quarta-feira, 27 de junho de 2018

Temas Poéticos: BÍBLIA - II


A lenda do Éden

LUÍS DELFINO
"Imortalidades" (1941)

Hás de lembrar-te ainda da tremenda
Queda dos nossos pais, que a história conta:
Helena, sobe os séculos, remonta
Ao livro santo e após do Éden a lenda.

Aqui há muito que se leia e aprenda.
É na aurora da vida que desponta
O amor, que tudo eleva e tudo afronta:
É bom que cada qual o saiba e entenda.

Deixar a luz, para cair na treva,
Deixar tudo o que é belo e grande a troco
De um sonho vão, que ao erro e à dor nos leva!...

Deus dava tudo: e tudo inda era pouco:
Que mais queria Adão? Que mais quis Eva?
Ter tudo e querer mais? — Não é ser louco?!...

★★★

Éden

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Olha, o momento é curto, e esvai-se de repente;
Neste trabalho audaz, nesta eviterna luta,
Ou é logo apanhá-lo, audaciosamente,
Ou perdê-lo na mó da natureza bruta.

Não o deixar, ser pronto, agarrar o presente,
E em cima de um gramado, ou dentro de uma gruta
Escondê-lo e fruí-lo, o tempo nos escuta,
E quem goza, e é feliz, vê-lo ir indo não sente.

Ris: ‘stás pálida, e enfim me perguntas: — que fazes?
Nosso leito estrelado embaixo entre os lilases,
Éden novo, que nuns palmos de relva traço,

Enquanto em derredor de ti cantam as flores...
Quero só estar contigo, ir só onde tu fores,
Silfos ao pé de nós; deuses, sóis pelo espaço...

★★★

Caim

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

A lágrima protesta, o sangue em coalhos grita...
Não... não irás assim em triunfal parada:
Passarás entre nós como um ladrão de estrada,
Será teu Panteão ridícula guarita.

A traição, toda em luz de auréola bendita,
Chorará de vergonha ao ver-te, horrorizada:
E a baixeza, e a perfídia, e a infâmia interrogada
Contra ti dirá só um nome: — Israelita...

Pensas que hás de mentir à história, miserando?
Quem ainda a enganou? como a enganou? e quando?
Crês também iludir a morte, e não ter fim?

O silêncio tem voz, milhões de olhos a treva...
E a teu pai ser Adão, e a tua mãe ser Eva,
O teu nome, assassino, o teu nome é Caim...

★★★

Judas segundo a Bíblia

LUÍS DELFINO
“Rosas Negras” (1938)

Poderia fugir à Divindade?
Era preciso um beijo fratricida
Que desse a morte; e à morte desse a vida...
Era um destino, uma fatalidade.

Marcou-te Deus da mais remota idade;
Para a traição tua alma conduzida
Assim ao crime, foi também traída
Por Cristo, um companheiro, e sem piedade.

Calvário em sangue, à cruz Jesus alçado,
Nada houvera, nem mundo resgatado,
Sem o teu crime, ó Judas traiçoeiro!

Deus marcou-te com um ferro em brasa o flanco.
Pois bem: o ferro a arder das mãos lhe arranco,
Para marcar a quem traiu primeiro...

★★★

Adoração dos reis

AUTA DE SOUZA

“Poesias”

Jesus sorri. Que ternura,
Que doce favo de luz
Vejo brilhar na candura
De seus dois olhos azuis!

Chegam os Magos. De joelho,
Cheios de unção e de amor,
Beijam o pesinho vermelho
Do pequenino Senhor.

Trazem-lhe mesmo um tesouro
Lembrando glória e tormento:
Caçoulas de incenso e ouro
É a mirra do sofrimento.

Ó Reis do grande Oriente,
Por que lembrastes, então,
Á mãe do louro inocente
A dor sem fim da Paixão?

Não vedes que a Virgem chora
Olhando a mirra cruel?
É que ela se lembra agora
Da esponja embebida em fel.

Talvez não vísseis o lindo
Bando gentil de pastores
Que o rodearam sorrindo,

Mas só lhe trouxeram flores!

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