quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Os três cadáveres (Paródia de "As Três Irmãs", de Luís Delfino)


 
A PARÓDIA

Os três cadáveres
(Paródia de "As Três Irmãs", de Luís Delfino)

O mais gordo dos três, de ventre nédio, informe,
O que me desatina
Quando, no fim do mês, me manda a conta enorme,
É o vendeiro da esquina.

O segundo, que tem o aspecto de um meirinho
Quando à porta me bate.
É o azar, que a tremer, deparo em meu caminho
É o meu alfaiate.

O outro é o homem fatal que o viver encrencado
Me faz negro e sombrio;
Entre todos feroz, é o algoz desalmado,
É  o meu senhorio.

O mais gordo dos três, cobra... "constritor boa",
Cujo veneno afronto,
Mio compreende bem, nem releva ou perdoa
Minha disga de "pronto".

O segundo é o credor de feia catadura
Atrevido, arrogante;
Não sabe olhar em mim mais que o corte e a "fatura"...
Do meu fato elegante.

O terceiro é o algoz: - hidra, monstro o, pantera,
Ameaça intimidação!
Terno-o: No fim do mês, quando surge essa fera
Não a conheço não!

Se o primeiro falisse. — ó ditosa ocorrência!
Eu, de aliaria tonto,
Correria a ajudar os juízes da falência
Com o meu ódio de "pronto".

Se o segundo falisse, eu mesmo iria a juízo
Contra o bicho depor!
Dir-lhe-ia: — O Diabo aumente ainda mais teu prejuízo
Desgraçado credor!

Se o terceiro falisse — ó que felicidade!
— O mais feroz do lote, —
Com toda a correção, com toda probidade,
Passava-lhe o calote!

Se o primeiro morresse, — ó como eu gostaria
Tão completa ventura!
As "contas" por pagar rezava-as noite e dia
Na sua sepultura...

Se o segundo morresse — ó meu prazer eterno
Que num sonho diviso!
Ele iria rodando às profundas do inferno
Nas rodas do meu riso.

Se o terceiro morresse, uns sete pés cavados
No chão, em paz teria;
E eu, na casa do bruto, aluguéis atrasados
Jamais os pagaria!

D. XIQUOTE
Revista "Careta", 1917.


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O ORIGINAL

As três irmãs


C'erano tre zitelle,
E tutti tre d’amore.

(Canto popular da Itália)

I
A mais moça das três, a mais ardente e viva,
Aquela que mais brilha,
Quando, sorrindo, aos seus encantos nos cativa,
Eu amo como filha.

A segunda, que tem da pálida açucena
Aberta, de manhã,
A cor, o cheiro, a forma, a languidez serena,
Eu amo como irmã.

A outra é a mulher, que me enleia e fascina,
É a mulher que eu chamo
Entre todas gentil: é a mulher divina,
É a mulher que eu amo.

II
A mais moça das três é linda borboleta;
Entra, abre as asas, sai:
Não compreende bem, não nega, nem rejeita
O meu amor de pai.

A segunda é a flor de essência melindrosa,
De rara perfeição;
Não sei se ela desdenha ou se ela entende, e goza
O meu amor de irmão.

A terceira é a mulher: anjo, monstro, hidra, esfinge,
Encanto, sedução;
Amo-a; não a conheço: é verdadeira, ou finge?
Não a conheço, não.

III
Se a primeira casasse, oh! que alegria a minha!
Eu lhe diria: Vai!
Veria nela um anjo, um astro, uma rainha
O meu amor de pai.

Se a segunda casasse, eu mesmo iria à igreja,
Levá-la pela mão:
Dir-lhe-ia: o céu azul virar-te aos pés deseja
O meu amor de irmão.

Se a terceira casasse, oh! minha infelicidade!
A mais velha das três,
No horror da escuridão, fora uma eternidade
A minha viuvez.

IV
Se a primeira morresse, oh! como eu choraria
A minha desventura!
Com lágrimas de dor lavara, noite e dia,
A sua sepultura.

Se a segunda morresse, oh! transe amargurado!
Eu choraria tanto
Que ela iria boiando, em seu caixão doirado,
Nas águas do meu pranto.

Se a terceira morresse, em seu caixão deitada,
Sem que eu chorasse, iria,
Porque noutro caixão, ó minha morta amada,
Alguém te seguiria...
LUÍS DELFINO

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