quarta-feira, 14 de março de 2018

História do Brasil: catequese dos selvagens



Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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A catequese dos selvagens


1 — O das relações dos adventícios com os indígenas era o problema capital e de solução mais difícil para os colonizadores. Ou tinham de eliminar ou excluir as populações que encontravam aqui, como fez lá no norte o anglo-saxão; ou haviam de associar-se a elas. Como excluir ou eliminar sem sacrilégio, e sem criar para o futuro, no primeiro caso, problema ainda mais grave? E como fazer a aliança de duas raças em uma disparidade de cultura tão profunda e tão extensa?

Eis aí em que condições se apresentava para nós o problema.

Pondo de lado o processo do inglês nos Estados Unidos, cumpria-nos encarar a questão pela outra face: isto é, tínhamos de aceitar a solução pela aliança.

Mas em que condições se tornaria possível essa aliança?

Não havia escolha possível: teríamos de submeter a raça inferior a um noviciado de subalternidade. E isso fizemos tanto em relação ao índio como em relação ao africano.

É este o processo histórico, e o único legítimo, mesmo depois do Cristianismo.

Aqui só poderíamos entrar sacrificando, e dispostos pela nossa parte a sacrifícios: — fortes, não apenas pela força, mas pela nova consciência com que tínhamos de dirigir esta corrente de povos, trazendo para aqui o grande signo a cujo influxo deve o espírito da civilização europeia a sua unidade.

O nosso erro inicial consistiu mesmo em termos ensaiado desapercebidamente a colonização. Durante aqueles dezesseis ou dezoito anos de pleno regime das donatárias, nem teve o colono o derivativo moral do culto externo. Tornou-se por isso medonha a relaxação do sentimento religioso. É preciso mesmo atribuir, em grande parte, à falta de semelhante concurso, o insucesso dos donatários. Alguns seculares que vinham com os capitães, quase todos, em pouco tempo aqui esqueciam o sacerdócio para cair na insânia em que se agitava todo o mundo.

Os poucos frades, que raramente apareciam, muito pouco se dedicavam à catequese naqueles primeiros tempos; e ainda depois, alguns preferiam o retiro dos claustros às penosas vicissitudes do sertão.

Era preciso contar, pois, com um zelo apostólico incomparável, que excedesse a tudo quanto até ali se poderia esperar da abnegação e da caridade de criaturas humanas.

É felizmente nestas condições que, ao lado do poder político, vem entrar em cena, no drama da conquista, a figura do missionário.

Uma fortuna ainda maior para a América foi esta de haver coincidido, com os primeiros esforços do europeu na obra colonial, a instituição da célebre Ordem Religiosa que tanto abalou o mundo.

2 — Os prodígios operados na Ásia pelo padre Francisco Xavier inspiraram a D. João II a ideia de recorrer ao influxo miraculoso dos padres na obra que se ia empreender.

Com o primeiro Governador Geral vieram logo seis jesuítas trazendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Os outros eram Leonardo Nunes, João de Aspilcueta Navarro e Antônio Pires, e dois irmãos. De entrada na Bahia, cuidaram antes de tudo de construir a igreja matriz (Nossa Senhora da Ajuda) e a casa da Companhia. Depois (quando a igreja e a casa passaram a servir de catedral e de palácio dos bispos) edificaram nova casa e ermida numa colina das vizinhanças (Monte Calvário), já no meio da barbaria.

Começaram por aprender a língua do gentio; e em poucos meses já a falavam tão bem como o português. O padre Navarro principalmente pregava com tal desembaraço que aos próprios índios fazia maravilha.

E desde os primeiros tempos foram, no entusiasmo da sua temeridade, metendo-se pelas aldeias, acariciando as crianças, fazendo brindes às mulheres, agradando aos velhos, socorrendo os enfermos, mostrando-se com todos invariavelmente afetuosos e leais, de modo a desmentir a fama de refalsados que os colonos tinham feito.

O uso mais difícil de vencer e extirpar foi aquela hediondez dos sacrifícios humanos. Os padres, no seu fervor, deixam-se arrebatar, e atiram-se clamantes contra a torpeza, invadindo a arena daquelas lúgubres cerimônias, e com tanta estúrdia que os próprios bárbaros se espantam.

É evidente que só a loucura daquele zelo inverossímil é que explicaria tal imprudência: não seria possível que de um momento para outro, sem tocar-lhe antes a alma, se conseguisse mudar o moral daquela gente.

