quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Noite de São João (Conto), de Monteiro Lobato




Noite de São João

— A fogueira!

Confluem todos para ela. A palhaça de milho soto-posta à lenha miúda que lhe serve de intestinos vê-se ateada em fogo pelos quatro lados. O fogo pega e é a princípio indecisa crepitação acompanhada de leve e discreto fumegar. Depois, estrepitante, estala e de dentro da prisão de toros, que quatro espeques de jiçara mantêm em forma, escorados nos encruzes, rola em bojos um fumo espesso.

Panos de labareda esgarçam-se, tentando seguir a fumaça faulhenta em seu vertiginoso arranco para o alto. Vermelho clarão ilumina o terreiro e chapeia os vultos de debruns de cobre polido.

Barulham gritos, palmear de crianças, apupos e vivas, aos quais os bambus do recheio casam os seus estouros de bomba. A faiscalha ascendente galga o céu recamado de estrelas, qual invertido chuveiro.

O frio fino da noite atrai para a fogueira os fandanguistas, de mãos espichadas para o calor irradiante. Mãos e pés. Um dilúvio de pés entanguidos — pés de marmanjões, pés calçados e pés no chão, pezinhos de crianças, pés brancos, pés pretos e pés mulatos — das criadinhas e molecotes crias da casa — em alegre confraternizar apinham-se junto a ela nas mil atitudes do “aquentar fogo”.

As crianças furtam-lhe os tições a jeito, e guiadas pelas mais peraltas dividem-se em grupos para queimar traques da China ou bichas de rabear. O ar estreleja ao estalo daqueles, enquanto estas ziguezagueiam pelo chão, chiando faíscas, como buscapezinhos de Liliput. À porta da casa escorva-se o primeiro pistolão de cor.

— Caminho, gente! “Evai” fogo!

Abre-se uma ala por onde, num repuxo de faíscas, jorra a primeira bomba dum verde de doer nos olhos. O esverdeamento da cena atrai todos os olhares, seguido de espontâneo e sincero “Bonito!”. Vem outra mais forte, vermelha, e outra azul, e outra branca... A cada blaf há um volver geral de caras, e ao último um “Que pena! Outro! Outro!”. E os pistolões se sucedem, com rebuliços na molecada ao fim de cada um para a disputa do canudo.

Aqui o quadro perde a unidade. De cada lado cenazinhas pitorescas dividem a atenção.

— Mamãe, Zequinha queimou eu!

Um menino aparece berrando, a sacudir um dedo enegrecido pelo chamusco da bicha que o irmão, “de propósito”, lhe atacara em cima. Acodem mulheres, que rodeiam a criança com exclamações de piedade. Uma velhota lembra o querosene como o melhor porrete para queimadura. Surge a lamparina de petróleo às mãos duma criadinha, e conserta-se o dedo ao Jojoca, que, mal sarado, ainda fungando e soluçando, lá se volta às bichas, seguido de longe pelos olhares ressabiados do Zequinha, ao qual a mãe, estalando os dedos, ameaçou com um “amanhã você me paga!”.

Num grupo de taludotes conspira-se visivelmente. Tudo ali são meias palavras e cochichos: buscapés... no meio do povo... vai ser uma pândega!...

Noutro, de fedelhinhos, o Zequinha se faz centro de minuciosa atenção, e no silêncio só quebrado por um ou outro soluço do Jojoca, desmancha pistolões à cata das bombas, distribuindo a pólvora pelos amigos.

Nisto, rebentam palmas no grupo dos moços.

— Bravo! Viva a sanfona!

Era o Quim da Venda que chegava, a espremer um velho dobrado na sanfona fanhosa. Rodeiam-no; “inspiram-no” com uma vez de caninha, e cada qual vai pedindo a música da sua predileção. Quim sorri perguntando: “Mas afinal que é que meceis querem?”.

Teve maioria uma Não te esqueças de mim — “muito dançante”, na opinião de Sinhazinha Lopes —, a cujos primeiros acordes os pares se uniram de peito e iniciaram o giro valsado em torno à fogueira. Aos ouvidos das moças ressoam as eternas amabilidades do galanteio.

Em certo magote comenta-se:

— Parzinho jeitoso, a Miloca e o Lulu, não?

— E gostam-se desde meninos; ouvi dizer que ele já a pediu.

— Histórias. Quem foi pedida, um dia destes, foi a Nenê. Mas parece que o sujeitinho levou tábua.

— Bem feito! Tenho birra àquele coisinha. Pensa que é gente... Não viu o que andou dizendo de mim? Como coisa que eu era capaz de dar confiança a um moleque daquela marca...

