quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Duas cavalgaduras (Conto), de Monteiro Lobato



Duas cavalgaduras

Um grande amigo dos livros, o estudante Batista de Ribeiro Couto.

Na sua dolorosa miséria de rapaz pobre, solto sem padrinhos na voragem carioca, desses bons amigos se socorria para desafogo da alma crestada ao vento das decepções. Falhava-lhe o sonhado emprego? Abria Dom Casmurro e logo a malícia de Capitu empolgava, levando-o para casos bem distantes do seu dorido caso pessoal. Traía-o algum amigo? O moço embarcava para Florença no Lys Rouge, hospedava-se com Miss Bell e, de visita às igrejas com Dechartre, ei-lo embriagado no ardente amor da condessa.

O estômago, porém, é Sancho. Não digere contemplações. Exige pão. E a fome, um dia, apresentou ao estudante o seu inexorável ultimatum: Mata-me ou mato-te.

Um só recurso lhe restava: reduzir a pão duro os seus amados livros.

Fê-lo, mas com que mágoa! Como vacilou na escolha da primeira vítima! E como lhe doeu o sórdido negocismo do belchior, miserável depreciador da “mercadoria” com o fito de obtê-la pelo mínimo!

Era este belchior certo judeu mulato com um sebo à rua do Catete. Mulato de barbicha irônica, própria para coçadelas nos momentos de engatilhar o preço. Tinha um jeito irritante de tomar os livros e ler o título por baixo dos óculos, como se os cheirasse. Tipo desagradável de múmia ressurreta, em perfeita harmonia com a sordidez da casa.

Que vitrina! Já ali se lhe anunciava a alma. Livros encardidos, brochuras de cantos surrados, canetas de vintém, lápis “quebra a ponta”, tinteiros de refugo — tudo desbotado pelo sol e tamisado pela horrível poeira negra da rua. Dentro, um cheiro de velhice, misto de mofo e ranço — bafo proveniente metade da múmia, metade das estantes prenhes de brochuras infectas.

Pois foi nas garras de tal aranha barbada que o pobre contemplativo caiu, e um a um lhe sorvia ela todos os volumes da amada biblioteca, sempre a ratinhar, a rosnar, a espichar níqueis para o que valia notas.

Uma vez recebeu o moço más notícias de casa e instante pedido de uma linda irmãzinha que deixara em Catalão. Era forçoso servi-la, inda que houvesse de vender a alma ao diabo.

O jeito era um só: negociar em bloco os livros restantes. Que vá, que vá!

Uma grande dor única é de preferir-se a mil dorezinhas parceladas. Que vá tudo!

Contou-os. Trezentos. Pelo preço médio que o judeu lhe pagava por unidade, obteria com aquele sacrifício os duzentos mil-réis necessários e mais uns bicos. Que vá.

Batista retesou-se de alma, amordaçou o coração, meteu na carroça os velhos amigos e, como vai para a guilhotina o condenado, foi com eles para a rua do Catete.

O judeu examinou os volumes um por um, cheirou-os, sopesou-os e depois de longas manobras, engasgos, meias palavras e coçadelas da barbicha, abriu a oferta.

— Dou-lhe quarenta mil-réis, moço, por ser para o senhor. E lamba as unhas, hein?

Tomado de súbita onda de cólera homicida, o estudante não lambeu as unhas: lambeu-lhe a vida. Estrangulou-o...

Havia eu lido esse formoso conto e ficara com os tipos gravados em relevo na memória, tanta nitidez dera à pintura o autor. O judeu mulato, sobretudo, passara a viver dentro de mim em lugar de honra na “sala de Harpagão”.

Somos todos nós uns museus de tipos apanhados na rua ou colhidos na literatura. Museus classificados, com salas disto e daquilo. A minha sala dos usurários encerrava bom número de Shy lockzinhos modernos, fisgados à porta de cartórios ou diretamente nos antros onde costumam empoleirar-se como harpias pacientes à espera dos náufragos da vida. Ombro a ombro conviviam eles com os patriarcas do clã — mestre Harpagão, tio Grandet e o João Antunes, de Camilo Castelo Branco.

