quinta-feira, 16 de maio de 2019

A mulher gulosa (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga



A mulher gulosa

Um homem tinha casado com uma mulher muito lambareira, mas que fingia que nunca tinha vontade de comer; ele desconfiado espreitava-a, e veio a conhecer que ela não fazia senão comer petiscos. Um dia ele saiu de casa, dizendo-lhe que não vinha senão à noite, e escondeu-se no forno. A mulher como se achou só, cantou e foi arranjar um almoço de gulodices, que eram formigos de pão esfarelado com mel e ovos. Quando chegou a hora do jantar guisou uma grande pratada de migas, e comeu e lambeu-lhe o beiço. Ao fim da tarde, ainda não era bem lusco-fusco, tornou a acender o lume e ensopou dois franguinhos para a ceia. O marido viu-lhe comer tudo aquilo, e esteve sempre calado, até que quando lhe pareceu saiu do seu esconderijo, e fingiu que entrava em casa como quem vinha de muito longe. Ora o dia esteve sempre de chuva, e o homem vinha enxuto como as palhas; a mulher lá ficou admirada, e disse:

— Oh homem, com este dia de água como vens tão enxuto! Onde é que estiveste?

Ele respondeu:

Chovia miudinho
Como os formigos que almoçaste;
Se chovesse graúdinho
Como as migas que jantaste,
Eu viria ensopadinho
Como os frangos que ceaste.

A mulher conheceu que já não enganava o marido, que se serviu deste pé de cantiga para lhe repinicar o pandeiro.

(Porto)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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