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3/12/2025

O modelo milionário (Conto), de Oscar Wilde



O MODELO MILIONÁRIO (CONTO), DE OSCAR WILDE

Quando não se tem capital, de nada serve ser um homem encantador.

A novela é um privilégio de ricos e não uma profissão para os que não têm emprego.

Mais vale ter uma renda fixa que ser encantador.

Tais são os grandes axiomas da Frida moderna, e Hughie Erskine nunca os pôde assimilar. Pobre Hughie!

Sob o ponto de vista intelectual, é preciso reconhecer que não era nenhum fenômeno. Não tivera na vida um rasgo brilhante, nem uma ironia. Não obstante isso, era singularmente sedutor, com o seu cabelo ondeado, seu perfil puramente delineado e os seus olhos cinzentos.

Era acolhido tão favoravelmente entre os homens como entre as mulheres. Possuía toda a classe de talentos, menos o de ganhar dinheiro.

Seu pai lhe legara um espadão de cavalaria e uma “História da Guerra da Península”, em quinze volumes.

— Hughie pendurou o primeiro destes legados em cima do seu espelho, e alinhou o segundo sobre uma estante, entre a “Guia” de Ruff e o “Magazine” de Bayley. Vivia de uma renda anual de 200 libras que lhe dava uma tia velha.

Intentou tudo.

— Frequentou a Bolsa durante seis meses, mas que quereis que suceda a uma mariposa entre touros e ursos?

Dedicou-se a comerciar em chás, e se bem que isso o distraísse um pouco mais, acabou por cansar-se do “pekoé” e do “Souchong".

Depois, intentou vender “Sherry” seco. E o negócio lhe falhou. O “sherry” saía talvez demasiado seco.

E, por último, se dedicou... Bem não se dedicou a nada; continuou rapaz encantador que não serve para nada, sempre com o seu perfil perfeito e sempre vago.

E para que a sua desdita fosse completa, enamorou-se. A pequena que amava chamava-se Laura Merton. Seu pai era um coronel reformado que tinha perdido toda a paciência e todas as faculdades digestivas na Índia, sem jamais conseguir recuperá-las.

Laura adorava Hughie, e este seria capaz de beijar os cordões dos sapatinhos de Laura.

Era o par mais encantador que se podia ver em Londres.

O coronel sentiu um grande afeto por Hughie, porém nem queria ouvir falar de matrimonio.

— Meu filho, dizia frequente mente, venha ver-me quando for dono de dez mil libras bem seguras. Então, veremos.

E a Hughie, depois disso, o gênio se lhe azedava e precisava para consolar-se, ter Laura ao Seu lado.

Uma manhã, quando se dirigia a Holland Park, que era onde viviam os Merton, lembrou-lhe fazer uma visita, de passagem, ao seu grande amigo, Alan Trevor.

Trevor era pintor. Hoje em dia, poucas pessoas escapam desse contágio. Mas ele era também um artista, e artistas existem muitos poucos.

A julgar pelas aparências, Alan era uma pessoa rara, selvagem, com uma cara marcada de sinais, e uma barba ruiva e hirsuta. Porém logo que colhia um pincel, à gente se achava ante um mestre, é os seus quadros eram solicitadíssimos.

Experimentou — desde o princípio — uma viva inclinação por Hughie, devida unicamente, é preciso confessá-lo, do encanto pessoal deste.

— As únicas pessoas que um pintor devia conhecer, repetia, são aquelas que são belas e frívolas, aquelas cuja contemplação vos produz um prazer artístico e cuja conversação vos proporciona repouso intelectual. Os homens vaidosos e as mulheres elegantes: eis os seres que manejam o mundo, ou que, pelo menos, deveriam manejá-lo.

Mas quando foi conhecendo a fundo Hughie, terminou por querer-lhe tanto pela sua animação e pelo seu bom humor, como pelo seu caráter generoso. E concedeu-lhe livre entrada a qualquer hora em seu estúdio. Uma vez aí, Hughie encontrou Trevor dando as últimas pinceladas num quadro magistral, que representava um mendigo, em tamanho natural.

O mendigo em pessoa servia de modelo, sobre um estrado colocado num canto do estúdio.

Era um velho cheio de rugas, cujo rosto parecia de pergaminho amarrotado e com uma expressão lastimável.

Levava sobre os ombros uma capa de pano muito ordinário, cheio de andrajos e buracos; duas grandes botas estavam remendadas e cheias de cortes. Apoiava-se com uma mão num cajado e com a outra estendida um resto de chapéu, na atitude de quem pede esmola.

— Soberbo modelo! disse Hughie em voz baixa, estreitando a mão de seu amigo.

— Soberbo, acho mesmo! Exclamou Trevor em voz alta. Não se encontram todos os dias mendigos como este. Um achado, meu amigo,  um Velásquez em carne e osso! Que quadro faria Rembrandt com isto, Deus meu!

— Pobre velho! disse Hughie. Que aspecto tão desditoso tem! Se bem que suponho que, para vocês pintores, a cara está em relação com a fortuna.

— Com efeito, disse Trevor, não quererá você que um mendigo tenha um aspecto de alegria.

— Quanto ganha um modelo por seção? perguntou Hughie depois de acomodar-se agradavelmente num divã:

— Um shilling por hora.

— E quanto lhe renderá o quadro, Alan?

— Oh! por este me pagarão no mínimo duas mil.

— Libras?

— Não, guinés. Os pintores, os poetas e os médicos contam sempre por guinés.

— Pois bem: opino que o modelo devia ter uma porcentagem, replicou Hughie rindo, pois trabalha tanto como você.

— Tudo isso são loucuras. Só o trabalho que significa diluir a cores e permanecer em pé com o pincel na mão, é incalculável. Você fala por falar, Hughie; mas lhe asseguro que em certos momentos a arte se eleva ao nível de um ofício manual. Enfim, deixemos isto! Estou ocupadíssimo. Apanhe um cigarro e fique quieto.

Minutos após entrou o criado para dizer a Trevor que o fabricante de molduras desejava falar-lhe.

— Não vá embora, Hughie, disse ao sair, eu já volto.

O velho mendigo aproveitou a ausência de Trevor para descansar um pouco num banco.

Tinha um aspecto tão abatido e tão miserável que Hughie não pôde deixar de compadecer-se e palpou os bolsos para ver quanto tinha.

Não encontrou mais que uma libra e umas moedas de cobre.

— Pobre velho! disse consigo, mais falta lhe faz que a mim. Quer dizer que passarei quinze dias sem tomar carros de aluguel.

E, cruzando o estúdio, deslisou a libra na mão do mendigo.

O velho estremeceu.

Depois, um leve sorriso vagou em seus lábios secos.

— Obrigado, cavalheiro, obrigado.

Quando Trevor voltou, Hughie se despediu deli e algo atordoado pelo seu ato. Passou o dia todo com Laura, que lhe passou um pito encantador pela sua prodigalidade, e teve que voltar a pé para casa. Naquela noite entrou no Club da Palheta lá pelas onze, encontrando Trevor só, no salão de fumar,  em frente dum copo de vinho branco com água de Seltz.

— E então, Alan? disse-lhe, acendendo um cigarro. Terminou, o quadro como desejava?

— Terminei-o e lhe pus moldura, respondeu Trevor. A propósito, você fez uma conquista; esse velho modelo que viu, está encantado com você. Não tive remédio senão falar-lhe de você e contar-lhe tudo..., quem você é, seus rendimentos, seus projetos para o futuro...

— Meu caro Alan, replicou Hughie, estou certo de que vou encontrá-lo de guarda à porta de minha, casa, quando me recolher. Estou brincando. Pobre homem! Quisera poder fazer algo por ele. Acho terrível que alguém possa ser tio miserável. Tenho tanta roupa velha em casa! Crê que ele gostaria? Parece-me que sim, pois os seus farrapos cabiam em pedaços.

