domingo, 13 de janeiro de 2019

Emílio de Menezes e a sátira política na república (Resenha)


Emílio de Menezes e a sátira política na república

Durante quase os primeiros vinte anos da República, o sarcasta melhor avisado foi, certamente, Emílio de Menezes. Poeta de uma hilariante imaginação, frequentemente refrescada pela popularidade, tecendo sua obra de demolidor por entre anedotas vivas do tempo, — ele se alevantava como um verdadeiro espantalho nos meios políticos.

De boca em boca viviam suas famosas pilhérias, seus ditos mordazes, suas aceradas bufonices. Os ídolos do tempo, e os mais respeitáveis, ruíam ante o seu ataque anedótico, ou o seu epigrama ridicularizante. Tais candentes dardos perseguiam a vítima viva, “além-túmulo”: Emílio era famigerado nos epitáfios. Muitos deles, como de seu natural, eram de veia bocagiana, dourados com mostarda de Rabelais, e não vinham a público pela imprensa; mas circulavam com espantosa rapidez pelo contágio oral, onde a invencionice plebeia pode colaborar, e que lhes dá não sabemos que sabor de coisa proibida. Numa língua escorreita, crespa, acerado de dons poéticos de bons préstimos, possuindo a observação sagaz, Emílio não encontrava tropeço para expor a vítima em frisos cômicos, onde o leitor ou auditor logo encontrava a semelhança. E via, assim, a fidelidade de pintor satírico.

Naturalmente que o seu verso de perfeição parnasiana, de muito ajudava o êxito daquele rico anedotário.

Entre os seus similares no torvelinho do espírito, na verve, no trocadilho, Emílio de Menezes se destaca pelo improviso, pela espontaneidade, pelo instantâneo de encontro do ridículo, até mesmo nos momentos graves. Mas sua invectiva, às vezes, quando a paixão lhe acendia os fachos da acutilada, nada respeitava, dando de rijo, até que o inimigo se desse por vencido. É que em sua tradição espiritual teremos de encontrar a endiabrada veia dos grandes satíricos.

Foi assim o verdadeiro panfletário poético dos governos republicanos que vem de Rodrigues Alves até Wenceslau Brás. Durante quase vinte anos sua musa foi implacável no julgamento dos homens políticos, ou de relevo social. Vários de seus sonetos desse tempo, pequeninos quadros humorísticos de uma cintilante comicidade, vivem na memória ainda de seus contemporâneos. E talvez que para julgar com atmosfera certos homens, certos episódios do tempo, aquela colaboração seja hoje preciosa e indispensável. Longe dos fatos, desaparecidos os modelos, parece que a pintura de costumes, que ele historiou nos seus sonetos, ficou como parte viva daquele grupo social, que com maestria retratou.

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Revista "Ilustração Brasileira", novembro de 1939.

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