domingo, 3 de fevereiro de 2019

O sobrado azul (Conto), de Iba Mendes


O sobrado azul

Naquele dia não chegou à casa no horário habitual. Em sete anos de casado nunca acontecera de se atrasar tanto. A mulher já estava nos nervos, aflita e tomada por pressentimentos ruins. O celular não atendia, e na empresa afiançaram que ele havia saído no horário costumeiro.


Chegou espavorido, como se viera correndo ou como se estivesse fugindo de algum fantasma. Entrou e, como nunca havia feito antes, abraçou afetuosamente a mulher, beijando-a na boca. Explicou que o ônibus havia quebrado e que precisou esperar outro, o qual demorou muito para passar. Quanto ao celular, justificou que a bateria havia descarregado e que essa era a razão porque não atendera o telefonema.
Consolada, ela não quis ouvir mais nada. Foi à cozinha, preparou-lhe um pouco de água de melissa e o acarinhou com outro beijo na boca. Em seguida, dirigiram-se ao quarto. Era sexta-feira. Teve amor e brigadeiros.
Uma semana depois a cena repetiu-se: o atraso, o assombro no olhar e as mesmas desculpas... Daí em diante a coisa ganhou status de rotina, e ela já não se preocupava mais, nem ele aventava mais qualquer pretexto, mantendo-se calado em casa no escasso tempo em que ali ficava.
Correram assim as coisas durante uns seis meses, quando enfim, a mulher, que já não suportava mais a incômoda situação, deliberou ela mesma investigar o caso.
Num ponto de ônibus localizado próximo à empresa em que ele trabalhava, infiltrou-se ela entre as gentes que ali se aglomeravam e por lá permaneceu até que se findou o expediente. O marido saiu meio desconfiado, olhando a um e outro lado, como se tivesse procurando algo ou alguém. Acelerou os passos em direção a uma rua, e ela o seguia ao longe, despistando-se sorrateiramente entre carros e pessoas a fim de não ser vista por ele.
Na rua seguinte notou que uma pessoa o aguardava encostada numa parede. Era uma mulher alta, usando óculos escuros e um longo vestido vermelho. Embora a distância ofuscasse a vista, concluiu ela que se tratava de uma senhora de idade, talvez de sessenta anos ou um pouco mais que isso. E sentiu-se confortada pela idade avançada da outra, justificando para si mesma que, caso estivesse sendo traída, com certeza seria por dinheiro. A conclusão, posto que desconfortável, trazia-lhe um alívio constrangido.
Inicialmente permaneceu confusa e não conseguia extrair daquele episódio qualquer desfecho, não obstante aventasse a ideia de que estava de fato sendo traída, e se remoía por dentro.
O marido seguiu a passo rápido por outra rua, sempre acompanhado da excêntrica mulher. Entraram de mãos dadas num sobrado azul e fecharam apressadamente a porta. A outra observava de longe e conspirava acerca do que haveria de fazer.
Adiante, adentrou-se ela num estabelecimento comercial situado naquela mesma rua e perguntou a atendente se conhecia uma tal mulher do sobrado azul. Esta lhe respondeu que sim, que se tratava de uma próspera viúva, que viera do Rio Grande do Sul há cerca de seis meses e que estava de caso com um homem bem mais novo que ela.
— Dizem que é funcionário de uma das empresas aqui da redondeza, e parece que ele é casado — concluiu com um sorriso malicioso.
Agitada, ela agradeceu a moça pela informação e se retirou apressadamente, tomando o devido cuidado de anotar o nome da rua e o número do sobrado.
Algumas horas depois, o marido chegou à casa, como de costume, ofegante e sem falar nada, limitando-se apenas a um frio cumprimento. Durante toda aquela noite, ela manteve-se calada, pensativa, como se estivesse tramando alguma reação grave ou como se tivesse a maquinar algum jeito de se vingar dele.
No dia seguinte, no horário em que supunha que o marido estivesse com a outra, incumbiu alguém de ir com um carro até o sobrado azul. Era um primo dela, que levava algumas malas e um recado:
— Estão aqui suas tralhas — disse o homem, acrescentando enfurecido: — E não volte nunca mais lá, entendeu?
E ele não voltou, mas nove meses depois telefonou. Disse que estava morando sozinho e que a velha tinha morrido fazia três meses. Explicou ainda que havia pedido demissão do emprego e que tinha dinheiro suficiente para viver o resto da vida em Paris.
Dias depois estavam ambos no sobrado azul, felizes, planejando viagens e o futuro, sem nenhuma ponta de remorso ou qualquer vestígio de amargura.

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