quarta-feira, 22 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Uma opinião de M. Jerôme Coignard (Ensaio)


Uma opinião de M. Jerôme Coignard

Toda gente que escolhe leituras já leu esse compêndio de alta sabedoria que são Les opinions de M. Jerôme Coignard, de Anatole France. O padre Coignard possuía uma visão das coisas e dos homens muito livre para lhe permitir o acesso às grandezas humanas, e passou a vida a pé, pobre como Diógenes, mas contente. Era rico apenas em filosofia, a qual transmitiu ao seu bom discípulo Jacques Tournebroche, o qual por sua vez no-la transmitiu a nós, compendiada por Anatole France num livro de diálogos encantadores de finura.

O que nem todos sabem é que por morte de Anatole foi encontrado no baú da sua cozinheira um capítulo inédito desses diálogos. Por que motivo deixou de incorporar-se à sua obra impressa esse capítulo? As opiniões divergem, prevalecendo, entretanto, a que atribui isso a razões de estado. Esse capítulo versa sobre o jogo e singularmente se adapta a um país amigo da França; é possível que o Quai d’Orsay tinha influído no abafamento do escrito para evitar complicações diplomáticas.

Um jornal brasileiro, entretanto, não possui as mesmas razões de reserva do Quai d’Orsay, e pode dar a público o precioso inédito.

Aqui vai ele religiosamente traduzido em vernáculo, sem título como o encontramos.

***

Naquela tarde fomos, meu mestre e eu, até à Ponte Nova, onde abundam os alfarrabistas de rua que meu mestre frequenta. Em caminho chamou-nos a atenção um tumulto à porta de um vendedor de loterias e outros jogos. Eu quis chegar até lá, mas meu mestre deteve-me pelo braço.

— Não. O povo só é interessante visto de longe, como massa que se move. Além disso não é necessário chegar até lá para atinar com o que se trata. A velha mitologia tem símbolos eternos; Saturno devorando seus filhos é um deles.

Não compreendi de pronto a alusão do meu bom mestre, e ia pedir esclarecimentos quando passou por mim um vendedor de jornais. Adquiri uma folha da chamada “certa imprensa”, visto como não nego pertencer eu à classe da “certa gente”.

Havia na primeira página um formoso artigo trescalante de indignação contra o jogo, “cancro social”. Mas havia também na quinta página uma seção de palpites de jogo aconselhados pela direção da folha.

— Mestre, disse eu, como se explica a contradição deste jornal, fulminando o jogo na sua coluna de honra e estimulando-o páginas adiante?

O padre Coignard mansamente correu os olhos pela folha e disse:

— Tournebroche, meu filho, já várias vezes te fiz notar que a contradição é própria do homem e dos jornais. Direi hoje que é própria da vida. Esse jornal é sincero nas duas opiniões contrárias que emite simultaneamente sobre o jogo. Condena-o porque o acha imoral, estimula-o porque o acha humano e necessário à boa ordem das coisas da terra.

— Não compreendo, mestre. Se é imoral, é contrário à boa ordem das coisas da terra, visto que a moral não passa de um conjunto de regras tendentes a manter essa boa ordem.

— Uma discussão sobre moral nos levaria longe e eu tenho de estar dentro em pouco à porta de Catarina, a rendeira, que é uma criatura notoriamente imoral e no entanto necessária à boa ordem da vida. Vida é sinfonia, meu caro discípulo, e as sinfonias necessitam de todas as notas musicais.

A tua folha tem duas opiniões a respeito do jogo e nisso se conforma com um dualismo universal. As opiniões nascem xifópagas, com caras contrárias mas ligadas entre si.

— Mas uma delas há de ser a verdadeira, disse Tournebroche, e eu queria que meu mestre me desse a sua sincera opinião sobre o jogo.

