3/18/2018

Louvor e nativismo em Silva Alvarenga (Ensaio), José Aderlardo Castello


Louvor e nativismo em Silva Alvarenga



Artigo publicado no "Suplemento Literário), no ano de 1957. Pesquisa, transcrição e adaptação orográfica: Iba Mendes (2018)
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A segunda metade do século XVIII já podemos apontar na obra poética de Manuel Inácio da Silva Alvarenga uma atitude de transição entre o espírito servil e bajulador e o espírito independente dos autores da Literatura Brasileira colonial em relação aos mandatários e poderosos de Portugal. E tal atitude associa-se ao enriquecimento progressivo do sentimento nativista. Mas é preciso acentuar que, no caso particular de Silva Alvarenga, está definida, antes de tudo, uma posição crítica assumida em face de uma temática encomiástica, como uma das expressões do estilo dominante. É o que deduzimos da leitura das quintilhas "Ao vice-rei Luiz de Vasconcelos e Souza no dia de seus anos". É jocoso o tom da composição citada, sob uma aparência séria, para exprimir verdade crítica — e crítica satírica — primeiro ao gosto geral da época, do elogio regular e obrigatoriamente dirigido aos mandatários da época e, em segundo lugar, ao artificialismo formal e temático que resultava em especial desse tipo de poesia laudatória:

Musa, não sabes louvar
E por isso neste dia,
Entre as vozes d'alegria,
Não pretendo misturar
Tua rústica harmonia.

Tens razão, mas não escuto
Os teus argumentos belos:
Por mostrar nossos desvelos
Demos o anual tributo
Ao ilustre Vasconcelos.

E passa a sugerir os modelos — Camões, por exemplo, e as formas poéticas: odes, sonetos, canções, idílios, acrósticos, assim como o vocabulário e a expressão, em suma:

Se acaso a ode te agrada,
Para aterrar teus rivais.
Tece em versos desiguais
Crespa frase entortilhada,
Palavras sesquipedais.

Co'as virtudes, co'as ações
Do nosso herói não te metas:
Basta que a obra dilates,
Dividida em pelotões,
Por sonoros disparates.

Hão de rir de Jove as filhas,
Marte horrendo e furibundo,
E com saber mais profundo,
Traze as sete maravilhas,
Que ninguém achou no mundo.

Sob o aspecto indicado, comprovado pelas estrofes transcritas, a composição é, no seu conjunto, um verdadeiro documento de afirmação inicial de reação crítica não tanto à poesia encomiástica como ao artificialismo do gosto poético dominante e de remanescentes culteranistas, visando até certo ponto à atitude criadora independente e de conteúdo poético autêntico. Contudo, Silva Alvarenga não conseguiu fugir às solicitações do meio e cultivou, com toda a solenidade “acadêmica" ou "arcádica", a atitude poética por ele mesmo satirizada, certo que com dignidade e sentimento nativista suficiente para reconciliá-lo com o juízo crítico e histórico da posteridade. Considere-se, no caso, a canção intitulada "Apoteose poética — A Luiz de Vasconcelos e Souza — Vice-rei e capitão-general-de-mar-e-terra do Brasil — Oferecida no dia 10 de Outubro de 1785", escrita em tom épico camoniano em exaltação daquele mesmo a quem dirigiu as quintilhas cuja atitude crítica acabamos de ressaltar. Mas, como atenuante, vemos aí que de fato o poeta se afasta o quanto possível do tom exageradamente laudatório e convencional do gosto da época. Se exalta, então, origem nobre e ilustre do homenageado, muito mais, porém, se preocupa em sugerir-lhe atos de um bom governo, justo, industrioso, de paz e prosperidade. Igualmente aponta o que ele de fato fez entre nós, como se esboçasse assim já uma expressão de orgulho e reconhecimento nativista, sem dar maior relevo à maneira predominante de apresentar o "herói" através de sua ascendência e com juízos, conceitos, comparações vagas, incaracterísticas.

Dir-se-ia, então, que o poeta não pôde evitar as limitações impostas pelos valores de sua época, sobretudo por aqueles definidos pelo prestígio, respeito e temor da nobreza despótica. E é assim que também pode ser justificada a sua atitude na composição — "A tempestade — No dia dos anos da rainha dona Maria I, em 17 de dezembro do 1797" de evidente valor autobiográfico, expressão que deve ter sido das condições em que se encontrou o poeta depois do fechamento da Sociedade Literária do Rio de Janeiro, por motivos políticos e ideológicos. Mas parece que a sua maior preocupação é ser sincero, enaltecendo as virtudes e o progresso da inteligência ou elogiando o mérito incontestável, como na ode "À mocidade portuguesa — Por ocasião da reforma da Universidade de Coimbra" ou em outra composição ainda dirigida a D. Luiz de Vasconcelos Souza, a ode "O recolhimento do parto", de 12 de outubro de 1788, em que é evidente a preocupação de não passar por um lisonjeador servil.

Nestas em outras composições encomiásticas, corre paralelo o sentimento nativista, como expressão de afirmação de uma "consciência pátria", da indicação, em relevo, e o quanto possível assimilado pelo estilo arcádico, de aspectos caracterizadores de nossa paisagem quase que o reconhecimento do nosso destino político não mais como expressão de um simples prolongamento da Monarquia Lusitana, o que antes nos alimentava aquela consciência de inferioridade acima referida. Veja-se, por exemplo, a ode "A Inauguração da estátua equestre do rei D. José I".

Mas é em dois idílios "O templo de Netuno" e "A gruta americana", ambos dirigidos a José Basílio da Gama, e em que, agora, o propósito louvaminheiro cede lugar ao culto da amizade, tão do gosto arcádico, que se acentua melhor a atitude indicada, isto é, a poesia encomiástica, tomada no seu mais amplo sentido, corroborada pelo sentimento nativista. Na primeira, é a despedida do poeta, que, de Portugal, onde cursou a Universidade de Coimbra, regressa à pátria, como satisfação ao apelo do seu sentimento:

Amor, o puro amor do patrioninho
Há muito que me acena e roga ao fado
Que eu sulque o campo azul Ido deus marinho.

E esta atitude anuncia, entre nós, a temática do "amor da pátria" e "da amizade", logo mais frequente entre os poetas da segunda fase do nosso Arcadismo, já acentuadamente pré-romântico, como José Bonifácio de Andrada e Silva e Domingos Borges de Barros. A segunda composição carrega de fato a expressão nativista nos traços da paisagem americana evocada, transpondo para o seu seio, resultado de recursos estilísticos arcádicos, deuses e ninfas que convivem harmoniosamente com os elementos selvagens ou primitivos que a caracterizam. Ao mesmo tempo confirma, possivelmente com intenções políticas, o sentimento de fidelidade da "lusa-américa” à Monarquia Portuguesa, como se lê no final do idílio:

Ide, sinceros votos,
Ide, e levai ao trono lusitano
Destes climas remotos
Que habita o forte e adusto e Americano,
A pura gratidão e a lealdade,
O amor, o sangue e a própria liberdade.

JOSÉ ADERLARDO CASTELLO
Suplemento Literário, dezembro de 1957.

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