— Mas também lhe assentavam admiravelmente! disse Trevor. Jamais lhe faria o retrato de fraque. O que você chama de andrajos, chamo pitoresco; o que a você parece pobreza, me parece sabor local. Apesar de tudo isso, falar-lhe-ei de sua oferta.

— Alan, disse Hughie em tom sério, vocês pintores não têm coração.

— Um artista tem o coração na cabeça — respondeu Trevor. Além disso, nossa missão consiste, em ver o mundo tal como é, e não em refazê-lo, segundo o que dele sabemos. Cada qual em seu ofício. E agora, dê-me notícias de Laura. O velho modelo se interessou realmente por ela.

— Não me quer dizer que lhe falou de minha noiva? disse Hughie.

— Mas está claro que sim, ele sabe tudo já: o coronel inflexível, a encantadora Laura e as dez mil libras.

— E você contou meus assuntos particulares a esse velho mendigo! exclamou Hughie, de cara zangada e cheio de cólera.

— Meu amigo, disse Trevor sorrindo, esse velho mendigo, como você diz, é um dos homens mais ricos da Europa. Poderia comprar toda Londres amanhã sem esgotar a sua fortuna. Possui uma casa em todas as capitais. Come em baixela de ouro, e se lhe incomoda que a Rússia continue em guerra, pode impedi-lo.

— Que me diz você? articulou Hughie.

Não exagero, prosseguiu Trevor. O velho que você viu hoje em meu estúdio era o barão de Hansberg. É um de meus melhores amigos. Compra todos os meus quadros e muitos mais. Há um mês, me pediu que lhe fizesse um retrato em trajes de mendigo. Que quer você? Capricho de milionário. Mas devo reconhecer que ficava magnifico com os seus farrapos. Ou melhor, com os meus farrapos. É um traje antigo que adquiri na Espanha.

 — O barão Hansberg: Deus meu! exclamou Hughie E eu que lhe dei uma libra!

E se deixou cair numa poltrona como uma encarnação viva do desalento.

— Que? Você lhe deu uma libra! gritou Trevor dando uma gargalhada. Pois não tornará a ver essa libra, meu amigo! O negócio do barão Hansberg é precisamente o dinheiro dos outros.

Parece-me, Alan, que você me devia ter avisado, disse Hughie em tom mal humorado, em vez de me deixar cometer unia tolice tão ridícula.

— Vamos, Hughie, disse Trevor. Em primeiro lugar não podia saber que você andava assim, ao acaso, repartindo esmolas dessa maneira extravagante. Que beijasse meu modelo feminino bonito, compreendo-o, mas que desse um litro a um modelo de fealdade, isso é que não, por Jupiter! Além disso. naquele dia a minha porta estiva fechada para todo o mundo. Quando você chegou, pensei se Hansberg gostaria de se dar a conhecer. Como você viu, ele não estava em traje de baile.

— Estou certo de que ele faz de mim um belo juízo.

— Nada disso! Estava encantado. Quando você se foi, não deixava de murmurar e de esfregar eis mãos enrugadas. Eu me perguntava porque insistia tanto em saber tudo quanto se referia a você, mas não podia compreender; porém agora vejo claríssimo. Vai colocar essa libra em seu nome, Hughie. Cada semestre lhe enviará os juros, e assim terá uma história magnífica para contar aos seus descendentes.

— Sou um desgraçado, — gaguejou Hughie. O melhor que posso fazer é ir me deitar! Quanto a você, caro Alan, suplico-lhe que não o conte a ninguém: ou não torno a sair à rua.

— Ora, tolices! Isso faz muita honra a seu espirito filantrópico, Hughie. Não vá ainda! Pegue outro cigarro, e me fale de Laura, tudo o que quiser.

Mas Hughie não quiz ficar.

Regressou a pé para casa, sentindo-se muito magoado e deixou Alan com um ataque de riso.

Na manhã seguinte, enquanto almoçava, o criado lhe entregou um cartão com estas palavras: "Gustavo Naudin. De parte do senhor barão de Hansberg".

— Suponho que me manda pedir explicações, pensou Hughie. E ordenou ao criado que introduzisse aquele cavalheiro.

Entrou um senhor velho de óculos de ouro e cabelos grisalhos, e disse com um leve sotaque francês:

— É ao senhor Hughie Erskine que tenho a honra de falar?

Hughie se inclinou.

— Venho de parte do barão de Hansberg, juntou...O barão...

— Rogo-lhe, cavalheiro, que apresente ao barão as minhas Tilais sinceras desculpas, balbuciou Hughie.

O barão, prosseguiu o senhor idoso, me encarregou de lhe entregar esta carta.

E lhe deu um sobrescrito lacrado.

Nele estavam escritas as seguintes palavras:

"Presente de casamento oferecido a Hughie Erskine e Laura Merton, por um velho mendigo."

E dentro havia um cheque de dez mil libras.

Quando se celebrou o casamento, Alan foi uma das testemunhas e o barão pronunciou um discurso no almoço nupcial.

— Modelos milionários, fez notar Alan, são já uma coisa raríssima, porém milionários modelos são algo ainda mais raro.


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Tradução de Daniel de Castro
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2025)

1/19/2020

Balada do Enforcado, de Oscar Wilde


BALADA DO ENFORCADO


In Memoriam
C.T.W.
Ex-soldado da cavalaria da Guarda Nacional
Executado
na Real Prisão de Reading, em Berkshire
a 7 de julho de 1896.

O.W.

I
Ele não trajava mais o seu uniforme vermelho, porque o sangue e o vinho também são vermelhos. E sangue e vinho lhe tingiam as mãos, quando o encontraram junto da morta, a pobre mulher morta, sua amante, que ele assassinara no próprio leito.

Com a sua roupa cinzenta e esgarçada caminhava entre os condenados. Tinha à cabeça um gorro de jogar críquete, e o seu andar parecia ligeiro e satisfeito. Mas nunca vi alguém olhar tão intensamente a luz do dia.

Nunca vi um homem com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem flutuante que além vogava, desfraldadas as velas de prata.

Eu o via do pátio contíguo, onde me achava com outros desventurados. Estava a imaginar que falta, leve ou grave, seria a desse infeliz, quando uma voz, por traz de mim, segredou: “Aquele vai ser enforcado!...”

Que horror, santo Deus!... Os muros da prisão estremeceram de súbito, a meus olhos, e o firmamento tornou-se qual ígneo capacete de aço. E, conquanto minha alma estivesse imersa em profundo pesar, tal foi a minha angústia, que, naquele instante, ela nada sentiu.

Compreendi, então, que negro pensamento inexorável o perseguia, apressando-lhe o passo, e porque era que ele contemplava com olhar tão intenso a fastidiosa claridade do dia: o desgraçado assassinara a mulher amada, e, por isso, devia morrer também!

Mas todos matam o que amam... Alguns (que ninguém deixe de saber!...) o fazem com um olhar de ódio; outros, por meio de palavras carinhosas; o covarde, com beijos; o homem corajoso, empunhando uma arma...

Uns matam o amor, quando são moços; outros, depois de velhos; vários o estrangulam com as mãos do desejo; muitos, com as do ouro. Os melhores servem-se de punhal, pois os mortos esfriam depressa.

Há quem ame muito, e há quem ame pouco. Este vende o amor, este outro o compra. Aquele, ao praticar o mal, derrama copioso pranto, aquele outro o faz, sem um suspiro de compaixão. E todos matam o que amam, e ninguém e por isso condenado a morrer!...

Quem assim procede, não morre de morte infamante, em dia de negra desventura; não tem o nó corredio em volta do pescoço; nem ao rosto a máscara; ainda menos sente, no patíbulo, o vácuo sob os pés.

