sexta-feira, 6 de abril de 2018

História do Brasil: O Grito do Ipiranga (Ensaio), de Rocha Pomba


O Grito do Ipiranga


Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)



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1 - Com a expulsão das tropas portuguesas, estava D. Pedro posto livremente no seu caminho. A primeira coisa que cuida agora é a reconstituição do seu governo, despedindo quase todos os antigos ministros, e nomeando: para a pasta da guerra, o marechal Joaquim de Oliveira Álvares; para a da fazenda, Caetano Pinto de Miranda Montenegro; para a de estrangeiros, reino e justiça, José Bonifácio de Andrada e Silva. Na pasta da marinha continuou Manuel Antônio Farinha.


José Bonifácio não era só a figura preeminente do ministério: desde o começo foi o chefe do governo. Já lá na província desde muito ia ele procurando encaminhar as coisas no sentido da independência. É mesmo hoje certo que viera da Europa com o pensamento de dar o seu concurso a uma obra que, mesmo de longe, vira o seu espírito como se fizera oportuna.

Pode-se dizer que no dia 19 de janeiro, tomara ele a direção daquele grande momento. Assim que se empossou do cargo, fixou o rumo da política que era preciso seguir. Dirigia uma sociedade em crise, e era necessário, antes de tudo, fazer um governo forte. Concentrar todo o poder no Príncipe foi todo o seu cuidado. Só munido de grande autoridade podia o Regente arrostar a situação que se ia criar agora, passando da vida colonial para a vida soberana. Só assim poder-se-ia, não só reprimir o espírito de desordem e o vício das facções que se implantavam em todo o país por uma subversão do sentimento liberal, mas ainda conter as impaciências de muitos que, no seu ardor patriótico, pudessem vir a comprometer a causa, precipitando sucessos que não podem sair da sua lógica.

Eis aí, nas suas linhas gerais, a orientação de toda a política de José Bonifácio, durante a fase de transição em que teria de viver-se até que se efetuasse a independência e se constituísse o novo Estado.

2 - Seguro da rota marcada, foi ele, enquanto apressa a organização de forças militares para emergências que possam sobrevir, neutralizando pouco a pouco os golpes que as Cortes de Lisboa vibravam contra nós.

No intuito de aliar ao governo da Regência todas as Juntas das províncias, convocou, por decreto de 16 de fevereiro, um Conselho de Procuradores, eleitos pelos eleitores de paróquia, e que devia reunir-se no Rio para colaborar com o Príncipe nas funções legislativas. Tomou em seguida a precaução de decretar que, sem a sanção do Regente, nenhuma lei ou ordem emanada de Lisboa se executasse no Brasil. Ordenou também a todas as Juntas das províncias marítimas que não se permitisse, sob nenhum pretexto, o desembarque de tropas portuguesas em território brasileiro.

E, à medida que as Cortes agem contra nós na sua ânsia de humilhar-nos, vai-lhes o grande ministro revidando os golpes e desfazendo as tramas.

Em março fazia o Príncipe voltar para Lisboa a esquadra de Maximiliano de Sousa com as tropas que vinham destinadas a render a divisão de Avilez.

Pode imaginar-se como repercutem, tanto na Europa como em todas as províncias, os sucessos que se dão no Rio durante os três primeiros meses de 1822: o fico, a expulsão das tropas portuguesas, a repulsa da última expedição, e os decretos que D. Pedro vai dando como se fosse já soberano!

Além da coragem decisiva, firmeza e serenidade com que o governo do Príncipe leva a grande causa, tinha ainda de ir arrostando a situação que se criava aqui e nas províncias. Dir-se-ia que a alma daqueles tempos andava agitada continuamente de um fluxo e refluxo de anseios e paixões que se embatem, como se todo o mundo desvairasse ante o desconhecido. Parece que entre aqueles homens, que se nutrem das mesmas aspirações, e que defendem a mesma causa, só havia união no momento do perigo. De modo que ao poder dirigente cumpria, não só resistir aos adversos, de fora e de dentro, como conter os próprios fiéis.

Nas províncias são ainda mais aflitivas as condições em que se veem os povos, indecisos no meio dos acontecimentos, e ansiosos por sair de uma crise em que, aos desmandos gerais, se junta a incerteza do futuro. Em toda parte, quando tiveram de renovar-se as Juntas, de acordo com as novas instruções das Cortes, aumentaram ainda as complicações com a recrudescência dos dois partidos — o português e o brasileiro.

