quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O espião alemão (Conto), de Monteiro Lobato



O espião alemão

Abre a história. Escuta. Só ouvirás rumores de guerra. Aquele tropel desapoderado? É a avalanche tártara. Tamerlão, o tigre coxo, derrama sobre a Pérsia legiões de feras — e leva a chacina a proporções inauditas. Seu capricho exige em Ispahan setenta mil cabeças humanas. Cada seção do exército lhe há de fornecer uma quota. Fartos, cansados de cortá-las, os soldados entram a adquiri-las, pagando a moeda de ouro cada uma. Era bom negócio, a oferta cresceu e o preço baixou a meia moeda. Reunidas as setenta mil, Timur construiu torres de crânios em redor da cidade.

Ruge a sangueira além. É em Délhi. Timur, tigre precavido, antes de bater-se com Maomé IV, delibera aliviar o exército de cem mil prisioneiros incômodos. Solução magistral: degola-os... A vaga prossegue, chega a Ancira, esmaga Bajazet, o grande sultão, e passa...

E acolá? Assíria. De Nínive, antro de leões famintos, descem para a carniçaria os reis flecheiros. Assurbanípal canta os próprios feitos em inscrições chegadas até nós: “Construí um muro diante das portas da cidade e forrei-o com a pele dos chefes. A outros emparedei vivos, a outros empalei ao longo das muralhas. Fiz arrancar o couro, em minha presença, a inúmeros, e revesti paredes com esse couro semivivo. Reuni cabeças em forma de coroas e os corpos entrelacei como guirlandas”.

A vida da Assíria é toda uma primorosa carnificina. Tuklatabazar, Assurbanípal, Nabuco, Sargão — todos os magarefes reais viram a sua perícia em arrancar o couro a criaturas humanas cantada pelos poetas, comemorada pela arquitetura, admirada pelos pósteros.

Timur passou. Passou a Assíria.

Homens e coisas passam, mas a guerra fica.

É a guerra uma permanente. O homem tem a vocação do morticínio. A arte apoteosa a carniça. Os poetas só ascendem ao épico se o bafio de sangue lhes fumega a inspiração. A beleza suprema é Aquiles fendendo crânios do frontal à nuca, e a história da humanidade não passa dum sistema potamográfico de enxurros vermelhos, musicado pelos gemidos de dor dos vencidos.

A guerra sempre!

Sempre guerras!

A guerra dos Sete Chefes, a guerra de Troia, as guerras púnicas, as guerras de Roma — escravos, Numância, mercenários, Jugurta, Mitrídates, civil...

Depois, as guerras de invasão. As cruzadas depois. E as guerras de religião. E as guerras dinásticas. A dos Cem Anos, a dos Trinta Anos, a guerra das Duas Rosas, a da sucessão da Espanha. A guerra americana de secessão. As napoleônicas, a russo-turca, a hispano-americana, a sino-japonesa, a franco-prussiana, a anglo-bôer...

Depois, depois a Guerra Geral, a guerra do mundo contra a Alemanha.

O rosário para aqui. Mas como não para o Ódio e como a Estupidez Humana é irredutível, o futuro verá tantas guerras quantas viu o passado.

Os grandes condutores de povos: simples vontades de aço despidas de inteligência, incapazes doutra filosofia que não a das maxilas da hiena. Porque eles perpetuam a guerra, a humanidade os erige em semideuses. E com eles, poetas, pensadores, generais, a indústria, o comércio, a imprensa, todos, todos e tudo — fora as mães — zelam, como vestais, para que se não extinga o fogo sagrado do Ódio. Já para os deuses, de Júpiter a Jeová, era a vingança o prazer supremo. Se sabe assim a guerra a paladares divinos, que admira saber tanto ao macaco glabro que se classificou a si próprio Homo sapiens, ignorante de como o classificariam os cavalos?

