3/16/2018

Invasão da Bahia pelos holandeses (Ensaio), de Rocha Pombo


Invasão da Bahia pelos holandeses

Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)



1 - Em 1609 celebra-se, entre a Espanha e as Províncias Unidas dos Países-Baixos, uma trégua de doze anos. Conquanto, pelo que respeita às colônias, fosse perfeitamente ilusório esse tratado, sempre se teve em Holanda alguns escrúpulos em atacar o Brasil com intuito de conquista, limitando-se os aventureiros aos gordos negócios da pirataria.

À medida, porém, que se ia aproximando o termo daquela trégua, agitava-se entre os armadores de Haia o pensamento de completar aquela primeira Companhia, que já operava com tanto sucesso na África e na Ásia, por uma outra que viesse explorar as colônias da América.

Em 1621 (assim, portanto, que cessou a trégua) autorizam os Estados Gerais a incorporação de uma nova Companhia das índias para operar no Ocidente, fazendo-lhe concessões extraordinárias, que lhe davam o caráter de uma verdadeira delegação de soberania nas terras onde se instalasse. Em menos de dois anos estava a nova empresa organizada, e tratou-se de estudar o plano de operações com que se começaria a agir.

Cuidava-se, naquele momento, de estabelecer no Atlântico um cruzeiro destinado a dar caça às frotas que todos os anos conduziam para a Espanha as fabulosas riquezas da América.

Foi logo a nova companhia convidada para aquela obra, em que já se associavam a outra companhia e o próprio governo das Províncias Unidas.

Mas os diretores daquela preferiram levar com mais tática e segurança os seus cálculos, procurando primeiro na América oriental um ponto de apoio para as suas operações no Atlântico.

Fixou-se, então, o desígnio na conquista da Bahia, de onde seria fácil estender a influência, e mesmo o domínio flamengo, por todo o país, e até ao Peru pelo interior.

O plano despertou alvoroços gerais entre os argentários de Holanda, e teve logo aprovação do governo.

Pelos fins de 1623 estava equipada uma poderosa frota de vinte e seis velas, montando quinhentas bocas de fogo, sob o comando em chefe de Jacó Willekens, tendo como vice-almirante o temeroso Pieter Heyn. A guarnição era de 3.300 homens, sendo 1.700 de tropas de terra, às ordens do coronel Johan van Dorth, que seria também o governador da conquista.

2 - De vários portos de Holanda levantou ferros a esquadra pelos fins de dezembro e princípios de janeiro de 1624 - Com exceção do Holândia (a bordo do qual vinha van Dorth) vieram os navios reunir-se na ilha de São Vicente (Cabo Verde), onde se demorou uns três meses, refazendo-se de água e de víveres, e pondo em ordem o material de guerra.

Dali zarpou a 26 de março.

Tinham chegado avisos desta expedição à corte de Madrid; e esta, como desde algum tempo não cessava de fazer, preveniu o governador-geral, Diogo de Mendonça Furtado, recomendando-lhe que estivesse vigilante e que cuidasse de fortificar a Bahia, valendo-se de quantos recursos pudesse ter à mão.

Cuidou o Governador, secundado pelo entusiasmo de muitos capitães da terra, de aperceber-se para a emergência. Melhoraram-se as duas fortalezas, de Santo Antônio e de Itapagipe. Reconstruiu-se uma linha de trincheiras que protegiam a cidade pelo lado da terra. Levantou-se uma bateria (forte do Mar) num recife fronteiro à cidade.

Havia por ali uns tantos desgostos entre a população, e até entre o bispo e o Governador. Tudo isso, porém, se desvaneceu no dia em que correu a notícia de que pelas vizinhanças da barra andara uma nau holandesa, e que apresara um navio negreiro que chegava da África, tendo em seguida desaparecido.

Tanto bastou para que a população se alvoroçasse em grande alarma, cessando todas as dúvidas e questões, e unindo-se todas as classes e partidos. Puseram-se todos prontos para repelir os assaltantes; e o próprio bispo foi apresentar-se ao Governador, oferecendo os seus serviços de guerra onde fossem necessários.

Sem perda de tempo convocou-se toda a gente do Recôncavo e imediações, tanto colonos como índios conversos.

Pode imaginar-se o alarido geral que lavrou por aquela terra, a situação de angústia em que se viram as famílias, principalmente dos moradores da redondeza, privadas dos respectivos chefes, e sob a iminência de perigos a que os boatos davam proporções descomunais.

A todos os temores e aflições, no entanto, dominava a exaltação daqueles ânimos, insuflados pela palavra dos padres e pelos exemplos das autoridades.

Converteu-se a Bahia em verdadeira praça militar. Todo o mundo abandonou engenhos, lavouras e oficinas, cuidando-se exclusivamente de coisas de guerra, e só se ouvindo arruídos de peleja.