Em algumas províncias, como a de Pernambuco e logo a do Ceará, não demora a liquidar-se a situação favorável a D. Pedro. Em outras, como as do Maranhão e do Pará, dominam os elementos refratários amparados pelas guarnições.

O da Bahia tornou-se o caso mais grave. Ali, o governador das armas, brigadeiro Madeira de Melo, toma ostentosamente o partido das Cortes contra a nova Junta, que se manifesta pelo Rio, que se tornou o augusto centro da família brasileira.

3 - Enquanto se passam no Brasil esses fatos, cresce em Lisboa a animosidade geral contra nós, e vão as Cortes empenhadas, cada vez com mais ódio, em reduzir-nos outra vez à condição de simples colônia. Não se atrevendo a castigar a rebeldia de D. Pedro, tentaram punir os ministros e as Juntas que o tinham induzido a ficar no Brasil.... Declararam sem efeito o decreto do Regente sobre o Conselho de Procuradores. "Permitiram-lhe permanecer aqui até que se promulgasse a Constituição da monarquia, "contanto" que se subordinasse ao Congresso de Lisboa, e recebesse para seus ministros e secretários os cidadãos que El-Rei nomeasse..." E fazia-se ainda sentir muito grave que oportunamente se tomariam outras providências em relação ao regime que convinha ao Brasil...

É assim que, a decretos de escarmento, pretendem aqueles homens atalhar a revolução na América. Davam o seu voto ostentosamente nas Cortes, e punham-se em festas, desvanecidos e ufanos de haverem castigado os facciosos da colônia.

Quando lá chegou a notícia de que D. Pedro, não satisfeito com o Conselho de Procuradores, não trepidou em convocar uma Assembleia Constituinte, então desconcertou-se em furores aquela câmara estúrdia. Declara-se nulo o decreto; destitui-se da sua alta magistratura o Príncipe Real, e ordena-se-lhe que dentro de um mês embarque diretamente para Lisboa sob pena de perder o seu direito ao trono.

Alguns dias depois desses últimos assomos (a 30 de setembro) jurava-se a Constituição votada. Oito dos representantes do Brasil, no entanto, protestaram contra ela, deixando de jurá-la.

Mal sabiam estes que já falavam por uma outra soberania, que deste lado do Atlântico se havia desde muitos dias proclamado.

4 - Pode-se dizer que a Independência, já de fato estabelecida, só precisava de um ato solene, que a fizesse de direito. D. Pedro continuava a dar vivas a D. João VI; mas, em vez de às Cortes portuguesas, já dá vivas à futura Constituinte brasileira, que se havia convocado.

É esse ato solene que José Bonifácio prepara com toda segurança e decisão.

É exato que em São Paulo havia umas tantas dissenções. Chegou-se mesmo, por aqueles dias, a aventar, entre algumas câmaras da província, a ideia de formar-se um governo local para cada câmara, ao menos para garantir a ordem, enquanto durasse "a guerra civil que os facciosos de São Paulo fomentavam".

Parecia, com efeito, a Junta provisória na capital, entregue ao partido português, que na verdade ali se mostrava meio desabusado. Havia já D. Pedro tomando, e com proveito, algumas medidas tendentes a conter os desordeiros, que a indisciplina dos quartéis andava insuflando.

Sabia-se, pois, que a autoridade do Príncipe, no meio das complicações, não sofria por ali nenhuma oposição formal. Davam-se, como em toda parte, embates de facções; mas a aspiração da Independência não tinha inimigos ostensivos.

Tinha, porém, chegado o momento em que o drama devia ter o seu desfecho; e não só José Bonifácio, por um capricho do seu coração, desejava que se desse isso lá na terra do seu nascimento, como ainda lhe entrava nos cálculos daquela política que vinha seguindo, a conveniência de rematar a obra fora do Rio, e fazendo parecer o próprio remate um como incidente imprevisto, ou mais um daqueles protestos com que o Príncipe rebatia sempre ao despotismo das Cortes portuguesas.