Não permanece no meio de homens silenciosos, que o vigiam noite e dia; que o vigiam, quando tem vontade de chorar ou quando tenta rezar; que incessantemente o vigiam, temendo que ele roube ao cadafalso a sua presa.

Não desperta, pela madrugada, com o rumor que fazem, ao entrar no seu cubículo, homens de sinistra catadura: o Capelão, de branco, todo tremulo; o Xerife, austero e cheio de compunção; e o Governador do presídio, de preto e cerimonioso, com o lívido semblante do Juízo Final.

Não se levanta às pressas do seu grabato — pobre homem! — para tornar a vestir o uniforme dos galés, enquanto o médico, sem deixar de fitá-lo atentamente, anota cada um dos seus gestos e contrações nervosas, olhando de vez em vez para o relógio, cujos leves tic-tacs soam como surdas pancadas de um martelo horrível.

Não sofre a angustiosíssima sede, que abrasa? garganta do condenado, ao aproximar-se a hora em que o carrasco, asperamente enluvado de couro, virá manietá-lo com três correias finas e longas para que ele nunca mais tenha sede.

Não inclina a cabeça, para ouvir a litania do ofício dos mortos. E, enquanto o terror da sua alma lhe assegura que ainda vive, não cruza com o seu próprio esquife, ao entrar no horroroso local do suplício.

Não volve ao céu o derradeiro olhar através da pequenina claraboia; não implora a Deus, com lábios de argila, que a sua agonia finde; e não sente na face o gélido beijo de Caifás.

II
Vestido com a sua roupa cinzenta e esgarçada, caminhava entre os condenados. Tinha à cabeça um gorro de jogar críquete, e o seu andar parecia ligeiro e satisfeito. Mas nunca vi alguém olhar tão intensamente a luz do dia.

Nunca vi um homem, com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem que errante passava, longe, arrastando a fulva cabeleira crinisparsa.

Ele não torcia as mãos, como fazem esses insensatos que ousam tentar reviver a esperança, no antro do negro desespero. Limitava-se a olhar para o sol e haurir o ar da manhã.

Não torcia as mãos; não chorava, nem mesmo se lamentava. Apenas bebia o ar, como se nele encontrasse alguma virtude anódina. Bebia o sol, a longos haustos, como se o sol fosse vinho.

Eu e os meus companheiros de infortúnio, que passeávamos no pátio contíguo, chegávamos a olvidar nossas próprias misérias, e os crimes de que éramos culpados, observando com olhares de estúpido pasmo o homem que ia morrer.

Como era estranho vê-lo passear, com um andar ligeiro e satisfeito! vê-lo contemplar tão intensamente a luz do dia! e ao mesmo tempo dizer que ele tinha uma dívida tamanha a pagar.

O carvalho e o olmo são árvores de ramagem deleitosa, frondescendo ao contato da primavera. É horrível, porém, ver a árvore do Cadafalso, com a raiz mordida pelas víboras más; verdejante ou ressecada, nela um homem deve morrer, antes que ela dê o seu fruto.

O mais alto lugar é a sede da Graça Divina, para onde todos os esforços humanos convergem. Quem desejaria achar-se, entretanto, com a sua gravata de cânhamo, no alto de um pelourinho, e através desse colar de assassino volver o derradeiro olhar ao firmamento?

É deliciosamente agradável dançar ao som dos violinos, flautas e alaúdes, quando o amor e a vida nos são propícios... Mas não é suave dançar com agilidade no espaço.

Enquanto nos acudiam tais pensamentos, observávamos o mísero, e fazíamos extravagantes suposições. Quem nos diz que o nosso fim não será idêntico ao dele? Ninguém sabe até que inferno de horrores sua alma cega pode transviar-se...

O homem que ia morrer deixou finalmente de passear em companhia dos outros miseráveis... Disseram-nos que já estava no acanhado e lobrego cubículo, para onde se transferem os condenados à morte, antes do momento fatal... E eu soube que nunca mais tornaria a vê-lo, neste doce mundo do Senhor!... Nunca mais!...

Como dois navios em perigo, que passam na tormenta, cruzamo-nos um dia na vida. Nenhum sinal trocamos; nenhuma palavra dissemos. E não havia palavra a dizer, porque não nos tínhamos encontrado no seio da noite redentora, mas num dia de opróbrio.

Ambos estávamos cercados pelos muros de uma prisão, e ambos éramos dois Deserdados da Sorte... O Mundo repelira-nos de seu seio, e Deus de Sua Solicitude... O laço que se arma para apanhar o Pecado, colhera-nos em suas malhas. ..

III
O pátio da antiga Prisão por Dívidas tem as lájeas carcomidas. Transudantes de umidade, porejam os muros altíssimos que o cercam. Era aí, sob o cálido céu, que ele arejava, e tinha sempre um guarda em cada flanco, por lhe obstar o suicídio.

Às vezes, costumava sentar-se entre aqueles que lhe vigiavam a agonia; que o vigiavam, quando se levantava para chorar ou quando se ajoelhava para rezar; que o vigiavam a todo momento, receando que ele roubasse ao patíbulo a sua presa.

Duas vezes por dia, fumava no seu cachimbo, esgotava um caneco de cerveja... Sua alma estava tão cheia de resolução e firmeza, que, em nenhum dos seus íntimos recessos, abrigava o medo... Em certas ocasiões ele chegava mesmo a dizer que se sentia contente por ver próximas as mãos do carrasco.

O Governador citava os artigos do Regulamento: o Doutor dizia que a morte não era senão um fato científico, e duas vezes por dia vinha o Capelão, e deixava um pequeno livro.

As suas expressões eram singulares, mas os guardas não ousavam interrogá-lo. Quem aceita por missão vigiar encarcerados, deve fechar a boca a sete chaves, e afivelar ao rosto a máscara da impassibilidade.

Se assim não fizer, poderá comover-se, e a que viria nesse covil a piedade humana? Que palavra de esperança poderia socorrer, nesse lugar, a alma de um irmão?

Realizávamos a procissão dos loucos, rodeando o pátio, em marcha lenta e cadenciada... Não nos importava celebrar essa ridícula cerimônia tradicional, pois bem sabíamos que éramos a própria brigada do diabo, e que homens de cabeça raspada e pés acorrentados formam alegre mascarada.

Quebrando as unhas e ensanguentando os dedos, desfiávamos cordas alcatroadas; esfregávamos as portas das masmorras; limpávamos os tetos; areávamos os luzentes varões; e, por turmas, ensaboávamos os assoalhos, fazendo grande ruído com os baldes d’água.

Também cosíamos sacos; quebrávamos pedras; batíamos no chão com as gamelas onde comíamos, desentoávamos os hinos religiosos; e enfim suávamos, fazendo mover a roda do moinho... Alegremente executávamos todos esses bárbaros e pesados serviços, a que éramos coagidos, para adormecer o terror, tranquilamente, dentro do coração.

E conseguimo-lo, por momentos. Tão calmo repousava ele, que os dias vogavam serenos, como uma balsa levada ao sabor da corrente... Estávamos como que olvidados do tenebroso destino que aguarda os réprobos, quando, de uma feita, ao regressar do fatigante trabalho, passamos junto a uma cova recém-aberta.

Com a goela hiante, voraz, a cova amarela bocejava, esperando o seu alimento. A própria lama exigia sangue ao asfalto corroído. E soubemos que, antes de loirejar entre nuvens a aurora, um de nós, pendente da forca, dançaria no espaço...

Hirtos e solenes, entramos, com a alma atenta à morte, ao espanto e ao destino. O carrasco passou, arrastando os pés, com o seu saco de ferramentas... Cada preso tremia, ao entrar para o seu túmulo numerado.

