quarta-feira, 8 de maio de 2019

A Ogiva sombria (Conto), de Teófilo Braga


A Ogiva sombria

Sem dúvida, no tempo da mais bela flor da arquitetura gótica, quando foi construída a catedral de Colônia, ligava-se uma grande importância a estes números simbólicos, porque a concepção ainda confusa das ideias racionais, contenta-se facilmente com estes sinais exteriores.

Hegel (Estética)

A Catedral! a criação suprema da Idade média, em que a arte, pelo sentimento, numa estrofe de pedra, sabe concentrar o espírito radiante do cristianismo, pela força audaciosa do símbolo! Ela representa a aspiração incessante da alma que se eleva para o céu; é ela como a Esposa dos Cantares, que espera em silêncio a visita do Amado, e se veste das suas galas e realça de encantos. A curva suave da Ogiva imita uns párpados lânguidos, uma pupila sonhadora, enleada naquele êxtase sensual do amor divino, que Teresa de Jesus sentia nos seus delírios místicos; as flechas atrevidas, atiradas para os ares, a linha a infinitivas se, a perder-se no espaço, as agulhas bordadas, rendilhadas, são os cabelos dispersos, flutuantes da donzelinha, que se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores à busca do amado. A cúpula altiva, representando aquele momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mística unitiva, é o colo, que o poeta dos Cantares comparava à torre de marfim que olha para o ocidente, e cuja majestade é semelhante à da lua que se alevanta. Miguel Ângelo chama também a uma igreja, nas efusões do seu panteísmo artístico, a mia sposa.

Cada monumento antigo é como uma cara veneranda, enrugada pelos séculos, animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos Evos, criada pelo espírito que não pode contemplar um fato, acreditar na sua existência independentemente de uma ideia, de uma razão de ser que procura achar nele. É a fatalidade do enigma da esfinge. As Catedrais góticas reúnem quase sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabólica; elas são como a incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o êxtase. Umas vezes, são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação da fábrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do anônimo nas obras grandiosas. Às vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o seu império faz tudo, e transporta para a construção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma coluna do templo de Diana em Éfeso para o templo de São Zenão em Verona. A alma do arquiteto está retratada na sua concepção; receando das suas forças para realizar o ideal sublime dos sentimentos do cristianismo nos monólitos de mármore para que cria uma forma, não teme evocar a potência das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Catedrais góticas, nos arabescos extravagantes das janelas esguias, nos monstros boquiabertos que servem de goteiras, nos basiliscos informes dos pedestais, reflete-se esta aliança do misticismo poético com o misticismo divino. Muitas vezes a Catedral tem o mistério de um símbolo que se mobiliza para exprimir os sentimentos da humanidade; com as invasões e descobrimentos marítimos ela toma a forma de um navio voltado para o Oriente, donde lhe vem a luz; também imita uma cruz estendida ao longo, como na nossa maravilha de arquitetura, a Batalha, o poema da crença e do heroísmo de um século.

Estamos em plena Idade média. A noite era caliginosa e tétrica; o coriscar frequente dos relâmpagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias intraduzíveis da tempestade. A alma, diante deste espetáculo estupendo da natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuída do sentimento do infinito, a que os homens que tudo indagam e submetem às fórmulas metafísicas chamam — o sublime.

Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, como de alampada veladora. Seria algum discípulo de Flamel ou de Lulo absorvido pelos mistérios da alquimia, submetendo a matéria, interrogando este Proteu eterno, que, a cada pergunta ostenta uma forma diversa, e responde de mil modos diferentes, sem que cheguem a surpreender-lhe o segredo da sua simplicidade? Seria um monge solitário enlevado na paz ignota da vigília, procurando, no silêncio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz jorrava da janela do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito opresso; a alampada espalhava em torno uma penumbra em que flutuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha refletir-se pálida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma expressão incompreensível como os pensamentos que o agitam. Via-se naquele rosto impressa a ansiedade dos que penetram pela intuição a verdade de um problema insolúvel, e uma distração leve lha fez esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas cabalísticas, com que se evocam os espíritos noturnos, compassos e astrolábios, esferas e mapas.

