quarta-feira, 14 de março de 2018

História do Brasil: Invasão da Guanabara pelos franceses

Invasão da Guanabara pelos franceses

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)


1 — Em 1553 (a 13 de julho) chegava à Bahia o novo Governador D. Duarte da Costa, assumindo o governo no mesmo dia.

Vem este homem quebrar, logo de entrada, as praxes e tradições do modesto e criterioso Tomé de Sousa. Começou fazendo administração sua exclusiva, dispensando até o concurso dos próprios auxiliares oficiais que o rei lhe punha ao lado. Por um falso sentimento de independência, ou, então, prevenido contra todos, a ninguém ouvia, nem consultava, mesmo sobre coisas peculiares da terra, ou sobre casos de importância excepcional para a população.

O que aconteceu é que se viu logo isolado, e que, fora do seu gabinete nada sabia do que se passava, nem do que convinha corrigir ou remediar, às vezes na própria cidade.

Teve ainda D. Duarte da Costa a má fortuna de encontrar em algumas capitanias os selvagens em atitude agressiva contra os colonos. Na capital mesmo teve ele de consumir o melhor dos seus cuidados na guerra formal ao bárbaro insurgido. Por mais de uma vez chegaram os índios a ameaçar de assalto a cidade.

Quase que se pode dizer que o período inteiro do seu governo passou D. Duarte da Costa era complicações dessa natureza, que lhe não deixavam sossego para preocupações de outra ordem.

Além de tudo isso, vêm ainda os dissídios entre o Governador e o Bispo aumentar os desconcertos em que esteve a terra durante esta administração. Tomara o prelado uma atitude, parece que mais de intolerância que de zelo, contra um filho do Governador, ainda moço, e solteiro, que decerto não seria um modelo de compostura numa terra onde os costumes andavam muito longe de ser austeros...

Não se pode crer, no entanto, que D. Álvaro da Costa fosse um malandro desmandado, pois além de haver já servido na África, ali mesmo na Bahia, no momento mesmo em que recrudescem aquelas rivalidades, toma ele o comando das poucas forças da guarnição, e revela o seu valor e tino militar na defesa da cidade.

Mais dois elementos temos para decidir entre as duas autoridades. Primeiro, o próprio D. Álvaro e o pai procuram humildemente o prelado, e com ele se reconciliam. Segundo, tanto o Bispo como o Governador se queixam um do outro e se acusam, em várias cartas que escrevem ao próprio rei; e o rei chamou o prelado à corte.

Já não se estranha, pois, que D. Duarte da Costa não tivesse tempo nem meios de impedir que os franceses entrassem na Guanabara, e muito menos para os expelir depois.

2 — Conheciam muito bem os franceses a nossa baía e imediações desde muito; e não se sabe como é que só agora, ao cabo de mais de cinquenta anos de abandono pelos portugueses, é que se sentem instigados a ocupá-la com intento de fixação.

Nicolas Durand de Villegaignon já era um homem famoso por grandes façanhas na Europa quando concebeu o plano de vir ter na América o seu grande papel.

Parece que foi esta efetivamente a fagueira ilusão que lhe exaltou as esperanças num momento em que a sua estrela periclitava lá no velho mundo.

Insinuam historiadores que o maior embaraço, que teve ele de vencer, consistiu em descobrir meios de ficar sem constrangimento entre o rei (católico) e o almirante Coligny (que se ainda não se havia declarado calvinista, já não dissimulava as suas inclinações pela seita).

Dão-nos alguns como realmente preocupado com a situação que se criava em França para os huguenotes; admitindo estes, portanto, que o Cavaleiro de Malta já se sentisse comprometido com a ortodoxia católica, e quisesse sinceramente preparar fora da Europa um refúgio seguro para os cristãos livres; o que, de fato, seria um desígnio eminentemente humano numa época em que o fanatismo religioso tiranizava as almas.

Pensa, no entanto, Gaffarel que, precisando do apoio de Coligny (o poderoso ministro de Henrique II), fingiu-se Villegaignon inclinado a converte-se, insinuou-se habilmente no espírito do almirante, "acariciando-o com a esperança de criar, no outro lado do Atlântico, um asilo para os seus consectários quando perseguidos na Europa".

