quarta-feira, 15 de maio de 2019

As favas (Fábula), de Teófilo Braga


As favas

Era uma vez um rei que tinha por costume andar de noite escutando pelas portas para saber o que se passava. Viu luzir por um buraco da fechadura, chegou o ouvido à escuta, e estavam uns sujeitos conversando. Dizia um:

— Eu antes queria uma noite dormir com a rainha, do que ter muitos contos de reis.

O rei ouviu aquilo e tomou-o de olho. No dia seguinte mandou-o vir ao palácio. O rapaz ia muito atrapalhado da sua vida. O rei tinha dado ordem ao seu cozinheiro de lhe fazer um jantar com favas cosidas em água e sal, favas guisadas, favas ensopadas, favas com arroz, favas com presunto, enfim, favas de todos os feitios. Assim que o rapaz apareceu na presença do rei, este levou-o para uma mesa, e disse-lhe que era para lhe oferecer de jantar.

O rapaz obedeceu; vieram as favas cosidas, comeu. Vieram as favas guisadas, comeu; vieram favas ensopadas, comeu. Por fim já não podia mais, e o cozinheiro sempre a trazer-lhe favas de todos os feitios. O rapaz já estava tão farto e enjoado de favas, que pediu aos criados que lhe não trouxessem mais.

Veio o rei à sala de jantar, e perguntou-lhe:

— Então, porque é que não comes mais?

— Oh, senhor! isto tudo são favas; comi muitas no princípio, mas agora estou farto de favas.

— Sim, tudo são favas, quer sejam cosidas ou ensopadas. Pois vá-se você embora, e não torne a dizer que dava toda a riqueza do mundo para dormir uma noite com a rainha; e lembre-se do que lhe aconteceu, por que:

— Favas, todas são favas, e mulheres todas são mulheres.

Assim ficou curado de tolo.

(Algarve)

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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