segunda-feira, 2 de julho de 2018

Temas Poéticos: JESUS CRISTO - II


A Cristo

GUILHERME DE AZEVEDO
“A Alma Nova” (1874)

Precisamos Jesus, se não Te sentes velho,
Que cinjas novamente o resplendor da luz
E venhas explicar a letra do evangelho
A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

Ainda não cessou, de todo, essa contenda
Que um dia, há muito já, tentaste debelar:
E aqueles que são bons e adoram Tua lenda
Desejavam também ouvir-Te hoje falar.

Apenas ressoasse o Teu verbo indignado,
O látego febril das grandes corrupções,
Iria atrás de Ti um mundo revoltado
Que sente na consciência a luz das redenções.

E embora não houvesse, aqui, outra alma gêmea
Da Tua, e tão ungida em bálsamos dos céus,
Havias de encontrar essa alma de boêmia
Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

Mas não, não voltes cá: Teu corpo combalido
Não pode suportar os gelos da manhã.
Precisavas de pão, de abrigo e de vestido
E a vida aqui é cara e longo o macadam!

Terias de encontrar, decerto, mil estorvos
No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
Se não fosses, enfim, comido pelos corvos
Talvez Te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

Serias apontado a dedo, muitas vezes,
Como um simples bandido, um agitador feroz,
E haviam de esconder seus ouros os burgueses
Apenas ressoasse, ao longe, a Tua voz!

Depois vinhas achar a par do proletário,
Ao pé do que se inunda em bagas de suor,
Aquele velho Pedro, agora milionário,
E triste por pensar que já esteve melhor!

E perto do ócio vil à sombra do qual medra
O egoísmo feroz que extingue o coração,
Lutando todo o dia o britador de pedra
A quem à noite espera, em casa, um negro pão;

E uns pequenos sem cor; talvez cheios de fome,
Com pouca luz no olhar; atrofiados, nus;
Abrindo os olhos muito à côdea que ele come
E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

Assim deixa-Te estar. O Teu cadáver triste
Recende uma fragrância etérea e divinal,
Enquanto o mundo segue e vai de lança em riste
Sem tréguas combatendo as legiões do Mal!

Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
Que falaste do amor, da paz e do perdão,
E o ferro que varou Teu corpo lado a lado
Contudo inda reluz altivo em muita mão!

Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
O gládio vingador das opressões cruéis,
Soltamos, num sorriso, o nome da Justiça,
E há quem saiba morrer sem bênçãos nem lauréis!

Descansa pois Jesus! Bem basta que Tu sintas,
Nesse velho sepulcro, o imenso vozear
Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

Mas que hão de enfim vencer, porque a suprema essência
A jorros cai do céu nas mãos dos Prometeus,
E tanto vai subindo a vaga da consciência
Que um dia há de abismar-se em nós o próprio Deus!

Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizê-lo.
Era em praia deserta, em frente a um longo mar:
Nos céus havia a névoa, a mãe do Pesadelo,
E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscilar!

De súbito surgiu, na praia, uma criança
De olhar profundo e bom, de angélica expressão,
E o mar contemplou com tanta confiança
Que nem que visse nele o berço dum irmão!

Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
Levando ia consigo aquela flor dos céus!
E em breve só boiava um tênue vulto branco
No mar onde flutua o espírito de Deus!

Mais tarde à beira-mar chegava a pura imagem
Da mais casta mulher que em vida pude ver.
Detinha-se distante: — a espuma da voragem
Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!

O imenso mar, porém, crescia a cada instante
Mais turvo e mais veloz! Depois... Não quis ver mais.
Ergui-me e caminhei de vale em vale errante
Pensando tristemente em coisas ideais!

Ao longe, muito além, na serra desviada
De súbito encontrei — ó estranha aparição!
Uma pobre velhita enferma e desolada
Trazendo já no olhar a grande cerração!

Que ideia me assaltou não sei dizê-lo agora.
Aonde iria o espectro, aquela sombra vã?
Iria aonde vai o que ontem foi aurora
E aonde irão também as rosas de amanhã?...

Dos meus instantes bons, ó lúcida quimera,
Bem vês que os sonhos maus são fáceis de esquecer!
Que importa a grande noite em plena primavera,
Que importa o que tu foste, o que és, e o que hás de ser!!

★★★

A Jesus Cristo, Nosso Senhor

GREGÓRIO DE MATOS

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

★★★

Buscando a Cristo

GREGÓRIO DE MATOS

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas cobertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p’ra chamar-me,

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

★★★

Cristo de bronze

CRUZ E SOUZA
(1893)

Ó Cristos de ouro, de marfim, de prata,
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensanguentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a dor e a Luz retrata.

Ó Cristos de altivez intemerata,
Ó Cristos de metais estrepitosos
Que gritam como os tigres venenosos
Do desejo carnal que enerva e mata.

Cristos de pedra, de madeira e barro...
Ó Cristo humano, estético, bizarro,
Amortalhado nas fatais injurias...

