sexta-feira, 16 de março de 2018

Conquista e colonização do Norte (Ensaio), de Rocha Pombo


Conquista e colonização do Norte

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Na sua lenta avançada para o Norte estavam os portugueses no Rio Grande, como já vimos em lição anterior. O problema para eles torna-se cada vez mais grave à medida que se aproximam da zona por onde se devem encontrar decisivamente com os franceses no seu estabelecimento permanente do Maranhão.

Estava por aquele tempo (princípios de 1614) em Madrid o sargento-mor Diogo de Campos, o homem mais notável e de mais alto valor entre quantos então se destacavam na administração colonial e nas guerras da conquista.

Conseguiu-se que ele partisse para o Brasil com o encargo de dar o seu concurso à obra que se vai executar.

Em Pernambuco veio o sargento-mor encontrar a Jerônimo de Albuquerque reunindo gente para uma segunda jornada ao Maranhão.

Para conciliar os dois chefes, deu-lhes o governandor-geral, Gaspar de Sousa, novas provisões e regimentos, segundo os quais as ordens deviam dar-se em nome do capitão da conquista, mas todas as deliberações seriam "tomadas por votos", ouvindo-se em todos os casos o sargento-mor.

É Diogo de Campos que vai ser a alma da expedição.

Partiram, Diogo por mar, e Jerônimo por terra, e foram (pelos fins de  agosto) juntar-se no Rio Grande, de onde seguiram todos na esquadrilha até a foz do rio Préa (ou Perejá).

Dali mandou-se gente prática a reconhecer a barra e a ilha do Maranhão. Não demorou esta gente a voltar com a notícia de se haver descoberto, dentro da baía a oriente da ilha (hoje baía de São José) uma situação magnífica em terra firme e sem se ter encontrado por ali nenhum francês.

Resolveu-se, à vista disso, seguir imediatamente para o Maranhão.  Passando com grande dificuldade, mas com fortuna inaudita, por entre multidão de ilhas, baías e, parcelados, foram ter à ilha de Sant'Ana, ainda fora da barra.

Dali seguiram cautelosamente, entraram no estuário, e foram tomar posição defronte à Ilha Grande, no lugar que os índios chamavam Guaxindiba (ou Guaxenduba).

Naquela iminência construiu-se o forte de Santa Maria.

2 - Tivera logo o sargento-mor, ao entrar na baía, sinais evidentes de que os franceses estavam apercebidos para a luta.

E com efeito, alguns dias depois, mandou la Ravardière ao forte uns índios que procuraram dissimular-se como de paz e desejosos de aliança. Ao mesmo tempo começaram os índios da ilha a fazer emboscadas e a matar incautos pelas imediações do forte.

Não demorou que os franceses começassem a mover-se. O capitão du Pratz, que havia pouco chegara da Europa com reforços, e a quem se incumbira a guarda da baía, atreveu-se a vir, com duas lanchas armadas, reconhecer a posição dos pernambucanos, e foi logo precipitadamente disparando artilharia contra o forte. Mas com a mesma precipitação teve du Pratz de fugir.

Pela madrugada de 19 de novembro (1614) viu-se do forte que o mar "estava coalhado de embarcações de vela e de remos, que vinham, em grande silêncio, chegando-se à praia, desviados do forte um tiro de falcão, por detrás dos mangues..."

Como zombando da temeridade dos outros, começam os franceses a desembarcar, "com tantas trombetas, caixas, buzinas e rumor, que não houve mais que fazer senão acudirem os do forte cada qual à sua estância".

Du Pratz com a vanguarda toma posição numa colina, vizinha ao mar, e a pouca distância do forte. Logo atrás, em ordem de batalha, o Iccotenente de Pézieux, à frente de 200 franceses e de uns 2.000 índios.

La Ravardière, com mais 200 franceses e 100 índios, ficara comandando em chefe a esquadra, à espera do momento em que tivesse de atacar o forte por mar com a artilharia, sob as ordens de Razilly.

3 - Apanhou de ura instante o sargento-mor a tática do inimigo, e dispôs a sua gente para a luta. Dividiram-se as forças em três corpos: Jerônimo, com o seu, iria, por uma vereda secreta, através de matas cerradas, flanqueando
o outeiro onde se achavam os franceses, até o momento de surpreendê-los.

O sargento-mor investiria pelo lado da praia. Ficaria de reserva, no forte, Gregório Fragoso com o terceiro grupo, para intervir oportunamente.

Estas disposições foram tomadas em alguns minutos, pois da rapidez dos golpes dependia a sorte da batalha. E com a mesma presteza tudo se executa. Assim que partiu o capitão-mor, põe-se Diogo em marcha para atacar o inimigo.

Esperava-se pelo sinal convencionado para a investida, quando chega à praia um trombeta trazendo uma carta de la Ravardière. Compreendeu o sargento-mor a astúcia dos franceses, que precisavam de tempo para se fortificarem no alto do outeiro; e como resposta ao chefe inimigo, deu o sinal do combate.