A sanfona gemia cadenciada, com o Quim deitado sobre ela, alheio ao mundo. Tocava bem, o ladrão, sobretudo quando lhe graduavam o estro com sábias doses de pinga. Aqueles sons ritmavam o movimento dos pares, enlanguecidos num misto de amor e bem -estar físico. Perto deles inutilmente espocavam as bichas e chiavam fogos; nem sequer lhes atraía os olhos o puf! balofo dos derradeiros pistolões.

Súbito, chiou ao longe um buscapé de limalha que, qual raio epiléptico, enveredou pelo meio do povo aos corcovos, criando o pânico e a debandada. Os dançarinos fugiram espavoridos, com as damas penduradas ao peito, e a meninada prorrompeu em atroadora grita — meio medo, meio contentamento. Os velhos protestaram igualmente, que era uma patifaria, que aquilo não se fazia. No meio da desorganização geral só não largou o posto o Quim, sempre deitado na sanfona, alheio ao mundo, absorto nas sonoridades fanhosas que sua alma de artista bárbaro ia arrancando ao instrumento querido.

Cessado o pânico com o estouro final do buscapé, surgiu um tio Pedro, de porretinho em punho, para “ensinar” o malvado.

Quem foi? Quem não foi?

Não fora ninguém; ninguém vira.

Ferviam ainda o comentário e a indignação, quando apareceram duas criadas carregando bandejas com xícaras e bules.

— A gengibrada! “Evem” a gengibrada!

Foi água na fervura. Todos se esqueceram do buscapé para só se lembrarem da garganta. Era a vez de consertar os gorgomilos e matar no ovo a possível constipação. Por minutos um soprar de xícaras e um chuchurrear com estalos de língua dominaram todos os barulhos.

— Está supimpa!

— Isto regenera o fígado.

— Corrobora, pois não.

— Mais uma xícara, dona Lulu?

— Ardidinha, mas boa que dói!

— Está d’apetite, como diz o Eça.

Este comentário saiu do literatelho da roda, Júlio da Silva de nome, Julius d’Altamira no pseudônimo com que desovava sonetos semanais nas folhas da terra. A Candoquinha, de há muito pelo beiço, encantou-se com a frase.

— É da pele, este seu Júlio!

Bem gengibrados, dispersaram-se de novo.

O Quim anunciou quadrilha, que foi organizada num ápice. Quem a marcava era o Júlio. Ah, o Júlio tinha tanta graça para marcar...

— “En avant turco I” — “Grande chaine!” — “Tour, à pas de ‘porca’!” Gargalhadas, quiás, quiás, quiás. A Candoca fundia-se de gosto.

— Este seu Júlio tem cada uma!...

— Credo, Candoca! Você está escandalosa.

— Deixe. Isto é pra quem pode... — “Joujou d’enfant!” — “Grande confusion!” — “Tour!”

— Seu Júlio, outra vez “Joujou d’enfant”!

— Arre, Candoca!

Para lá da fogueira enchia-se um grande balão. A criançada rodeava-o, acotovelando-se, na ânsia de ver melhor. O Zequinha era quem punha a mecha e distribuía tabefes aos atrapalhadores.

O bojo multicor encheu-se dum fumo sujo.

— Está pronto, pode largar!

— Ainda não, bobo! Falta gás...

— Agora!

Sentindo-o com força, o “segurador” largou-o, e o balão hesitante subiu a prumo.

Rompeu o berreiro.

— Viva o balão! Viva Santos Dumont!

O Júlio, que nesse momento estilizava o décimo “tour” com sua “vis-à-vis” a Candoca, aproveitou a ensancha para poetar.

— O amor, dona Candoca, é como o balão: quanto mais rápido sobe, mais rápido desaparece.

— Adorável pensamento para um cartão-postal! — suspirou ingenuamente a menina, envolvendo-o num olhar de mel.

Nisto a fogueira desmoronou, golfando para o céu escuro bulcões de fagulhas vivíssimas.

— Bonito! Parece o Vesúvio!

— Sabe como Deus criou as estrelas? Mandou que os anjos cortassem grandes florestas e armassem enorme fogueira da altura do Himalaia. Acendeu-a e, quando tudo estava em brasa, despegou um pedaço do céu e arremessou-o contra ela. Ergueu-se então um repuxo imenso de faíscas, que foram subindo, foram subindo, até se grudarem na abóbada negra do firmamento...

— Lindo! Há de escrever isso no meu álbum, esse lindíssimo pensamento, sim? O que é ter alma de poeta...

E Candoca lambuzou-o de um novo olhar de mel, onde não se sabia o que mais babava, se o amor, se a admiração pelo esteta...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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