É evidente que este juízo ultrajaria a memória de um homem que não fosse o Villegaignon que se descobriu depois na América.

Seja como for, o que é certo que Coligny, muito contente, lhe ampara o projeto. Fala ao rei, mostrando-lhe as vantagens do cometimento para a própria coroa de França; e Henrique II autoriza a partida da expedição, fornecendo-se de tudo, navios, artilharia, munições, gente, até dinheiro, ao vice-almirante de Bretanha.

Formou-se a expedição, e — particularidade curiosa! — só de homens, tanto protestantes como católicos; e levantou ferros de Dieppe por meados de agosto de 1555.

A viagem foi muito acidentada; e no dia 10 de novembro entrava enfim na Guanabara a esquadrilha, ao troar do canhão e com grande alegria da equipagem, desafogada daquela odisseia. 

3 — Havendo fundeado, cuidou primeiro Villegaignon de fazer explorar bem todas as paragens, reconhecendo os esteiros e recôncavos da imensa baía.

Enquanto isso, montava-se na ilha a que se deu o nome de Ratier (Laje, à entrada da barra) uma bateria de defesa. Viu-se logo o inconveniente das ressacas que desaconselhava a permanência naquela ilha, e removeram-se os canhões para outra, maior, e mais no seio da baía. É ali, em Serigipe, que se vai formar o centro de resistência da posição.

A primeira medida que tomou o vice-almirante, assim que se estabeleceu naquela ilha, foi impedir todas as comunicações com a terra firme. A sua gente devia ficar ali fechada, na angústia daquele rochedo.

A ilha de Serigipe era, então, muito diferente da Villegaignon atual. Não teria de extensão mais que uns 14000 metros. Deve ter hoje talvez mais que o dobro de superfície. Para esse acréscimo concorreu o arrasamento dos cômoros que ali havia quando chegaram os franceses.

Desembarcada toda a gente, começaram-se os trabalhos de fortificação. Em poucos meses murou-se todo o contorno da ilha. Sobre a colina do centro levantou-se a torre principal, e junto dela a casa de residência para o chefe. É propriamente a este castelo que se deu o nome de Coligny. Nos dois outros das extremidades norte e sul construíram-se baluartes, guarnecidos de baterias.

Ao mesmo tempo construíam-se habitações, casernas, armazéns, e tudo mais indispensável a uma praça de armas.

Mas a vida ali insulada, como queria Villegaignon é que não era possível. Quando tinham de fazer provisões, de lenha e de víveres, os encarregados desse serviço haviam de percorrer as tabas vizinhas para conseguir o que desejavam. Por sua parte, foram os tamoios entrando em francas relações com os hóspedes e prestando-lhes os melhores serviços.

Nem assim compreendeu o chefe obstinado quanto estava de absurdo naquele segregamento.

Vêm depois outros erros. Começaram a dar-se colisões com os índios, queixosos de violências e desabrimentos.

Está-se vendo em que teia de complicações anda em véspera de ver-se emaranhado aquele chefe imprevidente e descuidoso. Entre os próprios franceses já lavra um certo descontentamento. Desde os primeiros dias, aliás, murmurava-se surdamente na ilha. Poucas semanas depois da chegada, já se denunciava uma conspiração do pessoal subalterno contra o vice-almirante e seus oficiais. A trama só se burlou por insídias da guarda escocesa, que cercava e protegia a pessoa de Villegaignon.

Por mais rigoroso que fosse o castigo dos conjurados, dali por diante a disciplina só seria mantida pelo terror.

4 — Não tardou que os índios fossem correndo do litoral, alarmados com o que se passava na ilha.

A deserção geral para as florestas teve como consequência imediata a cessação do fornecimento de víveres, e a gente insulada vai caindo numa penúria que muito pouco tem de menos horrível que a fome.

Foram a tal extremo os embaraços de que se viram assediados aqueles míseros forasteiros que o próprio Villegaignon chegou a desanimar, sentindo que era insustentável a posição. Pensou, pelo que se presume, em escolher outro ponto da costa para onde se pudesse mudar a colônia com mais probabilidade de sucesso. Chegou mesmo a mandar duas expedições de reconhecimento, uma ao Cabo Frio, e outra para o sul; mas sem nenhum proveito.