Era ali que morava mestre Gerardo, o arquiteto da Catedral de Colônia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a fisionomia animava-se-lhe de vez em quando com uma luz, um resplendor vivo de transfiguração, como num êxtase em que o ideal se deixava tocar, determinar numa forma só concebida pela mente do homem. Os cabelos andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a cara, como nas convulsões de uma sibila quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dita o vaticínio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veio ofuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhara na cara, em que os anos redobravam a majestade. Nisto, levou a mão à cabeça, como para suster o impulso de uma ideia que lhe ocorrera:

— A arte! a arte! é ela que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no mármore, e que hão de ser a admiração dos séculos. Ela vem-me ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espírito à unidade do pensamento. A arte é uma religião que inspira também uma fé viva, ardente, intensa, e dá forças para afrontar a dúvida, que cerca e punge o espírito criador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu pudesse levantar essa mole de pedras, uma Catedral representando o voo místico da alma! Riram-se do plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos sonhos da mocidade. A Catedral! ela aparece-me na fantasia, iluminada por um sol fulgurante, trasbordando de músicas e harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de púrpura, recamada de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra que se vai dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véu que se alevanta e me deixa vê-la, sonhá-la, idealizá-la sobre essa realidade incompleta. É como a terra que vai aparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas, à medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Catedral! a Catedral! eu sonho e estremeço diante dela, quando a contemplo; sinto o delírio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu escopro. Ela parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostrá-la excelsa, bela, radiante elevando-se para o alto numa ascensão divina. Eu queria vê-la suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cúmulos alvacentos de pedestal! Agora já me não inspira terror o desdém dos meus inimigos: descobri a última estrofe do poema da minha vida, hei de confundi-los, faze-los curvar-se adorando-a: é o zimbório, a cúpula arrojada às alturas, semelhante ao voo extático da alma até à absorção em Deus.

Havia nestas palavras a vibração frenética do delírio; mestre Gerardo de Colônia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe dera a alegria. Os olhos brilhavam umedecidos, cintilantes, exprimindo o regozijo íntimo da contemplação da sua alma. E voltou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompor na mente as linhas que ali traçara num momento de inspiração. Depois, acometido por um novo acesso de entusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flamejaram coruscantes, parecia que estava doido:

— Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros construtores de Strasbourg, de Viena, de Zurique e Magdeburg não podem disputar a proeminência a Colônia. Todos os obreiros e artífices da Baixa-Alemanha hão de reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasbourg queira ser a sede da grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades maçônicas da Alta-Alemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suábia, de Thuringe, da Francônia e da Baviera? O zimbório da Catedral há de erguer-se bem alto para a admiração de todos.

E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver deixado possuir daquela vaidade. Depois continuou com dor:

— Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram as idades, e que mostram o poder criador do homem, competindo com as criações de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superfície da terra, e que o arquiteto não quis que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da glória do mundo! Eu que ainda não completei a minha obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realizar este sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cúpula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O gênio não tem consciência de si, não conhece o poder mágico de que dispõe, por isso não se enfatua. O que é a glória do mundo perante a glória celeste! Ilusão que nunca chega a ter um momento só de realidade; é uma nuvem tenuíssima que tolda o azul diáfano do empíreo. Para a alma do que preliba os encantos do céu, a glória do mundo é uma tentação dolorosa, um martírio incessante; porque então para ela a vida é como a luz vivida da alampada, que se consome no silêncio da noite diante da imagem veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si para resplandecer mais pura.

