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5/22/2019

Monteiro Lobato: País de tavolagem - O grande mal: A pobreza



País de tavolagem: O grande mal — A pobreza

Quem olha d’alto para o nosso país apreende logo a causa última de todos os seus males: pobreza. No entanto vivemos a entoar loas às nossas fabulosas riquezas. Confundimos infantilmente riquezas com possibilidades.

O café de São Paulo é uma riqueza. As jazidas de ferro mineiras, uma possibilidade. Da confusão desses termos nasce a vesguice indígena.

O Brasil é pobre, e tirante as poucas regiões em que as possibilidades naturais foram realizadas é paupérrimo. E por ser pobre não consegue resolver nenhum dos seus problemas elementares.

Nada mais elementar que a instrução e a higiene. Se o Brasil é analfabeto e doente, consequência é isso exclusiva da sua pobreza. Nas zonas que se vão enriquecendo a instrução cresce por si, automaticamente, e o índice da saúde avulta.

Tomai um analfabeto do interior, doente de opilação. Instrui-o e curai-o. Depois largai dele, deixando-o entregue a si mesmo. Esse homem, vítima da pobreza, recairá em estado de doença; seus filhos, por falta de recursos, recairão no analfabetismo. A solução do seu caso falhou porque foi uma solução direta — e só as soluções indiretas resultam eficazes.

Aplicai a solução indireta, enriquecei-o. Que acontece? Automaticamente esse homem tratará de curar-se e, como tem meios, não se reinfectará jamais. Seus filhos ele os educará, porque o primeiro pensamento de um pai, quando resolve o seu problema econômico, é dar aos filhos uma instrução mais alta do que a que teve.

E de quantidade negativa passa esse homem a quantidade positiva, na economia social.

Vejamos o inverso. Lançai na miséria um homem culto. A primeira consequência será a perda da saúde: a segunda será o regresso da sua prole a um nível de instrução inferior ao seu. Em pouco tempo estará criado um valor negativo para o progresso social.

É evidente, pois, que só uma solução existe para todos os problemas nacionais: a indireta, a solução econômica. Só a riqueza traz instrução e saúde, como só ela traz ordem, moralidade, boa política, justiça.

— Enriquecei-vos! deve ser a senha dos nossos estadistas. 

Mas para que um povo possa enriquecer é preciso que o Estado crie um regime de estabilidade, visto como a riqueza não passa do lento acúmulo dos bens filhos do trabalho. Este acúmulo, sedimentação que é, só se opera quando há estabilidade. Em águas agitadas não se formam depósitos. Estabilidade na ordem social pela paz, e na ordem econômica pela ausência de oscilações dos valores. Um país eternamente convulsionado pelas revoltas não pode enriquecer: a guerra desfaz. Também não pode enriquecer-se um país eternamente convulsionado pelas bruscas oscilações dos valores: a crise desfaz. Um país nessas condições passa a vida nesse trabalho de Sísifo, a fazer e a desfazer — permanecendo na desordem e na pobreza.

O dever primeiro dos estadistas é pois criar condições adequadas ao enriquecimento do país, caminho único que leva à ordem social, à cultura, à higidez.

Mas como pode o Estado criar estas condições, se tudo depende da operosidade dos indivíduos? Da maneira mais simples: não criando obstáculos a essa operosidade. Os grandes homens de Estado não são os que reformam: são os que tiram do caminho os embaraços com que a má-fé, o espírito de parasitismo e a estupidez embaraçam os movimentos do povo.

Logo, está nas mãos dos homens de governo promover ou retardar o progresso de uma nação. 

Dentre os embaraços que a estupidez cria há um que avulta sobre todos os demais: o que resulta da incompreensão da vida econômica. Esse embaraço é mortal, porque deflete para todos os rumos e vai afetar a vida do povo até no que aparentemente nada tem que ver com a economia, como é a sua moral.

A vida do homem moderno se resume num perpétuo jogo de compra e venda. Todos compram e todos vendem, desde que o sol nasce até que a luz dos lampiões se acenda.

O operário vende seu labor e compra mercadorias. O patrão compra trabalho e vende o produto dele. Se vender e comprar é a ocupação permanente dos homens, quer isso dizer que a vida gira em torno do valor.

O jogo dos valores, pois, cria o ritmo da vida, e tanto menos oscilam eles, tanto mais em segurança se sente o homem, tanto mais feliz, tanto mais animado de espírito criador. Vem daí que a estabilidade dos valores é tão necessária para o bom funcionamento do organismo social como a estabilidade do clima o é para o bom funcionamento do organismo animal.