Na rija cruz aspérrima pregado
Canta o Cristo de bronze do Pecado,
Ri o Cristo de bronze das luxúrias!...

★★★

Cristo numa medalha

LUÍS DELFINO
"Algas e Musgos" (1927)

Foi com amor igual ao do que inda arde e ateia
Ximenes, Becerril, Arfe, que estoutro inventa,
Com desejo infinito, e paciência lenta,
Esmaltar um metal, a que um Cristo encadeia;

De um fundo flavo e quente a cabeça rebenta,
Como uma flor que inclina o sopro de uma ideia,
E o Salvador do mundo, o filho da Judeia,
‘Stá na criança já, que o mundo à mão sustenta.

O seu olhar é doce, é calmo, é transparente;
Subir da alma e transpor céus em fora se sente;
Há sobre tudo um pó de amortecida luz.

Como de uma caçoula, edênico perfume
Sai do manto, que faz já dele estranho nume,
E um nimbo de ouro à fronte encima este Jesus.

★★★

Os dois Cristos
(A Assis Brasil)

AUGUSTO DE LIMA
“Contemporâneas” (1887)

O velho Satanás soturno divagava
sob o imenso dócil do negro firmamento,
e, aos poucos, um rumor confuso lhe chegava
destas vozes fatais trazidas pelo vento:

“Quando cismavas triste e só no Horto,
entre as sagradas árvores sombrias,
na treva hostil de um céu turvado e morto,
colada a fronte ardente às pedras frias;

Ó Cristo, até de ti mesmo descreste,
e pensando na cruz, da angústia escrava,
tua cabeça fúlgida, celeste,
longas gotas de sangue porejava...

Não sei que voz oculta e misteriosa
da treva te bradava com furor:
‘Ó Nazareno, ó vítima ardilosa,
tu não és Deus, tu és um impostor!’”

Uma agonia lenta então tomou-te,
jorrava o rubro sangue cada artéria,
enquanto teus amigos sob a noite
ressonavam na inércia da matéria.

***
E porque consumaste o sacrifício,
do cálice místico esgotando o fel
inutilmente no fatal suplício,
ó moribundo filho de Israel?

E o que ficou do códex peregrino,
do Testamento que legaste ao Homem?
– Folhas como as do livro do Destino,
que aos ventos do futuro se consomem.

A grande cruz, a ensanguentada vide
do vinho precioso, hoje se fez
do clero torpe um sórdido cabide,
em que pendura a própria hediondez.

Embora o Homem busque atrás da escura
batina a luz que no Calvário exangue
acendeste: na febre que o tortura,
em vez de achar a luz, encontra o sangue.

E, quando no passado, o olhar atento,
busca fitar-te sobre a cruz sagrada,
entre ele e ti se eleva o atroz, sangrento
fantasma secular de Torquemada.

Onde o poder divino que dizias
ter nas mãos, quando em bálsamos supremos,
os teus rudes apóstolos ungias?
– Oh! descremos de ti, Cristo, descremos!

Caíste, como cai qualquer na luta;
profeta, o verbo teu irmão mais ecoa,
mártir, a tua túnica impoluta,
a ventania do porvir rasgou-a!

A limpidez azul da antiga crença,
em que brilhava o místico Tabor,
toldou-a agora uma caligem densa:
a fumaça da Indústria e do Vapor.

Rompeu-se o véu do Templo, onde mistérios
celebravam os rígidos levitas,
amalgamando ao pó dos cemitérios
as lágrimas das dores infinitas.

De teu trágico inferno a densa lava
a rebramir no abismo hórrido, espesso,
ó malogrado herói, já não bastava
pra aquecer as caldeiras do Progresso.

Tua missão está completa. Agora
podes volver à solidão infinda;
mas vai depressa, porque vem a aurora,
e te pode encontrar aqui ainda.

***
E tu, homem, eterno caminheiro
da via dolorosa da Verdade,
é tempo de elevares, sobranceiro,
a grande luz de tua majestade.
Não te vença o punhal que dilacera
esse peito, em que a dor blasfema e chora:
é no bojo da Noite que se opera
a luminosa gestação da aurora!

Não envergues a fronte augusta e casta
ao sofrimento rude, à mágoa funda:
a dor, que hoje te corta a entranha vasta,
é como a dor do parto, é dor fecunda.

Abisma o olhar em tua consciência,
e encontrarás as pérolas do Bem;
trabalha, colhe a esplêndida opulência,
que as minas de teu cérebro contém.

Da antiga divindade o grande assento
ruiu de há muito às lúcidas procelas.
Não procures mais Deus no firmamento:
o firmamento só contém estrelas!

E Satanás caiu num meditar profundo;
e cruzando no peito as mãos, cheio de dor,
prostrou-se, e ouviu-se, então o tentador do mundo
num soluço gemer: – Perdoa-me, Senhor!

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