domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Sestro (Conto), de Iba Mendes


O Sestro

Tinha a estranha mania de sempre cheirar a mão quando cumprimentava os outros. Inicialmente esperava a pessoa afastar-se e só então saboreava sua peculiar excentricidade. Com o tempo, porém, a prática tornou-se irresistível e passou a executá-la às escâncaras, sem nenhuma cerimônia e bem na frente de quem lhe estendia a mão. A abstinência dos cumprimentos tácteis era para ele um verdadeiro suplício, e de tal modo o atormentava que não se constrangia em apertar a mão até de estranhos como se os conhecessem, e muitas vezes fora por isso chamado de louco, sendo em duas ocasiões agredido com tapas e pontapés.


Se o hábito em si já causava estranheza e repulsa entre as gentes, acrescente-se a isso o fato de se tratar de uma pessoa de renomado prestígio intelectual, formado em Psicologia pela Universidade de São Paulo, com doutoramento em Psicologia Social pela Universidad Nacional de Colombia, e especialização em Clínica e Saúde Mental pela Universidad Pontificia Bolivariana.
Embora se desconheça absolutamente a motivação primária que o arrastou à prática de tão esquisito sestro, sabe-se que teve início pela primeira vez durante um pomposo evento, em que esteve presente o Governador do Estado, que o cumprimentou com um caloroso aperto de mão. Emocionado, cheirou a mão, gostou e não parou nunca mais! Tinha então trinta e dois anos de idade.
Obviamente que um costume assim tão excêntrico fez suscitar comentários maldosos e generalizações infundadas. Há quem dizia, por exemplo, que o cacoete do psicólogo era a prova cabal de que a Psicologia tinha a mesma utilidade que um aparelho para desentortar bananas. Quanto aos próprios colegas de profissão, esses geralmente preferiam se calar sobre o assunto, seja por respeito à autoridade do doutor, seja por simples constrangimento. Alguns, no entanto, para evitar situações de embaraço, buscavam contornar a situação evitando cumprimentá-lo com aperto de mão, limitando-se apenas às cortesias verbais.
Aconteceu que um dia, tendo ele almoçado, dirigiu-se ao seu consultório, onde o aguardava um novo paciente, um homem magro e ruivo, elegantemente vestido e aparentando uns cinquenta anos de idade ou um pouco mais que isso. Este assim que o viu apertou-lhe calorosamente a mão, levando-a imediatamente ao nariz e cheirando-a com tão grande entusiasmo que de pronto chamou atenção do médico, o qual, por alguns instantes, até se esquecera do seu próprio vício olfativo. Seguiu-se uma pausa de alguns segundos, quando o paciente lhe estendeu novamente a mão, e, enquanto levava esta em direção ao nariz, disse-lhe um tanto sem jeito:
— Então, doutor, eis aí a razão porque vim aqui: esse maldito sestro!

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