segunda-feira, 26 de março de 2018

História do Brasil: Os Quilombos dos Palmares (Ensaio), de Rocha Pombo



Os Quilombos dos Palmares

 

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Na história da escravidão africana no Brasil houve uma fase (todo o século XVII principalmente) em que, passados os dias dolorosos do banzo (o espanto do desplantado em terra estranha), começou o negro a refletir no seu infortúnio, e a pensar em fugir ao cativeiro metendo-se pelas florestas. Cuidaram naturalmente os senhores de recapturá-los; e por isso trataram os fugitivos, pela sua parte, de aliar-se para resistir aos capitães do mato.

É assim que se foram formando esses temerosos agrupamentos, que desde o começo do referido século se fizeram em todas as capitanias o terror dos viandantes e das povoações indefesas.

Subsistem vestígios de muitos desses agrupamentos, a que se deu o nome de quilombos, sendo de todos os mais notáveis, pela extensão que tiveram, os dos Palmares, no atual Estado de Alagoas. Tinha este nome (derivado da abundância de umas palmeiras que se encontravam ali) uma vasta zona de florestas, quase paralela ao litoral e à distância de 20 ou 30 léguas da costa, entre o São Francisco e o cabo de Santo Agostinho. Por aí situaram-se grande número de quilombos, entre os quais o do Zambi, o das Tabocas, o do Macaco, o do Sucupira.

Esses núcleos tomaram grande incremento com a invasão holandesa, em 1630. Apresentaram-se os intrusos em Pernambuco iludindo os cativos com promessas de liberdade. Por sua parte, forçados a defender-se e a fugir, não dispunham os senhores de meios de coação contra os escravos. Disso se aproveitavam os negros para escapar ao jugo do cativeiro.

Dentro de pouco tempo, em vários sítios daquelas florestas, se haviam reunido multidões de negros vivendo pacificamente das suas lavouras e granjearias. Com eles não repugnavam viver também índios mansos, que por sua vez fugiam à escravidão.

Mais que o estímulo da conquista flamenga, concorreu para aumentar aquelas aglomerações de prófugos, a guerra, que se seguiu, quase contínua, de 24 anos. Para subtrair-se aos azares de uma campanha, em que tanto se sofria do inimigo, como da penúria geral, e às vezes até dos próprios capitães sob cujo comando se andava em armas — nenhum, ou muito raros cativos resistiriam àqueles convites, que os seduziam lá do sertão.

2 - Enquanto as duas raças em colisões não se aperceberam do perigo que ali se preparava contra a ordem vigente, tudo passou sem grandes atritos. Chegavam até os quilombolas a manter estreitas relações com moradores das vilas vizinhas. Iam a Porto Calvo, a Sirinhaém, a Alagoas, levar os seus produtos em troca de artigos de que precisavam (armas de fogo, ferramentas, tecidos). Nessas povoações eram os negros recebidos sem nenhuma desconfiança e os negociantes eram os primeiros a dar testemunho da lisura e probidade com que se conduziam aqueles bons fregueses.

Passado, porém, o primeiro período da guerra contra os holandeses (o período da resistência) começaram todos, portugueses e flamengos, a aperceber-se daquela original anomalia, que punha em sério risco o domínio de uns e de outros. E tanto uns como outros começaram a açular aventureiros contra a confederação dos Palmares.

Aberto o conflito foram naturalmente os negros saindo da sua compostura pacífica. Já em número respeitável (por 1640 a 45), calculando-se em uns 10 ou 11.000, e afeitos àquela vida independente e aventurosa aceitaram eles a luta, e puderam dizer que com proveito para si, pois nos cinquenta anos que se seguem não há dúvida que se adestraram nos combates. Chegaram mesmo a trazer em alarma contínuo a zona ocupada e imediações.

Quando os holandeses sentiram necessidade de atacá-los, tiveram a prova de que os negros (por eles mesmos "libertados") já se haviam adiantado muito.