Por toda aquela noite, os fantasmas do medo povoaram os corredores vazios... Na cidade de ferro, de cima a baixo, sentiam-se passos furtivos, que se não podiam ouvir... Pelas grades de ferro, que ocultam as estrelas, rostos lívidos pareciam espiar curiosamente.

Só ele repousava, tal quem adormecesse, deitado sobre a macia relva de um prado, e alegremente sonhasse. Os guardas velavam-lhe o sono, e não compreendiam como é possível dormir tão sossegado, estando o carrasco tão perto.

Os que choram por quem jamais soube o que era chorar, esses não podem conciliar o sono... Por isso, nós outros, os desventurados, passamos em claro aquela noite de infindável angústia... Cada qual sofria mais cruciantemente, ao recordar a dor imensa que devia estar a torturá-lo...

Ah! é horrível padecer por outrem! O sofrimento retalha-nos a alma, cravando, até ao punho, a envenenada lâmina do seu gládio. Foram, então, como chumbo derretido as nossas lágrimas, vertidas pelo sangue que não derramamos. Na sua ronda noturna, calçados molemente de feltro, espiavam os guardas para dentro das enxovias, pelos postigos gradeados... Com olhar de espanto e pavor, avistavam aquelas fôrmas indecisas, genuflexas no chão... E interrogavam-se uns aos outros, como era que orávamos por quem jamais orara!...

Passamos toda a noite ajoelhados, em oração — dementes conduzindo o luto de um cadáver. As plumas agitadas pela noite, ondeando na sombra, eram como os penachos de um carro fúnebre. E o sabor do remorso era tal o de um vinho acérrimo, dado a beber por uma esponja.

Ouviu-se o canto dos galos, purpúreos ou cinzentos, mas a aurora não despontou. Nos ângulos da nossa prisão se agachavam os fantasmas oblíquos do Terror. Dir-se-ia que, cingido pelas trevas, cada qual doidejava nesse campo obscuro!

Passavam e repassavam... Deslizavam rapidamente, como viajantes em manhã de nevoeiro... Bailando, saltando, subindo, descendo, deslocando-se, fazendo mil contorções, cada qual mais sutil, fingiam os raios da lua, coando-se através da folhagem do arvoredo... Na cadência dos seus passos cerimoniosos, com trejeitos e esgares, vinham chegando ao mesmo ponto de reunião.

Com esgares e gestos funambulescos, vemo-los quais sombras impalpáveis, dando-se as mãos!... Girando, girando, em grande ronda fantástica, dançaram todos eles uma sarabanda... Os passos de dança desses arlequins do diabo tão floreados eram, tão caprichosos, que semelhavam os arabescos impressos pelo vento na areia.

Com piruetas de autômatos, dançavam agilmente os espectros. Soprando nas flautas do medo atordoavam-nos mais e mais, ao celebrar aquela horrenda mascarada... Cantavam ruidosamente, longamente cantavam, porque o faziam para despertar os mortos...

“Oh! Oh! — bradavam eles — o mundo é vasto, mas os homens coxeiam, sob grilhões. Se o jogo dos dados, uma vez por outra, é um recreio gentil, nunca espere ganhar quem se aparceira com o Pecado, no mistério do seu lupanar”.

Esses ridículos seres, que com tanta alegria pinoteavam, não eram de modo algum formas aéreas. Para nós, que tínhamos a existência acorrentada, e cujos pés não podiam caminhar em liberdade, ah! pelas chagas de Cristo! eram vivos e bem vivos, e de horrendo aspecto!...

Rodando... rodando... valsavam e redemoinhavam... Alguns, cheios de afetação, giravam aos pares... Outros, com a seriedade pretenciosa dos seus passos, galgavam as escadas. E todos eles, com finos sarcasmos e carinhosas olhadelas, chegavam a imiscuir-se nas nossas preces...

O vento da madrugada começou a gemer, mas a noite seguia o seu curso... Lenta... lentamente, fio a fio, uma a uma, até a última, as trevas urdiram todas as malhas do manto colossal... Enquanto orávamos, temíamos a justiça do sol!...

O vento gemedor veio errar em torno do presídio, até que, tal qual uma roda de aço a girar, sentimos os minutos penetrando-nos o ser. O vento gemedor, qual foi o nosso crime, para termos tal carcereiro?

Assim como se veem as coisas mais horrorosas, através do cristal de um sonho, vimos a corda de cânhamo pendente do pelourinho... E ouvimos o começo da prece, que o laço do carrasco abafou, num grande clamor...

A dor, abalando o condenado, foi tão grande que o fez soltar aquele angustiosíssimo grito. Ah! ninguém lhe conheceu tão bem, como eu, o remorso despedaçador e os suores de sangue. Porque lodo aquele, que vive mais de uma vida, também deve morrer mais de uma morte.

IV
No dia em que se executa um réu, não se diz missa no presídio. O sacerdote tem o coração enfermo, o rosto lívido e, em seus olhos, vê-se escrito o que ninguém deve ler...

Por esse motivo ficamos encarcerados até quase meio-dia. Quando o sino bateu, vieram os chaveiros abrir os cubículos, um por um, fazendo retinir as grandes e pesadas chaves. Antes de abrir, espiavam pelo orifício da fechadura... Então, cada qual saiu do inferno em que jazia sozinho, e todos descemos pesadamente as escadas de ferro...

Fora das masmorras, no pátio, respirávamos o bom e puro ar do Senhor. Não era, todavia, como costumávamos fazer nos demais dias... O rosto de um estava branco de medo; sombrio era o de outro. E eu nunca vi homens tristes contemplar tão intensamente a luz do dia!...

Nunca vi homens tristes, com tão intenso olhar, fitando assim a pequena tenda azul, que os prisioneiros chamam céu, e cada nuvem que no alto passava, indiferente na sua venturosa liberdade.

Alguns passavam cabisbaixos. Esses sabiam que, se cada qual sofresse a pena merecida, também eles deveriam morrer... O outro assassinara uma coisa viva, ao passo que eles haviam assassinado uma coisa morta...

A sombra dos varões de ferro, enxadrezados, projetou-se, enfim, na parede caiada, fronteira ao meu grabato. Ah! nesse momento eu soube que, em certo lugar do universo, a aurora do Senhor, em vez de loura e rosada, é cor de sangue e terrível.

Às seis horas da manhã varremos os nossos cubículos. Às sete, tudo repousava em sossego. Mas um sopro fremente de poderoso voo parecia agitar a prisão, como se um pássaro colossal tatalasse invisivelmente as grandes asas... É que a deusa sinistra da morte, de hálito glacial, nele havia penetrado para matar!...

O desgraçado passou... Não vestia púrpura deslumbrante nem cavalgava um ginete, alvo como o luar... Três metros de corda e um nó corredio — eis tudo quanto exige a forca.

Estávamos como alguém que, atascado num paul, caminhasse a esmo, tateando a sórdida escuridão. Não ousávamos balbuciar sequer uma prece, nem dar livre curso à nossa angústia. Alguma coisa jazia dentro de nós. Era a esperança.

A justiça humana segue direito seu caminho, sem dele se desviar uma única polegada... Ela tanto fere o forte, como o fraco... Sua marcha é implacável. .. Com o seu calcanhar de ferro, a monstruosa parricida esmaga o forte!...

Esperávamos que soassem oito horas. Tínhamos a língua espessa e ressequida. O bater das oito era o golpe do destino, que torna maldito um homem. E o destino emprega um nó bem corredio, tanto para o melhor como para o pior dos homens.

Nada mais tínhamos a fazer, que esperar pelo sinal anunciado. Semelhantes a rochedos fincados num vale deserto, ali estávamos quedos e mudos. Mas o nosso coração batia precipite, como um doido rufando um tambor.

