quarta-feira, 4 de abril de 2018

História do Brasil: A vinda da Corte para o Brasil (Ensaio), de Rocha Pombo


A vinda da Corte para o Brasil



Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)
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1 - O regresso de Marialva desfez todas aquelas tristes ilusões. A pobre corte recai no seu pavor. É indescritível o pânico em toda Lisboa. Dava-se o exército francês a marchas forçadas já em território do reino.

Ninguém mais pensou senão em fugir.

Tratou-se imediatamente com os ingleses outra vez como amigos e pediu-se-lhes tudo  quanto em transe tão angustioso só se tinha o direito de esperar da misericórdia de cristãos"...

No dia 23 (novembro de 1807) recebeu-se a notícia de que, com efeito, os franceses haviam transposto a fronteira; e de que também os seus aliados de Espanha, por vários pontos, tinham entrado no país.

No dia seguinte, expediram-se ordens para o embarque imediato das pessoas da corte, e de todos que quisessem acompanhar a Família Real. Fixou-se a partida para o dia 28, devendo o embarque ser feito até à véspera, pois calculava-se que o inimigo só poderia entrar em Lisboa depois de 29.

Transferiu-se logo o Príncipe-Regente do palácio de Mafra para o da Ajuda; e cuidou-se de arranjar tudo que dentro de três dias tinha de ir para bordo.

No dia 25, publicou o Príncipe um manifesto ao povo português, dando as razões que o forçavam a transferir provisoriamente para o Brasil a sede da monarquia, e procurando confortar a alma da velha pátria, com a esperança de que em breve estaria de volta. Aconselhava coragem, e ao mesmo tempo muita prudência com o inimigo, "de modo a não tornar mais funesta ainda aquela calamidade".

Ao espalhar-se em Lisboa a notícia de que a Família Real ia mesmo partir para o Brasil, caiu a cidade em consternação. "Grupos numerosos (desde o dia 25) apinhavam-se nas praças e ruas. Uns pediam misericórdia; outros vociferavam em desespero... Gritos e lágrimas partiam de toda parte. Muitos, não vendo mais pátria, nem rei, nem amigos, procuravam incitar a multidão a armar-se e defender-se, e expelir do solo pátrio os franceses a ferro e fogo. Noite e dia os mesmos lances, o mesmo espetáculo de vergonha e desolação". Chegava a todo instante das províncias cópia inumerável de foragidos, que apavorados pensavam em ficar livres dos inimigos refugiando-se em Lisboa. Não havia mais governo, nem polícia. Era como se, de um momento para outro, se tivesse destravado e abatido todo o edifício social.

2 - Chegou o momento em que não era mais possível prorrogar a partida, pois soubera-se no dia 26 em Lisboa que Junot pernoitara a 25 em Abrantes, a 22 léguas apenas da cidade.

O embarque teve de efetuar-se no dia 27.

Houve, então, um desvario geral em Lisboa. O povo em alvoroços, agrupado pelas praias e cais, que se estendem Tejo abaixo até Belém, assistia ao embarque de bagagem — caixas, fardos, volumes imensos — levando a fortuna da terra, objetos de valor, obras de arte, raridades, relíquias históricas.

Grande número de fidalgos e pessoas importantes pela posição e pela fortuna, seguiam o destino daqueles bens e riquezas. Soldados, marinheiros, oficiais de terra, tomavam o mesmo rumo.

"Dir-se-ia o exílio de uma nação inteira diante de bárbaros invasores do lar e da pátria."

O Príncipe-Regente e o infante de Espanha, D. Pedro Carlos (primo de D. Carlota) chegaram, num coche, ao cais de Belém sem acompanhamento de um só criado ou guarda; nem mesmo encontraram pessoa alguma que os recebesse oficialmente, pela confusão com que tudo se efetuara. Tiveram apenas como saudação os gritos do povo que ali estava consternado.

O cais achava-se em lastimável estado, devido às chuvas dos dias anteriores; e os príncipes o atravessaram carregados por dois cabos de polícia que por acaso ali apareceram. Confundia-se neste momento o pranto do Regente cora o do seu povo. Apertava em convulsões a mão de quantos dele se aproximavam. Dizia adeus a todo o mundo com a voz comovida e entrecortada de suspiros.

