sexta-feira, 16 de março de 2018

Primeira Invasão Holandesa (Ensaio), de Rocha Pombo


Primeira Invasão Holandesa

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


OS HOLANDESES EM CENA

1 - Não é exato, como pensam alguns autores, que no vasto cenário aberto pelos dois povos ibéricos se apresentassem os holandeses defendendo o livre comércio contra o monopólio.

Foi mesmo o contrário. A função do batavo na história daqueles grandes dias está longe de comparar-se à daqueles outros; principalmente à do português; pois enquanto este criava, como a causa suprema para a Europa naquele momento, a expansão do espírito ocidental por todo o mundo: — que é que fazia a Holanda?

Muito provida e avisada, mas muito egoísta, cuidava de arranjar a sua economia doméstica, fazendo a sua lavoura e a sua pesca, fundando as suas oficinas e as suas manufaturas, abrindo canais e construindo diques.

E só esperou o instante oportuno, para sair da sua quietude laboriosa, a disputar aos heróis dos descobrimentos os proveitos e vantagens da obra realizada.

É este, pois, o papel dos holandeses, e dos outros concorrentes de Portugal e de Espanha: não foram mais que uns simples instigados da fortuna, campeões retardatários, que tinham decerto muito valor, mas que só chegaram depois de ferida a batalha e ganha a vitória, e só com o pensamento de recolher os despojos.

Não têm, portanto, o direito de ser considerados como pregoeiros e  defensores de um princípio que foram os primeiros a desmentir, começando espertamente pelo tráfico, insinuando-se nos portos, iludindo o fisco em toda parte; caindo logo no corso e na pilhagem, organizando-se em formidáveis quadrilhas marítimas que enriqueceram cidades e grandes casas: até que acabaram usurpando desafrontadamente o que a outros custara trabalho e sacrifício.

Pode-se dizer que a Holanda aprende com Portugal; isto é, que o exemplo do heroísmo vitorioso do luso é que estimula e agita o gênio flamengo.

No século XV, entre os povos marítimos da Europa, o holandês era ainda o mais fechado. Vivia diante do mar; não tinha, porém, o instinto da navegação.

Esperava pelo seu dia.

Esse dia chegou quando Portugal e Espanha começaram a espantar a Europa, até ali quase desapercebida.

2 - Primeiro, tomam conta os holandeses do novo comércio do Norte. Enquanto da África e da Ásia, e logo depois da América, recolhem portugueses e espanhóis os proventos do seu trabalho, incumbem-se armadores e negociantes flamengos de distribuir por todos os mercados, tanto os artigos das manufaturas europeias, como os novos produtos coloniais, armazenados em Lisboa e em Sevilha. Puseram-se assim no caminho da sua grande fortuna. Em poucos anos as suas urcas cruzam o oceano, e frequentam, não só os grandes portos da Europa, como os novos mercados que se abriam na América e em toda parte.

E quando o corso começou a tornar perigosa a navegação, foram eles os que mais depressa recorreram à precaução dos vastos comboios, perfeitamente guarnecidos de todos os meios da guerra.

Para isso, formaram primeiro as suas cooperativas, e logo depois as suas grandes companhias — as mais famosas associações mercantis que até ali se conheceram nos anais modernos.

Iniciaram o sistema pela Companhia das índias Orientais, em 1602.

Esta deu de pronto resultados magníficos. Em menos de um decênio, apoderou-se de quase todo o comércio do Oriente.

Note-se como iam os holandeses com uma lógica segura, e num crescendo admirável: de pescadores, fazem-se marítimos de alto mar; de simples mercantes, passam ao corso, logo à pirataria, à flibustagem desenfreada; até que, sentindo uma exagerada confiança no destino, tentam apossar-se, pela força, de terras que outros haviam descoberto.

3 - Naturalmente havia Portugal (como a Espanha) de revidar-lhes os golpes.

É assim que o governo português teve de ir mudando de sistema: cuidou de reprimir, nos seus domínios, a ação que a princípio deixara livre aos flamengos, como a todos os traficantes. E logo que na Holanda se fundou a primeira companhia, fechou Portugal de todo os portos das colônias aos temerosos competidores.

Estava travada a luta formidável.

Aí temos, pois, os holandeses em cena, fortes, alvoroçados de fé naquele estranho surto para os mares e terras com que se ampliou, aos olhos da Europa marítima, o teatro onde vai operar a atividade renascente do mundo.