De súbito, o relógio da prisão abalou o ar fremente... De todo o presídio elevou-se, então, uníssono gemido de impotente desespero, tal o grito que se escutasse, soltado por algum leproso no seu antro.

Quem peca pela segunda vez, desperta uma alma já morta para a dor, e arranca-lhe o sudário manchado, fazendo-a verter — mas em vão! — densas gotas de sangue.

Como sonâmbulos, caminhando inconscientemente, automaticamente, passeávamos na ponta dos pés, em volta do pátio acimentado. Caminhávamos silenciosos, em grande moda, e ninguém proferia uma palavra.

Rodávamos o pátio, em silêncio. Em cada cérebro vazio turbilhonava a memória das coisas horrendas, como um vento forte redemoinhando no ar... O pavor surgia em nossa frente, e sentíamos o terror coleando por traz de nós.

Os carcereiros pavoneavam-se, aqui e ali, guardando o seu rebanho de feras. Garbosos, ostentavam o fardamento novo dos domingos. Mas, pela cal viva grudada à sola das suas botas, bem sabíamos a que cerimonia haviam assistido.

No lugar em que fora aberta a cova, já nada mais se via. Denunciava-a, apenas, um montículo de terra e areia, junto ao horrendo muro da prisão, e um pouco de cal viva, para que o réprobo tivesse um sudário.

Aquele desventurado tem uma mortalha, como bem pouca gente pode desejar. Lá embaixo, bem no fundo do pátio de um Presídio, ele jaz, nu, completamente nu, para sua maior vergonha, envolto num lençol de chamas.

Pelo tempo adiante, a cal devorar-lhe-á a carne e os ossos. Durante a noite, roerá os ossos rijos; e, de dia, a carne tenra. A cal viva come sucessivamente carne e ossos. Mas, também, devora sem cessar o Coração.

Durante três longos anos, não se semeará, nem se plantará, naquele sítio. Durante três longos anos, o lugar maldito conservar-se-á estéril e limpo, fitando o Céu, pasmo, com um olhar sem reproche.

Os homens cuidam que o Coração do assassino corrompe qualquer semente, que sobre ele se plantar. Mas, não é exato. A benemérita Terra de Deus é mais generosa do que se pensa. Ali, naquele terreno, a rosa vermelha, mais vermelha ainda desabrocharia, e a rosa branca, mais branca, mais imaculada.

De sua boca nasceria, talvez, uma rosa encarnada, rubra, purpúrea. De seu Coração, outra brotaria, branca, alvíssima de neve. Quem poderá dizer de que maneira estranha Nosso Senhor Jesus Cristo manifesta Sua Santa Vontade, depois que se viu o cajado seco de humilde Peregrino florescer à vista dum grande Papa?!...

***

Mas, nem a rosa alvíssima de leite, nem a rosa escarlata, podem florir, respirando o ar duma masmorra. Ali, só pode haver seixos e pedras... Os Homens da Lei sabem que, muitas vezes, as flores têm acalmado o Desespero de um homem de coração simples...

Por isso, nunca, jamais, nem a rosa cor de vinho, nem a rosa cor de leite, cairão despetaladas sobre esse pedaço de terra e areia, junto ao muro do Presídio, para dizer às pessoas, que passarem pelo pátio, que o Filho de Deus morreu por todos nós.

***

Não obstante — mesmo morto e enterrado ele continuará ainda, como outrora, cercado pelos pavorosos muros da Prisão, e que ninguém venha chorar, ou rezar, por quem jaz em terreno tão ímpio:

O Miserável repousa em paz, ou em breve repousara. Nada há ali que possa amedrontá-lo. O Terror não passeia de dia, por aquele sítio, pois a Terra, sem claridade, em que ele descansa, não tem Sol, nem Lua.

Eles o enforcaram, como se enforca um animal! Nem sequer mandaram dobrar o sino, lugubremente, de modo a dar algum sossego à sua Alma aterrada!... Levaram-no precipitadamente, e trataram logo de ocultá-lo dentro dum buraco.

Despiram-lhe toda a roupa, e o abandonaram às moscas! Caçoaram da sua garganta entumecida e arroxeada, e dos seus olhos puros e fixos. Com grandes gargalhadas o envolveram no lençol com que costumam amortalhar os condenados.

O Capelão não se ajoelhou à beira desse tumulo infamado. Também não o assinalaram com a bendita Cruz que Jesus Cristo deu aos Pecadores, justamente porque o Morto era um daqueles, para cuja salvação Nosso Senhor baixou à Terra.

Tudo está perfeitamente bem. Ele transpôs as fronteiras conhecidas da Vida. Por ele, lagrimas de estranhos encherão a Urna da Piedade, há muito quebrada... A h! porque serão os Réprobos que hão de chorá-lo, e os Réprobos nunca deixam de chorar!...

V
Ignoro se a Lei tem, ou não, razão. A única coisa que nós, os Condenados, sabemos, é que os muros da Prisão são sólidos; e que, cada dia que se passa, é como se fosse um ano, mas um ano de longos dias infindáveis. Eu, porém, sei mais o seguinte: Todas as leis que os homens têm feito, desde o dia em que o primeiro dentre eles tirou a vida a seu irmão, e que o Mundo da Aflição começou, todas elas desperdiçam o que é bom, e só conservam o que não presta.

Sei ainda (Ah! como seria bom se todos pudessem também sabê-lo!) que, cada Prisão que se edifica, e construída com os tijolos da Infâmia, e cercada de férreos varões, com receio que Jesus Cristo veja como os homens mutilam seus próprios irmãos.

Por meio de grades, eles desfiguram a Lua graciosa, e cegam o bom Sol. E fazem muito bem em ocultar o seu Inferno, pois, lá dentro, ocorrem coisas que não deveriam de ser vistas, nem pelo Filho de Deus, nem pelos filhos dos homens.

As ações mais vis, à semelhança de ervas venenosas, espalham-se pelo ambiente da Prisão. Só o que o Homem tem de bom, é que ali se esgota, se aniquila. A pálida Angústia vela à porta. O carcereiro e o Desespero.

Porque eles amedrontam as crianças, fazem-nas sofrer fome, até que chorem noite e dia. Flagelam o Fraco; açoitam o Idiota; zombam dos Velhos cobertos de cãs. Alguns enlouquecem; todos se tornam piores; e ninguém pode murmurar sequer.

Cada estreito e escuro cubículo, que habitamos, é infecta e lôbrega sentina. O hálito fétido da Morte viva empesteia o respiradouro. Ali, tudo, exceto o Desejo, reduz-se a pó, na Máquina Humana.

A água salobra, que bebemos, vem cheia de nauseabundo limo; o pão, que pesam com meticuloso cuidado, é misturado com cal e gesso. Ali, o Sono nunca se deita: caminha com olhos esbugalhados, implorando o Tempo.

***

Apesar de se ver, constantemente, o magro Espectro da Fome e o lívido Fantasma da Sede, pouco caso se liga ao tratamento que dão no Presídio. O que gela e mata inteiramente, é que, cada pedra que levantamos durante o dia, à noite se transforma no nosso próprio Coração.

Com as sombras da Meia-Noite pairando eternamente no Coração, e o crepúsculo no cubículo, cada qual, no seu Inferno separado, desfia a corda alcatroada, que lhe dão por tarefa, e faz girar a roda... Então, o Silêncio amedronta mais que o som dos sinos de bronze!

Jamais voz humana alguma de nos se aproxima, para nos consolar com doces palavras. O olhar, que a todos os instantes espia pelo ralo, é impiedoso e duro. Esquecidos do resto do Mundo, apodrecemos, tendo o corpo e a Alma gastos.

Aviltados e sós, enferrujamos, desse modo, a cadeia de ferro da Existência. Alguns, proferem maldições; outros, choram; muitos não deixam escapar o menor gemido. Mas as Leis Eternas do Senhor são indulgentes, e partem o coração empedernido.

