domingo, 9 de dezembro de 2018

"Os Males Públicos" (Paródia ao soneto "Mal Secreto", de Raimundo Correia)


A PARÓDIA

Os Males Públicos
(Paródia ao soneto "Mal Secreto", de Raimundo Correia)

Se a tísica que mata, a fimatose
Se descobrir pudesse pela face;
Se o mal que nos corrói: tuberculose
No rosto do indivíduo se estampasse;

Se o fumo que tragamos, em alta dose,
Um escarro “tinto” aos doentes provocasse,
Ou se, do “forte” que a sua frente pose,
A objetiva o peito penetrasse;

Se, entre ricos e pobres, qualquer classe,
Dentre velhos, adultos e meninos,
Conceito positivo se firmasse.

“Quanta gente que ri talvez chorasse”
Quanta gente, que vive nos cassinos,
Talvez num sanatório se encontrasse.

A.B.C. (Revista "Careta", 1946)


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O ORIGINAL

Mal Secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

RAIMUNDO CORREIA

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