Também nós temos tido por aqui nossas guerras. A grande, do Paraguai, onde chacinamos os selvagens do Chaco e as pequenas, internas — intestinais. Temos a Guerra dos Mascates, onde torceu o pé um reinol e, consta, se arranhou um nativo. Temos a do Alecrim e da Manjerona, que não arranhou ninguém. Mas a guerra grande, a guerra-guerra, a guerra de encher o olho a Marte e berrar por poetas que a botem em Ilíadas parnasianas com o retrato de Belona no frontispício, ah! temo-la em nossa guerra contra a Alemanha!

Essa nação formidável, Assíria encouraçada de aço, máquina monstruosa que apavorou o mundo, Golias de tremenda catadura temperado nas forjas de Krupp, viu saltar-lhe à frente um Davi de ivirapema em punho.

E o caso foi que mais uma vez Davi venceu o gigante!... Quem duvidar do milagre, leia O Lírio de Itaoca, semanário literário, recreativo e comercial, número extra, de oito páginas, comemorativo do Armistício. Diz ele:

Vencemos! O gigante jaz por terra, exangue. A esquadra dispersa, os exércitos rotos, a arrogância abatida — a invencível Alemanha dobra os joelhos e entrega-nos a espada sangrenta! Honra aos gloriosos estadistas que nos impulsaram à luta! Honra ao Exmo. Dr. Venceslau Brás Pereira Gomes, digníssimo Presidente da República, e honra, sobretudo, ao ínclito coronel José Pedro Teixeira Marcondes, honradíssimo presidente do diretório político de Itaoca e chefe honorário da heroica linha de tiro “Frei Gaspar da Madre de Deus”! Ave! Ave! Evoé!

É força que os novelistas fixem estes aspectos heroicos do país, já que descuram deles os Pombos e Capistranos sisudos.

A ação de Itaoca durante a guerra foi de fato notável; mas como Itaoca não passa de pobre lugarejo perdido no espinhaço da serra, sem bons correspondentes para os jornais do Rio, toda a sua agitação mavórtica permanecerá sem notícia se não lhe acode romanceador.

Itaoca tem, oficialmente, cinco mil habitantes — estatística feita a olho. O chefe da terra mandou carregar vinte por cento de “créscima” no cálculo do vigário, em virtude de velha rivalidade com Itapuca, cidade vizinha, onde o olhômetro municipal acusara quatro mil e quinhentas almas, afora as penadas. Itaoca não se abaixa! Já a sua filarmônica era a melhor, o jornal tinha mais estilo e o mercado mais verdura. Ficou mais populosa também, depois do patriótico recenseamento.

Itaoca é regida politicamente pelo coronel José Pedro, e intelectualmente pelo vigário, monsenhor Acácio da Silva, um homem que sabe tudo, até astronomia! Além deste luzeiro, há outras possantes candeias em Itaoca: o juiz, velho bacharel pelo Pedro II; o Leão Lobo, mulatinho disfarçado, emérito em versos, charadas, enigmas e logogrifos. Há ainda o Pimenta, secretário da Câmara; o major Ventania, veterano de Itararé, e outros, que leram o Rocambole a fio e assinam as folhas governistas.

Quando rebentou a guerra, grande foi a emoção de Itaoca. Sensação de estupor. Mas o coronel, expedito que era, sem vacilar um minuto convocou o diretório. Reunidos que foram os seus oito membros, o presidente expôs com palavras soleníssimas a gravidade do momento e pediu alvitres. Pimenta tomou a palavra e propôs ficasse o diretório em sessão permanente até o fim da guerra. Leão Lobo aventou a ideia dum Comitê de Salvação Pública, bem como a dum vereador sem pasta. Outros alvitres de primeiríssima foram lembrados, mas só logrou aprovação a ideia sensata do presidente: não fazerem coisa nenhuma antes de as outras municipalidades se manifestarem. Aguardariam os acontecimentos de olho ferrado nos jornais e no patriótico presidente da República, ao qual oficiaram no mais alevantado estilo. Quanto à sessão permanente, achavam isso uma grande maçada.

