quarta-feira, 22 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Bacillus virgula (Ensaio)



Bacillus virgula

Os jornais argentinos dão-se a luxos nababescos. Questão de dinheiro. Eles lá têm pesos, dos sonantes; nós cá, apesar das nossas decantadas riquezas, temos o peso da permanente miquia que em tudo se reflete e no jornalismo tanto como no resto, senão mais.

O jornal moderno, ao molde americano, é a reportagem sensacional. Mas com este alcaloide estupefaciente se dá o mesmo que com os films de estrondo: só está ao alcance das empresas que nadam em ouro. Sem derrame de libra, dólar ou peso não há colher as preciosas orquídeas da sensação — flores que se não confundem com o escândalo social.

Em matéria de reportagem temos que nos ater à reportagem do pobre: visitas ali ao morro do Pinto, revelação de casas de ópio numa colônia china sem ópio nem rabicho, “interviews” com personalidades que não chegam lá. Troco miúdo. Libras de alumínio amarelo.

Já no Prata as coisas mudam. Os jornais são monstros tentaculares que, se drenam do público rios de ouro, em troca lhe dão acepipes dos mais finos, mandados vir de onde quer que se encontrem, custem lá o que custarem. Lembram os Luculus romanos que despachavam naus aos confins do mundo em busca do peixe raro e da ave exótica; se tais gastrônomos não comeram as asas da fênix, ensopadas em molho de fígados de grifo, é que não houve arapuca bastante astuciosa para filar tais aves.

A ambrosia moderna do sensacional, que nós aqui só temos requentada, dessorada, adquirida em “sebos”, têm-na os platinos de primeira mão, fresca e cheirosa como Ganimedes a apresentava a Júpiter. Para obtê-la enchem de pesos magníficos reporters e os lançam aos confins do mundo. O processo dos Luculus, pois não há outro.

Tenho diante dos olhos uma coisa dessas. É a reportagem de Adolfo Agorio, um perfeito escritor mandado à Rússia por um jornal que tira (paciência, Brasil!) duzentos e cinquenta mil exemplares: Crítica. Agorio foi ao teatro eslavo ver com seus olhos, ouvir com seus ouvidos e palpar com suas papilas tácteis o imenso drama social encenado por Lenin.

Bajo la mirada de Lenin, é o título, em seis colunas, do magistral estudo com que o jornal brindou o público em trinta edições consecutivas. Graças a isso tem a Argentina a sua visão pessoal da Rússia, enquanto nós aqui pensamos dela o que o suspeitíssimo francês quer que pensemos. Paris nos manda, com os figurinos, visões da Rússia ad-usum basbaquismo antártico. Falsas, pois. Visões tendenciosas.

Outrora a senha de Quintino Bocaiúva era — Olhemos para o México. Hoje no mundo inteiro a senha é: — Olhemos para a Rússia. O dia de amanhã ferve lá, como o dia de hoje já ferveu em Paris, na Convenção. Mas nós só vemos a Rússia com os óculos pretos que o francês nos dá.

Isso nos leva a monumentos de ratice, como foi o caso do navio russo que impedimos de entrar em nossos portos. Deu-nos o medo de que o pobre barco mercante viesse com carga de ideias novas e nos contaminassem as ideias velhas, borolentas como batatas podres, em torno das quais vivemos de cócoras.

O fato lembra-me uma impressão da meninice.

Dera o cólera-morbo às nossas plagas e ao espanto do primeiro momento sucedeu logo um arrepio sanitário louvabilíssimo. Houve febre de planos profiláticos, mais intensa que a febre atual das palavras cruzadas. Os coronéis, órgãos pensantes, deliberantes e agentes do interior, mexeram-se, coçaram-se com o Chernoviz e por fim acordaram numa novidade linda: cordões sanitários.

Eu estava em Tremembé e assisti ao esticar-se dum dos tais cordões à cabeça da ponte sobre o Paraíba, rio que banha esse feliz recanto do orbe. Constituíam-no três soldados, de Comblain ao ombro, com ordens terminantíssimas de não deixar passar... o bacillus virgula!

Riem-se os da capital da ingenuidade coronelícia; no entanto, em que se diferencia ela do caso do navio russo?

Tal navio desceu ao Prata e ancorou em Buenos Aires; ali refrescou, tomou carvão e depois seguiu viagem, mansa e pacificamente.

Não infeccionou coisa nenhuma; só serviu para abrir o apetite àqueles povos e lhes inocular o desejo de ter a sua visão pessoal da difamada Rússia. E Crítica contratou Agorio para um excurso ao “vulcão”, onde ele esteve meses sem ser devorado pelo ogre de Moscou. Ao voltar deu a público suas impressões, ventilando assim o ambiente pátrio com as auras das ideias novas, nunca tão feias como as pintam os parasitas das ideias velhas.

