sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Divagando (Conto), de Coelho Neto


Divagando
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Entrando, de manhã, no meu escritório, vi o velho calendário murcho, a oscilar com a aragem na parede fronteira à minha mesa de trabalho. Só lhe restava uma folha. Para que arrancá-la se nada mais havia atrás daquele número que representava apenas uma recordação! Que o mísero levasse aquela última folha para o lixo.

Outro calendário, novo e gordo, carregado de folhas, como uma árvore na primavera, foi substituir o velho bloco lentamente consumido e foi somente essa substituição que me fez sentir o tempo, porque não notei diferença alguma na manhã: nem mais moça, nem mais velha. No alto o mesmo azul, no azul o mesmo sol; voando, os mesmos corvos e as mesmas andorinhas; na terra as mesmas árvores, as mesmas flores, as mesmas águas, entretanto, durante a noite, o mundo silenciosamente vencera outro marco.

E por que só o calendário acusava a passagem destruidora do tempo?

Indiferentemente, todas as manhãs, eu lhe arrancava uma folha e a lançava à cesta dos papéis. E que representava aquela folha morta?

Quem lhe escrevesse o inventário teria de encher resmas e resmas de páginas largas registrando a campanha dos homens “pelo ventre”, como diz Epicuro: vidas e mortes, fomes e frios, agonias e prazeres, bodas e enterramentos, marchas de exércitos e convênios pacíficos, cerimônias rituais e concílios covardes, inventos e desilusões, sonhos desfeitos e utopias realizadas, travessias de águas e de áreas estéreis, ascensões arriscadas e mergulhos no seio da terra à cata do ouro das minas, trabalhos serenos, estudos calmos, ânsias desesperadas, ambições voracíssimas, e, superiormente, a marcha tranquila dos astros luminosos.

Tudo isso continha a miserável folha morta que eu atirava, com desprezo, à cesta dos papéis inúteis. Cada uma delas representava um dia.

Ai de mim! cada uma delas era como um recibo que eu dava de um dia que vivera e como eles são avaramente contados, como o dinheiro de Shylock, era o meu capital de alento que assim se esgotava. Era, pois, de mim mesmo que eu arrancava aquelas parcelas — o calendário era apenas um símbolo, o que eu ia destruindo era o meu próprio ser.

E fiquei a olhar o papelão, onde estava estampado aquele número, que era tudo: “A vida é como um rio que corre sobre um leito eterno — o tempo”.

Nós somos as águas que passam, águas, como as do Nilo santo, de origem misteriosa. Para onde correm elas? para a eternidade, que ó um oceano sem praias. As margens são de vario aspecto — aqui frondosas, ali estéreis, acolá sombrias, iluminadas além.

Há gota de água que descem desde a nascente, pelo meio claro do rio, rolando em tumulto, refletindo o sol e as estrelas, numa alegria sem fim: são as vidas ligeiras e inúteis; que bem fazem? que destino cumprem? correm, engrossam apenas o caudal e passam.

Outras, como se se houvessem petrificado para conservar em carcérula uma centelha astral, cristalizam-se em diamantes imperecíveis e refulgem no seio das águas — a luz é a inspiração perene, o gênio cristaliza o esplendor em obras imorredouras. Outras remansam-se junto à raiz de uma árvore e transformam-se em seiva e, subindo, desabrocham em flor e metamorfoseiam-se em fruto. Outras, as mais humildes e as mais numerosas, transbordam com as cheias, são repelidas pelo fluxo do rio e alastram alagando as margens, formam nateiros pingues onde reponta a messe de ouro. Essas são as gotas generosas, são o enxurdeiro da fecundação, o tremedal da abundância. As outras passam — o rio é alvo e feliz e discorre cantando; o lodo é negro e parado.

Que nasce no rio? a ninfa; o centro é estéril, só as margens tranquilas verdejam e o nateiro é todo trigo, é todo linho, é todo azeite. Queres tu ser a gota que vai na derrama fertilizante? não, por certo — preferes, sem dúvida, ser a gota ligeira e despreocupada que desce na correnteza para o oceano do eterno silêncio. O ideal é a “facilidade” — feliz é o que corre sem encontrar tropeço, brincando nos remoinhos, saltando nos pedrouços, revoluteando nos grotões e mais feliz ainda é a bolha efêmera de espuma que Tive apenas o tempo necessário para refletir o azul do céu e o verde formoso da paisagem.

