quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Tragédia dum capão de pintos (Conto), de Monteiro Lobato



Tragédia dum capão de pintos

Nasceram na mesma semana um pinto, um peruzinho e um marreco. Até aqui, nada. Todos os dias vêm ao mundo marrecos, perus e pintos sem que isso ponha comichões na pena dos novelistas. O estranho do caso foi que nasceram irmãos, contra todos os preceitos biológicos.

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Explica-se. Tio Pio, preto cambaio que tomava conta do terreiro, tivera a ideia de reunir sob certa galinha, em choco sobre apenas cinco ovos, mais três de perua e dois de marreca salvos de ninhadas infelizes, conseguindo assim dar vida àquela estranha irmandade de nova espécie.

Dos nove ovos só vingaram três, e lá estavam os produtos já crescidotes sob à guarda solícita do Peva-de-raça, capão de pintos posto a pajeá-los para que dona galinha não perdesse tempo com tão pífia ninhada.

Triste sorte na fazenda a dos galos cotós de pernas! Tio Pio os punha de parte para capões de pintos, transformando os belicosos “clarins da aurora” em tristes eunucos, bichos metade galo, metade galinha, senhores de crista, espora e cauda flamante não mais destinadas a seduzir frangas, senão a divertir pintinhos.

Peva-de-raça tinha este nome pelas razões que o nome indica. Mas vá lição para os leitores da cidade, gente que de galos e galinhas só conhece os da torre das igrejas e as que aparecem ao jantar em molho pardo. Peva: perna curta; de raça: raça estrangeira.

— A mó que Plimu — explicava Pio aos interpelantes.

Excelente sujeito o Peva! Tomara os órfãos no primeiro dia sem nenhuma relutância e dera com eles criados à custa de infinitos de pachorra.

Muitos dissabores sofreu. O marrequinho, sobretudo, causou-lhe sérios aborrecimentos.

Havia na fazenda um tanque bordado de taboas esbeltas, rico de traíras e


sapinhos de cauda. Esse tanque era a mania do lindo pompom de arminho amarelo. Quantas vezes não ficou o Peva à beira d’água seguindo de olhos aflitos as evoluções do mimoso palmípede, que nela penetrava e nadava, e mergulhava com louca afoiteza, inconcebível para o velho capão!

Já os outros não o afligiam tanto. Divertiam-no até. O capão gostava de ver o peruzinho em caça às moscas. Magricela e tonto, como sabia marcar a presa, achegar-se com extrema lentidão e de repente — zás! — uma bicada certeira!

É pinto, esse era mestre em travessuras. Subia-lhe às costas, tenteando-se nas asinhas, e trepava-lhe pelo pescoço até alcançar a crista, cujas carúnculas bicava.

Era muito cauteloso, o Peva. Se vinha chuva, punha-se logo de agacho para abrigo dos guris — de dois apenas, que o terceiro, o marreco, nenhum caso d’água fazia, antes pelava-se por chuva, só recolhendo ao sentir-se entanguido.

E era muito metódico, o Peva. Mal a tarde fechava a carranca anunciativa da noite, lá ia ele de rumo ao terreiro aninhar-se rente ao muro, sempre no mesmo lugar. Escarrapachava-se ali ao jeito das galinhas e esperava que os órfãos, depois dumas derradeiras voltas por perto, viessem chegando e se metessem dentro da plumosa casa viva.

Entrava primeiro o peru, um friorento de marca; depois o pinto; o marreco por último.

E o Peva cochilava, transfeito em esquisito animal de quatro cabeças: a sua, grande, cristuda, e mais três cabecinhas curiosas, que abriam seteiras na plumagem e espiavam o mistério do mundo a envolver-se nas sombras da noite.

Aquela singularidade deu nome e renome aos três bichinhos. Quantos pintos, perus e marrecos houvesse na fazenda eram todos conhecidos por pinto, peru e marreco, genericamente. Só eles se personalizavam. Eram o Pinto Sura, o Peruzinho do Capão e o Reco-Reco. Seres privilegiados, libertos da disciplina comum do galinheiro, tornaram-se logo as criaturinhas mais populares daquele pequeno mundo. Viviam soltos sem lei nem grei, como boêmios errantes encontradiços por toda parte — nos chiqueiros, nos pastos, ao pé das tulhas, à porta das cozinhas, onde quer que aparecesse fartura de milho, siriris e quireras.