— Prefiro, meu caro Tournebroche, dizer-te que o jogo faz parte da única trindade santíssima que o homem jamais negou: amar, jogar e beber. Nasceu no Éden com os nossos primeiros pais e há de morrer com o último homem. Adão bebeu as palavras da serpente, jogou a sua inocência e amou Eva. Desde aí essas três ilusões passaram a constituir o supremo enlevo do homem — e os três elementos de que ele dispõe para amenizar este nosso vale de lágrimas.

— Logo, o meu caro mestre defende o jogo, ou pelo menos o justifica.

— Apenas o explico, meu filho. O homem que trabalha dia a dia para a conquista do pão, e não vê acumular-se nenhuma reserva em suas arcas, encontra no jogo a única esperança de felicidade. Comprar um bilhete de loteria, comprar uma poule, comprar um bicho é comprar essa coisa maravilhosa que se chama esperança, e o homem que espera é feliz. Enquanto a sorte não decide se ganhou ou perdeu, o homem que joga sonha e é feliz. Se ganha, realiza o sonho; se não ganha, joga de novo, e vai prolongando assim, indefinidamente, o seu estado de felicidade com base na esperança.

— Mas o jogador acaba sempre perdendo e assim se prejudica.

— Não vejo em que, nem vejo que, bem consideradas as coisas, o jogador saia perdendo. Desde que adquire esperança e a esperança é o supremo bem da vida, o jogador nunca perde. Apenas dá o seu dinheiro em troca de uma mercadoria que não pode ser pesada na balança de pesar batatas.

Quem bebe compra, não o álcool em si, mas a doce e rósea ebriez que ele dá. Quem ama à Catarina e lhe dá dinheiro, não adquire materialmente um pedaço dessa interessante criatura, mas sim a ilusão de amor que ela dá.

O que vale nesta trindade santíssima é o que há nela de imaterial, imponderável e ilusório.

— Mas o Estado, disse Tournebroche, que é paternal e sábio, condena e persegue o jogo.

— Tournebroche, meu filho, o Estado faz como a tua folha: condena e persegue com fúria o jogo durante suas passageiras crises de histeria moral. Mas permanentemente o estimula, como faz a tua folha pela seção dos palpites. O Estado, como já disse, guia-se por meio de razões de Estado, razões que o povo não alcança, mas não passam de razões das pessoas que representam o Estado.

Por isso te disse eu que Saturno devorava seus filhos. Pois, responde-me sem vacilar, quem é que mantém o jogo pai, o jogo substantivo, do qual os jogos adjetivos não passam de prole adjunta?

— O Estado, está claro, respondeu Tournebroche, já que é ele quem institui as loterias, e as regulamenta, e as fiscaliza, e lhes participa dos lucros.

— Perfeitamente. O Estado é o pai do jogo, e se persegue os jogos filhos do grande jogo, é porque Saturno devora seus filhos. O Estado condena e persegue os jogos menores por uma razão muito simples, embora dê como razão disso a moral. Persegue-os porque esses jogos fazem concorrência ao grande jogo que ele banca por intermédio dos concessionários de loterias. Estes homens se sentem lesados pela concorrência, o Estado lhes reconhece razão e transforma essa razão de concessionários em altas razões de Estado.

— Nesse caso o que eu não compreendo é o povo. Se o tudo é jogar por que o povo não se limita a jogar no jogo que o Estado institui, garante e fiscaliza?

— As razões são claras, meu filho. O povo, erradamente, está visto, considera o Estado como uma associação maléfica que explora o imposto, e desconfia dele. Tudo que emana do Estado é suspeito ao povo, que não compreenderá nunca a delícia que é sermos governados por ele. E sistematicamente, em igualdade de condições, o povo prefere o jogo instituído pelos particulares ao jogo instituído pelo Estado.

— Mas nisso o povo erra, visto como o jogo do Estado tem as garantias da lei e o outro não.