O bispo, D. Marcos Teixeira, tomou a si o comando de grande parte das forças, dirigindo todo o serviço, superintendendo a disciplina nos batalhões, ordenando exercício, e pelos estímulos do seu ardor nos quartéis e nos templos, a associar a religião e a pátria, nutrindo de coragem a alma,
ora incendida, ora hesitante daquelas turbas.

3 - Mas passam-se os dias, as semanas, os meses, e nada de aparecerem os anunciados inimigos.

Começava tudo aquilo a tomar uns ares de pura ilusão no espírito de toda a gente. Desde muito que se vive ali como sob um contínuo terror fantástico. Já se anda cansado de falsos rebates. A esquadra, que se dava como tendo tomado direção do Brasil, havia mais de quatro meses, não chega nunca. O navio, que se avistara um instante na costa, sumira-se.

Toda razão tinham, pois, os que não acreditavam em tais perigos, com que tão grande celeuma andavam fazendo governos e capitães, que mais pareciam comprazer-se de guerra que do labor pacífico e dos legítimos interesses dos povos.

Entre os que menos criam na probabilidade de agressões estava já outra vez o prelado, em cujo espírito só a insistência dos navios produzia aquela alternativa de incredulidade e exaltamento.

E agora, refletia-se, tinha mesmo visos de pura balela o último rebate; pois havia quase um mês que desaparecera aquela nau avistada na costa; que isso era prova de que o navio era de piratas; e que, se com efeito a esquadra flamenga tinha mesmo partido de Texel, não era possível que demorasse tanto se o seu destino fosse mesmo o Brasil, como se dizia.

Todas essas reflexões dir-se-ia que eram contra os baianos uma como conspiração do destino. Preparava-se assim, a alma daquela população, para o destroço. Basta imaginar as impressões, que se lhe geram no ânimo indeciso, com todos os agouros que se espalham. Não há coragem que não diminua um pouco sob o susto de ameaças contínuas. Não há sangue-frio que se não altere ao rumor de repetidos alarmas. O primeiro e seguro efeito dos rebates falsos é exagerar o perigo anunciado.

A fortuna dos holandeses precedia-os, pois, na terra que vêm buscando.

Começam os moradores a desertar para os seus lares, e muito às claras, bem certos de que estavam ali fazendo um sacrifício sem proveito. O próprio Governador e o Bispo não tiveram grandes razões com que reprimir a dispersão, e limitaram-se a aconselhar aos retirantes que estivessem de sobreaviso para acudir à cidade ao primeiro sinal.

4 - Não tiveram tempo de descansar muito. Passados alguns dias, novo aviso se recebe de Boipeba. Mandou o Governador o próprio filho a reconhecer os navios que se dizia estarem ali. Não demorou o capitão Antônio de Mendonça a voltar com a certeza de que nas alturas daquela ilha se reunira muitas velas. Agora não havia mais dúvida. De fato, a esquadra holandesa, depois de mais de quatro meses, chegava aos nossos mares a 4 de maio; e a algumas léguas para o sul da Bahia, punha o almirante em ordem os seus navios.

Dá então o Governador o rebate geral; e a iminência, agora visível, da refrega põe toda a terra em tumulto. Acode a maior parte da gente à praça. Apresenta-se outra vez o Bispo ao Governador, com todos os da sua casa e todo o clero, dizendo-lhe que — "conquanto na sua idade mais lhe conviesse pelejar com orações do que com armas, confiava que o Senhor dos exércitos lhe daria forças para, se fosse necessário, sacrificar a vida pelas suas ovelhas, e o ajudaria contra um inimigo rebelde a Deus e ao rei".

Em dois ou três dias tinham reunido na cidade uns 1.000 e tantos homens, quase todos voluntários, pois da tropa de linha não havia mais que 80 soldados.

Distribuiu o Governador essa gente pelos pontos mais expostos a ataques, ficando Antônio de Mendonça com a sua companhia para acudir onde fosse necessário.

Foram postos em lugar abrigado os navios mercantes que estavam no porto. Aumentou-se a guarnição do baluarte fronteiro à cidade. No forte da   barra, além de muitos flecheiros indígenas, ficaram uns 200 homens. No porto, ao mando de Vasco Carneiro, ficava o maior da força.



5 - No dia 8 de maio apresentou-se a esquadra holandesa defronte à barra, a umas nove léguas da costa.

Houve logo um desvario geral na cidade, começando, em vasto atropelo, a fuga das famílias.

Nem era para estranhar aquele imenso terror: da Europa falava-se em bandidos hereges, inimigos cruéis, queimadores de imagens e igrejas, e desalmados facínoras.

Tudo isso eram os próprios holandeses que faziam correr, de astúcia, para abalar o ânimo dos colonos.

A estratégia de Willekens foi, na verdade, de uma segurança absoluta: revelando, não apenas capacidade militar, mas também exato conhecimento do país, da situação moral dos habitantes, e mais ainda das condições de defesa da praça.