Rompe imediatamente o fogo do outro lado da colina; e "ao sinal, o sargento-mor dando por nome — Virgem de Guadalupe! e gritando — Santiago! cerrou com as trincheiras da praia".

Trava-se o combate ali com furor de sangue nunca visto. Quando o sargento-mor se apodera da primeira trincheira da praia, e Jerônimo, contornada a colina, se apresenta na retaguarda do inimigo, começam os índios contrários a debandar, e com eles os franceses, procurando as embarcações.

Não houve mais meio de conter o destroço geral. Dos navios ainda se bombardeou o forte de Santa Maria, mas absolutamente sem proveito para os agressores.

Só a noite pôs de uma vez termo à batalha, que foi realmente até aquela época a mais notável dos tempos coloniais.

Esta imprevista e estrondosa derrota consterna os franceses; mas nem por isso se tranquilizam os nossos. A esquadra inimiga conserva-se na baía, à vista do forte. Pelas vizinhanças sentem-se arruídos que inquietam o exército vitorioso, dir-se-ia incrédulo daquela vitória.

Tudo indicava que o inimigo poderia tentar um desforço, e ressarcir-se das perdas sofridas.

No dia 21 recebe o capitão-mor uma carta de la Ravardière, na qual se queixava este de haverem os portugueses esquecido as leis da guerra, e dizia-lhes umas bazófias, a que rebateu Jerônimo fazendo voltar contra os da ilha as exprobrações feitas aos do forte.

Sentiu o capitão francês que se iludia nos seus assomos, e mudou de tom, escrevendo, no dia 22, outra carta, mas já muito cortês e; logo no dia imediato uma terceira quase amistosa, revelando as disposições conciliatórias a que fora reduzido o "mortal inimigo" do capitão português, como se dizia la Ravardière ainda na véspera!

No dia 25 veio ao acampamento dos portugueses um emissário trazendo nova carta, na qual se propunha a paz sem mais cerimônias, e em termos que induziram o capitão-mor a fazer partir na manhã seguinte para o forte São Luís o próprio Diogo de Campos, tendo vindo primeiro ao forte de Santa Maria o capitão Razilly.

4 - Combinou-se, então, um armistício, que foi assinado no dia 27 de novembro, enquanto se aguardasse a solução do litígio a que se entregaria às duas respectivas cortes: armistício que duraria até dezembro do ano  seguinte.

No dia 28 era la Ravardière recebido com as honras devidas no forte de Santa Maria.

Partiram para a Europa os emissários das duas partes, indo Diogo de Campos com um capitão francês para Madrid; e du Pratz e Gregório Fragoso para a França.

Depois de muitas festas, cuidaram os portugueses de fixar-se em Guaxindiba, construindo igreja dedicada a Nossa Senhora da Ajuda, em torno da qual foi-se formando a povoação.

Nas cercanias fizeram-se logo muitas roças, e pouco a pouco se foi explorando a terra, em boa camaradagem com os franceses e os índios seus
aliados.

Mas não era possível disfarçar, entre os intrusos, a significação daquela paz. Tinha-se-lhes liquidado aquele estulto intento, e estava perdida toda esperança.

Eles próprios mostraram bem claro tudo isso. Vendo o que se passava, foram os índios abandonando os seus amigos. Desenganados daquele sonho, retiraram-se para a Europa grande número dos oficiais mais distintos, os missionários quase todos, e muitos colonos.

Por sua parte, compreendendo a situação dos franceses, assim que se sentiu mais forte, com o socorro que lhe levou o capitão Francisco Caldeira de Castelo Branco, apercebeu-se Jerônimo de Albuquerque de que não tinha tirado todo partido daquela vitória; e sob o pretexto de que recebera novas ordens do seu governo, mandou intimar a la Ravardière que desocupasse de uma vez aquela terra, ou depusesse as armas reconhecendo ali a soberania do rei de Espanha.

5 - Provavelmente o capitão francês não recebeu com surpresa a intimação. Ele próprio devia ter estranhado a pouca exigência dos que o haviam vencido, e que sabia muito bem serem de direito os senhores da terra.

Foi, portanto, ainda com toda cordialidade que se concertou um novo convênio, pelo qual os franceses se obrigavam a deixar o Maranhão dentro de cinco meses, e ainda desta vez com passagens para a Europa
e até umas tantas indenizações...

Como garantia desse compromisso entregou-se a Jerônimo de Albuquerque um dos fortes da ilha (o de Itapari) que foi logo ocupado.

Não parece que este convênio fosse, para os portugueses, melhor do que o primeiro. Por fortuna deles, nem este se cumpriria.

Pelos fins de outubro (1615) chegavam ao Maranhão Alexandre de Moura e Diogo de Campos, incumbidos de tornar efetiva sem mais demora a expulsão dos intrusos.