Desde algum tempo falava-se da visita de D. Pedro a São Paulo, havendo mesmo S. A. recebido, de várias câmaras da província, mensagens pedindo-lhe que fizesse aos paulistas a honra que tinha feito aos mineiros. Mais do que provavelmente foi o próprio José Bonifácio quem promovera tais representações; pois tudo estava combinado e resolvido, desde a viagem a Santos até o ato, subsequente à cena do Ipiranga, da aclamação de D. Pedro como Imperador do Brasil.

No dia 13 de agosto deu o Príncipe um decreto, investindo da autoridade de Regente, durante a sua ausência, a Princesa consorte, D. Leopoldina.

Acompanhado apenas do seu secretário e de alguns fâmulos e pajens, partiu D. Pedro no dia seguinte para São Paulo, pela via terrestre. Desde o segundo dia de viagem foi, porém, o séquito aumentando, até fazer-se luzida e aparatosa legião ao chegar às vizinhanças da capital paulista.

No dia 24 estava Sua Alteza na freguesia da Penha, onde pernoitou. Na manhã de 25, depois de ouvir missa, montou a cavalo, e no meio da sua comitiva, escoltado de uma brilhante guarda de honra em grande uniforme, tomou o caminho da cidade.

5 - Assim que se avistou o cortejo a cerca de meia légua da cidade, numerosas girândolas deram o aviso da chegada; e começaram logo os sinos a vibrar, e a estrugir a artilharia, postada na frente do convento do Carmo. Ao transpor o Príncipe o grande arco triunfal que se erguia à entrada da cidade, "cobriu-o de aclamações" o povo que ali se apinhava como alucinado. Apeou-se então S. A. e toda a comitiva, sendo recebido, em nome da cidade, pelo Senado da Câmara com seu estandarte alçado, e pelo bispo diocesano com seu cabido e clero.

Feitas ali, diante de um altar, as primeiras orações, seguiu o préstito lentamente para a Sé, indo Sua Alteza Real debaixo de pálio. As ruas por onde desfilou o cortejo estavam tomadas de imenso povo que abria alas a custo; e as janelas, guarnecidas de colchas de seda, estavam cheias de senhoras, que vitoriavam o Príncipe, jogando-lhe flores em profusão. Na Sé, cantou-se Te Deum solene em ação de graças, findo o qual recolheu-se Sua Alteza ao paço, aclamado com o mesmo entusiasmo.

À noite iluminou-se a cidade; bandas de música tocavam em coretos, e outras percorriam as ruas; e, em toda parte, os folguedos públicos, e o movimento ruidoso de gente, deram à cidade um aspecto feérico e uma nota de intenso júbilo.

No dia seguinte houve no paço cortejo e beija-mão geral, no meio do mesmo regozijo em que se agitava toda a população.

Bastou a presença de D. Pedro para que tudo mudasse como instantaneamente em São Paulo. Verificou, aliás, por si mesmo o Príncipe, que não havia por ali mais que desinteligências entre pessoas da terra, ciúmes e rixas de famílias preponderantes, ideias políticas mais ou menos exageradas, mas todos coerentes no propósito de resistência às Cortes de Lisboa.

Limitou-se, por isso, a tornar efetiva a dissolução da antiga Junta, nomeando para a província um governo provisório, de acordo com as próprias leis do reino.

Proclamou enfim aos povos, "recordando-lhes as grandes tradições da terra paulista, exortando-os a não esquecer os efeitos gloriosos dos antepassados, e as provas de fidelidade constante à casa de Bragança, recomendando-lhes sossego e harmonia, e dizendo-lhes que com eles contava como consigo próprio, para a libertação do Brasil".

6 - Estava, sem dúvida, no programa da excursão, uma visita a Santos.

Para aquela vila partiu D. Pedro, com toda a sua comitiva, no dia 5 de setembro. Passou ali o dia 6; e no dia seguinte, pela manhã, pusera-se em caminho de volta para a capital. Já no campo, distanciou-se a Guarda de Honra, com a maior parte da comitiva, e vieram esperá-lo numa colina, junto ao riacho Ipiranga.

Pelos fins de agosto haviam chegado ao Rio notícias de Lisboa, que induziram José Bonifácio a convocar imediatamente o Conselho de Estado para dar solução definitiva àquela crise, que não podia mais continuar sem graves perigos para o Brasil.

