sábado, 4 de maio de 2019

Borges - Dois retratos (Ensaio)



Borges: dois retratos
Incluí no meu blog esses dois textos – até então inéditos – de e sobre Jorge Luis Borges, como se fosse mais um retrato do escritor suíço-argentino – anexando os cúmplices Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo – que tanto buliu na literatura latino-americana, quanto Pablo Neruda, Jorge Amado e Garcia Marquez. Acredito que toda a geração seguinte à de Borges e todos os seus contemporâneos carrega consigo algum tipo de influência desse trio. Recordo apenas a figura da poetisa e mestra em literatura Sandra Pien, que descarregou num grande e belo poema-site “MiBorges.com” todo o peso do importante aporte literário que Jorge Luis Borges legou às letras latino-americanas. Traduzi.

I - 16 CONSELHOS PARA QUEM QUER ESCREVER LIVROS
Adolfo Bioy Casares contou num número especial da revista L’Herne que Borges, ele mesmo e Silvina Ocampo projetaram escrever a seis mãos um relato ambientado na França e cujo protagonista seria um jovem escritor de província. O relato não chegou a ser escrito, porém daquele intento ficou algo que pertencia ao próprio Borges: uma irônica lista de dezesseis conselhos acerca do que um escritor não deve nunca pôr em um livro. Aí vai este curioso inédito borgiano:
Em literatura é preciso evitar:
1 - As interpretações demasiado inconformistas de obras o de personagens famosos. Por exemplo, descrever a misoginia de Don Juan, etc.
2 - Os pares de personagens grosseiramente dessemelhantes ou contraditórios, como por exemplo, Dom Quixote e Sancho Pança, Sherlock Holmes e Watson.
3 - O costume de caracterizar os personagens por suas manias, como faz, por exemplo, Dickens.
4 - No desenvolvimento da trama, o recurso aos jogos extravagantes com o tempo o com o espaço, como fazem Faulkner, Borges y Bioy Casares.
5 - Em as poesias, situações ou personagens com os quais possa identificar-se o leitor.
6 - Os personagens suscetíveis de converterem-se em mitos.
7 - As frases, as cenas intencionalmente ligadas a determinado lugar ou a determinada época; ou seja, o ambiente local.
8 - A enumeração caótica.
9 - As metáforas em geral, e em particular as metáforas visuais. Mais concretamente ainda, as metáforas agrícolas, navais ou bancárias. Exemplo absolutamente desaconsejable: Proust.
10 - O antropomorfismo.
11 - A confecção de romances cuja trama argumental recorde a de outro livro. Por exemplo, o Ulysses de Joyce e a Odisea de Homero.
12 - Escrever livros que pareçam menus, álbuns, mapa de itinerários ou libretos de concertos.
13 - Tudo aquilo que possa ser ilustrado. Tudo que possa sugerir a ideia de ser convertido em um filme ou peça teatral.
14 - Nos ensaios críticos, toda referência histórica ou biográfica. Evitar sempre as alusões à personalidade ou à vida privada dos autores estudados. Sobretudo, evitar as psicanálises.
15 - As cenas domésticas nas novelas policiais; as cenas dramáticas nos diálogos filosóficos. E, enfim:
16 - Evitar a vaidade, a modéstia, a pederastia, a ausência de pederastia, o suicídio.

II - LA TUMBA DE BORGES
Manifestações, marchas, vandalismo “antiglobalização” em Genebra. A pequena cidade calvinista junto ao lago Leman, nunca havia visto algo igual. Os neutros e formais suíços observam boquiabertos como bandos de anarquistas atacam suas lojas de relógios, arrancam as tábuas com que cobriram as vitrines, e com essas mesmas madeiras fazem em pedaços seus vidros, saqueiam, incendeiam. Tudo para protestar porque o G8, grupo dos oito países mais ricos do mundo, se reúne a portas fechadas, não longe daqui. Por minha parte, eu não faço caso. Fiel ao princípio borgiano de que o escritor deve resistir à realidade, me dedico, entre as pedradas, os slogans e as cargas dos policiais antimotins, a buscar uma tumba. A tumba de Borges, precisamente, no cemitério de Plain Palais, em Genebra. E nem uma revolução poderá impedir-me!
Já que não há ônibus, nem bondes, nem nada que se pareça a um táxi disposto a atrever-se entre as turbas revolucionárias, decido cruzar a cidade a pé. É uma longa e excitante caminhada com muitos desvios, entre as fogueiras, as barricadas de pneumáticos e algum ou outro tijolaço. Uma caminhada que me dá tempo para meditar. Que terá dado na cabeça de Borges para vir morrer e enterrar-se aqui, na ordenada e pequena cidade em que buscaram refúgio Voltaire e Rousseau, tão longe de seu Sul? Alguém dirá que foi a nostalgia: quis morrer no lugar aonde havia passado os anos mais felizes de sua adolescência, aonde havia descoberto o francês e aprendido o alemão. Outros abrigam teorias conspirativas (quase não há teorias que não sejam conspirativas nas letras latino-americanas) relacionadas com seu tardio matrimônio e sua herança.
Pode ser isto ou aquilo. Porém eu tenho para mim que veio morrer na pacífica e neutra Suíça, deliberadamente, porque queria repousar o mais longe possível dos exageros argentinos e latino-americanos; porque queria fugir de nosso sentimentalismo, de nossas revoluções e nossas corrupções, porque queria descansar numa terra onde a cultura não é um discurso escolar e sim assunto de educação cívica, comunal, municipal. Um país aborrecido e civilizado, onde os trens, os relógios e até mesmo as vacas cumprem seus horários. Anti romântica por excelência, apesar de suas montanhas e lagos «sublimes», que os românticos descobriram, a Suíça é a única nação europeia, ou quiçá do mundo, que não tenha ido à guerra em mais ou menos 300 anos. Um país, em suma, onde, diferente da nossa Hispanoamérica, o exagero é desconhecido.
Ou o era... Porque - pensando em meu morto e seu enterro -, de pronto me vi metido na mais enfática das passeatas. Um grupo de manifestantes antiglobalizadores armados com pé-de-cabra arranca de pronto um ponto de ônibus e o atravessa no meio da rua. A polícia responde disparando gases lacrimogêneos. Em poucos segundos me encontro chorando com os olhos esbugalhados e fugindo com una turba de encapuzados, para refugiarmos todos no único lugar possível: entre as tumbas de um idílico cemitério. E eu, logicamente, busco meu refúgio detrás de uma lápide em particular: «Jorge Luis Borges, 1899-1986», está gravado sobre o medalhão de pedra, onde uns guerreiros germânicos, quase tão feios como os policias que nos disparavam há pouco, fazem voar suas tochas inflamadas. Abaixo do o relevo tem umas palavras em alemão antigo: “e não teve medo de nada”, creio que diz.
De repente, tapando meu nariz com um lenço, me vem um ataque de riso. Não sabia que se podia chorar e morrer de riso ao mesmo tempo, porém é isso exatamente o que se passou. Pode ser que seja um efeito especial dos gases suíços, porém suspeito que tenha mais a ver com Borges. Com o velho caturro e ingênuo que foi o Borges póstero. O que quis enterrar-se o mais distante possível do orgulho e dos exageros da América Latina e acabou nesse dia pisoteado e «globalizado» por esta turba de europeus revoltosos. E por este chileno sentimental e gazeado, que chora e morre de riso.

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Consulta:http://www.espacioluke.com/2008/Marzo2008/inesotros.html
http://www.lendo.org/16-conselhos-sobre-como-nao-escrever/

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