E o homem, em vez de aperceber-se de que todos os contratempos ali só eram frutos do seu orgulho e inépcia, preferia acreditar que estaria melhor onde não estava... como se algures, no mundo, pudesse valer aquele sistema de colonizar...

Assim que correra em França a notícia de que tão mal auspiciada empresa chegara a salvamento a uma terra da qual se contavam tantas maravilhas, reacendeu-se o entusiasmo dos armadores pelos grandes negócios que se faziam na América. E agora, procuravam, todos os traficantes, de preferência o porto do Rio de Janeiro, pela circunstância de já terem aqui as garantias de um posto militar sob a bandeira da França.

Começou assim a baía de Guanabara, alguns meses depois da instalação da colônia, a ser ainda mais frequentada pelos franceses, e então francamente, com o desassombro e arrogância de quem pisa em terreno seu e seguro.

De tais expedições ia ficando por aqui muita gente, que não querendo deixar-se prender na ilha, preferia desgarrar-se por todo o litoral, de perfeito conluio com os índios. E com isto mais se desfalcava a guarnição do forte, dali fugindo quantos para isso encontrassem o primeiro ensejo.

Como alheado inteiramente do seu desígnio, isolando-se cada vez mais da sua gente, nada mais fazia Villegaignon que clamar para a França pedindo recursos, e para Genebra pedindo colonos. Por desfortuna, mais dos míseros que dele, só lhe vieram afinal colonos.

A nova leva que veio agora é só de protestantes; e foram estes escolhidos sob as vistas do próprio Calvino, e com o fim de salvar do desastre iminente a obra que com tanta esperança se lançara na América.

Em vez de melhorar cora isso, tudo na ilha ainda se agrava. Quando, em março de 1557, dirigidos pelo venerável Dupont, aportaram na Guanabara os imigrantes genebrinos, já Villegaignon não era o protestante que saíra de França à procura de um refúgio para a consciência.

5 — A expedição que chegara bem que poderia mudar as condições da colônia se outro lhe fora o chefe. Trazia alguns reforços militares sob o comando de um certo Bois-le-Comte, sobrinho de Villegaignon. Vinham como colonos uns duzentos homens, entre fidalgos e artesãos, e quatorze apóstolos da Reforma, emissários diretos de Calvino.

Toda esta gente de chegada se surpreende com o que encontra e mais ainda, dentro de pouco tempo, com as mudanças que vai ali operar a coragem dos ministros. Tais foram essas mudanças que os mais incrédulos, entre os que desde muito amargavam aquela vida, esses mesmos, quiseram persuadir-se de que se transformava com efeito agora aquele espírito.

Logo se viu, no entanto, que tudo aquilo não passava de pura ilusão. Não demorou que entre Villegaignon (e uns quantos católicos) e os ministros protestantes, se fossem travando, sobre pontos de fé, irritantes discussões que logo degeneraram em discórdia aberta.

Além desses grandes motivos de desânimo, sobretudo para a gente que viera com Dupont, ainda a crueldade, com que a todos se impunham as mais peníveis tarefas naquele presídio, acabava por matar nos pobres corações toda a esperança com que tinham vindo.

Sentindo o que se passa em volta da sua pessoa, perde Villegaignon de todo a cabeça, e desanda de uma vez para os excessos de tirania que estavam muito na sua índole.

Espantados ante a versatilidade, a desconcertante inconstância e perfídia de tal homem, procuram os historiadores explicar o que se lhe passava na alma danada. Falava-se, no tempo, que o cardeal de Lorena (Carlos de Guise) e outras notabilidades do partido católico em França, lhe haviam escrito, censurando-lhe acremente a apostasia e que, receoso da arguição, mudara ele subitamente de pensar.

Seja isto ou não verdade, o que se sabe é que o homem se tornou tenebroso e sinistro, "como se tivesse na consciência um verdugo a pungi-lo". O que se infere, em suma, dos documentos, e da própria conduta de Villegaignon na América, é que o homem nunca deixou de ser católico; que em França se disfarçou quanto pode, só para criar um grande motivo que tornasse popular e patriótico o empreendimento planeado; que na ilha de Coligny continuou por algum tempo a comédia; e que, assim que sentiu como Henrique II tomava interesse pela obra, e que já não era mais preciso parecer protestante, entendeu que não havia mais necessidade de contrafazer-se.