Se o trabalho se desvaloriza, sofre o trabalhador. Se oscila o valor dos produtos, sofre o industrial. O ideal seria uma estabilidade completa: como, porém, o valor está em função de uma férrea lei econômica, qual seja a da oferta e da procura, não é possível atingir esse ideal absoluto.

Temos que nos contentar com o possível, isto é, com a oscilação reduzida ao mínimo. Este oscilar mínimo é perfeitamente suportado pelo homem e dentro da sua órbita um povo pode prosperar indefinidamente. 

Para o jogo dos valores, entretanto, há necessidade da adoção de uma medida. Ninguém pode comprar ou vender sem medir o valor. Essa medida é a moeda. Mas, medida que é, a moeda não pode variar. Moeda que varia é coisa tão absurda como um litro que mudasse, um metro que ora tivesse 50 centímetros ora 100, um quilo sujeito a câmbio, hoje valendo 700 gramas, amanhã 650.

Logo, a primeira coisa que um estadista tem que criar é uma medida de valor que o seja, que não varie, que não seja elástica. Porque assim fazendo removerá da vida do povo o embaraço maior de todos, o obstáculo que jamais permitirá que esse povo acumule riqueza.

A experiência da humanidade resolveu o problema da medida do valor com a adoção do ouro. As coisas valem em relação ao ouro, ele não vale em relação a coisa nenhuma, visto que é o padrão.

E todos os povos se foram passando ao regime do padrão ouro, único que provou bem de quantos experimentados. E sob o seu regime erigiu-se a economia moderna e possibilizou-se o comércio internacional. O sonho da língua única para todos os povos foi precedido pela unicidade do padrão monetário. E ficou axiomático: o metro do valor é o ouro.

Para comodidade das transações inventou-se a moeda papel; em vez de circular o ouro, que é pesado e incômodo, circularia uma cédula do Tesouro, um vale contra a caixa. O portador, no momento em que o desejasse, trocaria esse cheque por metal. Isto vinha resolver com rara felicidade os problemas determinados pelos inconvenientes da circulação manual metálica.

Mas há povos trapaceiros, ou melhor, povos guiados por estadistas trapaceiros. Estes piratões imaginaram uma falcatrua que fez época, deu resultados aparentes e por fim arrastou os países à ruína.

Essa falcatrua era fazer em ponto grande o que os moedeiros falsos fazem em pequeno. Era substituir a moeda papel por papel moeda. Era mentir no cheque dizendo: “No Tesouro Nacional se pagará ao portador desta a quantia de tanto”, e não pagar coisa nenhuma, ou pagar menos que o valor especificado nos lindos algarismos de bela gravação em aço. 

O Brasil teve a desgraça de enveredar por este caminho. Passou à categoria de povo trapaceiro e ingênuo. Os povos sérios, de moeda honesta, olharam-no de soslaio, riram-se do pobre bugre e começaram a fazer preço cada vez mais irrisório para as suas cédulas do Tesouro. Para cada mil réis, para cada milhão de réis com que procurávamos deslumbrar os povos sérios, eles nos ofereciam ora um shilling, ora um pedacinho de shilling, ao sabor de um termômetro que o brasileiro não tira diante dos olhos, chamado câmbio sem que o bugre saiba por que.

Os males que a camuflagem da moeda causaram ao nosso povo não têm conta. O primeiro foi relegá-lo à categoria dos desonestos e chamar para nós o desprezo universal. O segundo foi impedir que nos enriquecêssemos. O terceiro foi impedir que, em virtude da miséria crônica, pudéssemos resolver os nossos problemas internos, a principiar pelo da instrução.

Nossa vida se transformou em pura jogatina. Ninguém sabe quanto possui. O negociante que faz um pedido para o exterior não tem base para calcular o quanto vai pagar pela mercadoria quando a tiver na alfândega. Os governos, quer da União, quer dos Estados, não têm base para organizar um orçamento de receita. O serviço das dívidas pode absorver 50 mil contos, como pode absorver 100. E o Brasil se transformou numa casa de tavolagem onde todos, queiram ou não, se veem forçados a jogar.