O plano de ataque, aprovado em conselho de guerra, consistiu em reunir as tropas de desembarque em quatro navios, aos quais se juntariam as chalupas necessárias para o transporte de bordo para terra; e o mais da frota penetraria no porto atacando imediatamente a cidade. Enquanto se fizesse o bombardeio, no momento oportuno, a um sinal do almirante, desembarcariam dos quatro navios as forças (perto de 1.500 homens) junto ao forte da barra.

Era, como se vê, formidável o plano, dada a situação com que contavam os agressores. Sem conhecer perfeitamente o estado de coisas que iriam encontrar, não se atreveriam sem dúvida os holandeses a arriscar assim aquele golpe. Para o burlar, ou pelo menos, para fazer tudo mais difícil, bastaria que o forte de Santo Antônio estivesse em condições de impedir o desembarque daqueles 1.500 homens.

Sabendo, no entanto, como se encontrava a terra, entrava ali o inimigo muito confiante e seguro de tomar a praça quase de assalto.



6 - No dia seguinte (9 de maio) pela madrugada, transpuseram a barra os navios que conduziam tropa, sob as ordens de Pieter Heyn; e tomaram posição defronte à praia onde devia fazer-se o desembarque.

Logo atrás entraram os outros navios, avançando afoitamente, sem rebater o fogo da fortaleza; e foram pôr-se em linha diante da cidade.

Deu então o almirante uma salva, e ato contínuo, dela destacou-se um batel com bandeira branca, na direção do baluarte.

Não esperaram, porém, os de terra, pelo parlamentário: deram o sinal de fogo e rompeu o combate. A frota inimiga descarrega contra a cidade, o forte e os navios mercantes atracados, toda a massa da sua artilharia. "E tal foi — descreve o padre Vieira — a tempestade de fogo e ferro, tal o estrondo e confusão, que a muitos causou perturbação e espanto; porque, por uma parte os muitos relâmpagos fuzilando feriam os olhos, e com a nuvem espessa do fumo não havia quem se visse; por outra, o contínuo trovão da artilharia tolhe o uso das línguas e orelhas; e tudo junto, de mistura com as trombetas e mais instrumentos bélicos, era terror a muitos, e confusão a todos".

Dura todo o dia a luta, estende-se pela noite. E então a temeridade do inimigo só não desorienta de uma vez os nossos, porque nestes pode mais a cólera que o espanto. Chusmas de marinheiros atiram-se aos navios mercantes, e apoderam-se logo de alguns. Esta manobra é de efeito tremendo. Os tripulantes dos navios, não podendo defendê-los, lançam-lhes fogo. "Isto foi causa de se estender o dia e a guerra; porque ainda que era noite, vencia as trevas dela a claridade do fogo, que ateando-se no breu e no açúcar (das embarcações incendiadas) lançava grandes labaredas”...

Aproveitando-se daquele espetáculo sinistro, vai o próprio Heyn, com um troço de marujos, tomar de assalto o forte do Mar; e dali, voltam as baterias contra a cidade. Só alta noite é que, sob fuzilaria incessante de terra, foram os assaltantes obrigados a abandonar por sua vez o baluarte.

Enquanto o vice-almirante executava esta manobra, desembarcavam junto à fortaleza da barra as tropas que, sob o comando de Albert Schouten, só esperavam por aquele momento.

Guiadas por práticos de confiança, marcham as forças contra a cidade; mas havendo encontrado a gente de Antônio de Mendonça, tiveram de acampar no alto de São Bento até o dia seguinte.

É durante o resto da noite que saem da cidade os que tinham procurado defendê-la.

7 - Só o Governador ficou em seu posto com alguns oficiais.

Pode-se inculpar a Diogo de Mendonça do erro lamentável de haver, no meio daquela balbúrdia, conservado vivo demais o seu pundonor de homem de guerra, quando é certo que cedendo, menos intransigente, à contingência daquela desgraça, e saindo da cidade, poderia ter logo posto em ordem aquela gente debandada, e apressado o desforço contra os invasores.

O que é, porém, preciso levar-lhe a crédito da honra cívica é sem dúvida aquela grandeza moral com que aguentou a tormenta. Até os últimos instantes, andara ele "na confusão — diz ainda Vieira — cansado, aflito, como outros Enéias na do incêndio, juntando e animando os soldados a morrer antes com honra que a ter vida sem ela"... Diogo de Mendonça — escreve o próprio Netscher — ficou com sua família na cidade, e defendeu-se ainda muito tempo em seu palácio com verdadeiro frenesi, julgando que lhe seria indigno fugir".

E no entanto, aquele imenso desvario, que passara a cidade para os campos e bosques da redondeza, não fora pressentido sequer dos inimigos.

Pela manhã, avançam cautelosamente as forças de Schouten, preparadas para, a tiros de canhão, abrir os muros, quando viram ali hasteada uma bandeira branca.

E viram, com espanto, que a cidade estava deserta.

Tomando conta da praça, foram imediatamente ao palácio do Governo, onde prenderam a Diogo de Mendonça e os poucos que com ele estavam.


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