6 — Tendo tocado ao extremo a situação no presídio, declaram formalmente os calvinistas que permanecem fiéis aos sentimentos com que saíram de Genebra, e que se desligam de quaisquer compromissos com o chefe desmandado.

Compreendeu então este que não era mais possível continuar aquela farsa. Está reduzido a confiar só naquela guarda temerosa. Dentre os huguenotes ninguém mais trabalha no forte. Os outros, menos lhe obedecem do que lhe temem a cólera tremenda.

Em transe tão excepcional, cai o homem numa verdadeira obsessão de insânia. Fecha-se na sua câmara como numa jaula, e dali expede os seus decretos e sentenças.

Por fim, teve de consentir que os calvinistas voltassem para a Europa, mas ordenando-lhes que imediatamente se retirassem da ilha.

Deram eles graças a tanta fortuna, deixando aquela geena onde haviam penado cerca de oito meses.

Num ponto da praia quase fronteiro ao forte, estiveram uns dois meses, nas melhores relações com os índios da vizinhança, sem o favor dos quais teriam com certeza perecido.

Num velho navio francês, partiram enfim, a 4 de janeiro de 1558, aqueles homens tão insolitamente desenganados daquele gesto insidioso da sorte.

Tentou Villegaignon mudar um pouco; mas o regime na ilha não mudou.

É que ninguém mais cria nele. Os que podiam continuaram a fugir do forte. E não tardou que o homem dissimulado voltasse a si, e que o '"seu natural de bruto reaparecesse". E para fazer-se uma ideia do extremo a que este homem tinha descido naquela fase de histeria criminosa, basta ver a conduta de celerado que teve com alguns daqueles calvinistas retirantes, que preferiram retroceder para o forte a arriscar-se a uma travessia do oceano em um navio que começava a fazer água antes de se haver afastado da costa. Eram cinco os genebrinos que tinham deixado o navio, e à custa de longos sofrimentos, vieram alcançar outra vez a Guanabara.

Procuraram logo o vice-almirante, apelando para a sua misericórdia. O bárbaro, nos primeiros momentos, tranquilizou os desventurados; mas dali a dias, meteu-se-lhe na alma celerada a suspeita de que aqueles pobres homens eram espiões dos falsos fugitivos, e com requinte de inclemência e de dureza que faz gelar o coração, mandou afogar três dos desgraçados na baía, condenando os dois outros a trabalhos de calceta no forte.

7 — Esta horrível tragédia coroou aquela obra de demência e de crime. A população, tanto da ilha como do continente, ficou estarrecida, não se sabe se mais de indignação ou de pavor. Alguns dias depois da execução dos três mártires — diz Gaffarel — metade dos colonos tinham desertado, uns metendo-se em desvario pelas florestas; outros procurando as praias, na esperança de que os recolhesse algum navio francês. Muitos foram até pedir abrigo aos colonos de São Vicente, sendo ali acolhidos com muita caridade.

O que nos enche de pasmo é que Villegaignon "detestado pelos calvinistas, temido e desprezado pelos católicos, aborrecido pela gente da terra", tenha podido fazer-se algoz de tantas vítimas, zombando de todas as leis divinas e humanas; e tenha ainda afinal saído incólume daqui, deixando-nos, num canto escuso da nossa história, a mais negra mancha que a conspurca.

A própria retirada de Villegaignon foi um ato de cobardia e desonra. Só a consternação produzida pelo sacrifício daquelas últimas vítimas é que talvez tivesse aclarado aos olhos do tirano, a situação que ali criara.

E agravando para ele a conjuntura, começou a correr notícias de que os portugueses se preparavam para reagir contra os intrusos. Já haviam, aliás, os colonos começado hostilidades, atirando contra os franceses os índios que lhes eram aliados.

Como diz o insuspeito autor citado, sente agora Villegaignon que o terreno lhe falta debaixo dos pés.

Nada mais tem a fazer senão sair. E saiu traindo, abandonando, e com promessas falazes, aqueles restos da gente que enganara, e que tanto havia feito padecer.

Nem se pode vacilar: esta figura, que poderia ser ainda um enigma para muitos, teve de ficar aí aberta e cruenta, como os réprobos que não merecem o perdão da posteridade.

Imagens:
Biblioteca Nacional Digital:
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