Lida a novela de Couto, entrou para a sala mais um — o judeu mulato do Catete, tipo de tal vida que uma suspeita breve me tomou: “Este diabo existe. Não pode ser ficção. Há nele traços que se não inventam. E se existe, hei de vê-lo”.

E pus-me a procurá-lo em certo dia de folga.

Fui feliz. Logo adiante do palácio do Catete certa vitrina atraiu-me a atenção. Acerquei-me dela com cara de Colombo. Aqueles livros desbotados, aquelas canetas... Tudo exato!

Mas... e aquele coelhinho?...

Sim, havia a mais, na sórdida vitrina, um coelhinho de lã do tamanho de um punho fechado. Encardido, os olhos de louça já bambos, as longas orelhas roídas, visivelmente brinquedo já muito brincado.

Aquele coelhinho!

Uma criança existe de quem o usurário comprou o coelhinho...

Meu Deus! Poderá haver em corpo humano almas assim?

Shakespeare, Balzac: que fraca imaginação a vossa! Criastes Shy lock,

Grandet, mas a potência do vosso gênio não previu este caso extremo. O judeu mulato reabilita os vossos heróis e atinge a suprema expressão do sórdido.

Furtou o coelhinho à criança...

Furtou-o com a gazua dum níquel...

Privou a pobrezinha do seu único brinquedo, do seu único amigo, talvez...

Abra-se um parêntesis.

Aqui intervém a imaginação.

Bastou que meus olhos vissem na sórdida vitrina o coelhinho de lã para que a irrequieta rainha Mab me viesse cabriolar na cachola.

E todo um drama infantil se me antolhou, nitidamente.

Era um menino de poucos anos, filho de pais miseráveis.

O homem bebia e a mãe definhava nas unhas “da pertinaz moléstia”. Minto: da tísica. “Pertinaz moléstia” é a tísica dos ricos...

O clássico operário bêbado, em suma, e a clássica mãe tuberculosa. É sempre assim nos romances e é sempre assim na vida, essa impiedosa plagiária dos romances.

Reina a miséria na cafua úmida em que vivem, ele a delirar o seu eterno delírio alcoólico, ela a tossir os pulmões cavernosos — e a triste criança, sempre de olhos assustados, a criar-se um mundinho de sonhos para refúgio da almazinha que teima em ser alma.

Só tem um amigo essa criança: o coelhinho de lã que a mãe lhe deu em certo dia de doença grave.

Excelente quinino! A febre cedeu incontinenti e dois dias depois o enfermo se punha de pé.

Desde aí ficou sendo o coelhinho o amigo único da criança triste, seu confidente de todas as horas, seu irmãozinho mais novo.

Conversavam o dia inteiro, brincavam, contavam-se mutuamente lindas histórias; e à noite, muito abraçados, dormiam o sono dos anjos e dos coelhos.

Aquele coelhinho de lã...

É preciso ser Dickens para compreender o papel dos brinquedos únicos na vida das crianças miseráveis.

O comum dos homens não vê nisso coisa nenhuma. Triste coisa, o comum dos homens...

Um dia, o pai desapareceu.

Inutilmente a tísica o esperou até altas horas, e o esperou no dia seguinte, e o esperou a semana inteira.

Desapareceu, e está dito tudo.

Na vida os miseráveis desaparecem, tal qual nos romances.

Vida, romance; romance, vida: será tudo um?

A tísica piorou, e certa manhã não pôde erguer-se da cama.

E a fome veio.

E foi mister vender, hoje isto, amanhã aquilo, todos os trapos e cacos da mansarda em crise.

A mansarda! Que lindo efeito faz em romance esta palavra lúgubre! A man-sar-da!...

Vendeu-se tudo.

Luizinho era o leva e traz.

Levava o trapo, o caco, e trazia os níqueis do pão. E assim até que as reservas se esgotaram e a mansarda ficou nua como Jó.

— E agora?

A tísica lançou os olhos cansados pelas paredes nuas, pelos cantos nus.

Nada. Só viu o coelhinho. Mas era um crime sacrificar o coelhinho de lã...

Resistiu ainda algum tempo.

Por fim, disse:

— Vai, meu filho, vai vender o coelhinho de lã...