Herbert Casson tem um livro em que prova que o negócio é uma ciência, regida por axiomas e leis tão duras como as leis naturais. Esses axiomas, entretanto, falham no Brasil. Para deduzi-lo Casson estudou a vida comercial dos povos de moeda ouro. Está claro, pois, que não valem para um país cuja moeda nunca foi moeda, e sim vergonhoso conto do vigário. De modo que aqui em vez de ciência, o negócio é um jogo.

Além do estado de pobreza que o uso do “paco” nos acarreta, não têm conta os seus funestos reflexos no caráter nacional. A sífilis monetária não deixa célula do organismo sem infecção — nem sequer as células da matéria cinzenta do cérebro.

No entanto vivemos nesta lazeira sem dar por ela, com uma resignação de árabe na kabila. As crises se sucedem, e o brasileiro olha para o céu, consulta cartomantes, faz promessas a Santo Antônio. E todos os dias corre ao jornal para ver o câmbio — isto é, para ver quanto os outros povos entendem de nos dar pelo nosso ridículo mil réis...

Crise significa ruptura de um estado de equilíbrio econômico seguida de convulsões para o encontro dum equilíbrio novo. As oscilações da nossa moeda determinam um rosário de crises sem fim, funestíssimas. Se a temperatura do Rio oscilasse diariamente de 40 graus a 10, que organismo resistiria ao desequilíbrio resultante? Nenhum. No entanto é num regime idêntico que o nosso país vive em matéria econômica.


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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

3/03/2019

Fernando Pessoa e Lisboa



Fernando Pessoa e Lisboa

Fernando Pessoa, que foi uma das mais eminentes luzes da verdadeira "literatura moderna" de Portugal, conta hoje entre os intelectuais lusitanos um prestígio que cresce de dia para dia, através de estudos interpretativos de seus poemas e de escorços e análises de sua singular personalidade.

Nascido a 13 de junho de 1888, morreria em plena maturidade de seu espírito multiforme, a 30 de novembro de 1935 — e seria um dedicado cantor de sua cidade de Lisboa, sobre a qual escrevia em 1923.

... Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete.

No aniversário da morte do poeta, Carlos Queiroz, o delicado lírico do "Desaparecido", dedicou comovido artigo a Fernando Pessoa no "Diário de Lisboa", lembrando as emocionadas notas pessoais de sua poesia metropolitana.

"Lisbon Revisited", foi como chamou a esse poemeto, que assinou com o "heterônimo" de Álvaro de Campos. Três anos depois, noutra poesia a que deu o mesmo titulo: "...Outra vez te revejo — Cidade da minha infância pavorosamente perdida... — Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui..."

Bernardo Soares (outro heterônimo de Fernando Pessoa), descrevia em prosa, frequentemente, o que os seus olhos de poeta viam — e amavam — nas ruas da cidade baixa; e estava tão integrada nelas a sua "vida" que sempre acrescentava à assinatura dos seus escritos: — "ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa". Mas já em 1915, a "Ode triunfal" e a "Ode marítima" tiveram por cenário — e, certamente, por fonte — o lugar onde o poeta as concebeu e realizou. Lendo os versos finais da segunda destas odes em que ele canta a partida de um pequeno vapor, quem não vê, com maior nitidez do que num filme colorido, um dos mais pitorescos trechos de Lisboa?


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Revista "Vamos Ler!", 7 de abril de 1938.
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

1/13/2019

Emílio de Menezes: O grande satírico


O grande satírico
Não há quem não conheça, quem não aprecie as sátiras de Emílio de Menezes, aquele poeta e literato boêmio, grandão e gordalhão, que faz coisa de trinta ou quarenta anos, era a tesoura mais afiada, a língua mais viperina desta cidade.

Naqueles bons tempos podia o Rio ufanar-se de possuir um grupo de intelectuais muito interessante, grupo que se reunia à tarde na Colombo, na Pasqual, no Café Papagaio e alhures, e ali ficava horas a fio a tesourar a blaguear e a bebericar até à hora do jantar.

Desse grupo faziam parte o grande Olavo Bilac, o seu inseparável companheiro Guimarães Passos, o jovial Bastos Tigre, o impagável Luís Edmundo, o venenoso Leal de Sousa e muitos outros rapazes cultos, inteligentes, alegres e folgazões.

Sucede que, às vezes, Emílio chegava atrasado à reunião. Demorava-se em palestra com conhecidos que encontrava na Garnier, na Livraria Alves, nas calçadas Avenida ou em outros lugares. Quando isso acontecia, logo se lhe notava a ausência. O grupo não era o mesmo. Não possuía aquela vivacidade, aquele brilho, aquela alacridade costumeira, porque Emílio, não obstante fazerem parte do grupo vários poetas, literatos espirituosos, alegres e blagueurs, era o grande espetáculo, a “bola”, o dono da roda.