Reunido o Conselho de Estado (no dia 2 de setembro) sob a presidência de D. Leopoldina, expôs o ministro do reino o que se passava, e fez sentir que não era mais possível permanecer-se naquela dubiedade, sendo necessário sair dela por um ato de coragem decisiva sob pena de sacrificar-se toda a obra feita. Aplaudiram os ministros, e com eles emulou no entusiasmo a Princesa Real.

Resolveu-se, então, escrever a D. Pedro, mostrando-lhe como não se podia mais contemporizar, e que cumpria proclamar a Independência lá mesmo, sem perda de tempo.

Enquanto o conselho deliberava, já estavam na varanda do paço, prontos para partir com os despachos, Paulo Emílio Bregaro e o major Antônio Ramos Cordeiro.

Chegaram os mensageiros a São Paulo no dia 7; e sabendo que o Príncipe tinha ido a Santos, prosseguiram sem detença a sua marcha para ali, e foram encontrar a Guarda de Honra, que descansava no Ipiranga. Informados de que Sua Alteza não podia estar longe, vão ao seu encontro.

Seriam umas quatro e meia da tarde (de um belíssimo dia de sábado) quando, a cerca de meia légua do Ipiranga, se encontraram Bregaro e Cordeiro com o Príncipe, e lhe entregaram a correspondência.

Leu Sua Alteza ali mesmo os despachos, parecendo comover-se; e depois, afetando calma, como quem medita em angústia, entrega os papéis ao seu ajudante, dizendo qualquer coisa a meia voz.

Em seguida, num largo movimento de alma, diz alto: — "É preciso acabar com isto!". Esporeia o cavalo, e a grande galope, avança para o lugar onde o séquito se achava. A sentinela brada às armas; forma a guarda precipitadamente, e faz as continências. E para toda aquela gente em espanto D. Pedro exclama: — "Camaradas! as Cortes de Lisboa querem mesmo escravizar o Brasil; cumpre, portanto, declarar já a sua Independência. Estamos definitivamente separados de Portugal!" E levantando a espada, num repto de entusiasmo gritou com toda a força dos seus robustos pulmões: "Independência ou Morte!".


"Independência ou Morte", de Pedro Américo (1843-1905)


7 - Este grito é por todos muitas vezes repetido, como em acesso de delírio, e reboa — dir-se-ia — pelo país inteiro.

Dali seguiu D. Pedro com sua comitiva para a cidade, acompanhando-o a Guarda de Honra a certa distância.

Seriam umas cinco e meia da tarde, quando os sinos das igrejas anunciaram a chegada do Príncipe. A sua passagem pelas ruas e praças, até o Largo do Colégio, produziu alvoroço geral, pois toda gente desconfiou que alguma coisa extraordinária se havia dado. Não demorou que a notícia de tudo se espalhasse, convulsionando a cidade.

Era quase noite fechada quando chegou a Guarda de Honra, a galope, de espadas erguidas, levantando vivas à independência, a D. Pedro e ao Brasil. O povo, que já enchia as ruas, foi acompanhando em alaridos a Guarda de Honra até o largo fronteiro ao paço, e ali ficou em delírio aclamando o herói da gloriosa jornada.

À noite houve espetáculo de gala. Eram quase 9 horas quando D. Pedro deu entrada no teatro, envolto numa verdadeira tempestade de ovações.

Em seguida ao Hino da Independência, cantado pelo próprio Príncipe e por algumas senhoras, levantou-se na plateia, sobre uma cadeira, o padre Ildefonso Xavier, e estendendo o braço direito para o camarim onde estava D. Pedro, bradou por três vezes: — "Viva o primeiro Rei do Brasil!" — brado que pôs aquela massa de espectadores, por alguns minutos, em convulsões de loucura.

No dia 10, pela madrugada, saiu D. Pedro de São Paulo, e veio chegar ao Rio no dia 14, já de noite.

É difícil dar ao menos ligeira ideia do "entusiasmo que inundou o Rio de Janeiro" com a chegada de D. Pedro.

No dia 12 de outubro, era ele aclamado solenemente Imperador do Brasil.

Tinha-se realizado, pois, o grande sonho daquela geração.

Restava agora dar sanção histórica a todos aqueles atos simbólicos da Independência.


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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital do Brasil

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