A primeira expedição flamenga (por 1644) comandada por um Baro, incendiou um dos quilombos, matando uns 100 negros, tendo o maior número fugido para as matas.

A segunda expedição, logo no ano seguinte, não encontrou mais gente, e teve de voltar trazendo só mantimentos em abundância.

Sobrevêm a insurreição contra os intrusos; e a paz em que ficaram deu aos pobres negros a impressão de que haviam escarmentado os brancos.

É de agora em diante que se formam os grandes arraiais, como praças fortes, que depois vão custar aos portugueses mais de quarenta anos de lutas.

Constituíram-se naqueles sertões uns nove ou dez grandes quilombos, além de outros menores, ou menos bem fortificados.

Cada um desses grandes arraiais tinha o seu rei, que vivia veneradona sua muçumba (palácio), tendo o seu conselho de anciãos e os seus generais. Na vida dessas grandes aldeias reproduziu-se quase tudo da vida africana, apenas alguma coisa alterada sob a influência do culto católico e da civilização colonial.

Durante as guerras da restauração de Pernambuco teve, como dissemos, extraordinário desenvolvimento este, que se poderia chamar. Estado ex-crescente no domínio, e com o qual, em seguida à tentativa dos flamengos, tinham de avir-se os pernambucanos.


3 - Expulsos os holandeses (em 1654) voltou-se logo o ânimo dos colonos vitoriosos para o problema que ali no interior se criara havia tantos anos.

Nesta época, os quilombos mais importantes, pelas suas fortificações e o seu poder de resistência, eram os do Macaco e do Sucupira. Contaria o primeiro umas 1.500 cabanas, com uma população de 8 a 10.000 almas. Era considerado como cidade principal e metrópole de confederação. Ali habitava, em 1678, o Gangazuma, grande chefe, que exercia ascendente sobre os demais régulos.

O arraial de Sucupira, conquanto menos populoso (contaria umas 4 a 5.000 almas), era ainda mais importante como praça militar. Neste exercia o mando supremo o general Gangazona, irmão do grande rei. Devia considerar-se como guarda avançada da nação, posta ali na fronteira com os inimigos.

Foram estes os quilombos que começaram a ser hostilizados. E muitos dos heróis que vinham da reconquista não se dedignaram de tomar agora o comando de forças dirigidas contra os negros.

Durante vinte anos repetiram-se tentativas infrutíferas contra aqueles dois redutos, onde se sabia concentrado o maior poder dos quilombolas. Com uma tenacidade admirável, porém, e um vigor e coragem só próprio de quem defende a pátria, zombaram os negros de todos os esforços, frustrando nada menos de vinte e cinco expedições até 1674.

Nesta época, entendeu o Governador, D. Pedro de Almeida, que não se podia mais adiar aquela conquista sem grandes prejuízos para a colônia, e até sem riscos muito graves para a própria soberania portuguesa; pois eram gerais as queixas e reclamos das populações, expostas à audácia crescente dos negros, vangloriosos daqueles repetidos insucessos dos brancos.

4 - Preparou, pois, o Governador, "elementos para uma campanha decisiva", e dispôs tudo como se uma nova guerra formal se fosse iniciar, destinada a repelir ou eliminar inimigos que ameaçavam a segurança interna do domínio.

Pelos fins de novembro de 1675 parte de Porto Calvo a expedição, comandada pelo sargento-mor Manuel Lopes Galvão; e depois de atacar um vasto arraial, e em seguida, outro mais metido no sertão, fixou-se Galvão ali, espalhando quadrilhas, que durante mais de uns quatro meses foram perseguindo fugitivos no interior das florestas.

O relativo sucesso desta primeira animou D. Pedro de Almeida a organizar uma nova tentativa, à frente da qual se pôs o capitão-mor Fernão Carrilho, famoso pega-negros nos sertões do Nordeste.

Partiu Carrilho também de Porto Calvo, em 1677, dirigindo-se primeiro contra um reduto, que encontrou deserto; e depois contra Sucupira, que além de deserto, estava reduzido quase todo a cinzas.