Assim se fez, e Itaoca, não podendo revelar gênio criador, portou-se durante a guerra como a mais direitinha das maria vai com as outras.

A primeira resultante da guerra valeu no país inteiro pelo incremento das linhas de tiro. Itaoca não ficou atrás — deitou também o seu tirozinho.

Que revolução no seu pacífico viver não foi aquilo! Veio instrutor de fora, e a coisa se fez “por música”, com duzentos homens de efetivo — no papel. Efetivos na realidade, apenas vinte. Os mais, homens de oitenta quilos, negociantes, fazendeiros, “gente grada”, constituíam o “enchimento”. Cooperavam com dinheiro e boa vontade, mas isso de exercícios, e ginástica, e tiro ao alvo — “coisas de meninada”.

Apesar de serem só vinte, os rapazes de perneiras e chapéu à americana transformaram Itaoca em praça de guerra e varreram do coração das meninas todos os rivais civis. Era de vê-los passar, garbosos, em marcha cadenciada, sob o corisco dos olhares lânguidos das Sinhazinhas e Mariquitas janeleiras. Da pobre ralé de paletó-saco e palheta salvou-se um ou outro, de rubi no dedo. Vênus sempre foi doidinha por Marte...

O armamento requisitado ao Ministério da Guerra para o Tiro “Frei Gaspar da Madre de Deus”, apesar de prometido, nunca chegou a Itaoca. Não obstante, exercitavam-se os voluntários com uma carabina Flaubert do Pimenta. Aos sábados, na sede da linha, compareciam os vinte heroicos atiradores e cada um dava o seu tirozinho na lata de banha posta como alvo a vinte metros de distância. A munição, porém, encareceu. As balas chegaram ao preço de cem réis por cabeça. Era um desperdício gastarem-se vinte cada semana para transformar lata velha em crivo. Daí a grande ideia do major Ventania, comandante superior do “Frei Gaspar”. Ponderou ele: alvo por alvo, tanto faz uma lata como um passarinho; ora, mirando passarinho, o atirador exercita-se da mesma maneira e sempre apanha um ou outro, com proveito duplo — do treino e do jantar. Sendo assim, não será mais lógico aproveitarem-se as vinte balas semanais no pomar, em caçada às rolinhas, sabiás e sanhaços? Sensata que era a ideia, foi logo posta em prática, e o exercício de tiro ficou reorganizado deste modo: cada domingo a Flaubert e vinte balas eram entregues a dois voluntários para que caçassem onde quisessem, sob a condição de repartirem a caça abatida com Ventania, pai da ideia-mãe e muito guloso de arroz com passarinho. O major emitiu ainda um conselho de alta estratégia culinária.

— Deem preferência às rolinhas: são mais carnudas que os sanhaços. Quanto aos sabiás, não me parece patriótico atirar nos rouxinóis de Gonçalves Dias — além de que a carne não vale nada...

Este mirífico sistema deu resultado tríplice: desbaste nas laranjas e passarinhos pomareiros, muita precisão nos tiros dos rapazes e engorda do major.

Apurado o seu aparelho de defesa, Itaoca dormiu sossegada, à espera do inimigo. Viessem os bárbaros germânicos e cairiam ceifados como rolinhas.

Não foram tolos. Não vieram. Não veio um ulano sequer. Mas que a Alemanha pôs o seu olho de águia em Itaoca, disso não resta a menor dúvida. Aqui muito em segredo o confessamos hoje: andaram espiões por lá!

— ???!!!!

Sim, espiões, e dos piores. Andaram rondando a cidade, tomando plantas, tirando desenhos... Agora que se acabou a guerra, é permitido confessar o fato. Antes, não; por isso foi o segredo religiosamente oculto pelas autoridades locais, por Leão Lobo e até pelas mulheres, tão palreiras.

Nobilíssimo povo de Itaoca! Quantos males não poupou ao país a tua severa discrição!...