Havia na fazenda outros animais populares. Havia a Ruça, mulinha de carroça, bastante velha e próxima da aposentadoria. Só trabalhava em serviços leves de terreiro, puxando a “carrocinha de dentro”. Pertencera à tropa, transportara muito café para a cidade, sempre com carga de oito arrobas, façanha de que, com saudades, se recordava agora.

Entre as vacas era a Princesa a mais popular. Vaca de estimação. Enriquecera a fazenda de numerosos filhos, entre os quais o possante Beethoven, agora pastor do rebanho. Dera ainda a Rosita, leiteira de truz fiel à estirpe e certa nas doze garrafas diárias. E quantas outras crias que já andavam por sua vez de bezerrinho novo, ou na canga, a puxar carros! Vivia às soltas, livre de cercas, sempre no pasto dos porcos, ocupando o tempo em mascar babosamente boas palhas de milho.

Quem mais? Sim, o Vinagre — fiel guardião da “casa-grande”, veadeiro de fama outrora, hoje um dorminhoco que o que fazia era cochilar ao sol, de focinho entre as patas e olhos lacrimejantes. Todo ele era passado. Durante as sonecas vinham agitá-lo pesadelos, nos quais reviviam as cenas violentas das caçadas de antanho. E o glorioso veterano acuava a dormir.

Os homens nunca prestam grande atenção aos animais que os rodeiam. Brutinhos, dizem, e desprezam-nos. Mas a verdade é que a esses nossos manos o que os inferioriza é não gozarem o dom da fala, pelo menos de fala inteligível para nós, visto como pensam e superiormente raciocinam, possuindo sobre os homens e as coisas ideias terrivelmente lógicas.

Ali na fazenda eram todos concordes num ponto: a supremacia de Tio Pio sobre os demais seres humanos. Era Tio Pio a atenção que nada esquece, a justiça que dá e pune, o amor que compreende, o deus que cura, a ordem que tudo simplifica.

Para o trio do Peva era Tio Pio o Recolhe-ovos, o Deita-ninhadas, o Mata-piolho, o Varre-galinheiro, o Pega-frango, o Arruma-ninho, o Traz-quirera, o Rebenta-cupim, o Espanta-cachorro — modalidades várias dum alto espírito de providência.

Para a Princesa era o Traz-milho, o Tira-leite, o Prende-bezerro, o Esvurma-berne, o Fecha-porteira, o Bota-no-pasto.

Para a mulinha era o Põe-carroça, o Arruma-arreios, o Escova-pelo, o Dá-ração.

Para o Vinagre era o Lava-cachorro, o Traz-angu, o Atiça-atiça, o Prega-pontapés.

Só ele, entre tantos homens da fazenda, revelava-se, apesar de preto, claro de intenções e compreensível; só ele não podia desaparecer sem grave dano geral. Lembravam-se de como todos padeceram certa ocasião em que Tio Pio caiu de cama. Houve desordem grossa. Pintos morreram de fome; Vinagre emagreceu; a Princesa viu-se privada de palha; o Peva dormiu fora do terreiro pela primeira vez. Ao cabo de dez dias, quando o preto ressurgiu, recém-sarado, foi como se repontasse o sol em seguida a longo tempo de chuvas. Que alegria!

As demais criaturas humanas afiguravam-se-lhes misteriosas e sobretudo ilógicas. Impossível ao Vinagre entender o patrão. Já de cara alegre, já de cara amarrada, recebia-o alternativamente com carinho ou pontapés. E o velho cachorro filosofava: como é que um mesmo ato meu, sempre gesto de afago e submissão, ora recebe prêmio, ora castigo? Não entendia...

E muito menos o entendiam o Peva, a Princesa e a Ruça. Sua presença no curral ou no pasto era signo certo de calamidade — morte, prisão, tortura. “Mate aquele boi”, “Pegue aquele frango”, “Arreie aquele cavalo”, “Cape aquele porco”. Mate, pegue, arreie, cape, venda, esfole — não se lhe ouviam outras palavras. E toda gente corria pressurosa a executar-lhe as ordens, por mais tirânicas que fossem.

Igualmente incompreensíveis eram os filhotes do homem. Que criaturinhas variáveis, irrequietas, cruéis! Sempre de vara na mão, perseguiam abelhas e borboletas, esmagavam os sapos, atropelavam as galinhas. Ao vê-las, Vinagre disfarçadamente saía para longe e o Peva bandeava-se com seus órfãos para o outro lado dalgum vedo. Só a Princesa nenhum caso deles fazia, certa do terror que lhes inspiravam os seus longos chifres.