E foi assim que logo o primeiro encontro daquela piedade incendida com a usança abominável foi um susto e um revés de que os padres só escaparam com vida como por milagre. Ouviram eles um dia, nas imediações do Monte Calvário, um sinistro alarido, vindo das bandas de um terreiro, e tudo compreenderam. Depois de alguma vacilação, deliberaram expor-se à morte, e barafustando pela taba, vão arrebatar das mãos das velhas, quase no ato de espostejá-lo, o cadáver da vítima para dar-lhe sepultura. Fizeram isto com tal império e violência que os selvagens, atônitos, não tiveram tempo de suspender-lhes os braços.

Mas as velhas, como uns abutres, incitam os guerreiros da tribo; e estes, passado o assombro, pungidos de horror, vão atacar a casa dos padres.

Estes mal puderam refugiar-se na cidade.

Resolvem, no entanto, abandonar o Monte Calvário, e dão começo à fundação do seu grande Colégio dentro dos muros.

Não demorou, porém, que os índios fossem procurá-los.


3 — Estava iniciado o serviço na Bahia; mas já se pensava em outras colônias, de onde se reclama a assistência dos missionários.

Mesmo antes que chegassem da Europa novos padres, como daqui pedia o superior, foi Nóbrega distribuindo aqueles poucos por outras capitanias.

Leonardo Nunes, que estava já em Ilhéus, foi com Diogo Jácome para São Vicente. O próprio Nóbrega foi em visita a Porto Seguro. Antônio Pires e Navarro ficaram na Bahia.

A chegada de Leonardo Nunes a São Vicente causou alvoroço geral sendo ele recebido "como homem vindo do Céu para remédio da terra"...

Construiu-se logo na vila uma casa e igreja, onde se começou a educar meninos indígenas. Alguns homens importantes da colônia chegaram a filiar-se à Companhia; entre eles, Pero Correia, que depois de ter sido famoso caçador de índios, se fez apóstolo incansável da fé, e acabou como o outro: em martírio.

O que mais comovia e espantava os colonos era a coragem com que Leonardo Nunes e os seus afrontavam os maiores perigos por amor ao seu semelhante. Um dia, a população das duas vilas, consternada e aflitíssima, procura o padre Leonardo, dizendo-lhe que os índios acabavam de arrebatar de uma roça algumas mulheres de portugueses, cuja sorte  corria grande risco, se é que já não tivessem sido mortas.

Sem um instante de hesitação parte o missionário, levando consigo Pero Correia, para Ubatuba, e dentro de alguns dias voltavam com as mulheres!

Assim que pode ser dispensado em São Vicente, foi Diogo Jácome para Vitória do Espírito Santo, onde iniciou a catequese.

O padre Nóbrega teve de voltar logo para a Bahia, deixando em Porto Seguro o irmão Vicente Rodrigues. Este ali prestou os maiores serviços com grande proveito do gentio e da colônia.

Na Bahia foi o superior encontrar as maravilhas que andavam fazendo Antônio Pires e Navarro; este, principalmente, que todos tinham como alma da Companhia, "homem legião", que não faltava em parte alguma, nem a nenhum serviço.

Em 1550, haviam chegado à Bahia, além de alguns irmãos leigos, mais quatro padres: Manuel de Paiva, Salvador Rodrigues, Afonso Brás e Francisco Pires.

O padre Nóbrega, nomeado vice-provincial da Ordem no Brasil, animou-se agora a tomar uma medida que a situação da colônia estava aconselhando. Desde princípio, sentira ele que os portugueses não precisavam menos de cuidados que os selvagens. Sem refrear mesmo e corrigir primeiro os colonos, nada se poderia fazer com proveito pelo gentio.

Formou, pois, o vice-provincial, com os seus soldados, dois esquadrões: enquanto uns se ocupassem dos índios, outros cuidariam principalmente de moralizar a colônia.

4 — Feita a combinação, escalaram-se de novo os padres para os núcleos de doutrinação que já estavam criados, e para pontos onde se deviam criar novos.

O próprio Nóbrega, com Antônio Pires, vai, por meados de 1551, para Pernambuco, de onde o donatário desde muito lhe fazia reclamos.

Lá mesmo encontraram os missionários os males reinantes em todas as capitanias: os colonos "mais necessitados de religião e moral do que os bárbaros".