Foi assim o caso. Leão Lobo saía da ximbica do costume na casa do Pimenta, às onze da noite, quando, no largo da matriz, cruzou com um vulto desconhecido, ruivo de cabelos, maltrapilho, ar suspeitíssimo e trouxa mais suspeita ainda sobraçada. Um profético relâmpago lucilou-lhe no cérebro: “Espião!”. Sobresteve a alma aos pinotes, meditou três segundos e, como flecha do patriotismo despedida do arco da salvação pública, voou à casa do coronel José Pedro, já na paz dos lençóis àquela hora. Leão Lobo bateu na vidraça freneticamente, três, quatro, cinco vezes. O coronel apareceu de chambre, gorro de lã e vela na mão — assustadíssimo.

— Que é lá?

— Espiões na terra, coronel!...

O pobre homem, mal acordado, estremeceu da base ao topo num dos maiores abalos sísmicos de sua vida. Engasgou. Tartamudeou. E ao termo de uns segundos de tonteira pôde apenas murmurar em voz débil um imperceptível — “Entre!”. A porta abriu-se e Leão Lobo entrou.

— Com que então, espiões?... — disse o coronel, de olho arregalado.

— E dos piores! Daqueles, coronel!...

A entonação do “daqueles” foi tão impressionadora que José Pedro se encostou à parede para conservar o aprumo coronelício.

A situação era de tal modo imprevista que o chefe não sabia o que fazer.

Salvou-o Leão Lobo, afeito a lidar com charadas e logogrifos dos mais crespos.

— Coragem, coronel! O momento não é para vacilações. Proponho que se desperte Ventania, que se mobilize o “Frei Gaspar”, mais o destacamento policial, e que se monte guarda rigorosa às saídas da cidade durante o resto da noite. Amanhã, engaiola-se o melro!

— Bem ponderado! — exclamou o chefe, já mais seguro de si. — Vá você mesmo avisar os homens, enquanto eu...

Leão Lobo, sem esperar o fim, saiu aos pinotes, enquanto o coronel... enquanto o coronel voltava para a cama bastante apreensivo.

— A gente tão “sossegado” aqui e aquele peste do Kaiser... — murmurou ele ao deitar-se.

— Que foi? — indagou a mulher num bocejo.

— Espiões na terra, Candoca! Raios de espiões!

— O que me admira é vocês andarem pela cabeça daquele bodinho...

E, virando-se para o canto, adormeceu.

Leão Lobo acordou Ventania e o delegado. Horas depois o destacamento policial — um cabo e dois praças — mais o Tiro inteiro estavam em pé de guerra, com grande pavor de várias damas despenteadas que à janela, em camisa, punham as mãos, invocando as várias Nossas Senhoras adequadas ao lance — que aquilo era por certo o fim do mundo.

Nenhum luar no céu, e como os lampiões já de semanas não se acendessem por precaução contra os zepelins mortíferos, o escuro era de breu. Mesmo assim às apalpadelas as forças mobilizadas agiram com tal estratégia que “três horas” após o rebate todas as saídas de Itaoca estavam hermeticamente sentineladas. Numa delas ficou metade do “Frei Gaspar” com a Flaubert à frente. A outra metade conseguiu munir-se de uma velha garrucha de dois canos, carregada de chumbo paula-sousa.

A senha era impiedosa: não deixar passar vivalma loura ou ruiva; em caso de resistência, fogo de barragem!

Não passou ninguém, afora o Vinagre, cachorro veadeiro do Pimenta, o qual, como o seu dono, tinha incoercíveis hábitos noturnos.

Amanheceu, enfim.

Quando o astro-rei, desdobrando as róseas gazes da aurora, espargiu sobre o orbe os seus primeiros raios — como esplendidamente disse mais tarde O Lírio, historiando os fatos —, o major Ventania e o delegado deram começo à rigorosa pesquisa.