Como são desiguais os desejos! Vede como variam nas almas os ideais. Cada qual trata com mais empenho de iludir o tempo.

O menino imagina-se um homem — é guerreiro e, brandindo armas, que são brinquedos, afronta inimigos imaginários, ou ó artífice e trabalha ajustando a ferramenta: aplaina, serra, prega e pule; ou é agricultor e cava, revolve a terra, planta e colhe. A menina, ainda balbucia, e já pensa em ser mãe — ei-la tartamudeando carícias à boneca e nina, e veste-a, e afaga-a. Chega-a ao colo agasalhando-a, alisa-lhe os cabelos, fecha-lhe as pálpebras e, à noite, cabeceando de sono, não há convencê-la a deixar a filha: leva-a nos braços o dorme com ela chegada ao coração.

O menino julga-se capaz de realizar a conquista do mundo e orgulha-se da sua força e da sua agilidade levantando pesos, lutando ou subindo lentamente às árvores, como um esquilo. A menina já se imagina sedutora e, dengosamente, ensaia a faceirice. Um corre aos ninhos, corre a outra aos espelhos, e que fazem? sonham com o amanhã, é o instinto que os impele através do tempo ao destino prescrito.

Para complemento da ilusão o menino põe-se a repuxar o lábio, a retorcer as guias de um bigode imaginário, engrossa a voz, pisa com firmeza e, arrastando um bengalão, lá vai pela casa a pavonear ufano. A menina reclama um vestido comprido, exige que lhe levantem o cabelo, adelgaça a cintura, toma atitude lânguidas e, quando se reúnem, continuam a sonhar e o sonho é a família: são compadrios, crianças que nascem, projetos de batizados, mesas de lauto festim; ou intrigas na vizinhança, rusgas no casal e até (horresco referens!) alusões ao divórcio por incompatibilidade entre os cônjuges. É uma comédia da vida por marionetes animadas. Esses querem avançar.

Agora vede mais adiante — outra face da ilusão: os que procuram retroceder: É o homem que se encalamistra, é a dama que se maquilha; que fazem? procuram reparar “des ans l’irreparable owtrage”; são os regressivos.

Há aqui um cabelo branco indiscreto, há ali uma ruga denunciadora, a pele encarquilha-se, perde a frescura, vão-se os olhos tornando ternos, os lábios já não são tão róseos, que fazer? pedir socorro ao artifício — e são tintas, pomadas, pastas, lápis, ferros de feitios complicados, toda uma farmácia, toda uma cutelaria no toucador.

O homem recorda, então, o tempo em que era um trêfego rapaz ágil e forte. Ah! dançava toda uma noite sem sentir fadiga, excedia-se em extravagâncias, sem jamais sofrer as consequências. Uma noite em claro... que era isso! Bom tempo! A dama relembra os seus quinze anos viçosos, o sem primeiro namoro, os dias do seu noivado. Como era feliz! tudo lhe sorria e os espelhos eram mais puros. Por que não havia de tornar esse tempo amável?

E os velhos, os que já não podem esconder as injúrias do tempo? esses tornam à infantilidade. O próprio tempo como que os transforma — tornam-se tartamudos, ficam desdentados, caminham à custa de apoios, alimentam-se como os petizes e até vão engelhando: — a velhice é a caricatura da infância. Os extremos tocam-se.

Certos povos entendiam que era uma caridade matar os velhos. Que ficavam eles fazendo na vida? Pobre ruínas, antes que aluíssem o melhor era deitá-las abaixo e os velhinhos, como era de uso o sacrifício, resignavam-se, e, arrimados aos mancebos, rindo, talvez, por entre os trigos e os fenos, ouvindo, pela derradeira vez, as vozes alegres dos pássaros, lá iam para o enteio, desejando a paz aos que ficavam e abençoando os pequenitos.

Que nos importa mais um ano? Isso de idade é grave para os velhinhos. Quando o copo está cheio basta uma gota d'água para que transborde. Para nós outros, porém, que ainda vamos pelo meio, que nos importa essa gota que caiu da clepsidra?

A vida é como aquela colina encantada do conto maravilhoso — para alcançar-lhe tranquilamente o viso é mister seguir de fronte erguida, olhando sempre em frente.

Ai dos que volvem os olhos ao passado — ficam na melancolia e na saudade e, se não vêm rochas que clamam, como viram os irmãos de Parisada, vêm lápides tumbais e ilusões perdidas! Assim, pois — caminhemos de olhos no além! e que de novo caminho nos seja suave.

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