domingo, 9 de dezembro de 2018

A Minha Sogra (Paródia de um soneto de Camões)


A PARÓDIA

A Minha Sogra
(Paródia de um soneto de Camões)

Sogra minha infernal, que te partiste
Tão tarde deste mundo descontente;
Repousa lá no inferno, eternamente,
Se do inferno a fornalha a ti resiste!

Tu que a vida fizeste-me tão triste
Torturando-me os dias cruelmente,
Esquece-me de vez, ou então somente
Lembra o ódio que em mim tão puro viste

Mas, se mudaste... e pode merecer-te
Alguma coisa a dor que me ficou
De  tarde e só bem tarde enfim perder-te;

Pede a Deus, que os teus dias alongou,
Que me poupe o suplício de inda ver-te
Já que de mim tão tarde te apartou.

Revista do Brasil (1908)


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O ORIGINAL

Alma minha gentil, que te partiste

Alma Minha Gentil, que te partiste
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento Etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

LUÍS DE CAMÕES

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