Não foi preciso muito. O espião lá estava, espichado no trottoir da igreja, ronflando com a cabeça apoiada na valise suspeita. (Adivinha-se aqui o estilo do “Pall-Mall-Lírio”, seção evidentemente influenciada pelo mirífico José Antônio José da Gazeta de Notícias...)

O major Ventania não vacila: mete dois dedos na boca e produz um assobio agudíssimo.

Era o sinal. Acode logo o Tiro, mais o destacamento e a molecada, e solenemente, num sherlockiano nhoc! agarram, em nome da lei, o perigosíssimo agente do Kaiser.

Não há memória em Itaoca de lance mais repassado de dramaticidade. O patriotismo engasgava os pró-homens da terra, emudecendo-os de sagrada emoção. Naquele momento augusto salvava-se a Pátria querida!...

Dali seguiu para a cadeia o infame dolicocéfalo louro, e lá lhe montou guarda o Tiro. Ao detentor da Flaubert foi marcado o posto de maior responsabilidade, à porta do xadrez, com ordem de conservá-la engatilhada.

— Se o bicho tentar fugir, nada de molezas — ordenou o major. — Fogo nele — fogo de barragem!

Às dez estava tudo pronto para o interrogatório. Mas aqui surgiu imprevista dificuldade: o espião insistia em não falar língua de gente, e na terra, fora os membros da colônia alemã, ninguém pescava um ja da odiosa língua de Goethe. (A colônia alemã de Itaoca compunha-se do velho boticário Müller, estabelecido com farmácia havia sessenta anos, e uma sua criada nascida em Blumenau.)

— E agora? — indagou a autoridade, atarantada. — Só se convidarmos o Müller para intérprete.

Leão Lobo, com a sua clara visão de patriota exaltado, obtemperou incontinenti:

— Não! Não é possível! Müller, como germânico, é suspeito. Pode alterar as respostas do agente. Proponho para “língua” o monsenhor Acácio. Há de saber alemão. Que é que ele não sabe? Até astronomia...

Era verdade. Monsenhor Acácio sabia tudo, dissertava de omni re scibili, e em línguas vivas e mortas ganhava até de d. Pedro II, que sabia catorze.

Veio o padre. Solenemente, por meia hora, bateu língua com o espião, sob o olhar aparvalhado dos assistentes. Por fim:

— O alemão deste homem — concluiu ele sentenciosamente — é o alemão turíngio da baixa germanidade valona da Silésia hanoveriana. Ininteligível, portanto, a quem, como eu, só conhece o alemão gramatical da alta germanidade dos Goethes, dos Lessings, dos Bergsons, dos Schneider-Canets.

Leão Lobo, entusiasmado, cochichou para Ventania. “Eu não disse? Ele é um bicho!”

Do pouco que o espião dissera, uma frase, por muito repetida, gravou-se na memória dos itaoquenses: ai éme inglix. Leão Lobo, afeito a lidar com os mais embaraçantes enigmas, tentou decifrar a misteriosa frase por meio dos processos charadísticos. Ai éme inglix: Ai, uma; éme, uma; inglix, duas. Conceito? Engasgava no conceito. Estava nisso, quando o padre cortou o nó górdio.

Ai éme inglix — disse ele enrugando a testa — quer dizer, se me não falham as analogias glotológicas — “estou com fome”. E é natural. Já bateu meio-dia. Deem-lhe, pois, almoço, e a mim licença para retirar-me, pois que estou de hora passada.

E, pondo na cabeça o chapéu felpudo, saiu solene e sábio como a própria Minerva de batina e coroa.

Leão Lobo namorou-o até certa distância, com o olhar úmido de ternura.

— É um baita o nosso monsenhor!... Pena viver neste fim de mundo. Se “atuasse” no Rio, hein? Que figurão!...

Na impossibilidade de arrancar ao espião palavra inteligível, resolveram enviá-lo à capital, de presente ao chefe de polícia. Iria escoltado por quatro voluntários, tirados à sorte.