De acordo com as instruções que tinha, fundou ali Carrilho, sobre as ruínas do grande quilombo, o seu arraial, de onde foi fazendo bater o sertão. Pouco êxito, porém, alcançava o capitão-mor; e a gente começou a desertar. Pede-se então socorro, principalmente de tropas, ao Governador; e bastou o aviso de que o socorro já estava em caminho, para que se reanimassem os expedicionários, e fossem logo com mais audácia, e com mais proveito, perseguindo os negros. Com a chegada dos reforços caiu em estrondoso tumulto a zona inteira dos quilombos.

Em quatro meses de correrias e assaltos nas florestas achavam-se os negros tão corridos e destroçados que se julgou extinta a confederação dos Palmares.

Voltou então Carrilho ufano daquela façanha, e foi recebido no Recife como um herói, a quem se devia tão grande serviço.

Entendeu agora D. Pedro de Almeida que era oportuno completar com a piedade o que a força havia feito. Mandou, com pequena escolta, um capitão à procura dos "restos" de negros, dispersos e errantes, a avisá-los de que o capitão Carrilho se preparava para acabar de uma vez com os quilombos subsistentes; mas que se eles quisessem viver em paz com os brancos, o Governador lhes assegurava, em nome de El-Rei, toda união e bom tratamento.

E tanta coisa mais se oferecia àqueles relapsos que a proposta foi aceita.

5 - No dia 18 de junho (1678) entrava no Recife a escolta trazendo já em sua companhia dois filhos do grande rei e um séquito de notáveis.

O Governador (já então Aires de Sousa de Castro) recebeu com muita deferência a embaixada; e convocou um grande conselho, que resolveu celebrar a paz com o rei Gangazirma. Lavrou-se um auto de tudo; e com a embaixada seguiu para o sertão um oficial do terço dos Henriques, incumbido de ler ao rei o tratado da paz.

Tivera assim Fernão Carrilho o seu dia de glória, e os pernambucanos aquele momento de doce ilusão; pois a tal paz ficara "só na mente dos alvissareiros: em vez de exterminados, iam, pelo contrário, fazer-se os quilombolas mais fortes e temerosos".

Logo no ano seguinte (1679) foi necessário mandar-se uma expedição contra o rei Zambi; e esta investida foi um completo desastre. Com isso redobra o furor e a insolência dos negros; e mais dez anos vão passar-se de angústias para a capitania.

Chegou um momento em que a própria corte se impressionou com aquela singular anomalia, e deu ordens insistentes para resolvê-la.

Refletindo-se naquele gênero de guerra que era preciso fazer, e tendo-se principalmente em vista os grandes recursos e as vantagens com que contam os negros, tendo em seu favor a amplitude do sertão, deliberou-se tomar de uma vez o expediente que pareceu a todos mais prático e decisivo, e que consistia em confiar a causa a gente afeita aos processos da caça ao selvagem. Só mesmo o bandeirante seria capaz de dar cabo daqueles negros, que se haviam assenhoreado de florestas tão vastas e escusas, e que, pela sua união e disciplina, tanto como pelo seu número, se tinham tornado mais temerosos que os próprios índios.

Os sertões naquela época, até o extremo norte, andavam já batidos por aqueles heroicos aventureiros, que escreveram uma página única na história da América.

Entre os chefes, cuja fama desde muito corria em todas as colônias, destacava-se o paulista Domingos Jorge Velho, que havia já devassado as regiões centrais até os confins do Maranhão.

De acordo com o Governo-Geral, mandou o Governador de Pernambuco, João da Cunha Soto-Maior, propor ao famoso capitão a conquista definitiva dos Palmares.

Aceitou Jorge Velho o convite; e sem demora assinavam em Olinda os seus procuradores um contrato com o Governador, mais tarde ratificado pelo rei.

Antes, porém, de partir contra os negros, teve o capitão de ir em socorro do Rio Grande do Norte, em grandes aflições com uma tremenda insurreição de índios.

