domingo, 3 de fevereiro de 2019

No ônibus (Conto), de Iba Mendes


No ônibus

Entrou no ônibus pensando na vida. Sentou-se no único banco vazio que encontrou, e ali permaneceu introspectivo e imergido em si mesmo, como se quisesse desvendar sua própria alma submersa em melancolia e desespero. Não reparou sequer nas curvas insinuantes de uma aprazível morena que estacionou bem à sua frente e que ria às golfadas ao celular.


Um sentimento de culpa dominava-lhe a mente. Queria voltar atrás para fazer tudo diferente... Se pudesse regredir no tempo, certamente não incorreria naquele mesmo erro...
Por que a vida era assim tão injusta consigo? Tanta gente ruim e de má índole que vivia fartamente e sem grandes dificuldades na vida, algumas das quais até felizes e esbanjando uma saúde de ferro! E ele ali chafurdado na lama, sem sossego, sem paz de espírito, desenganado da vida e de tudo.
Por alguns instantes esforçou-se por não pensar em nada, ficando totalmente absorto. Fechou os olhos e tentou, em vão, toscanejar um cochilo leve. Logo, porém, sua mente despertou tomada por um turbilhão de pensamentos desconexos, e caiu em si que não podia fingir nem fugir à sua dura realidade.
De repente, começou outra vez a pensar na vida que poderia ter sido, e sentiu uma intensa vontade de lutar e vencer, uma força misteriosa que se imergia de dentro de si sem qualquer razão. Talvez ainda houvesse esperança, pensou. Não conseguia, porém, conceber mentalmente uma maneira que se lhe fizesse libertar daqueles terríveis grilhões. Tinha as chaves, mas não via porta alguma para abrir. Neste momento, quem o olhasse com algum interesse ou compaixão, talvez notasse um vestígio de lágrima a formar em suas retinas cintilantes.
Sentiu então uma inexplicável vontade de conversar sobre qualquer assunto e com qualquer pessoa. Queria ter alguém próximo, o pai, um irmão, amigos, enfim, uma pessoa que verdadeiramente o compreendesse e com quem pudesse desagasalhar o espírito e abrir todo o coração. Ali, porém, no vai-e-vem daquele veículo barulhento, era como se estivesse caminhando sozinho num ermo deserto, desamparado por Deus e por todos.
Enquanto isso, o ônibus percorre o itinerário que se lhe incumbe fazer, parando ali para descida de uns, detendo-se acolá para subida de outros, e assim prossegue para seu destino... Em seu interior vozes animadas mesclam-se com silêncios mórbidos e sufocados, como se no mesmo ambiente se dançasse uma valsa e se chorasse um defunto. E ele, alheio a tudo aquilo, voltava sua mente ao passado, e culpava-se; deslocava-a para o futuro, e se redimia numa ilusória esperança. E assim tão distraído da realidade externa e de todos, não se deu conta de onde estava. Foi quando percebeu que havia passado do ponto em que deveria desembarcar. Levantou-se num salto e acionou com toda ligeireza a campainha. Desceu apressadamente e seguiu a passos largos pela Rua da Consolação...

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