres, que eram transportados em carroças) fossem despachados nos armazéns das gares.

Ruskin, comparando o passado com o presente, mostra um campônio de outrora viajando a pé, de uma cidade a outra, através dos campos floridos, bebendo nos límpidos regatos, repousando à sombra das verdes árvores, ouvindo os pássaros, contemplando os largos horizontes de verdura viçosa, ou de alegres colunas, com moinhos que bracejavam e, disseminadamente, como grandes moitas brancas, bandos de ovelhas pastando. Além do exercício salutar, tinha ele a impressão, e que gastava as solas dos seus fortes sapatos ferrados. O campônio de hoje, para fazer uma curta viagem, compra um bilhete, mete-se em um vagão e, inerte, lá se deixa levar aos solavancos. Fuma para distrair-se, trava conversa com um desconhecido, que lhe incute na alma rústica ideias subversivas; na primeira estação, para fazer alguma coisa, bebe; bebe adiante e lá vai, cochilando ou viciando a alma no vagão, ou bebendo nas gares, e chega ao seu destino bêbedo, com uns schillings de menos e o gérmen de um crime na alma. A estrada de ferro é como uma grande lagarta que destrói a beleza da natureza. Se atravessa um campo queima-o com as fagulhas que lança; as florestas abatem-se para que ela passe; arredam-se os rochedos, deventram-se as colinas, desviam-se as águas — o progresso é assim um destruidor da graça. E Ruskin não menciona os desastres: os choques de comboios em rampas ou dentro do túneis negros, os descarrilamentos, os esmagamentos de criaturas, e todos os mais horrores, que formam o sinistro cortejo de tais engenhos.

Têm razão os dois homens: o velho Fraga com a sua simplicidade, aferrando-se aos hábitos patriarcais, e o autor dos Modem Painters defendendo a natureza. Não há como o burro para uma viagem pitoresca, mas francamente, para vencer distâncias, com a urgência que a nossa vida complicada exige-o vapor parece-me insuficiente e só conseguiremos alguma coisa no dia em que a eletricidade for aplicada à tração nas vias férreas e os balões cindirem os ares, não um a um, mas aos enxames, em revoadas, como grandes pombos correios.

Desastres... Que valem desastres? Rolem comboios, estourem balões, cubra-se a terra de destroços, escureçam-se os ares com retalhos de aeronaves, a Humanidade irá por diante, contente, hérpica, indiferente às vítimas, que são as oferendas à vitória. E os filhos do velho Fraga e os discípulos do grande Buskin comprarão bilhetes nas gares e nas estações aéreas e irão, contentes, percorrendo centenas de quilômetros por hora na terra ou no espaço e pensando no tempo em que o pai viajava pelos andurriais mineiros ao chouto de uma besta preguiçosa, o mestre subia às colinas para contemplar as nuvens douradas do crepúsculo que eles verão, não mais acima das cabeças, mas debaixo dos pés, como amplo e flamejante tapete estendido no espaço, superior ao que Clitemnestra estendeu no palácio de Argos para receber o átride vitorioso. E nesse tempo maravilhoso os homens, ainda insatisfeitos, pensarão em Progresso, mas no fundo de uma aldeia, haverá sempre um burrinho nédio e um velhinho que o monte dizendo, como hoje diz o velho Fraga: “Que prefere o seu asno a todos os comboios elétricos da terra e a todos os balões do espaço”.

E Deus que nos conserve esses simples que são a Poesia suave do passado no turbilhão da vida contemporânea.

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