Ao seguir a galeota para bordo da nau Príncipe Real, não se descrevem as cenas tocantes que se deram, tanto em terra, entre os que ficavam, como a bordo da galeota e da nau.

Já se havia embarcado o Regente, quando chegou ao mesmo cais D. Carlota Joaquina com os filhos; e dali, com o seu séquito, foram em demanda da nau Rainha de Portugal.

O Príncipe D. Pedro de Alcântara demorou-se com seu aio no meio da multidão, à espera da rainha sua avó.

3 - Cenas pungentes dão-se no instante em que D. Maria I chega ao cais, acompanhada de suas damas. Começou a rainha a gritar como louca, em grande acesso do seu mal, não querendo embarcar. Considerava-se como arrastada ao suplício, num horror de quem vai para o patíbulo. Parecia a todos que através da alucinação, de que padecia, raiava a luz que se não tinha apagado no seu coração, e que a incitava a não despegar-se da pátria, preferindo sujeitar-se à sorte dos seus súditos... Com muito custo, conseguiram as damas levá-la até a galeota que a transportou para a nau Príncipe Regente. Outras princesas, com D. Maria Francisca, viúva do Príncipe do Brasil, tomaram a nau Princesa do Brasil.

Grande número de titulares, e os ministros de Estado, e demais personagens de primeira plana, com sua famílias e comitivas, acomodaram-se em outras embarcações. "Ao passarem por entre as massas curiosas, alguns recebiam sinais de estima; outros, que a multidão detestava, ouviram palavras desagradáveis e injuriosas... Alguns houve que, temendo as iras do povo, preferiram seguir para bordo à sombra da noite, às escondidas.

Alguns regimentos de linha, que tiveram ordem de embarcar, recusaram obedecer, e debandaram".

Cerca de quinze mil pessoas, "das primeiras famílias do reino, das mais abastadas e das de mais valimento, deixaram, naquele dia ominoso, terras de Portugal, fugindo aos horrores de que a invasão francesa as ameaçava, e procurando abrigo seguro nas plagas longínquas da América".

Poderia a esquadra ter partido mesmo no dia 27 à tarde, pois a ansiedade de sair era grande sob o pavor que as notícias da invasão espalhavam.

Os fortes ventos contrários, porém, não permitiram isso nem na manhã de 28, como se pretendeu.

Os horrores que se passaram a bordo, sob a iminência de se ver a cada instante chegar o inimigo a tempo de impedir a saída, não se descreve. Mais de quarenta horas de angústia padeceram ali no porto os exilados, até que na manhã de 29 puderam os navios levantar âncoras e descer vagarosamente o Tejo.

4 - No dia 30, às 9 da manhã, entrava Junot em Lisboa, para só avistar, a sumirem-se no oceano, as últimas velas da frota...

Compunha-se de uns 26.000 homens o exército francês. Contava Junot seguro o golpe que se incumbira de vibrar. A marcha, porém, das suas tropas, não foi tão fácil como ele imaginara. O frio, as chuvas e a escassez de recursos foram os grandes obstáculos com que teve de lutar. Só mesmo a tais entraves deveu a corte portuguesa aquela fortuna de ter podido, à última hora, valer-se do expediente da fuga.

Ao cabo de muitos trabalhos e sofrimentos, viera Junot (tendo perdido uns 5.000 homens) entrar em Portugal no dia 20 de novembro, pela estrada da Beira.

Estava o exército invasor em condições tão deploráveis que "bastaria um simulacro de resistência para destroçá-lo"... No dia 25, depois de refeito em Abrantes, prossegue Junot, a marchas forçadas, para Lisboa, na grande ânsia de impedir a saída da corte. E não fosse o obstáculo das cheias do Tejo, que o obrigaram a parar dois dias sem poder transpor o Zezere (afluente do Tejo) teria ele certamente conseguido apanhar a Família Real. E ainda depois de haver, a custo, passado o Zezere, encontrou, caminho de Lisboa, inundados os campos da Golegã.

No dia 28, estava ele em Santarém, a poucas léguas da capital portuguesa.

Nesse mesmo dia, seguido apenas de um regimento de granadeiros e de um batalhão de linha, destacou-se do grosso das forças, pondo-se em marcha precipitada sobre Lisboa.

A pequena distância da cidade, encontrou um destacamento de cavalaria real. Era talvez — observa um autor — "a primeira força armada que lhe aparecia"...