A criança relutou, mas cedeu ao cabo de muitas lágrimas. A fome impunha-lhe aquele sacrifício: trocar o seu tesouro por um pão.

O que chorou nessa manhã!

Como apertava contra o peito o amiguinho, sem ânimo de notificá-lo da tragédia iminente!

Resolveu mentir.

— Sabe? — disse ao coelho. — Vou pôr você numa casa que tem vitrina para a rua. Fica lá sentadinho a ver quem passa, os bondes, os automóveis tão bonitos! E eu vou todos os dias espiar você através do vidro. Quer?

O coelhinho não compreendeu aquilo e desconfiou.

— Mas por quê? Estou tão bem aqui...

Não era fácil iludi-lo; a fome, porém, é capciosa e Luizinho continuou a mentir:

— É cá uma coisa que sei. Uma pândega! Por enquanto é segredo. Fica você lá quietinho uns tempos, depois volta para cá de novo e eu conto a história.
O coelhinho de lã piscou para o menino, cavorteiramente. Gostava desses mistérios...

Luizinho levou-o ao belchior. Mostrou-o ao judeu; ofereceu-lho. O aranho tomou o coelhinho entre os dedos rapinantes, examinou-o, apalpou-o, cheirou-o e abrindo a gaveta suja tirou de dentro o menor níquel.

— Toma!

Luizinho ressentiu-se. Já conhecia o valor do dinheiro; achou aquilo “pouco demais”. Vendo, porém, pela cara do judeu que era inútil insistir, pegou do níquel, beijou o coelhinho e disparou a correr.

No dia seguinte reapareceu no Catete. Parou diante da vitrina e longo tempo esteve a namorar o amigo, trocando com ele sinais de inteligência. O coelhinho piscava-lhe com uma vontade doida de rir e ele piscava para o coelhinho com uma vontade doida de chorar. E assim todos os dias, a semana inteira.

— A semana inteira, senhor novelista? Não estou compreendendo nada. Vosmecê disse que o último recurso dos famintos fora o coelhinho de lã, que trocaram por um pão. Ora, comido o pão, e nada mais havendo para vender, manda a lógica que mãe e filho tenham morrido de fome.

— Obrigado, senhor lógico! Vejo que leu Stuart Mill e Bain, mas que nunca leu Dickens, nem Escrich, nem Montepin. Devia ser como dizes, se a vida fosse feita pelos lógicos. Mas Deus não era lógico, era apenas romancista. Não morreram, não, nem mãe nem filho. E não morreram porque justamente naquele dia o pai bêbado reapareceu...

— Oh!...

— Sim, meu Bain, reapareceu. E sabe que mais? Reapareceu regenerado...

— Oh! Oh!...

—... e com dinheiro no bolso. Quer mais? E rico! Quer mais? E milionário, com a sorte grande da Espanha no papo. Quer mais? Quer mais? Nos romances há o epílogo e não sabe que o epílogo é o esparadrapo que une os bordos da ferida? o dedo de Deus que recompensa? o suspiro de consolo que nos reconcilia com a vida?

— Mas isto, afinal de contas, é vida ou romance?

— Grande tolo... É a vida com a lição da arte. A arte corrige a vida, dizendo-lhe: se não és assim, megera, devias sê-lo; se não procedeste assim, harpia, devias ter procedido; se não fizeste o bêbado reaparecer no momento oportuno, carcaça, devias tê-lo feito. A arte ensina à vida o seu dever.

Imagina tu, amigo lógico, que quando Deus criou o mundo...”

Feche-se o parêntesis.

Mas acordei. A rainha Mab fugiu-me do cérebro a galope em sua carruagenzinha made by the joiner squirrel, e entrei no belchior.

Lá estava no balcão o judeu mulato com sua barbicha de bode, os óculos de latão, o gorro sebento.

Não morrera, o aranho; apesar de estrangulado na novela de Ribeiro Couto, passava muito bem de saúde, o infame.

Era ele mesmo!

Naquele momento cheirava o lombo de um livro que um novo estudante Batista lhe oferecera.

Enquanto negociavam, pus-me à espreita disfarçadamente.