***

Cada Coração que se parte no pátio ou no cubículo duma Prisão, é como aquela caixinha quebrada, que deu o seu tesouro a Deus, e encheu a habitação do lazaro com os perfumes do nardo mais precioso.

Felizes aqueles cujos Corações podem partir-se e ganhar a paz do Perdão! De que maneira o Homem poderia executar o seu plano, e purificar a Alma do Pecado? Onde, senão num Coração partido, poderia Jesus Cristo penetrar?!...

***

O Homem de garganta entumecida e arroxeada, e de olhos puros e fixos, espera as Santas-Mãos que receberam o Bom-Ladrão no Paraíso. O Senhor não despreza o Coração partido e contrito.

Os Juízes concederam-lhe três semanas de vida, só três pequenas semanas, para que ele curasse a Alma do desacordo em que estava consigo mesma, e purificar da mais leve gota de sangue a mão que empunhou a arma homicida.

Com lágrimas de sangue, ele purificou-a — a mão que manejara o ferro. Só o sangue pode apagar o sangue. Só as lágrimas podem curar. E a mancha vermelha, que era de Caim, mudou-se no selo alvíssimo de Jesus.

VI
No Presídio de Reading, perto da cidade, existe um túmulo infamado. Dentro dele jaz um miserável, devorado pelas línguas das chamas, envolto num lençol ardente. Esse túmulo não tem inscrição alguma.

O Enforcado aí repousará, até que Jesus Cristo chame os Mortos, no Dia do Juízo Final. Não e preciso prodigalizar lágrimas, nem soltar suspiros abafados. O Homem matou a quem amava, e por isso teve que morrer.

No entanto, todo o mundo mata o que ama. Alguns (que ninguém deixe de sabê-lo!...) o fazem com um olhar de ódio; outros, por meio de palavras carinhosas, o covarde, com beijos; o homem corajoso, com um ferro.

12/08/2018

Oscar Wilde: o artista da alma (Aspectos Biográficos)


Oscar Wilde: o artista da alma

De Isabel de Aragônia, filha de um rei de Nápoles e de Ippolita Sforza, conta-se haver tido a existência tão cheia de sobressaltos e cortada de tais dissabores que sempre fazia acompanhar a sua assinatura nas cartas que escrevia da designação — “única em desgraça", — querendo com isso significar que a ela cabia o doloroso privilégio de ter sido a mais infeliz dentre todas as mulheres. 

A Oscar Wilde, melhor que a qualquer outro escritor, caberia o direito, nos últimos anos em que sobreviveu à condenação, de fazer suas as palavras do epíteto com que a si mesmo se crismara aquela desventurosa princesa.

O homem que sempre estivera preocupado com as belas altitudes e sonhara fazer da existência uma obra de arte, acabou obscuramente no vilipêndio e no martírio, exibindo pelas ruas da metrópole do mundo civilizado o seu espectro de galé recém-vindo do cárcere e a caricatura da sua elegância desmantelada. Não foi dado a esse Petrônio do século XIX acabar coroado de rosas, entre formosos braços femininos, ao som das cítaras, na ebriedade de um festim magnífico. Seu fim não se revestiu ao menos da beleza trágica que iluminou a última hora de alguns outros eleitos do espírito, como Pouskine sucumbindo na violência de um duelo, Chenier no cadafalso, Shelley nas ondas, Byron nas pugnas pela liberdade. De Wilde pode dizer-se que não morreu. Finou-se apagadamente na penumbra de um quarto ultramodesto de um hotel barato, abandonado pelo destino e pelos homens.


No banquete de Agatão ele teria tomado a palavra ao lado de Alcebíades e a confissão de sua psicopatia teria provocado, quando muito, o sorriso malicioso de alguns convivas. Mas a moral, ao tempo de Péricles, sob o céu radioso da Grécia, era muito diversa da do tempo da rainha Vitória, sob a umidade dos blacks-fegs londrisa. Esperemos, no entanto, que sobre a sepultura de Wilde floresça a rosa branca que vicejou sobre a cova do réprobo que ele viu enforcar no cárcere de Reading.
Ao tempo de seus triunfos mundanos, quando pisava as alcatifas dos palácios, ostentava cravos verdes na lapela, usava camafeus que haviam pertencido, segundo dizia ele, a múmias do Egito, fumava cigarros de ponta de ouro e esmaltava as frases que ouvidos ávidos escutavam, de todos os recamos, de todas as lantejoulas, de todas as pedrarias de uma imaginação poderosa, ao tempo em que as grandes damas nos salões dourados suspendiam o ritmo dos pesados leques de plumas para ouvir-lhe um paradoxo, Wilde proclamava-se pomposamente — o Rei da Vida. Esta não tardou em mostrar-lhe a facilidade com que destrona os soberanos e despedaça os tronos.
Paradoxal como Carlyle ou Rémy de Gourmont, cansado talvez de realizar em seus livros todas as audácias do pensamento e da frase, Oscar Wilde quis viver este paradoxo impossível: contrapor ao rígido formalismo da hipócrita moral britânica, intransigente nas questões de decoro, a exibição escandalosa de vícios que chocavam profundamente a austeridade superficial dos ingleses dissimulados.
A personalidade e a obra de Oscar Wilde ainda esperam o crítico imparcial e sereno que as julgue com mais perfeita segurança. Entre o livro manifestamente tendencioso de Alfredo Douglas e as apreciações quase sempre incondicionalmente encomiásticas de Roberto Ross, haverá lugar para um estudo severo e desapaixonado. Não será nunca demais assinalar que a desventura trouxe uma feição inteiramente nova para a obra do escritor inglês; a Bailada do Cárcere se Reading é o poema de suprema piedade, através do qual todos os homens confraternizam pela dor assim como o De Profundis é um evangelho de humildade suprema, a mea-culpa de um pecador que se reabilita pela contrição.
Alma cosmopolita, evocador admirável de civilizações extintas, Wilde sabia fazer resurgir com verdadeira mão de mestre os ambientes das tragédias e de muitos contos que escreveu, bem como a alma das personagens que neles tomaram parte. Em Salomé é o Oriente, com toda a sua fatalidade, a sua pompa, as suas superstições, as suas aberrações sexuais, as mortes violentas em torno da mesa dos banquetes, os pássaros de agouro que esvoaçam como um vento gelado... No Aniversário da Infanta é a Espanha de Carlos II, com o seu luxo sombrio, a sua pragmática inflexível mumificando a vida, contendo todos os impulsos, preocupada com os demônios e os auto-de-fé, trans formando o Escurial num palácio sinistro, onde os fantasmas se movem pesados de veludos, com punhos de renda e golas de cambraia. Na Tragédia Florentina é a Renascença do século décimo sexto com requintes de elegância e civilizações sutilíssimas, e sobre a qual paira ainda o espírito de Lourenço e de Maquiavel. É o tempo em que, no dizer sugestivo de um escritor, “depois de haver um homem golpeado a garganta de seu inimigo, numa betesga escura, dirige-se a uma vila suntuosa nas vizinhanças de Florença e aí discute tranquilamente, elegantemente, acerca da imortalidade da alma, como um sábio da academia platônica, em fato do risonho jardim da Toscana”.
É a época em que o Magnífico, na hora da morte, lastima não haver tido tempo para completar a sua biblioteca e em que o autor do Príncipe, sabedor do êxito da emboscada do Simigaglia, preparada por César Bórgia para colher nela desafetos seus, classificá-la de “il belíssimo inganno”.
No ataque de Gaeta, como relembra Lebey, Afonso o Magnânimo proíbe os seus soldados que empreguem na construção de fortificações pedras de uma vila que dizem haver pertencido à Cícero, Ficine escreveu três tratados sobre o sol, a luz e a volúpia e Nano Crossa no seu leito de morte pede que lhe tragam um outro crucifixo porque o que tem sob os seus olhos de agonizante é mal esculpido.
Há na alma da Renascença muita coisa da do Oriente, porém um Oriente mais requintado e polido pela cultura do ambiente mediterrâneo; a mesma luxúria, o mesmo sabor de sangue nas bordas da taça por onde se bebe o amor, mas tudo prestigiado pelo condão maravilhoso da Arte.
Aqui já se não morre, como no Oriente aos golpes brutais de toscas e grosseiras cimitarras, mas traspassado por finíssimos estoques em cujo punhos refulgem as pedras preciosas e cujas lâminas foram às vezes ilustradas pelo cinzel de gravadores insignes. A cólera já não se desencadeia à oriental, instantânea e flumínea, mas aguarda a cumplicidade da sombra e se compraz em preparar pacientemente a armadilha, ou confeccionar a peçonha. O ímpeto, o arremesso já são refreados; há uma disciplina das emoções. A vítima escolhida é instada com as palavras mais corteses ou carinhosas para comparecer à mesa de um suntuoso jantar, de onde se erguerá dentro em pouco com a morte nas entranhas, entre os sorrisos e as amabilidades do anfitrião. Na Tragédia Florentina, a par de todo o deslumbramento cênico, Wilde surpreende maravilhosamente a alma de Bianca e de Simone nas suas mutações imprevistas, até ao final da peça, cujas últimas frases de diálogo porque acaba são uma síntese admirável do espírito da Renascença. Guido Bardi, estrangulado, expira, encomendado a alma a Jesus Cristo, Bianca e Simoné encaram-se pasmados; ela pergunta-lhe porque lhe não dissera ele até então que era tão forte; ao que o marido lhe responde por uma outra pergunta: por que lhe não havia ela dito até aquele dia que era tão bela?... Toda a Renascença está nisto, efetivamente: no culto da Força e da Beleza, exercido entre os brocados, os damascos, as tapeçarias, os cristais e os embustes, a sensualidade complicada e refinada pelos jogos maravilhosos da imaginação e da inteligência.
Oscar Wilde, o homem que tão bem nos soube descrever todas essas elegâncias e magnificências, não podia sobreviver por muito tempo à pior de todas as misérias — a miséria moral.
A nós, que o amamos, só nos resta esperar que a beleza de sua obra e os milagres do esquecimento consigam delir de sobre sua memória a tacha de ignomínia com que uma pátria ingrata estigmatizou um de seus filhos ilustre.