Esse piquete logo se pôs sob as ordens do general invasor, e serviu-lhe de guia.

5 - No dia 30, como se disse, pela manhã, entravam os franceses em Lisboa. O primeiro cuidado de Junot foi correr à bateria do Bom-Sucesso, e em seguida à fortaleza de São Julião, no intuito de impedir a saída das naus. Fazendo disparar a artilharia da fortaleza, conseguiu ainda o chefe invasor apreender alguns dos navios mercantes que tentavam escapar "nas águas da esquadra. Sobre as fortalezas, os monumentos, e os edifícios públicos, e nos mastros dos navios de guerra que tinham ficado no porto, mandou incontinenti que se alçasse a bandeira das águias francesas"...

Voltando da barra para a cidade, sem dissimular o seu imenso despeito, cuidou sem perda de tempo, o general inimigo, de fazer ocupar os vários edifícios públicos. Nomeou logo empregados para os arsenais e outras repartições da marinha e da guerra; para o tesouro e a recebedoria das rendas. Fez arrecadar a prata e todos os objetos de valor da patriarcal e das igrejas mais ricas. Sequestrou "os bens e propriedades da Coroa, os patrimoniais da casa real, e até os particulares dos fidalgos e outras pessoas que haviam fugido com o Regente. Incorporou às suas as tropas portuguesas. Fixou contribuição de guerra para as várias cidades do reino".

Ao mesmo tempo que os franceses, ocupavam divisões do exército espanhol as outras porções do território português, para o norte e para o sul.

6 - Enquanto, como bandos de abutres em sanha, abatiam os franceses e os espanhóis sobre a mísera terra, navegava a frota conduzindo para a América a Família Real, com o que havia de mais valioso naquela corte desmantelada.

Imagina-se como andaria agora aquela gente, perdida na imensidão do oceano. Dá-se principalmente D. João como de alma em luto, comovido até o pranto ao afastar-se da pátria. Não podia desprender das terras que iam ficando "os olhos marejados de lágrimas". Sabia que deixava o "seu povo entregue à tirania de estrangeiros, o seu reino sob as plantas de inimigos inclementes, as fortalezas do Tejo cobertas com a bandeira imperial, os bens e os direitos dos seus súditos à mercê dos invasores, e o escarmento e a ruína e a devastação em toda aquela terra que o seu coração abandonava"...

Pouco a pouco, "foram desaparecendo o rio, as praias, as montanhas de Sintra", até que se perdeu de vista a linha da costa, e se afundou no oceano.

Logo no primeiro dia uma refrega dispersou momentaneamente alguns navios. Serviu, no entanto, este revés, para dar aos prófugos a medida da sua grande fortuna; pois, se não tivessem saído pela manhã de 29, teria o temporal forçado os navios a permanecer no ancoradouro... à espera dos franceses.

7 - Depois, monótonos correram os primeiros dias da viagem. Pôde-se então notar quanta imprevidência e descuido tinha havido nos aprestos necessários para tão longa derrota. Insuficientes, e de má qualidade, eram os víveres. Chegaram os ingleses a fornecer à esquadra o mais que puderam, e ainda assim, sem melhorar as condições de todos os navios. Faltavam acomodações para o maior número dos exilados, e até para as senhoras. Era excessivo o número de passageiros em cada embarcação, sendo muita gente obrigada a dormir no tombadilho. A imensa desordem com que se se fizera a distribuição das bagagens, punha o maior número de passageiros em grandes embaraços, pois raros eram os que levavam no próprio navio as suas roupas e demais artigos de uso.

Ao cabo do nono dia de viagem, desencadeou-se uma tempestade, que tomou proporções assustadoras, e afligiu cruelmente os viajantes.

A noite separou a frota, que até então andara unida e à vista.

Quando o tempo serenou, já muitos navios não apareciam. "Fizeram-se sinais entre os presentes, e transmitiram-se ordens para se procurar os que faltavam. Moderou-se e regularizou-se a viagem, combinando quanto às alturas por onde se deveriam todos encontrar, a fim de unidos, prosseguirem a derrota. Avistou-se, a 11 de dezembro, a ilha da Madeira, como um ramalhete de flores no seio dos mares"...

Só dali a um mês é que de novo se avistou terra, e já no continente americano.

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