Os grandes sucessos alcançados pela Companhia das índias Orientais abrem largos horizontes à ambição dos flamengos e volvem-se eles resolutos para o Brasil.

Desde alguns anos, aliás, logo que se puseram em conflito com a Espanha, vinham eles ensaiando investidas contra alguns pontos da América oriental, por onde anteriormente já negociavam.

Em 1599, a pretexto de uma viagem de explorações (como se usava no tempo) desce ao longo das nossas costas a expedição comandada por um Olivier van Noort.

Fez este pirata algumas tentativas em vários pontos do litoral entre Rio de Janeiro e São Vicente. Foi também ao Espírito Santo. Mas em toda parte recebido hostilmente pelos moradores, e escarmentado com a perda de um dos seus navios e de muitos dos seus companheiros, seguiu para o estreito de Magalhães à procura das costas do Pacífico.

No mesmo ano era a Bahia assaltada por sete navios da esquadrilha de Leynssen. Estes navios faziam parte da formidável expedição de Pieter van der Does, de setenta navios e que não dissimulava os seus intuitos nos mares da América. Descendo pelo Atlântico, apodera-se van der Does da Grande Canária: e dali mandou já para a Holanda trinta e tantos dos navios carregados de farta rapina. Da Canária procurou o golfo de Guiné, onde tomou a ilha de São Tomé. Foi a sua desgraça. Bate-lhe na gente a febre amarela, e em menos de quinze dias morrem 1.200 pessoas, inclusive o próprio almirante. O locotenente Leynssen, quebrantado, em vez de vir ao Brasil, que era o alvo da expedição, mandou apenas aqueles sete navios sob o comando dos capitães Hartman e Broer. Estes navios recolheram sempre alguma coisa na Bahia; e voltaram para a Holanda em 1.600, como toda a esquadra.

4 - Os negócios no Brasil não eram, no entanto, para serem abandonados. Mesmo sem as vantagens do salteio às povoações, só a captura de barcos pela costa, e pelas baías indefesas, já assegurava aos piratas, pelo menos, lucro certo e grosso.

Para os estimular naquela faina rendosa, e que além disso ainda passava como heroica, vinham motivos bem ponderosos. Já se tinha notícia das condições em que se encontravam os nossos portos mais frequentados, e onde havia mais que pilhar. Tinha-se já também certeza do processo  maravilhoso, pelo êxito de tantas expedições que volviam opulentas dos  mares da América.

E principalmente os especuladores da Holanda não tinham razões para arrefecer nos seus ímpetos contra as colônias portuguesas.

Continuaram, portanto, cada vez mais desafrontados.

Em 1604, nova quadrilha, capitaneada por um Paulo van Caarden, e composta igualmente de sete navios, invade outra vez o Recôncavo, apresa e incendeia embarcações; e só não desembarca gente porque encontra  vigorosa resistência oposta pelos próprios habitantes.

O Governador-Geral (Diogo Botelho), impotente contra tais agressões, o mais que fez foi aproveitar-se do fato como um argumento de força para pedir socorros, fazendo voltar Diogo de Campos à Europa, a fazer sentir como se expunha a colônia a ser usurpada.

5 - Vivia-se agora no Brasil como em contínuo sobressalto; pois os inimigos não deixavam descanso às populações. Como já vimos em lição anterior, não eram só holandeses os que tinham os olhos engrelados para as nossas vilas e cidades mais ricas: eram eles, porém, os mais insistentes e temíveis.

Sem contar outros ataques menos nocivos que sofremos, passados alguns anos daquela acometida de van Caarden (e estando nós já amparados pela famosa trégua celebrada entre a Espanha e as Províncias Unidas), é o Brasil visitado por uma outra esquadra flamenga, do comando de um Joris van Spilberg, em 1614/1615.

Só talvez em relação a esta é que se poderia estranhar o excesso de rigor cometido por alguns colonos portugueses do Rio; mas isso se a inclemência destes não se explicasse pela temeridade, perfídia e malvadez dos piratas.