Muitas vezes — era eu então adolescente — vi-o subir a escada da Redação (que ficava num sobrado da Rua da Assembleia), e perguntar na Caixa, de onde se dominava os últimos degraus da escada:

— Ó Macedo, está aí o Schmidt?

Seu Macedo esboçava largo sorriso e, curvando-se exageradamente, respondia:

— Está, pode entrar.

Emílio subia então os últimos degraus e entrava na Redação.

Jorge Schmidt gostava loucamente de anedotas. Afirmava que não conhecia coisa melhor na vida do que “soltar uma boa gargalhada”.

Ainda me recordo de que, certa vez, Emílio escrevera um artigo engraçadíssimo, desses que fazem rir até às lágrimas, no qual visava certo amigo do fundador de “Careta”. Depois de o ouvir e rir à bandeira despregada, Schmidt apôs a chancela ao original e o mandou à composição, dizendo:

— Artigo deste quilate vale mais do que um amigo!...

Quando o nosso ex-diretor avistava o boêmio portas adentro, sorria contente e exclamava:

— Vem cá, canalha! Qual é a “boa” que traz hoje?

Emílio, cercado do pessoal da Redação, que lhe bebia as palavras como se fossem licor, contava a última.

As anedotas do Emílio eram sempre engraçadas e por isso faziam explodir os redatores em gargalhadas.

Emílio ia sempre levá-las a Schmidt, que as comprava, pagando generosamente. Depois de cada uma, Schmidt comentava:

— Esta não é das melhores. Enfim. Ó Macedo, pague por esta vinte mil réis.

Outras vezes, dizia:

— Esta é muito boa! Macedo, pague cinquenta!

Não era raro, entretanto, e muitas vezes o ouvi, depois de rir-se até não poder mais, dizer para o Caixa:

— Esta é “formidável”! Macedo, pague-lhe cem.

Emílio, que andava sempre “pronto”, metia a “gaita” no bolso e prosseguia:

— Agora tenho outra, que é daqui (e apertava a pontinha da orelha).

Mas, Schmidt interrompia:

— Não, não, deixe para a outra vez. Deixe-me “digerir” bem a primeira. Além disso, se você continuar aqui, eu acabo arruinado!

 Emílio, então, dizia ao seu interlocutor:

— Está muito bem, mas amanhã volto, hein!

E descia a escada, alegre, risonho e contente, rumo à Colombo ou à Pasqual.

A chegada de Emílio era sempre saudada com alguma piada ou chiste vindo dos companheiros, à guisa de desafio. O boêmio nunca deixou de retrucar, sempre vantajosamente. Uma única vez soube que havia “embatucado”. Foi quando, ao apresentar aos companheiros um médico que o havia acompanhado até ali, o fez nestes termos:

— Apresento-lhes aqui Fulano de Tal, meu amigo, que é competente veterinário.

O médico retrucou:

— Ele diz isso, porque, de tempos a esta parte, passou a tratar-se comigo...

Schmidt algumas vezes reunia, na sua bela vivenda do Alto da Boa Vista, aquele grupo de literatos, que levava a jantar. Várias vezes ali se reuniram Emílio, Bastos Tigre, Alcides Maia, Luís Edmundo, Aníbal Teófilo, Goulart de Andrade, Olegário Mariano, Leal de Sousa, Garcia Margiocco e outros, para a tertúlia gastro-literária. Comia-se, bebia-se e ria-se até saciar.

Certa vez Emílio apareceu na Redação para a costumeira anedota. Virando-se para Schmidt, disse:

— Tenho horror a ser convidado para jantar na casa de qualquer um. Imagine você que, no outro dia, fui chamado para o jantar em casa de certa família, dessas que mostram grande empenho em cultivar relações com intelectuais. Que gente prosaica! Que gente “pau”! Por fim, insistiram em saber meu pensar a respeito da reunião.

— Que foi que lhes disseste, Emílio?

— Disse-lhes que, se a sopa estivesse tão quente quanto o vinho; se o vinho fosse tão velho quanto a galinha e se a galinha fosse tão gorda quanto a dona da casa, teria sido maravilhoso o jantar.

— Macedo, pague por esta duzentos mil réis!


