quarta-feira, 20 de junho de 2018

Temas Poéticos: JESUS CRISTO - I


A Morte no Calvário
(Semana Santa)

MACHADO DE ASSIS
“Poesias Dispersas” (1858)

Consummatum est!

I
Ei-lo, vai sobre o alto Calvário
Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!

Ali toda descansa a humanidade;
É o seu salvador, o seu Moisés!
Aquela cruz é o sol da liberdade
Ante o qual são iguais povos e reis!

Povos, olhai! — As fachas mortuárias
São-lhe os louros, as palmas, e os troféus!
Povos, olhai! — As púrpuras cesáreas
Valem acaso em face do Homem-Deus?

Vede! mana-lhe o sangue das feridas
Como o preço da nossa redenção.
Ide banhar os braços parricidas
Nas águas desse fúnebre Jordão!

Ei-lo, vai sobre o alto do Calvário
Morrer piedoso e calmo em uma cruz!
Povos! naquele fúnebre sudário
Envolto vai um sol de eterna luz!

II
Era o dia tremendo do holocausto...
Deviam triunfar os fariseus...
A cidade acordou toda no fausto,
E à face das nações matava um Deus!

Palpitante, em frenético delírio
A turba lá passou: vai imolar!
Vai sagrar uma palma de martírio,
E é a fronte do Gólgota o altar!

Em derredor a humanidade atenta
Aguarda o sacrifício do Homem-Deus!
Era o íris no meio da tormenta
O martírio do filho dos Hebreus!

Eis o monte, o altar do sacrifício,
Onde vai operar-se a redenção.
Sobe a turba entoando um epinício
E caminha com ela o novo Adão!

E vai como ia outrora às sinagogas
As leis pregar do Sião e do Tabor!
É que no seu sudário as alvas togas
Vão cortar os tribunos do Senhor!

Planta-se a cruz. O Cristo está pendente;
Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais;
E cospe-lhe na face a turba ardente,
E ressoam aplausos triunfais!

Ressoam como em Roma a populaça
Aplaudindo o esforçado gladiador!
É que são no delírio a mesma raça,
A mesma geração tão sem pudor!

Ressoam como um cântico maldito
Pelas trevas do século a vibrar!
Mas as douradas leis de um novo rito
Vão ali no Calvário começar!

Sim, é a hora. A humanidade espera
Entre as trevas da morte e a eterna luz;
Não é a redenção uma quimera,
Ei-la simbolizada nessa cruz!

É a hora. Esgotou-se a amarga taça;
Tudo está consumado; ele morreu,
E aos cânticos da ardente populaça
Em luto a natureza se envolveu!

Povos! realizou-se a liberdade,
E toda consumou-se a redenção!
Curvai-vos ante o sol da Cristandade
E as plantas osculai do novo Adão!

Ide, ao som das sagradas melodias,
Orar junto do Cristo como irmãos,
Que os espinhos da fronte do Messias
São as rosas da fronte dos cristãos!

★★★

A agonia de Cristo

AUGUSTO DE LIMA
Contemporâneas” (1887)

No instante em que Jesus soltou o extremo alento,
refere a tradição que um grande cataclismo
convulsionara o mundo, universal lamento
que a matéria arrancou do pávido organismo.

Os planetas, o mar, a rocha, o bosque, o vento,
levados na atração de estranho magnetismo,
soluçavam de dor um tristíssimo acento.
– Surgiu um osso humano, então, de cada abismo!

Pranto de sangue, o sol abandonara os ares
e em filetes cobriu a Vítima dorida,
como uma estalactite esplêndida de luz.

E o Líbano, curvando as copas seculares,
o Gólgota saudou: – ó rocha denegrida,
não és estéril mais, em ti floresce a Cruz!

★★★

No Jardim das Oliveiras

AUTA DE SOUZA
Poesias

“Minh’alma é triste até à morte...” Doce,
Jesus falou... E o Nazareno santo
Chorava, como se a su’alma fosse
Um mar imenso de amargura e pranto.

Depois, silencioso, ele afastou-se
E foi rezar no mais sombrio canto.
Seu grande olhar formoso iluminou-se
Fitando o etéreo e estrelejado manto.

“Pai, tem piedade...” E sua vez plangente
Tremia, enquanto pelas trevas mudas
Baixava manso o triste olhar dolente.

Pobre Jesus! Como num sonho via:
Em cada sombra a traição de Judas,
Em cada estrela os olhos de Maria!


★★★

Aposta de Cristo
Ché ben può nulla, chi non può morire.
(Petrarca - Sonetti)

CARMEN FREIRE
“Visões e sombras” (1897)

Quando no alto do cruel madeiro
Pregaram Jesus Cristo, sem piedade,
Pairava-lhe um sorriso de bondade
No lábio ressequido e verdadeiro.

Consta que alguém gritou-lhe: — vil cordeiro,
Tu que pregaste o bem, tu que a verdade
Pregaste, morres nesta iniquidade
E calmo dás o alento derradeiro.

Não clamas, não fulmina teus algozes,
Tua palavra mágica emudece,
Morres tranquilo, mudo, solitário...

E Jesus, atalhando as suas vozes,
Respondeu-lhe: — Ah! feliz o que padece
E chega logo ao alto do Calvário.

★★★

A um Crucifixo

ANTERO DE QUENTAL
“Sonetos Completos” (1866)

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste... ah! dorme em paz! não volvas, que descrente
Arrojaras de nova à campa os membros lassos...

Agora, como então, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo céu, frio como um sudário...

E agora, como então, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar — de que serviu o sangue
Com que regaste, ó Cristo, as urzes do Calvário? —

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