Já a Dona, mulher do Senhor, não infundia medo senão às aves. Terrível inimiga do galinheiro! Depredava os ovos e condenava à morte justamente os mais belos frangos e as mais respeitáveis matronas de pena — “galinhas velhas”, como dizia a ingrata.

Para os outros animais a Dona significava apenas ignorância. Era a “Perguntativa” e a “Muda-cor”. Hoje de cor-de-rosa, amanhã de azul, não usava cor fixa. E vivia interrogando:

— Pio, que burro é esse?

— Não é burro, sinhá, é a mulinha Ruça.

Perguntava sempre. Que caroços eram aqueles na vaca? Que boi estava rinchando no pasto? Que trepadeira andavam a tirar das árvores?

Viera duma cidade grande, havia pouco tempo, cheia de gritinhos e medo aos bichos. Ignorava tudo, fora pilhar ninhos. Papa-ovo, apelidou-a o Peva, como já havia apelidado Tio Pio de É-hora e aos demais camaradas da fazenda de Sim-Senhores, porque Sim Senhor era o estribilho com que habitualmente retrucavam a todas as ordens do Dono.

Por uma tarde igual às outras, recolhia-se Peva ao pouso do costume seguido dos três órfãos já marmanjões. No céu, a caraça vermelha do sol escondia-se detrás do morro, e na terra os primeiros grilos ensaiavam as asas cricrilantes. Rente à porteira a mulinha, solta no pasto minutos antes, espojava-se regalada.

— Boa tarde! — saudou-a o Peva. — Cansadinha, hein?

A mula interrompeu a cabriola e abanou as orelhas como quem diz: “É verdade”. Depois falou:

— Acho prudente que tome cuidado com seus filhos. A Perguntativa anda interessada por eles — e isso é mau sinal. Vi-a em conversa com É-hora e pilhei este pedacinho: “O marreco do capão está no ponto”. Não sei o que quer dizer, mas boa coisa não será.

O Peva enrugou a testa, apreensivo. Jamais a Perguntativa se referia a alguma ave sem que sobreviesse desgraça. “Está no ponto” — que quereria dizer aquilo?

A mulinha ignorava-o. Sabia de algumas palavras triviais, conhecia o pegue, o prenda, o mate — mas o está no ponto era-lhe coisa nova.

— Quem há de saber disto é o Vinagre. Mora na casa-grande e entende a língua dos homens melhor do que nenhum de nós. Consulte-o, e não deixe também de consultar a Princesa, cuja experiência da vida é grande.
Peva se foi à Princesa, que encontrou mascando as palhas do costume.

Está no ponto — poderá dizer-me, senhora Princesa, que coisa significa na língua dos homens?

A vaca interrompeu a mascação e disse:

— Já ouvi essa palavra aplicada ao meu filho segundo, o Barroso. Tinha ele dois anos e meio. O Dono passava em companhia de um Sim-senhor. Avistou de longe o meu Barroso no pasto e ordenou: “Aquele boizinho está no ponto. Carro com ele!”. No dia seguinte laçaram-no, meteram-no na canga e o pobre do meu garrote muito que padeceu a puxar um carro pesadíssimo. Deste incidente concluo que estar no ponto quer dizer carro.

Peva, um tanto curto de ideias, tremeu ante aquela revelação. Horror, meterem no carro ao seu querido marrequinho! Em seguida duvidou. Andar no carro era coisa que só vira fazer aos bois. Não podia ser. A vaca errara evidentemente.

“Resta-me consultar o Vinagre”, refletiu, e todo pepé, com ruguinhas de apreensão na crista, foi ter com o velho cachorro.

Vinagre não resolveu o enigma, embora respondesse como o mais sábio dos oráculos.

— Pode ser muita coisa. A linguagem dos homens varia, ora quer dizer isto, ora aquilo. Mas que não é coisa boa, isso eu asseguro.

Nesse dia o capão, seguido dos órfãos, recolheu-se ao pouso habitual sem a despreocupação de outrora. Custou-lhe conciliar o sono. Não lhe saíam da cabeça as palavras misteriosas e de sentido inapreensível. Por fim dormiu e sonhou. Sonhou que ao lado do Barroso jungiam ao carro o pobre marrequinho. O sonho virou pesadelo e Peva sofreu horrores ante o quadro do filho adotivo a debater-se sob a monstruosa canga...