Os legendários estão cheios destas lutas violentas com os sentimentos mais profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu atônito diante de um quadro escondido na penumbra de um coro numa igreja espanhola; o quadro era um mistério quase impossível de ser traduzido, divulgado pelas cores sobre a tela. Era a morte do justo. A mórbida expressão do rosto macilento, uma auréola divina difundindo-se em roda, a alma ansiosa pelo jubilo do céu a exalar-se docemente, como o último raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça os anjos debruçando-se das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a ideia mais bela, a que resume todo o cristianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si daquele êxtase imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma criação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realizara tamanha obra, para confessar-se seu discípulo, e proclamá-lo à admiração do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe apenas: — “Não é já do mundo!” e quando ele voltou à sua cela, juntou os pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslizava manso à falda da janela; e para esconder as lágrimas que ainda uma vez lhe escaldaram as faces retintas na palidez da penitência, foi procurar conforto na oração fervorosa. Como não teria também esta energia para lutar consigo aquele que escreveu na mudez da cela um livro de resignação e conforto, a Imitação de Cristo, e que abnegou dessa glória para não torná-lo uma mentira!

Mestre Gerardo de Colônia ficara absorvido numa meditação profunda. A tempestade continuava solene e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve rumor no aposento, que a contenção de espírito em que estava mal deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam à porta.

— Quem será? assim tão fora de horas! — e correu os ferrolhos. Entrou uma figura alta, embuçada num gabinardo longo, o rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão. — Quem sois? — inquiriu o arquiteto, preocupado ainda na sua abstração.

— Sou um irmão da Confraria dos obreiros construtores de Strasbourg; — disse o desconhecido com uma voz cava.

— Entrai.

Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.

— A que vindes?

— O que me traz? — redarguiu o desconhecido com um tom de ironia acerba, — deves sabe-lo melhor do que ninguém. Confias no zimbório da Catedral de Colônia, para quereres assim submeter à tua supremacia a mestria central de Strasbourg. É impossível e quimérica essa tua loucura. As grandes lojas querem todas a independência. Demais o zimbório, a obra que é o teu orgulho, não está pronta e talvez nunca a possas levar ao cabo.

Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audácia do desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:

— Ainda sou arquiteto! e o zimbório há de ser o primeiro a saudar no alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.

— Aposto em como te enganas!

— Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da Alemanha! — insistiu o arquiteto.

— Pois bem! Eu comecei há dias a obra do Aqueduto de Treves, e espero ainda vê-lo acabado antes de teres pronta a Catedral. Se assim não for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueduto. Tu precipitas-te também dos coruchéus da Catedral se eu vier reclamar primeiro? Aceitas a aposta?

— Aceito.

— Juras?

— Juro.

A este instante ouviu-se longe o canto do galo. O interlocutor misterioso desapareceu subitamente às primeiras notas do núncio da alvorada. Foi então que o arquiteto reconheceu o — diabo; não quis acreditar na realidade daquele pesadelo. O canto do galo é celebrado nos hinos da igreja, principalmente nos de Santo Ambrósio. Galo canente vigilemus omnes. Ele simboliza a voz interior que desperta a alma do sono da tentação; foi o canto do galo que despertou também a Pedro no átrio do Pretório, quando renegou o Mestre. No misticismo poético ele representa uma parte importante. A imaginação exaltada pelos sonhos da noite não podia deixar de revesti-lo de mistério. Já a Grécia lhe tinha formado o mito: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de Hamlet uma vingança, o coro das feiticeiras de Macbeth, desaparecem com a magia desse canto.

Um dia o arquiteto subira à Catedral; estava prestes a terminar-se a cúpula. A alegria alucinava-o. Apareceu-lhe então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satânicos por entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava pronto o Aqueduto de Treves. Mestre Gerardo empalideceu e voltou o rosto à pressa! Aquela nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem instantânea, fatalmente o relance mediu a altura da Catedral; o ângulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a atração do abismo. Resistiu debalde, vacilou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fora a alegria explosiva de ver a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.

Assim conseguiu estabelecer o seu predomínio a Mestria central de Strasbourg.

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