sábado, 8 de dezembro de 2018

Oscar Wilde: o artista da alma (Aspectos Biográficos)


Oscar Wilde: o artista da alma

De Isabel de Aragônia, filha de um rei de Nápoles e de Ippolita Sforza, conta-se haver tido a existência tão cheia de sobressaltos e cortada de tais dissabores que sempre fazia acompanhar a sua assinatura nas cartas que escrevia da designação — “única em desgraça", — querendo com isso significar que a ela cabia o doloroso privilégio de ter sido a mais infeliz dentre todas as mulheres. 

A Oscar Wilde, melhor que a qualquer outro escritor, caberia o direito, nos últimos anos em que sobreviveu à condenação, de fazer suas as palavras do epíteto com que a si mesmo se crismara aquela desventurosa princesa.

O homem que sempre estivera preocupado com as belas altitudes e sonhara fazer da existência uma obra de arte, acabou obscuramente no vilipêndio e no martírio, exibindo pelas ruas da metrópole do mundo civilizado o seu espectro de galé recém-vindo do cárcere e a caricatura da sua elegância desmantelada. Não foi dado a esse Petrônio do século XIX acabar coroado de rosas, entre formosos braços femininos, ao som das cítaras, na ebriedade de um festim magnífico. Seu fim não se revestiu ao menos da beleza trágica que iluminou a última hora de alguns outros eleitos do espírito, como Pouskine sucumbindo na violência de um duelo, Chenier no cadafalso, Shelley nas ondas, Byron nas pugnas pela liberdade. De Wilde pode dizer-se que não morreu. Finou-se apagadamente na penumbra de um quarto ultramodesto de um hotel barato, abandonado pelo destino e pelos homens.