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JORGE JOBIM
Revista Ilustração Brasileira, 25 de dezembro de 1922.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

9/24/2016

Esfinge sem segredo (Conto), de Oscar Wilde



 Esfinge sem segredo, de Oscar Wilde

Tradução publicada na "Revista da Semana", em sua edição de 22 de abril de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Achava-me, uma tarde, sentado no terraço do café da Paz, contemplando o luxo e as intimidades da vida parisiense.
Enquanto tomava um vermute entretinha-me a estudar, com curiosidade, aquele estranho desfile do orgulho e da miséria, quando ouvi que me chamavam por meu nome.
Voltei-me e deparei com lord Murchison.
Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivemos juntos no colégio, e isto fazia dez anos.
Assim é que me encantou aquele encontro.
Abraçamo-nos afetuosamente.
Em Oxford tínhamos sido muito amigos.
Eu o estimava muitíssimo.
Era tão bom, tão comunicativo, tão cavalheiresco! Dizíamos frequentemente, referindo-nos a ele, que seria o melhor rapaz do mundo sem a sua mania de dizer sempre a verdade; mas, realmente, creio que o admirávamos mais ainda pela sua franqueza.
Encontrei-o um pouco mudado.
Parecia inquieto, perturbado. Adivinhei que aquele estado não provinha do moderno ceticismo, porque Murchison era um dos conservadores mais intransigíveis, e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza que na Câmara dos Pares.
Deduzi que andava rabo de saia em tudo aquilo, e perguntei-lhe se tinha casado já.
— Ainda não compreendo bem as mulheres — respondeu.
— Meu caro Geraldo — disse-lhe eu — as mulheres foram feitas para ser amadas, e não para ser compreendidas.
— Eu não poderia amar sem ter absoluta confiança — replicou.
— Parece-me que você tem um mistério na vida, Geraldo. Conte-me, conte-me tudo.
— Vamos dar um passeio de carro — me respondeu. — Aqui há muita gente... Não, esse carro amarelo, não; qualquer um de outra cor. Olhe, esse, que é verde-escuro, nos convém.
E alguns minutos depois descíamos a trote pelo boulevard em direção à Madalena.
— Aonde vamos? — perguntei.
— Oh! Aonde você quiser; ao  restaurante do parque. Cearemos lá e você me contará coisas da sua vida.
— Primeiro quero ouvi-lo.
Conte-me seu mistério.
Tirou do bolso um porta-cartões de tafilete com fecho de prata e o estendeu a mim.
— Abre-o.
 Dentro havia um retrato de mulher.
Era alta e esbelta, de aspecto singular, com seus grandes olhos misteriosos e sua cabeleira esvoaçante. Tinha fisionomia magnetizada e estava envolta por luxuosas peles.
— Que diz você dessa cara?  — me perguntou. — Acaso inspira confiança?
Examinei-a atentamente.
Deu-me a impressão duma criatura que tem um segredo; porém o que não podia dizer era se aquele segredo era bom ou mau.
Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos; era realmente uma beleza psicológica, mais que plástica, e ademais o velado sorriso que flutuava sobre seus lábios era demasiado sutil para possuir verdadeiro encanto.
— Quê? — exclamou impaciente. — Que diz você?
— Que é a Gioconda de negro  — respondi. — Conte-me tudo o que a ela se refira.
— Agora não; depois da ceia.
E pusemos-nos a falar de outra coisa. Quando o garçom trouxe o café e os cigarros, lembrei a Geraldo sua promessa.
Levantou-se de sua cadeira e passeou durante alguns instantes pela sala.
Depois se acomodou numa poltrona e me contou a seguinte história:
— Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu por Road-Street.
Havia uma grande aglomeração de carros e o trânsito estava completamente impedido.
Encostado à calçada estava um " brougham" amarelo, que, não sei por que atraiu mil atenção.
Ao passar por ele vi assomar, para espiar, a cara que há pouco mostrei a você.
Fascinou-me instantaneamente.
Durante toda a noite não pensei em outra coisa, o mesmo acontecendo no dia seguinte.
Subi e desci várias vezes por aquela rua, ao longo daquela maldita fila, lançando um olhar furtivo dentro de todos os carros, esperando o " brougham" amarelo, mas não consegui descobrir minha "bela desconhecida", de modo que acabei por me convencer de que só a tinha visto em sonhos.
Uns oito dias depois ceei com madame de Rastail.
A ceia estava marcada para as oito, mas eram oito e meia e ainda estávamos no salão.
Súbito, o criado abriu a porta e anunciou: Lady Alroy.
Era a mulher a quem eu procurava.
Entrou andando muito devagar. Parecia um raio de luar com seu vestido gris, e tive imensa vontade de que me rogassem levá-la à mesa.
Quando nos sentamos, disse com a maior inocência do mundo:
— Parece-me, lady Alroy, tê-la visto ao passar por Road-Street há algum tempo.
Pôs-se muito pálida e disse-me em voz baixa:
— Não fale tão alto, suplico-lhe; poderiam ouvir-nos.
Senti-me infelicíssimo por ter tido tão mau começo, e me envolvi cegamente numa dissertação sobre o teatro francês.
Ela falava muito pouco, e sempre com a mesma voz baixa e musical. Dir-se-ia que tinha medo de ser ouvida por alguém.
Sentia-me apaixonadamente, estupidamente enamorado, e a indefinível atmosfera de mistério que a envolvia excitava minha curiosidade até mais não poder.
Quando se ia embora, o que fez quase em seguida à refeição, perguntei-lhe se podia visitá-la.
Vacilou um momento, olhou em redor de si para ver se havia alguém perto de nós, e depois me disse:
— Sim; amanhã, às cinco e quinze.
Pedi a madame de Rastail que me falasse dela, porém o único que pôde dizer-me foi que aquela senhora era viúva e que possuía uma linda casa em Park Lane.
E como naquele momento um palerma da classe dos cientistas iniciou uma dissertação acerca das viúvas, para manter a tese da supervivência das mais inte-ligentes, despedi-me e regressei, a minha casa.
No dia seguinte, à hora combinada em ponto, dirigi-me a Park Lane, porém o criado me disse que lady Alroy acabava de sair havia um instante.
Muito desiludido e intrigadíssimo, fui até o clube, e depois de muitas reflexões lhe escrevi uma carta, rogando me permitisse confiar em que outra vez seria mais afortunado.