No dia seguinte, no momento da ração de milho, Tio Pio inesperadamente agarrou o marrequinho pelas pernas e lá se foi com ele para a Cozinha.

Aflitíssimo, tomado de imenso desespero, Peva inda alimentou esperanças de vê-lo. Mas a noite chegou e com ela a primeira desilusão de sua vida. Nada do marreco. Pela manhã, nada. Meio-dia, nada.

À hora do jantar encontrou Vinagre roendo uns ossos no terreiro.

— Que é isso, amigo?

— Ossos de marreco.

— De marreco! — exclamou Peva, surpreso.

— Sim. Que admiras? Que os marrecos tenham ossos? Têm-nos, e excelentes...

Peva estarreceu. Compreendia afinal o tremendo sentido das palavras misteriosas. Está no ponto significava condenação à morte. Horror!...

Guardou consigo, entretanto, aquela mágoa. Nada disse ao peruzinho nem ao frango, prevendo para os dois sorte idêntica.

— Bem triste a vida sob o domínio cruel do homem! Nada de bom vem deles... — filosofou.

Nessa mesma tarde Peva cruzou-se com a Princesa e disse-lhe:

— Erraste, Princesa. Está no ponto quer dizer morte.

A vaca parou a mastigação da palha e sorriu da ingenuidade do Peva. Ela tinha tanta certeza de que queria dizer carro...

A vida na fazenda rolava na mesmice de sempre. Tudo continuava. A Ruça, a puxar a carrocinha; a Princesa, a mascar palhas; o Vinagre, a acuar em sonhos. Só na tribo do Peva a alegria não era a mesma. Saudades do marreco. Várias vezes o frango indagou do destino de Reco-Reco, forçando o capão a mentir. “Anda de viagem, uma longa viagem... Um dia volta.”

Mas com que tristeza punha os olhos no tanque ou nas poças de enxurro que se formavam em dias de aguaceiro, pensando lá consigo: “Nunca mais!”...

O tempo corre, as estações se sucedem. A primavera anunciou-se nos mil botões que se arredondavam nas laranjeiras. Os órfãos do capão já eram mais companheiros de ciscagem do que filhotes pipilantes. Já dispensavam a sua solícita assistência. O peruzinho, grandalhudo e bem empenado, fez-se independente. O frango punha crista, com as esporas abotoadinhas. Mudara de gênio, e se via alguma franga ia arrastar-lhe a asa até que algum galo de verdade o escorraçasse.

Certa manhã a Perguntativa veio assistir à amilhagem das aves. Fez várias perguntas e deu várias ordens ao Pio, concluindo, de dedo apontado para o frango:

— Está pedindo panela, aquele!

— Qual, Sinhá? O Sura?

— Sura quer dizer sem rabo? É. É ele mesmo.

Peva, que tudo ouvira, engasgou-se com o grão de milho que tinha no bico, perdeu a fome e incontinenti saiu do bando. Embora não compreendesse o sentido daquelas palavras, previu que “boa coisa não seria”, como filosofava o Vinagre.

E acertou. O frango, no dia imediato, desapareceu misteriosamente. Peva procurou-o por todos os cantos e, desconfiado, foi rondar os fundos da Cozinha na esperança de ouvi-lo piar lá dentro. Não ouviu pio nenhum — mas encontrou penas suspeitas no monte de lixo... 

Adquirida a certeza do novo desastre, fez-se ainda mais tristonha a vida do pobre capão. A Cozinha! Era nas goelas daquele horrendo Moloch que sucessivamente iam desaparecendo os seus queridos órfãos. Engolira o marreco, engolira o frango... Engoliria também o peruzinho, por que não?

Velho e desalentado, com o coração sempre saudoso dos travessos garotinhos que criara, tornou-se macambúzio. Inda passeava com o peru, apesar da cada vez maior independência deste. Chegou a notar que era ele, Peva, quem o acompanhava agora. Notou-o, mas procurou iludir-se e simulava amadrinhá-lo, como outrora...

Pela força do hábito inda dormiam juntos, no antigo pouso ao pé do muro. Mas logo o peru, que é amigo de poleiro, elegeu um, cômodo, em certa escada velha, e o capão teve de acompanhá-lo na mudança. E ali passaram a dormir juntinhos e encorujados no mesmo degrau.