No banquete de Agatão ele teria tomado a palavra ao lado de Alcebíades e a confissão de sua psicopatia teria provocado, quando muito, o sorriso malicioso de alguns convivas. Mas a moral, ao tempo de Péricles, sob o céu radioso da Grécia, era muito diversa da do tempo da rainha Vitória, sob a umidade dos blacks-fegs londrisa. Esperemos, no entanto, que sobre a sepultura de Wilde floresça a rosa branca que vicejou sobre a cova do réprobo que ele viu enforcar no cárcere de Reading.
Ao tempo de seus triunfos mundanos, quando pisava as alcatifas dos palácios, ostentava cravos verdes na lapela, usava camafeus que haviam pertencido, segundo dizia ele, a múmias do Egito, fumava cigarros de ponta de ouro e esmaltava as frases que ouvidos ávidos escutavam, de todos os recamos, de todas as lantejoulas, de todas as pedrarias de uma imaginação poderosa, ao tempo em que as grandes damas nos salões dourados suspendiam o ritmo dos pesados leques de plumas para ouvir-lhe um paradoxo, Wilde proclamava-se pomposamente — o Rei da Vida. Esta não tardou em mostrar-lhe a facilidade com que destrona os soberanos e despedaça os tronos.
Paradoxal como Carlyle ou Rémy de Gourmont, cansado talvez de realizar em seus livros todas as audácias do pensamento e da frase, Oscar Wilde quis viver este paradoxo impossível: contrapor ao rígido formalismo da hipócrita moral britânica, intransigente nas questões de decoro, a exibição escandalosa de vícios que chocavam profundamente a austeridade superficial dos ingleses dissimulados.
A personalidade e a obra de Oscar Wilde ainda esperam o crítico imparcial e sereno que as julgue com mais perfeita segurança. Entre o livro manifestamente tendencioso de Alfredo Douglas e as apreciações quase sempre incondicionalmente encomiásticas de Roberto Ross, haverá lugar para um estudo severo e desapaixonado. Não será nunca demais assinalar que a desventura trouxe uma feição inteiramente nova para a obra do escritor inglês; a Bailada do Cárcere se Reading é o poema de suprema piedade, através do qual todos os homens confraternizam pela dor assim como o De Profundis é um evangelho de humildade suprema, a mea-culpa de um pecador que se reabilita pela contrição.
Alma cosmopolita, evocador admirável de civilizações extintas, Wilde sabia fazer resurgir com verdadeira mão de mestre os ambientes das tragédias e de muitos contos que escreveu, bem como a alma das personagens que neles tomaram parte. Em Salomé é o Oriente, com toda a sua fatalidade, a sua pompa, as suas superstições, as suas aberrações sexuais, as mortes violentas em torno da mesa dos banquetes, os pássaros de agouro que esvoaçam como um vento gelado... No Aniversário da Infanta é a Espanha de Carlos II, com o seu luxo sombrio, a sua pragmática inflexível mumificando a vida, contendo todos os impulsos, preocupada com os demônios e os auto-de-fé, trans formando o Escurial num palácio sinistro, onde os fantasmas se movem pesados de veludos, com punhos de renda e golas de cambraia. Na Tragédia Florentina é a Renascença do século décimo sexto com requintes de elegância e civilizações sutilíssimas, e sobre a qual paira ainda o espírito de Lourenço e de Maquiavel. É o tempo em que, no dizer sugestivo de um escritor, “depois de haver um homem golpeado a garganta de seu inimigo, numa betesga escura, dirige-se a uma vila suntuosa nas vizinhanças de Florença e aí discute tranquilamente, elegantemente, acerca da imortalidade da alma, como um sábio da academia platônica, em fato do risonho jardim da Toscana”.
É a época em que o Magnífico, na hora da morte, lastima não haver tido tempo para completar a sua biblioteca e em que o autor do Príncipe, sabedor do êxito da emboscada do Simigaglia, preparada por César Bórgia para colher nela desafetos seus, classificá-la de “il belíssimo inganno”.
No ataque de Gaeta, como relembra Lebey, Afonso o Magnânimo proíbe os seus soldados que empreguem na construção de fortificações pedras de uma vila que dizem haver pertencido à Cícero, Ficine escreveu três tratados sobre o sol, a luz e a volúpia e Nano Crossa no seu leito de morte pede que lhe tragam um outro crucifixo porque o que tem sob os seus olhos de agonizante é mal esculpido.
Há na alma da Renascença muita coisa da do Oriente, porém um Oriente mais requintado e polido pela cultura do ambiente mediterrâneo; a mesma luxúria, o mesmo sabor de sangue nas bordas da taça por onde se bebe o amor, mas tudo prestigiado pelo condão maravilhoso da Arte.
Aqui já se não morre, como no Oriente aos golpes brutais de toscas e grosseiras cimitarras, mas traspassado por finíssimos estoques em cujo punhos refulgem as pedras preciosas e cujas lâminas foram às vezes ilustradas pelo cinzel de gravadores insignes. A cólera já não se desencadeia à oriental, instantânea e flumínea, mas aguarda a cumplicidade da sombra e se compraz em preparar pacientemente a armadilha, ou confeccionar a peçonha. O ímpeto, o arremesso já são refreados; há uma disciplina das emoções. A vítima escolhida é instada com as palavras mais corteses ou carinhosas para comparecer à mesa de um suntuoso jantar, de onde se erguerá dentro em pouco com a morte nas entranhas, entre os sorrisos e as amabilidades do anfitrião. Na Tragédia Florentina, a par de todo o deslumbramento cênico, Wilde surpreende maravilhosamente a alma de Bianca e de Simone nas suas mutações imprevistas, até ao final da peça, cujas últimas frases de diálogo porque acaba são uma síntese admirável do espírito da Renascença. Guido Bardi, estrangulado, expira, encomendado a alma a Jesus Cristo, Bianca e Simoné encaram-se pasmados; ela pergunta-lhe porque lhe não dissera ele até então que era tão forte; ao que o marido lhe responde por uma outra pergunta: por que lhe não havia ela dito até aquele dia que era tão bela?... Toda a Renascença está nisto, efetivamente: no culto da Força e da Beleza, exercido entre os brocados, os damascos, as tapeçarias, os cristais e os embustes, a sensualidade complicada e refinada pelos jogos maravilhosos da imaginação e da inteligência.
Oscar Wilde, o homem que tão bem nos soube descrever todas essas elegâncias e magnificências, não podia sobreviver por muito tempo à pior de todas as misérias — a miséria moral.
A nós, que o amamos, só nos resta esperar que a beleza de sua obra e os milagres do esquecimento consigam delir de sobre sua memória a tacha de ignomínia com que uma pátria ingrata estigmatizou um de seus filhos ilustre.

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JORGE JOBIM
Revista Ilustração Brasileira, 25 de dezembro de 1922.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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