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BOB
Revista "Careta", 12 de janeiro de 1952.

Emílio de Menezes e a sátira política na república (Resenha)


Emílio de Menezes e a sátira política na república

Durante quase os primeiros vinte anos da República, o sarcasta melhor avisado foi, certamente, Emílio de Menezes. Poeta de uma hilariante imaginação, frequentemente refrescada pela popularidade, tecendo sua obra de demolidor por entre anedotas vivas do tempo, — ele se alevantava como um verdadeiro espantalho nos meios políticos.

De boca em boca viviam suas famosas pilhérias, seus ditos mordazes, suas aceradas bufonices. Os ídolos do tempo, e os mais respeitáveis, ruíam ante o seu ataque anedótico, ou o seu epigrama ridicularizante. Tais candentes dardos perseguiam a vítima viva, “além-túmulo”: Emílio era famigerado nos epitáfios. Muitos deles, como de seu natural, eram de veia bocagiana, dourados com mostarda de Rabelais, e não vinham a público pela imprensa; mas circulavam com espantosa rapidez pelo contágio oral, onde a invencionice plebeia pode colaborar, e que lhes dá não sabemos que sabor de coisa proibida. Numa língua escorreita, crespa, acerado de dons poéticos de bons préstimos, possuindo a observação sagaz, Emílio não encontrava tropeço para expor a vítima em frisos cômicos, onde o leitor ou auditor logo encontrava a semelhança. E via, assim, a fidelidade de pintor satírico.

Naturalmente que o seu verso de perfeição parnasiana, de muito ajudava o êxito daquele rico anedotário.

Entre os seus similares no torvelinho do espírito, na verve, no trocadilho, Emílio de Menezes se destaca pelo improviso, pela espontaneidade, pelo instantâneo de encontro do ridículo, até mesmo nos momentos graves. Mas sua invectiva, às vezes, quando a paixão lhe acendia os fachos da acutilada, nada respeitava, dando de rijo, até que o inimigo se desse por vencido. É que em sua tradição espiritual teremos de encontrar a endiabrada veia dos grandes satíricos.

Foi assim o verdadeiro panfletário poético dos governos republicanos que vem de Rodrigues Alves até Wenceslau Brás. Durante quase vinte anos sua musa foi implacável no julgamento dos homens políticos, ou de relevo social. Vários de seus sonetos desse tempo, pequeninos quadros humorísticos de uma cintilante comicidade, vivem na memória ainda de seus contemporâneos. E talvez que para julgar com atmosfera certos homens, certos episódios do tempo, aquela colaboração seja hoje preciosa e indispensável. Longe dos fatos, desaparecidos os modelos, parece que a pintura de costumes, que ele historiou nos seus sonetos, ficou como parte viva daquele grupo social, que com maestria retratou.

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Revista "Ilustração Brasileira", novembro de 1939.

Emílio de Menezes, o iconoclasta



Emílio de Menezes, o iconoclasta

Emílio de Menezes foi um dos grandes poetas de que se orgulha o Brasil. Nenhum outro da sua geração o excedeu no cuidado de burilar o verso. A sua arte tem pompa, majestade e beleza. Os seus sonetos, de uma forma impecável, representam uma das expressões mais altas da escola parnasiana. Muitos deles, pela nobreza do pensamento, sempre luminoso, alto e engastados em rimas raras e ricas, lembram os dos Troféus de Herédia, como, por exemplo, Helianto e Roman. Todavia, este poeta, de raro valor artístico, é quase ignorado do Brasil. Nenhuma de suas poesias, ao que me conste, figura em páginas de antologias adotadas nos nossos estabelecimentos de ensino. Este Emílio é admirado e amado por um número limitadíssimo dos nossos intelectuais. Em compensação, porém, é vastamente conhecido o Emílio das quadrinhas brejeiras, dos epitáfios e dos sonetos irreverentes consagrados ao “vira bosta da pedagogia”, ao “frango assado de confeitaria", à “cara de tílburi cansado”, e tantos outros.

Quando ele se viu sozinho
Da cova na escuridão,
Surripiou de mansinho
Os dourados do caixão.

As suas sátiras, à feição das de Gregório de Matos, eram tão ferinas quanto as suas piadas, das quais pingavam quase sempre, fel e veneno. Satírico, iconoclasta, tremendo, terrível, demolidor, endiabrado — o divino poeta Emílio de Menezes.

