quarta-feira, 29 de maio de 2019

No álbum de Amélia (Reflexão), de Clóvis Beviláqua



No álbum de Amélia (Reflexão)

Para deixar alguma coisa escrita neste álbum, mas alguma coisa digna dele com suas páginas nevadas, e dignas de quem o possui, quisera que, as graças, apesar da rude era de realismo e prosa charra em que vivemos, trouxessem-me, por tinteiro, a nacarada concha de uma rosa onde se tivesse aninhado uma gota perfumada de orvalho matutino, e, por pena, a que arrancassem das alvas remijes de um cisne.

Assim talvez escoasse-me da pena, em pérolas diluídas, umas palavras menos toscas.

Na impossibilidade em que estou de ver realizado esse meu desejo, vou muito chãmente, com as muito mundanas penas de Peri e a vulgaríssima tinta blue-black, dizer-te umas frases sem arrebiques, porém tão sinceras e verdadeiras quanto me é possível fabricá-las.

Dizem que o homem é a força, a inteligência, a razão; que a mulher é a graça, a beleza, o sentimento.

Para onde pende a balança? Para o nosso lado? Não, mil vezes não! A força no homem é grosseria, é rudeza; a verdadeira força, a que torce todas as vontades, é a graça feminil ; a verdadeira força, a que sugere os grandes cometimentos, a que retempera as coragens desfalecidas, a que sustem a perseverança do trabalho, está no sentimento, esse perfume vivificante que constantemente, inesgotavelmente, se desprende do coração feminino.

Se o mundo se aperfeiçoa em seu evoluir, os aperfeiçoamentos que ele realiza falam bem alto em prol da inferioridade masculina.

A princípio, nos duros tempos da selvageria humana, a mulher suportava, em seus ombros frágeis, a parte mais pesada e difícil dos encargos da vida; com o correr dos tempos, ela teve energia suficiente para impor-se ao homem, forçando-o a tratá-la corno igual, arrancando, dos mais sinceros e melhor dotados, dedicações, defesas e mesmo um culto.

Lembremo-nos de Stuart Mill, o grande filósofo inglês, que confessava publicamente dever, à sua mulher, a parte melhor de seus trabalhos. Lembremo-nos de Auguste Comte com sua idolatria por Clotilde Vaux, com sua religião da humanidade, que é uma deificação da mulher.

Demais a mulher tem consigo um dom que vale por todos os esforços do homem; melhor que os aniquila todos, — a beleza. Em comparação com ela, diz Renan, o talento, o gênio, a própria virtude nada valem, de sorte que a mulher verdadeiramente bela tem o direito de desdenhar de tudo, porque reúne, não em uma produção exterior, mas em si mesma, como em um vaso de mirra, tudo que o gênio custosamente esboça em traços vacilantes, por meio de uma reflexão fatigante.

Nós trabalhamos mourejamos, deixamos, pelos agros caminhos da existência, rastilhos de sangue, farrapos de nós mesmos, em procura de um ideal que nos foge; a mulher ri-se de nossa incapacidade e sem esforço, sem luta, tem no coração preso o seu ideal.

O homem leva noites mal dormidas e dias sem repouso para descobrir uma ideia, um pensamento que modifique a concepção do mundo, mas luta em balde quase sempre.

A mulher, sem preocupar-se com tal, encontra as grandes ideias, porque é bem verdade virem elas do coração, e consegue modificações nas opiniões que repousam sobre os sentimentos.

Ocioso seria mais discorrer.

A balança pende para o lado da mulher.

Convenhamos em nossa inferioridade.



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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