Enquanto Alexandre de Moura, pelo mar, reforçava o bloqueio da praça, que era o principal reduto dos franceses (São Luís), ia o próprio Jerônimo de Albuquerque investi-la por terra.

Não restava aos sitiados mais que o recurso de uma capitulação imediata, o menos penosa que fosse possível. Apresentou as suas propostas o capitão francês; e Alexandre de Moura aquiesceu às condições oferecidas, menos quanto à indenização pelos armamentos.

No dia 3 de novembro de 1615, arvorava-se solenemente no forte, agora de São Filipe, as duas bandeiras da península.


6 - Muitos franceses preferiam, conforme lhes foi facultado, ficar no Maranhão, onde já haviam constituído família, e onde tinham propriedades
que o governo ratificou.

A maior parte dos capitulados, porém, retiraram-se, vindo la Ravardière e outros oficiais, em companhia de Alexandre de Moura, a Pernambuco, dali seguindo depois para a Europa.

Em Olinda foi o aventureiro francês recebido com toda as atenções, e achou até "por empréstimo o dinheiro que lhe foi necessário".

Isso, no entanto, não impediu que alguns anos mais tarde, segundo aviso do próprio rei a Matias de Albuquerque, o mesmo senhor de la Ravardière se oferecesse aos Estados Gerais de Holanda "para tornar com gente e navios com o fito de estabelecer e fortificar-se nas terras do Maranhão".

Antes de retirar-se de São Luís, acabados os festejos com que se comemorou a vitória, distribuiu Alexandre de Moura pelos colonos e índios, que haviam concorrido para aquele sucesso, as recompensas devidas. Nomeou comandantes e outros oficiais para os fortes; e investiu Jerônimo de Albuquerque (Maranhão, agora) do governo da capitania.

De acordo com as instruções que tinha, encarregou ainda ao capitão Francisco Caldeira de Castelo Branco, de levar uma expedição para o Norte até o Pará, e descobrir e conquistar toda aquela seção da costa pertencente
aos domínios da Coroa portuguesa.

Já se sabia que por todo o litoral do imenso estuário do Amazonas andavam chusmas de traficantes e aventureiros rechaçados cá do Sul para aquela zona deserta.

Durante o tempo que estiveram em São Luís não se descuidaram os franceses de adiantar explorações para aquelas bandas.

Por ali andavam, principalmente ingleses e flamengos, e com intentos, pelo que depois se viu, não de simples especuladores.

7 - Com uns 200 homens partiu Francisco Caldeira no dia 25 de dezembro (1615); e foi explorando a costa, até entrar na vasta embocadura do rio Pará, navegando então para o sudoeste cerca de vinte léguas, e indo tomar terra numa ponta do continente, à margem oriental do estuário, defronte à grande ilha do Marajó.

Naquela paragem admirável fundou logo um forte de madeira a que deu o nome de Presépio, em memória do dia em que tinha partido de São Luís.

Dali foram saindo os exploradores a visitar e reconhecer o litoral, por onde encontraram aventureiros que faziam com o selvagem largo tráfico, e tentavam até estabelecer-se em vários pontos.

Sentiu-se logo que umas tantas circunstâncias excepcionais iam tornar aquela conquista não menos penosa do que tinham sido as precedentes. Por ali se acumulavam as hordas insubmissas que os portugueses iam acossando do Sul; e o ódio antigo recrudescia de conluio com a astúcia dos traficantes.

E como causa principal dos embaraços com que se vai lutar, vêm os desmandos entre aqueles pioneiros da terra. Pode dizer-se que por ali se começa no meio de todas as aflições da discórdia: e ser preciso esperar-se
mais de um século se não pela ordem, ao menos por algumas aparências de vida normal.

Francisco Caldeira, pela sua estúrdia com os próprios oficiais, põe-se em conflito com a tropa, e é deposto e preso. Substitui-o o capitão Baltasar Rodrigues de Melo. Mas as dissenções não cessam.

De tudo isso se aproveitam os índios para agressões cada vez mais audaciosas aos novos ocupantes da terra. Houve um momento em que desde o Maranhão até o Amazonas estrondam lutas pelos arraiais e pelas florestas

Afinal (abril de 1619) chega a Belém (nome que tomara a povoação em torno do forte) o capitão-mor Jerônimo Fragoso de Albuquerque, com severas instruções para pôr ordem na tropa e conter o selvagem.

Começou Fragoso prendendo e enviando para Lisboa todos os desordeiros, e reprimindo com rigor a audácia dos selvagens.

Saíram os desordeiros, mas a desordem ficou. Infelizmente falece Fragoso; e o capitão que lhe sucedeu, em menos de um mês é destituído.

Dois homens, destemperados, mas firmes, vão revezar-se no domínio da terra, e com efeito prestam bons serviços: Pedro Teixeira e Bento Maciel Parente.

Graças a tais serviços, tomou a corte a providência de criar, em 1621, o Estado do Maranhão.


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Imagens:
http://bndigital.bn.gov.br

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