Nas expansões com que o gentio os recebia viram ainda os visitantes mais uma prova de que primeiro que tudo era preciso "evangelizar os portugueses". E ali, em Pernambuco, era tal a excelente disposição de ânimo dos selvagens, que o Padre Nóbrega concebeu um meio prático de adiantar a conversão: como nenhum dos dois padres sabia ainda a língua dos naturais, escolheram-se, entre os de aparência mais inteligentes, cem rapazes, aos quais, por intérpretes, se ensinou a doutrina, para que estes
em seguida a transmitissem aos demais.

Esta medida deu os melhores resultados; e a missão de Pernambuco tornou-se logo das mais florescentes.

Em 1552, veio o primeiro bispo D. Pero Fernandes Sardinha; e conquanto não tivesse vindo com ele nenhum missionário, em todo o caso a instalação da diocese teve grande influência entre os colonos, e facilitou o trabalho dos catequistas, libertando-os, em parte, das funções comuns do culto.

Voltando de Pernambuco, aproveitou o padre Nóbrega o ensejo de visitar as missões do Sul, em companhia do Governador Geral, como já vimos em outra lição.

Pelo que viu em toda parte, e sobretudo em São Vicente, convenceu-se o vice-provincial de que, em convívio com os europeus, não seria possível uma obra de catequese regular.

Pensou mesmo, de concerto com os seus, em afastar-se para o sertão, onde, isoladas de povoações portuguesas, pudesse instalar as suas reduções. E só não fez isso porque Tomé de Sousa se opôs com fortes razões a semelhante plano.

Tendo de resignar-se a agir nas condições que lhe permitiam, visitou Nóbrega o planalto, onde deu princípio à casa de Piratininga, com grande alegria de numerosas tribos lá do campo.

Por meados de 1553, com o segundo Governador Geral, chegavam à Bahia mais seis jesuítas: os padres Luís da Grã e Brás Lourenço, e os irmãos João Gonçalves, Antônio Blasques, Gregório Serrão e José de Anchieta.

Em 1554, achavam-se na província do Brasil, que se criara, vinte e seis religiosos da Companhia de Jesus, assim distribuídos: 13 em Piratininga; 5 em São Vicente; 4 na Bahia; 2 em Porto Seguro; e 2 em Espírito Santo (sem contar grande número de noviços).

Tinham, pois, os padres, entrado assim por estas partes da América, instituindo como um vasto problema de civilização cristã, e tomando-o afoitando a si, a causa da raça desventurada.
 


5 — É realmente para admirar-se aquela grandeza moral com que uns quantos homens, num momento de aflições para a consciência do mundo, vinham aqui assumir com tanta coragem a função de resgatar à barbaria toda uma família humana que andava perdida.

O que hoje mais espanta, tratando-se daqueles tempos, nem é mesmo a dedicação sem limites do jesuíta ao encontrar-se com as misérias e desgraças da gentilidade: o que mais impressiona e espanta é ver como se igualavam e se uniam aqueles homens, com tal espontaneidade de coração, com espírito sempre tão íntegro e tão perfeito da obra sagrada — que todos pareciam corpos de uma só alma.

De sorte que o primeiro impulso que se sente ao tratar de tais criaturas é o de dizer de todos eles abstratamente, porque, na verdade, não há muito que dizer de um que não estivesse um pouco em todos.

O mais humilde dos noviços tinha já uma visão tão serena da causa, e sabia ser herói com tanta humildade no seu ofício, que os próprios mestres se mostravam maravilhados.

Estamos, portanto, em presença de homens que poderiam ser perfeitamente representados por qualquer deles que tomássemos a esmo.

Houve, porém, no Brasil, um desses apóstolos que se fez mais conhecido pela sua grande legenda; e é natural que em algumas linhas o destaquemos nesta lição.

Veio José de Anchieta para o Brasil (em 1553) como escolástico, e tendo apenas dezenove anos de idade, pois nascera em Tenerife (Canárias) em 1534 — Tinha estado no colégio dos jesuítas em Coimbra; e ali estudava com grande proveito quando, por motivo de saúde, teve de vir para a América, chegando à Bahia a 13 de julho, com o padre Luís de Grã e outros.

Por fins de 1553 viera para São Vicente, onde o padre Manuel da Nóbrega o recebeu com muito carinho, e com verdadeiras efusões de alma, "pela notícia que já tinha de sua virtude e grandes partes".

Em Piratininga, para onde logo subira, esteve algum tempo, sempre em funções de magistério, sem prejuízo do que lhe cumpria na doutrinação e no estudo do tupi.

Compôs durante esse tempo grande número de hinos e canções sagradas para os meninos índios, assim como historietas e contos bíblicos, com que muito se edificavam e instruíam os neófitos.