Lá, assim; aqui continuamos a ignorar o fenômeno russo e a negá-lo sob palavra dos rentiers franceses, naturalmente furiosos com a perda dos milhões devorados pelos grão-duques e não devolvidos pelos sovietes.

Coronel, tu és onímodo! Onímodo e onipotente, mas, por mal teu, és cru em história como um pepino. Se soubesses uma pouca de história verias que já houve tempo em que tuas mofadas ideias, hoje tão ferozmente defendidas como “verdades”, foram ideias novas, malsãs, de circulação vedada por meio de cordões sanitários. A Santa-Aliança, que Deus haja em santa glória, botou em todas as pontes da Europa os teus três soldadinhos...

Não obstante, as ideias passaram com as brisas, contaminaram o mundo todo, venceram, envelheceram, emboloraram e serão amanhã pó, como é hoje pó a áspera ideologia da Santa-Aliança.

A censura ao pensamento humano é cerca de taquara. Ideias são ondas hertzianas. Cada cérebro vale por emissor e receptor, sem antenas visíveis e de infinita potencialidade. Pega o vento da Rússia tão facilmente como o da barra — e pega como o sapo que não larga mais. Três soldados, em que pese à tua poderosa estupidez, coronel, jamais fisgarão de passagem um fluido mais sutil que o bacillus virgula.

Apesar disso continuarás por longos anos a ser o instrumento pensante, deliberante e agente da linda terra de Santa-Cruz...

***

 Apôs à publicação deste artigo sobre a Rússia recebi uma intimação da polícia para comparecer perante um delegado auxiliar. Fiz o testamento e fui. Dei com um moço fino e amável, muito longe do truculento Javert que esperava encontrar.

Constando à polícia que eu ia editar o livro de Adolfo Agorio, via-se ela na contingência de advertir-me que o não fizesse, porque recebera ordem de cima para apreender tal livro, caso aparecesse.

Admirei intimamente a perfeição da nossa espionagem policial, pois de fato me ocorrera a ideia de pedir ao autor permissão para traduzir e publicar esse livro realmente precioso, o único de quantos sei capaz de dar ao nosso público uma noção exata do que se passa na Rússia. A benemerência dos editores está em lançar os livros sérios, não tendenciosos, merecedores de fé. Ora, sendo Agorio um alto funcionário do governo argentino, e tendo seu livro saído lá, não só num jornal de larguíssima tiragem, como em edição de dezenas de milhares de cópias sem que as instituições se subvertessem, pareceu-me o naturalmente indicado para ser divulgado aqui.

A polícia, cumprindo ordens de cima, pensou de maneira diversa, e como editor bem policiado resignei-me a não prestar ao meu país esse bom serviço. Agradeci ao amável delegado o aviso que vinha prevenir dissabores futuros e sai a meditar no mistério daquele de cima donde emanavam ordens que tão a pique vinham confirmar os meus conceitos emitidos n’A Manhã. Seja quem for, é um de cima bem irmão do nosso coronel da roça — e como ele bem ignorante de história. Por pouco que soubesse do passado verificaria uma coisa extraordinária: a coincidência de ter o bolchevismo explodido justamente na Rússia — na Rússia, onde a polícia era um polvo monstruoso que enleava cada criatura com um tentáculo e dispunha da Sibéria, região muito maior e mais eficiente para destruir díscolos do que a nossa pobre ilha Rasa. Se essa coincidência não é de molde a convencer a todas as polícias do mundo de que o pensamento humano e a emigração das ideias não são policiáveis, não sei o que seja. Walter Rathenau usou de uma bela expressão para indicar o processo de difusão das ideias: imigração vertical. Enquanto os coronéis de cima botam cordões sanitários nas pontes e erguem outras cerquinhas de taquara, as ideias entram por projeção vertical.

Além disso é ingenuidade acreditar em ideias russas. Se Lenin quisesse justificar as suas ideias com as de Jesus, era só abrir o Evangelho. Se o de cima que impediu a publicação do livro de Agorio fizesse um exame de consciência nas suas ideias (e não duvido que as possua) veria com espanto que tem o cérebro cheio das chamadas ideias russas. Até a sua crença na eficácia da polícia na compressão do pensamento humano é uma ideia russíssima. Esteve encasquetada durante séculos na cabeça dos czares empenhados em manter a servidão do povo eslavo, e está na cabeça dos leaders bolchevistas atuais, que enforcam os que não pensam como eles.
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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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