Assim se fez, e no dia solene da partida houve choradeira de mulheres e um discurso de bota-fora.

— Ide-vos — disse o orador oficial —, a Pátria exige de vós esse sacrifício. Não ocultamos os perigos que correis. Este facínora poderá ser membro duma quadrilha de sicários emboscados à beira da estrada. Podeis ser chacinados em massa, atacados a gases lacrimogêneos, picotados pelas metralhadoras. Não importa! Ide-vos! A Pátria exige o vosso sangue! Se cairdes, tereis como recompensa a nossa gratidão eterna!

— E o nome numa rua! — aparteou o presidente da Câmara.

Bravos em atoarda abafaram as palavras do orador. Bem merecidos! Partiram, afinal, os jovens heróis e nunca se viu maior resignação ao sacrifício. Malbaratavam a vida como bravos de raça que eram, com antepassados na guerra do Alecrim e da Manjerona e outras.

Itaoca distava duas léguas da via férrea e quarenta da capital. Os rapazes da escolta, apesar do quadro horrível que o orador desenhara, arreceavam-se menos das emboscadas do inimigo, perigo problemático, do que da viagem pela via férrea Central do Brasil, vezeira em descarrilamentos, choques, telescopagens etc. Razão por que só empalideceram quando na estação ouviram o apito do trem mortífero. Antes do embarque remeteram para Itaoca um despacho conciso mas eloquente: “Chegamos. O espião sempre na unha. Viva a República!”.

Quando o Zé Burro, preto recadeiro que fazia carretos a pé a mil-réis por légua, entregou o zeburrograma ao major Ventania, o prefeito municipal comemorou a auspiciosa notícia mandando soltar uma dúzia de foguetes — pela verba “socorros públicos”.

Nesse mesmo dia um grupo de exaltados promoveu imponente manifestação patriótica. Falou na praça Sete de Setembro, com patética eloquência, o ínclito Leão Lobo, produzindo a mais veemente oração da sua vida.

— Ali, senhores — disse a apontar com dedo enérgico o trottoir doravante histórico —, esteve deitado, fingindo que dormia, mas de fato espiando, um dos mais perigosos agentes da espionagem alemã. O celerado não confessou. Mas havia de confessar? Havia de denunciar os tenebrosos planos do anticristo moderno, esse Kaiser assassino que está assassinando o mundo?

“A situação é gravíssima, senhores! Itaoca está sobre um vulcão! Minada de todos os lados, a vida das nossas famílias, a honra das nossas esposas, as mãozinhas das nossas crianças (sensação) correm o maior dos riscos! Lembrai-vos da Bélgica, essa heroica crucificada na cruz de ferro do monstro kruppeano (sensação)! Senhores! Um desagravo se impõe. Precisamos manifestar a nossa repulsa perante a colônia alemã que, como víbora, alimentamos em nosso seio.

Viva a França! Viva o excelentíssimo doutor Venceslau Brás Pereira Gomes, nosso impertérrito presidente!”

Foi um delírio. Estrepitaram palmas, de envolta com imprecações de vingança contra a colônia alemã — o boticário e sua criada.

— Abaixo o Müller! Morra a Gretche!

A onda popular, arrastada pelos impulsos do mais nobre civismo, despejou-se, como avalanche, para os lados da velha botica. Leão Lobo à frente, com o patriotismo a cem graus centígrados, desfechava vivas e morras truculentos. Viveu Clemenceau, Joffre, Foch; morreu Hindenburg, Mackensen e Enver-Pachá.

Os gavroches (está n’O Lírio) iam pelo caminho juntando pedras para o bombardeio da colônia. Defrontados que foram com a odiosa farmácia, nela choveram projéteis, entre apupos e assobios. Não ficou vidraça intacta. Um obus, penetrando na prateleira das drogas, quebrou ali o vidro de sal-amargo. Também a ipeca e a tintura de iodo foram seriamente maltratadas. Mas a colônia alemã não deu mostras de si. Nem Müller, nem a criada tiveram a coragem de mostrar a ponta do nariz.