Assim viveram até a chegada do Ano-Bom.

Na véspera a Perguntativa apareceu no momento do dar milho e disse ao

Pio:

— Olhe, amanhã temos o peru. Não esqueça de comprar pinga.

Desta feita Peva não vacilou quanto ao sentido da expressão. Está no ponto — panela — temos o peru — deviam ser frases equivalentes. Estava pois condenado a entrar para a Cozinha o seu derradeiro filho...

Cheio de resignação e com a alma em transes, Peva passou o dia num canto, jururu, remoendo as doces recordações de outrora. Ao cair da noite recolheu-se. Empoleirou-se na velha escada e achou muito natural que o peru não comparecesse.

Dormiu tarde e teve o sono agitado de contínuas estremeções de angústia. No dia seguinte notou movimento fora do comum na casa-grande. Vinha gente de longe, mulheres de trole, homens a cavalo. Vinagre, esquecido da soneca do costume, entrava e saía, abanando a cauda com vivacidade de cachorro novo.

Num destes vaivéns Peva o deteve.

— Que há na casa-grande? Tanta gente...

— Há peru — respondeu o cão. — Quando há peru, os homens se assanham, vestem roupas novas, brincam e dançam. Tenho notado que a presença do peru à mesa provoca nos homens uma espécie de delírio, como entre as galinhas a queda de içás.

Esta observação do cachorro, embora muito lisonjeira para a raça dos perus, não consolou nada ao nosso Peva, que se sentia ganho menos de tristeza que de funda indiferença pela vida. O sucessivo sacrifício dos filhotes calejara-lhe por partes o coração. No dia do marreco a dor que sentiu foi verdadeira dor de pai; em seguida, pela morte do frango, a sua dor foi dor de pai adotivo; agora, ao perder o peru, a dor era calma e resignada. Dor de filósofo. Compreendia, afinal, que a vida foi e é assim, e não melhora...

Os capões inspiram desprezo aos galos e talvez piedade irônica às senhoras galinhas. Por isso Peva, em sua triste solidão, deambulava pelo terreiro como criatura sem lugar na vida. As lindas frangas, as viçosas poedeiras, e até as velhas galinhas aposentadas, tinham pela sua honesta companhia um profundo desdém. E como nem os frangotes o procuravam, o isolamento do triste eunuco era completo.

Esse errar à toa fê-lo notado de Tio Pio, que se lembrou de pô-lo a criar nova ninhada.

— Anda vadiando aqui, este diabo... Espera que te arrumo.

Agarrou-o, levou-o ao galinheiro, esfregou-lhe urtiga no abdome e deitou-o sobre uma ninhada de dez pintos nascidos na véspera.

Não ofereceu Peva a menor resistência. Deixou fazer. Agachou-se como dantes e cobriu lindamente os gentis recém-nascidos.

Altas horas, porém, ergueu-se e tomou rumo do poleiro, abandonando aos frios da noite a roda de vidinhas pipilantes. Não mais queria exercer a profissão de mãe. Para quê?

— Se têm de morrer na Cozinha, morram agora enquanto ainda não lhes tenho amor.
Os pintos amanheceram mortos, entanguidos de frio.

Quando Tio Pio tomou conhecimento do desastre, ficou furioso.

— Cachorro! Você fez mas paga!

Houve um corre-corre. A galinhada assustadiça debandou; os marrecos meteram-se no tanque.

Cotó de pernas, frouxo de asas, Peva pouco resistiu à perseguição do negro. Rendeu-se e, seguro pelas patas, de cabeça para baixo: com as ideias perturbadas pela congestão do cérebro, por sua vez transpôs a soleira da Cozinha, insaciável sorvedouro de vidas, odioso túmulo de Reco-Reco, do Sura, do Peru e agora do venerável tutor da estranha irmandade...

Quem na manhã do dia seguinte passasse pelo fundo da horta veria no monte de lixo um punhado de penas escaldadas, escorridas, sem cor, sujas de cinza. E veria duas pernas rugosas de longas esporas recurvas. E veria ainda uma dolorosa cabeça de crista violácea, com os olhos semiabertos, em cujas pupilas de vidro várias formiguinhas se miravam.

Horríveis, aqueles despojos?

Um urubu pousado ali perto não pensava assim...




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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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