quinta-feira, 16 de maio de 2019

Os corcundas (Fábula Portuguesa), por Teófilo Braga



Os corcundas

Havia numa terra dois corcundas que se conheciam e eram amigos; de uma vez um deles perdeu-se numa estrada e foi ter ao meio de uma floresta onde umas bruxas estavam fazendo as suas danças, e diziam:

— Entre quintas e sextas e sábados.

O corcunda foi-se aproximando, e viu ali muito de comer, e começou também a dizer:

— Entre quintas e sextas e sábados.

As feiticeiras vieram ter com o corcunda e deram-lhe muito de comer e fizeram-no dançar; como estava para dar meia-noite, disseram:

— O que se há de fazer a este homem, quando nos formos embora?

— Dê-se-lhe muito dinheiro.

Outras disseram:

— Tire-se-lhe a corcunda.

Ele apanhou as duas coisas, e foi-se embora; quando chegou à sua terra o outro corcunda perguntou-lhe quem é que o tinha endireitado. O amigo contou-lhe tudo e disse-lhe onde era a floresta; o outro corcunda avistou as mesmas luzes e viu a mesma dança das bruxas; e assim que ouviu elas estarem cantando:

— "Entre quintas e sextas e sábados", começou a dizer as mesmas palavras, e acrescentou:

— E os domingos, se for necessário.

As bruxas desesperadas por lhe falarem no domingo, foram ter com ele, deram-lhe muitos repelões e disseram:

— O que havemos de fazer a este homem?

— Ponha-se a corcunda que o outro aqui deixou.

E assim ele se foi embora com uma giba atrás e outra adiante.

(Porto)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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