domingo, 3 de fevereiro de 2019

Estalo Iluminativo (Conto), de Iba Mendes



Estalo Iluminativo
Desde que perdeu a companheira num grave acidente de automóvel, ficou assim com ar de velho filósofo e introspectivo.
Passava a maior parte do tempo lendo os escritores russos, especialmente Leon Tolstoi, do qual já tinha lido todas as traduções para o idioma português, inclusive por duas vezes o clássico “Guerra e Paz”.
Raramente era visto conversando com alguém, e quando o fazia, esforçava-se para não falar de si próprio.
Tencionava escrever um livro, um romance ambientado no século XVIII. Disse-me, certa vez, que apenas aguardava o "estalo iluminativo" para dar o pontapé inicial ao seu ambicioso projeto literário.
Acerca do tal "estalo iluminativo", explicou-me ele que seria o momento propício, e que tal conceito não estava sujeito à sua própria vontade, acrescentando ainda que não poderia ser traduzido em palavras.
Antes do falecimento da mulher era ele uma outra pessoa, o tipo a quem se pode de fato atribuir o rótulo de “popular”, um frequentador contumaz de botecos e um grande apreciador dos destilados, especialmente o bom vinho aguardentado Vermute.
Não se sabe exatamente se a metamorfose porque passou fora consequência da dor pela perda da esposa ou se o simples resultado de ponderações filosóficas que fizera acerca da morte e da vida. Essa incerteza recaía no fato de ter ele vivido um relacionamento deveras conturbado, em contínuas brigas e até uma separação prolongada de dez meses. Acrescente-se a isto o inusitado flagrante, no qual fora visto, uma semana após o óbito da mulher, com uma morena de encantador requebro.
Atualmente vive dos aluguéis de três casas herdadas da família. Antes era funcionário público concursado, trabalhando como escriturário numa das repartições do Estado, até o falecimento do pai.
Mora numa casa simples de um modesto bairro da cidade, porém muito bem cuidada e elegantemente mobiliada. Visitas por lá geralmente só em datas especiais, como no Natal, quando dá estadia a uns parentes vindos lá do Rio Grande do Norte.
Há alguns dias encontrei-o num ônibus. Ia ao médico. Sofria de gastrite nervosa e tinha frequentes crises de renite alérgica. Conversamos pouco. Perguntei-lhe se tinha intenção de contrair um novo matrimônio, ao que respondeu que sim, mas não por hora.
— Ainda aguardo aquele "estalo iluminativo" — disse-me com certo tom de galhofa.
Convidei-o para almoçar no próximo domingo em minha casa. Não houve qualquer evasiva. Aceitou de pronto o convite. Despedimo-nos.
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Não veio ao almoço. Ligou-me para pedir desculpas e para justificar as razões da ausência. Dizia que estava preso a um relevante projeto. Indaguei-lhe então se se tratava daquele romance. Sorrindo, disse que sim, que se tratava de um “romance”.
É o “estalo iluminativo”! pensei intrigado.
Equivoquei-me. Era o casamento do nosso filósofo com uma senhora de origem russa, viúva e vinte anos mais velha do que ele. Amanhã seguirão de lua de mel para Moscou.

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