E dali em diante, até 1597, quando falece, não teve mais um dia de descanso este homem extraordinário, vivendo de aldeia em aldeia a amparar o bárbaro, e acudindo a toda parte a proteger os colonos e a defender a terra.

6 — Em 1554 funda-se, no meio dos campos de serra acima, na capitania de São Vicente, o grande Colégio de São Paulo, que se tornou o centro de todo o movimento de catequese no sul.

As casas de São Vicente e de Piratininga já não eram suficientes para a afluência de catecúmenos; e com o número de obreiros ampliavam-se os horizontes da missão.

Logo que foi criada a província do Brasil, o padre Nóbrega, nomeado provincial, resolveu centralizar no planalto a obra que se iniciara com tanta fortuna.

Para isso designou como superior da missão de Piratininga o padre Manuel de Paiva.

Levando consigo os companheiros que podiam ser dispensados na marinha, foi o padre Paiva ao campo estudar a situação que mais conviesse ao novo estabelecimento.

Conforme o sistema que desejariam seguir sempre, não quiseram os padres ficar em nenhuma das aldeias onde já se trabalhava, e muito menos na vila de Santo André. Preferiram uma paragem nova, onde pudessem instituir uma ordem radicalmente sua, livre de usanças ou abusos que custaria eliminar em grêmios já feitos, quer exclusivos de selvagens, quer de portugueses e mamelucos, e principalmente destes.

Descobriram logo e assinalaram uma estância magnífica, no alto de ampla colina, entre o rio Tamanduateí e o ribeiro Anhangabaú, distante umas três léguas da vila de João Ramalho, e meia légua da aldeia de Piratininga.

Fácil foi aos padres atrair para ali os dois grandes chefes, cuja fidelidade inabalável e cujo valor lhes deviam ser naquelas obras tão úteis. Tanto Caiubi como Tibiriçá não hesitaram em despedir-se das velhas tendas, e foram, com seus parentes e amigos, estabelecer-se no lugar escolhido pelos padres.

Ali começaram estes pela construção de uma capela de taipa de mão; e em volta desta, algumas casinhas cobertas de palha.

A inauguração do novo assento foi celebrada com solenidade tocante, dizendo-se a primeira missa naquela tosca ermida, aproveitando-se para isso um dos mais gloriosos dias da história cristã — o da conversão de São Paulo (25 de janeiro). Dessa circunstância proveio o dar-se ao novo colégio o nome do grande Apóstolo das Gentes.
 

7 — Dolorosos foram os primeiros dias daquele núcleo, isolado no meio dos campos, em luta com a carência quase completa de recursos.

Os próprios padres incumbiam-se de todos os serviços, como sempre costumavam. Os índios eram solícitos em auxiliá-los nos trabalhos mais rudes e penosos: mas eles não se dispensavam de dar exemplo a todos, sendo sempre os mais esforçados, tanto nas obras de construção, como nos misteres da casa. Eram eles mesmos, os cozinheiros, os criados e enfermeiros uns dos outros, tomando cada qual a sua tarefa, e sem nunca sacrificar a função sagrada que todos tinham. Enquanto uns granjeavam a vida, plantando hortas e pomares, e colhendo frutas e ervas nos bosques, iam outros fazendo prédicas, e dando lições às crianças que se agremiavam.

Em torno do colégio estabeleceram-se numerosas famílias indígenas, construindo as suas habitações, já em certa ordem; de modo que em poucos meses estava ali improvisada uma povoação, que não tinha ainda o aspecto de uma cidade europeia, mas que andava longe de uma simples aldeia de selvagens. As casas, cobertas de sapé e cercadas de ripas, já se alinhavam, formando ruas e praças, aplanadas convenientemente.

Tiveram os missionários a feliz ideia de confiar aos próprios índios agremiados à proteção do aldeamento. Para isso instalaram-se, como capitães de vigia, alguns principais nos pontos onde podiam ter mais fácil acesso os agressores. E, à medida que iam afluindo famílias do sertão, iam fixando-se pelas imediações, como linhas exteriores de defesa.

Nem assim conseguiram evitar provocações, e até investidas formais dos mamelucos de Santo André.

Esta situação só veio a remediar-se, até certo ponto, quando Mem de Sá, em 1560, dirimiu a competição em que andavam as duas povoações do campo, ordenando que de Santo André se removesse o pelourinho para São Paulo.


Imagens:
Biblioteca Nacional Digital:
http://bndigital.bn.gov.br

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