domingo, 28 de outubro de 2018

O cormorão e o eider (Conto infantil), de Monteiro Lobato



O cormorão e o eider

Havia uma disputa entre o cormorão e o êider...

— Antes de mais nada — pediu Narizinho — explique que bichos são esses.

— O cormorão é uma ave marinha que tem um saco debaixo do bico. Uma ave com fama de ser a mais glutona de todas. Por isso os homens de certas zonas utilizam-na para a pesca. Botam-lhe uma argola no pescoço, debaixo do tal saco, de modo que o cormorão pesque o peixe mas não possa engoli-lo. E o êider é um patão marinho dos países frios, famoso pela maciez de sua pluma; muito usada para travesseiros e acolchoados.

Bem. O cormorão e o êider andavam brigando justamente por causa da pluma. Cada qual queria ter o privilégio de produzi-la. Por fim combinaram uma coisa. Ficaria com o privilégio da pluma o que acordasse mais cedo e avisasse ao outro de que o sol estava nascendo.

Disposto a ganhar a partida custasse o que custasse, o cormorão resolveu passar a noite acordado. Já o êider tratou de dormir o mais cedo possível. Sono, porém é sono. Quando chega não há quem aguente, de modo que lá pela madrugada o cormorão estava de não poder mais consigo. Tinha de fazer esforços tremendos para conservar os olhos abertos.

De repente não pôde mais, cochilou — e teve um pesadelo, pondo-se a gritar: "O sol! O sol está nascendo!

A gritaria acordou o êider, que ficou a rir-se de ver o pobre cormorão naquela luta para resistir ao sono. Por mais que fizesse, o sono o ia vencendo. Afinal sua cabeça pendeu e ele dormiu duma vez.

Justamente nesse instante o sol começou a levantar-se.

— O sol! O sol! Lá vem vindo o sol! Ganhei! — gritou o êider. E teve de sacudir o cormorão para acordá-lo.

Desde então ficou o êider com o privilégio das plumas maciíssimas — tudo porque soube fazer as coisas.

***

— Está aí um ponto meio duvidoso — disse Pedrinho. — O êider não soube fazer nada — apenas dormiu. Teve sorte, isso sim.

— Espere, Pedrinho. Note que o cormorão, muito estupidamente, quis forçar a vitória, e a vitória não gosta de vir desse modo. Já o êider respeitou as leis da natureza, não forçou coisa nenhuma.

— Que lei?

— A lei do sono. A sabedoria do êider foi tratar de dormir o mais cedo possível. Era o meio de estar bem acordadinho à hora do nascer dó sol. O cormorão contrariou a lei do sono — e pá! levou na cabeça.

— Por falar em êider, vovó, não poderíamos criar essa ave aqui? — perguntou a menina. — Teríamos plumas para os nossos travesseiros — coisa muito, melhor que macela.

— Pois eu em vez de plumas de êider preferia papos de cormorão, para pescar de argola na lagoa — disse Emília.

— Impossível — respondeu dona Benta. — Essas aves não aguentariam o nosso clima. Muito quente para elas.

— Poderiam dormir na geladeira — lembrou Emília.

— Ei, ei, ei! — exclamou Narizinho. — Eu já andava admirada dum livro inteiro sem uma asneirinha só...

— E agora vovó? — indagou Pedrinho. — Que história vai contar?

— Creio que chega. Com tantas histórias assim, vocês apanham uma indigestão.

— Mais uma apenas, para fechar a série. Pedrinho pensou um bocado.

— Uma de onde?

— Uma do Rio de Janeiro, por exemplo — uma bem carioca.

Dona Benta olhou para o forno. Depois riu-se e contou "História dos dois ladrões".




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Notas:
Extraído da obra: Histórias de Tia Nastácia.
Transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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