Protelava-se, assim, um serviço, que de dia para dia se tornava mais penoso; até que o próprio Governador-Geral ordenou categoricamente a Domingos Jorge que viesse dar conta da sua tarefa.

6 - Deixando no Rio Grande um outro chefe, dos mais famosos naqueles tempos (Matias Cardoso de Almeida), abala pressuroso o capitão para o Sul, em grande ânsia de dar provas de si cora façanha que assombrasse a todo o mundo.

Sem chegar primeiro a Olinda, como lhe pedira o Governador, foi logo tomando rumo para os quilombos, e estacionou nas imediações do de Zambi, no intento de explorar a situação.

As partidas que para isso expediu, em vez de observar, distraíram-se com a abundância de frutas que encontraram por ali, e afinal caíram numa cilada dos negros, que bem caro lhes cobraram aquela fartura.

Pode dizer-se que começara Jorge Velho por um desastre. Em todo o caso, havia a sua gente logrado reconhecer a grande importância do formidável arraial, em que os negros, sob a autoridade de Zambi, tinham reunido todo o seu poder. Compreendia o quilombo (situado na encosta da serra do Gigante, junto ao rio Mundaú) "mais de uma légua de circuito"; e pareceu tão "bem fortificado que só lhe faltava ter artilharia".

Já estavam os negros avisados daquela agressão, e tinham recolhido na praça as famílias de todos os mocambos (aldeias) da redondeza, e acumulado nos seus paióis grande quantidade de víveres.

Tendo sofrido aquele revés, retirou-se Jorge Velho com a sua gente para Porto Calvo, onde recompôs as suas forças, aproveitando os grandes contingentes que ali estavam preparados, e com os quais elevou o poder da expedição a mais de 7.000 homens.

Este exército, provido de todo material de guerra para um longo assédio, põe-se em marcha para o sertão, com "precauções de avançadas e batedores, descobrindo os caminhos, e tomando todas as medidas para evitar surpresas".

Sem acidentes de nota, chega à vista do grande quilombo. As vizinhanças estavam desertas, e em larga quietude de espreita. Antes de recolher-se, haviam os negros destruído tudo em torno do reduto.

7 - Estabeleceu-se o cerco, tomando Jorge Velho, e mais dois grandes capitães (Bernardo Vieira de Melo e Sebastião Dias) a guarda das três portas da frontaria do arraial.

A primeira investida foi horrível. De dentro das trincheiras repulsam-se os assaltos com veemência espantosa, tanto a "armas de fogo e a flechas, como a água fervente e a brasas acesas, lançadas pela estacada".

É diante desta grande cena que temos de lamentar, com Varnhagen, que semelhante tragédia não tivesse ao menos o seu cronista. Nada exagerou Oliveira Martins dando à cidade condenada o nome de Tróia Negra, "o mais belo e heroico de todos os protestos do escravo", e cuja história
"tem lances de uma Ilíada".

Para que se nos figure toda a grandeza daquele pleito, bastaria recordar que durou o assédio cerca de três anos, combatendo-se ali quase continuamente, noite e dia. Sem cessar "foram as muralhas e as portas batidas... sem efeito algum" antes com grandes perdas dos sitiantes.

Afinal, pediram estes para o Recife, que lhes mandassem artilharia, sem o que, declaravam, seria "impossível romper as fortificações do inimigo".

Em certo dia, enfim, conseguem, Sebastião Dias e Vieira de Melo, romper as portas que andavam guardando. Acode então com sua gente Jorge Velho. Dá-se o assalto. Os negros resistem. Mas é inútil o seu esforço. Imensa confusão se faz naquele vasto recinto onde se confinara a esperança dos míseros. Enquanto alguns morrem combatendo, rendem-se outros implorando misericórdia (mulheres e crianças principalmente) e o maior número dos destroçados debandam fugindo para o sertão.

Assim caiu, em 1694, o último reduto dos Palmares, ao cabo de mais de 50 anos de lutas com que se afrontou a sociedade colonial.


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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital do Brasil
http://memoria.bn.br

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