Exatinho! Couto fotografara-o com objetiva Zeiss. Até a voz...

— Hum! Hum! — fungou ele depois de lido o título. — Oscar Wilde... Isto não se vende, já passou da moda. Tenho carradas de Dorian Gray... A pior coisa que ele escreveu...

— Mas quanto oferece? — indagou o estudante, aborrecido de tantas micagens.

— Por ser freguês, pago sete tostões. E lamba as unhas, que hoje me pegou de veia!

O meu estudante Batista não fez como o de Ribeiro Couto. Não lhe lambeu a vida. Lambeu-lhe os sete níqueis oferecidos e saiu a pegar o bonde, displicentemente.

— E o senhor, que deseja? — disse-me então o pirata, depois de encafuar o livro na estante.

Eu não desejava coisa nenhuma, além de vê-lo, apalpá-lo, cheirá-lo, talvez estrangulá-lo de verdade. Não obstante, fiz-me de tolo.

— Ando à procura de um livro. Um livro de Wilde. Tem aí qualquer coisa deste escritor?

A fisionomia do estrangulado iluminou-se.

— Tenho a melhor coisa que Wilde escreveu, O retrato de Dorian Gray, conhece? — disse, puxando fora da estante o volume adquirido momentos antes.

— Coisa papa-fina!

Tomei o livro, folheei-o. Edição francesa vulgar. Valeria, novo, quatro mil-réis.

— Quanto pede?

— Seis mil-réis, por ser para o amiguinho.

Sorri-me por dentro e por fora. Larguei o volume e acendi o cigarro.

— Não me interessa. É caro.

— Caro? Um livro destes, nesta encadernação, deste editor, deste autor? Nem me diga isso! E o senhor deve saber que Dorian Gray é a obra-prima de Oscar Wilde.

Meus dedos se crisparam. Que prazer estrangular aquela harpia! Contive-me, porém.

— E aquele coelhinho? — perguntei-lhe. — Quanto?

— Que coelhinho? — exclamou o aranho, mudando de cara.

— Um que está na vitrina.

— Ah, sim... Aquele coelhinho não vendo.

— Por que o expõe, então?

— Expu-lo ao sol. Mora aqui na minha mesa, mas como a casa é úmida ponho-o às vezes lá para evitar o bolor.

Diabo! O homem principiava a desnortear-me. Tinha em casa um objeto que não vendia. Era lá possível que um judeu daqueles não vendesse até a alma?

Insisti:

— Dou-lhe cinco mil-réis pelo coelhinho.

— Já lhe disse que não é de venda. Cinco mil-réis! Nem cinco contos, sabe? Revoltei-me. Veio-me à imaginação toda a tragédia do Luizinho e tive ímpetos de insultá-lo.

Contive-me e disse apenas:

— No entanto, furtou-o a uma pobre criança miserável...

O meu Shy lock abriu a mais expressiva cara de espanto que já topei na vida. Depois encarou-me a fito e seus olhos lacrimejaram. Sentou-se, como aniquilado de súbita dor e explicou-me, em voz entrecortada:

— Não sou casado, não tenho filhos, não tenho ninguém no mundo. Mas tive uma criança. Enjeitaram-na aqui à minha porta e recolhi-a. Criei-a. Durante sete anos constituiu a minha única alegria. O Antoninho... Um dia veio a gripe e levou-o para o céu. Seu último brinquedo foi esse coelhinho de lã. Conservo-o aqui na minha mesa como joia preciosa, pois me fala do Antoninho melhor que um livro aberto. Como quer que o venda? Não há no mundo o que para mim valha esse coelhinho...

Foi à vitrina e recolheu o brinquedo. Pô-lo sobre a mesa ao lado do tinteiro. E depois de uma pausa exclamou, olhando-o com um sorriso que me pareceu divino:

— Tinha um nome. O Antoninho só dizia “o Labi”...

— ?

— Sim, Rabi... Quer dizer rabicó, sem cauda. O Antoninho trocava o r pelo l.

Saí da casa do judeu completamente desorientado. Fui ao telégrafo e expedi ao autor de O crime do estudante Batista o seguinte despacho: “Couto, somos duas cavalgaduras!”.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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