Covardes!

Os patriotas, cansados de apedrejar e desafiar, arrancaram a placa da botica e levaram-na à guisa de troféu para a redação d’O Lírio, onde beberam várias garrafas de champanha (soda), sempre pela verba “socorros públicos”.

Na noite desse dia a esposa do coronel José Pedro teve uma violentíssima cólica intestinal. Receitaram-lhe sal-amargo. Correu à botica uma negrinha, que voltou de mãos abanando.

— Seu Müller manda dizer que não tem; que os patriotas quebraram o vidro; que se serve sal de azedas, que tem.

A pobre da dona Candoca estorceu-se e...

— É isto! — exclamou. — Aquele bodinho faz das suas e quem paga o pato à a pobre de mim. Ai, ai!...

— Mulher! — interveio o marido. — A Pátria acima de tudo!

— Vocês são uns...

O cronista não ouviu o qualificativo de dona Candoca, mas a avaliar pela cara do marido, foi forte. O homem passou embezerrado o resto do dia.

À noite chegou telegrama do chefe de polícia: “Verificamos prisioneiro súdito inglês. Receios complicação diplomática. Guardem reserva grotesco incidente”.

O coronel José Pedro, desapontadíssimo, esteve meia hora com o papelucho na mão, meditando. Depois reuniu os paredros e disse:

— Recebi telegrama confidencial do chefe de polícia. O caso é mais grave do que supus. Sou obrigado a guardar reserva. Altos segredos de Estado, vocês compreendem...

Apatetamento geral. Cada um comentou a seu modo o caso, e Leão Lobo, incontinenti, recorreu ao método charadístico: Telegrama, reserva, segredo de Estado... Conceito? Engasgou no conceito. Era a segunda vez na semana que por falta de conceito perdia uma charada.

Assim permaneceram até a volta dos heroicos expedicionários.

Que bela festa, a recepção! Foi a banda esperá-los à boca da cidade, e com ela os patriotas, o Tiro, as moças. Mal os avistaram, romperam em vivas. A banda malhou o hino. Depois, a accolade (Lírio). Mariquinha Fagundes ofereceu a cada qual sua coroa de louros, feita de folhas de jabuticaba. Ela mesma enfiou-as na Flaubert de um, na garrucha de outro e nos guatambus chumbados dos restantes. Itaoca sabia ser grata aos seus heróis.

E a coisa não ficou nisso, note-se. Na primeira sessão da Câmara foi proposta a cunhagem duma medalha comemorativa, tendo no verso um cambito de perneira esmagando víboras e no anverso um lindo dístico em latim. É verdade que este projeto caiu. Mas vingou outro mais econômico: dar a quatro ruas o nome dos quatro heróis. Destarte, e com muita justiça, pois não, as antigas ruas General Osório, Duque de Caxias, Regente Feijó e Rio Branco passaram a denominar-se, respectivamente, rua Tenente Teixeira, rua Aristeu da Silva, rua José Joaquim de Souza e rua Aristogiton Pereira.

Mas Leão Lobo, o infatigável patriota, não está satisfeito. Entre uma charada e outra, perde-se em meditabundos devaneios. Como ainda não se abriu com os amigos, ninguém sabe qual é a grande ideia que lá lhe fulgura sob a gaforinha.

Mas há meios de devassar o pensamento secreto dos homens generosos que pronunciam cem vezes ao dia a palavra pátria com P maiúsculo. Ele — nobilíssima criatura! — está amadurecendo a ideia de pedir a Clemenceau a fita da Legião de Honra para a lapela da mui leal e invicta Itaoca.

E vão ver que Clemenceau acaba por fazer-lhe a vontade, dando ainda a ele, Leão Lobo, de lambuja, a comenda do Mérite Agricole.

Merecedíssima, aliás, pois não!


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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