A correr a costa, fundeando aqui e ali, aconteceu que junto da Ilha Grande consentiu o almirante que alguns marinheiros desembarcassem; e como em terra fossem muito descuidosos, caíram sobre eles muitos colonos e índios, massacrando-os impiedosamente. Era no tempo de Constantino Menelau — diz Fr. Vicente; os holandeses aportaram na enseada de Marambaia, que dista umas nove léguas abaixo do Rio de Janeiro. Teve notícia disso Martim de Sá, que tinha engenho por ali perto, na Tijuca; e entendendo-se com o capitão-mor, ajuntou gente, e foi surpreender os piratas, que andavam descuidosos em terra apanhando frutas. Dos trinta e seis pobres homens, foram mortos vinte e dois, sendo os demais presos, e apreendidas as lanchas.

6 - Dos navios, que estavam distantes, nada se pôde fazer em socorro dos infelizes; e Spilberg apressou-se em deixar a paragem seguindo para o sul cora destino às costas do Pacífico.

Para consolar-se do desastre, e ressarcir-se da perda, em sua derrota para o estreito de Magalhães, conseguiu ainda apresar uma caravela portuguesa bem provida, incendiando-a depois, na barra de Santos.

O que é estranho no meio de tudo isto é que a corte de Madrid parecesse de todo indiferente a tais avisos.

Clamavam sem cessar os míseros colonos pelo concurso da metrópole naquela obra de defesa, em que só eles se sacrificavam, e quase sem proveito, porque o mais que faziam era guardar a terra à custa de seus bens, e do próprio sossego, e até da vida.

Ante a desídia da metrópole, redobravam de audácia os flibusteiros.

Desenfreou-se de tal modo a pirataria nos mares e por toda a costa até o Amazonas que — diz o nosso Varnhagen — durante o ano de 1616 tomaram os holandeses vinte e oito navios de carreira do Brasil. E para se ver como crescia espantosamente aquele negócio com que a Holanda se opulenta, basta notar que em 1623 já o número de navios apresados no mar e nos portos ascendia a setenta!

Tudo isso estava dizendo muito claro que o Brasil é alvo de uma cobiça cada vez mais desabusada, e que a audácia disputante é agora mais insofrida e decisiva.

Chega o momento em que, enriquecidos na nova indústria de devastar os mares, já senhores do Oriente, vão os holandeses passar do corso e do salteio a pretensões efetivas de terras na América.

E agora, além de todas as vantagens de encontrar obra feita nos dois oceanos, vem ainda estimulá-lo o rompimento com a Espanha. Lisonjeado pelo destino com tantos sucessos, e desvanecido da vitória contra o orgulho e fanatismo de Filipe II, estava o espírito nacional da velha Neerlândia perfeitamente retemperado de coragem para a competição em que ia entrar.

7 - Pelo outro lado, apesar de todos os ataques que tem sofrido, não se poderia dizer que fossem as mais precárias as condições do Brasil, no que respeita sobretudo ao sentimento geral dos colonos como base de resistência a inimigos externos.

É exato que nos momentos mais graves se clamava para a corte, e já vimos como a pouca solicitude da Espanha em relação à América oriental muito concorria para persuadir os colonos portugueses de que o Brasil já não contava, pelo menos nas medidas em que isso era necessário, com a tutela da sua metrópole.

É preciso, aliás, não exagerar as acusações que se fazem à corte de Madrid. A Espanha estava numa situação muito complicada, em luta com sérios embaraços no interior, e em colisão com quase toda a Europa do norte, principalmente com a França, a Inglaterra e a Holanda, as três mais consideráveis potências do continente.

Para fazer face aos seus inimigos, e para defender, ainda fora da Europa, a imensidade de possessões que tinha de guardar em todos os mares, não era possível que tivesse, a tempo, sempre forças disponíveis. Nem se concebe que pudesse conservar em atividade permanente forças navais e de terra capazes de acudir a toda parte onde houvesse clamores.

Em tal conjuntura, o mais prático era mesmo não dar ouvidos demais a quanto boato de riscos ou de agressões corria, aguardando-se os momentos decisivos em que fosse necessário agir com segurança. Correr a   esmo a toda parte, a atalhar perigos, antes de tudo seria nada mais que cansar inutilmente.

Explica-se, pois, perfeitamente aquilo que aos olhos dos colonos parecia indiferença da corte de Espanha.

Até certo ponto não se poderia ver isto como um grande mal para o Brasil. Sentindo-se abandonados (e de um rei que não era o seu legítimo) cuidavam os próprios colonos de defender-se. De duas intrusões, no Sul e no Norte, já haviam salvo a colônia: hão de, com a mesma constância e esforço, arrostar as tormentas que vierem.

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Imagens:
http://bndigital.bn.gov.br

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