— Erra e não erra, meu filho. Erra porque é um erro duvidar da benemerência infinita desse grande aparelho de nome Estado, que faz as guerras e retira das sarjetas os gatos mortos. Não erra porque o jogo particular, justamente por não ter as garantias da lei, é infinitamente mais honesto, expedito e inteligente que o jogo do Estado. Estou velho e jamais vi reclamações contra os bicheiros. Catarina, a rendeira, comprou o mês passado duas libras tornezas de Coelho, e horas depois recebeu cinquenta, visto como ganhou. Ela sonhara com Mr. Bouchard, recentemente eleito para o Instituto de França.

— E o mestre acha alguma relação entre esse sonho com Mr. Bouchard e o Coelho?

— Nenhuma. Tenho que Mr. Bouchard, a ser um bicho, seria o Veado, por motivos que um bom mestre não deve expender diante de um discípulo como tu. Mas o considerá-lo tão acertadamente Coelho é um desses mistérios acima da compreensão humana, e só possíveis de decifragem a intuições puras como a de Catarina, que, tu sabes, não possui a faculdade do raciocínio.

— É bem pensado isso. Eu de uma feita sonhei com o meu caro mestre e joguei na Águia.

— E deu?

— A Borboleta.

— Há qualquer coisa de borboleta em mim, reconheço. Quer Buffon que as borboletas borboleteiem, e a mim me parece que, afinal, não faço na vida outra coisa.

Neste momento passou pela calçada fronteira um vendedor de bicho, escoltado por dois guardas policiais. Ia preso e fora sua prisão a causa do tumulto mencionado no começo deste capítulo.

— Vê, meu filho, que belo quadro da iniquidade humana. Este homem vai preso porque jamais lesou um seu semelhante. Não há cozinheira neste bairro que não jure sobre a sua pontualidade de banqueiro de bicho. Foi ele quem pagou a Catarina as cinquenta libras tornezas de Mr. Bouchard.

— Realmente, o Estado tem razões que a razão desconhece.

— E tem ciúmes, meu filho. Não há neste país nada tão bem organizado como o jogo do bicho. O jogador apresenta-se num guichet e faz a lápis, num papelzinho, a sua aposta. O banqueiro recebe o dinheiro e dá-lhe em troca uma papeleta numerada. Essa papeleta, conforme o número final da loteria que o Estado faz diariamente correr, implica às vezes em pagamentos enormes, os quais se realizam mediante a simples apresentação da papeleta. Para um negócio de vulto correspondente, ou com particulares ou com o Estado, teríamos mil maçadas, teríamos que passar escrituras, aceitar letras, apresentar testemunhas, etc., e ao cabo de tudo isso o mais certo seria termos delongas, despesas de lubrificação ou demandas judiciárias, que se eternizam e nos arruínam. Digo que da parte do Estado há ciúmes porque jamais conseguirá ele organizar nada tão perfeito, tão simples e sobretudo tão honesto. Se o Estado não estivesse convencido da sua onisciência, o que deveria fazer, em vez de perseguir os bicheiros, era estudar-lhes a organização e convidá-los a pôr nos serviços públicos essa maravilhosa ordem e rapidez que caracterizam o seu negócio.

— Isso o Estado não fará. O que vai fazer é acabar com eles.

— Não te enganes, meu filho. As crises histéricas passam e o jogo fica. Fica porque é humano, eterno e necessário. Além disso, sabe defender-se. Conhece os calmantes que aplacam o histerismo do Estado, deliciosos calmantes muito gratos às pessoas de carne e osso como nós que constituem as vísceras do Estado. Quem vem lá? Parece-me Catarina...

Era, de fato, Catarina, a rendeira, que vinha furiosa com a prisão do seu bicheiro. Parou em face de Coignard e disse-lhe...” 

O manuscrito de Anatole France, encontrado no baú da sua cozinheira, parava aqui. E foi pena, porque nos privou da opinião da linda rendeira, opinião a que Coignard dava grande apreço por ser intuitiva e não reflexo de longas meditações como as suas.

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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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