Seleciono, ao acaso, algumas das piadas desse arrasador, que nitidamente o caracterizam.

Era pelo tempo em que Emílio assinava diariamente nas Confeitarias Pascoal e Colombo. A Colombo foi o cenáculo em que todas as tardes, um grupo admirável de boêmios desperdiçava talento, arrancado do cérebro, atirando-o à voragem das coisas que o tempo leva, ouro do melhor quilate.

Está formada a roda a Confeitaria da Rua Gonçalves Dias. Rosna-se por aí que vai sofrer alterações a nossa Bandeira, e, por falar em bandeira:

— Vocês sabem? O Bandeira Júnior está atacado de febre, há vários dias...

 — A febre do Bandeira é mal de nascença.

— Como?

— É febre de mau caráter...

***

 Vinha sendo notada, desde algum tempo, a ausência do Guimarães Passos.

— Pois vocês não sabiam que o Guimarães está acamado já há algum tempo? E Emílio diz:

— Esse não gasta dinheiro com médico, nem medicamentos.

— Por quê? E Emílio observa:

— Pois ele não é autor de um “Tratado de ver se fica são"?

***

Nem Rui Barbosa, o grande e glorioso Rui, escapou das arranhaduras do vate sarcástico.

Uma tarde reunido o grupo na Colombo, eis que chega o Rocha Alazão, o Rocha “facada”, o Rocha “mentiras”, e, com a fisionomia compungida, que ele sabia arranjar para as horas trágicas, informou:

— O Rui está enfermo, e dizem que com certa gravidade.

O Emílio exclama:

— O Rui sofre de mal crônico e incurável; sofre de “catetite” aguda...

***

Agora na Pascoal.

Comentava-se, de uma feita, uma crônica publicada na “Gazeta de Noticias” e assinada por um nome completamente desconhecido nas rodas literárias.

— E que tal a colaboração atual da folha de Ferreira de Araujo?

— De primeiríssima: Eça de Queirós, Machado de Assis, Olavo Bilac, Valentim Magalhães, Guimarães Passos, Pardal Malet...

— E o Pardal escreve bem?

E Emílio intervém:

— O Pardal mal lê...

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Revista "O Malho",  julho de 1948.

10/07/2018

Um poeta singular (Bernardino Lopes)


Um poeta singular

A vida, a obra, a sensibilidade e a natureza desse estranho e harmonioso poeta, que foi B. Lopes, tiveram, agora, no livro de Renato de Lacerda — “Um poeta singular”, a glorificação e o estudo, que estava a merecer, por tantos títulos, o autor de Brasões. 

B. Lopes, fluminense de Rio Bonito, cujo berço foi o arraial de Boa Esperança, hoje Imbiara, figura, realmente, entre os mais espontâneos poetas de nossa terra, pela riqueza do estro, pela simplicidade das imagens, pelas atitudes despretensiosas, com que sempre se apresentou no tumulto das vaidades intelectuais. 

Seus Cromos, de sedutora e maviosa singeleza, refletem a vida bucólica da aldeia natal do poeta, cuja natureza verde e cujos ingênuos costumes rurais inspiraram esses versos cheios de colorido e de beleza, que são verdadeiras pinturas em sonetos, com o perfume agreste das paisagens e o encanto dos hábitos de Boa Esperança, onde, a 19 de janeiro de 1859, nasceu Bernardino da Costa Lopes, pobre de dinheiro, mas rico de talento. 

Leiamos um desses deliciosos "cromos”, que enriquecem e ilustram tantas antologias, e que Renato de Lacerda transcreve em seu livro: 

Amanhecera. O tropeiro 
passa, cantando, na estrada; 
no seu casebre o roceiro 
Prepara as foices e a enxada.

Ao rumor a luz casada 
enche de vida o terreiro; 
parecem bruma cerrada 
as flores, lá! do espinheiro... 

Aspira-se o olor suave 
do bom café... Alto e grave 
bate o pilão nas cozinhas. 

Há, junto à horta, uns barrancos, 
onde a mulher, de tamancos, 
distribui milho às galinhas.

Renato de Lacerda, cuja modéstia no consegue encobrir seu valor literário, de ensaísta e poeta, presta, com “Um poeta singular”, um grande serviço às letras brasileiras, à nossa história literária e à sua fecunda e gloriosa terra fluminense, onde já brotaram tantos frutos opimos da mentalidade brasileira.

Revista Fon-Fon, 8 de outubro de 1949.
Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)