A resposta demorou vários dias a chegar, mas por fim recebi um cartãozinho anunciando-me que estaria em sua casa no domingo, às quatro, cartão no qual havia esta extraordinária advertência:
"Não me escreva mais, par favor; explicar-lhe-ei o motivo quando nos virmos."
No domingo esteve encantadora, porém, ao despedir-me, disse-me que se alguma vez tornasse a escrever-lhe, o fizesse com estas indicações: "Mr. Wittaker, editor, Green Street, para entregar à senhora Knox".
— Razões particulares — ajuntou — me impedem de receber qualquer carta em minha própria casa.
Durante toda a temporada vi-a com frequência e sem que jamais deixasse de rodeá-la aquela, atmosfera de mistério.
Algumas vezes pensei que estaria em poder de algum homem, mas   parecia   tão   dificilmente atingível, que tive de abandonar essa hipótese.
Realmente, era-me quase impossível chegar a uma conclusão qualquer, pois aquela mulher se parecia a esses estranhos cristais expostos nos museus e que são transparentes umas vezes e embaciados outras.
Por fim, decidi-me a pedir sua mão; atacavam-me os nervos e cansavam-me as incessantes precauções que me impunha para tornar misteriosas minhas visitas e as poucas cartas que lhe dirigia.
Escrevi-lhe para a livraria, perguntando se podia receber-me na segunda-feira seguinte às seis horas.
Respondeu-me que sim, e aquilo me transportou de prazer até ao sétimo céu.
Estava loucamente apaixonado por ela, apesar do mistério, segundo acreditei então; porém, em realidade, eu agora o reconheço, por aquele próprio mistério.
Não, eu não amava nela a mulher.
O que me perturbava, o que me fazia perder a cabeça, era aquele mistério.
Por que o acaso me fez encontrar a pista?
— Então você tudo descobriu? — exclamei.
— Receio-o muito. Avalie por si mesmo. .
Chegada a segunda-feira, almocei com meu tio, e por volta das quatro horas estava em Marylebore Road.
Meu tio, como você sabe, mora em Regents Park.
Pretendia ir ao Piccadilly, e tomei o caminho mais curto, passando por uma infinidade de vielas de aspecto miserável.
Súbito vi frente a mim lady Alroy, embuçada com um véu espesso e andando muito depressa.
Quando chegou à última casa da rua subiu os degraus, tirou de seu bolso uma chave e entrou.
— Cá está o mistério — disse comigo mesmo, avançando rapidamente para ver o número e o aspecto da casa.
No último degrau havia um lenço que ela deixou cair; apanhei-o, guardando-o no bolso.
Então me pus a pensar o que deveria fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la; tomei um carro e fui para o clube.
Às seis apresentei-me em sua casa.
Encontrei-a estendida num sofá, em traje de chá, isto e, com vestido de fio de prata amarrado com uns broches dessas estranhas pedras lunares que usava sempre.
Esteve muito afável comigo.
— Tenho imenso prazer em vê-lo — disse-me. — Não saí em todo o dia.
Olhei-a estupefato, e tirando de meu bolso o lenço, entreguei-lho.
— Caiu-lhe esta tarde em Cummor Street, lady Alroy — disse-lhe com muita naturalidade.
Dirigiu-me um olhar de terror, mas não fez o menor gesto para tomar o lenço. 
__ Que ia fazer ali? — perguntei-lhe.
— Que direito tem o senhor de me interrogar?
— O direito de um homem que a ama — repliquei. — Vim para lhe pedir que seja minha esposa.
Escondeu o rosto entre as mãos, desfeita em pranto.
— Tem que me responder — insisti.
Levantou-se, e olhando-me frente a frente respondeu:
— Lord Murchison, nada tenho a dizer-lhe.
— Foi lá para se entrevistar com algum homem — exclamei.
— Esse é seu segredo.
Empalideceu atrozmente e contestou:
— Não fui ver pessoa alguma.
— Por que não me diz a verdade? — exclamei.
— Mas se já lha disse! — replicou.          
Eu estava louco, angustiado. Não sei o que lhe disse, mas deve ter sido algo de terrível.
Por fim, precipitei-me fora de sua casa. Escreveu-me no dia seguinte, mas devolvi-lhe a carta sem abrir. Parti para a Noruega com Alan Colville.
Regressei ao cabo dum mês, e a primeira coisa que vi no "Morning Post" foi a notícia da morte de lady Alroy.
Apanhou um resfriado ao sair da ópera, falecendo cinco dias após, de congestão pulmonar.
Fechei-me em casa e não quis ver ninguém.
Amei-a tanto, amava-a ainda tão perdidamente! Oh, Deus meu, como amei essa mulher!
— E você foi a essa rua, a essa casa? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu. — Um dia dirigi-me a Cummor Street. Não pude deixar de fazê-lo. Estava atormentado pela dúvida. Bati, e uma mulher de bom aspecto me abriu a porta.
Perguntei-lhe se tinha algum quarto para alugar.
— Ah, cavalheiro! — respondeu. — Creio que há um quarto para alugar, porém não vi mais a senhora que o tinha alugado há três meses, e embora os recibos continuem se acumulando é-me impossível alugá-lo.
— Refere-se a esta senhora? — perguntei-lhe, mostrando a fotografia.
— Sim, é ela; estou bem certa — exclamou.  — Quando voltará?
— Esta senhora morreu — respondi. 
— Oxalá não seja verdade! — disse a mulherzinha. — Era a melhor de minhas inquilinas. Pagava-me três guinéus por semana só para vir aqui de vez em quando.
— Recebia alguém aqui? — perguntei.
A mulher assegurou-me que não, que ia sempre sozinha e que não era vista com ninguém.
— Então, que diabo vinha fazer aqui? — exclamei.
— Pois, simplesmente para ficar na sala, cavalheiro. Lia livros, e alguns dias tomava chá — respondeu-me a mulher.
Eu não sabia que dizer. Dei-lhe um "soberano" e afastei-me.
— E agora, diga-me você, que significava tudo aquilo? Você não pensará que a mulher me disse a verdade.
— Pois eu creio que sim.
— Então, que ia lady Alroy fazer naquela casa?
— Meu caro Geraldo — respondi-lhe — lady Alroy era simplesmente uma mulher atacada da mania do mistério. Alugava esse quarto pelo prazer de ir a ele de véu posto e imaginar que era uma heroína. Sentia uma louca atração pelo mistério, embora fosse, simplesmente, uma esfinge sem segredo.
— Assim opina sinceramente?
— Estou convencido disso — respondi.
Lord Murchison tirou o porta-cartões de tafilete, abriu-o e ficou observando a fotografia.
— Pois eu continuo indagando a mim mesmo — disse finalmente.