quarta-feira, 22 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Ideias Russas (Ensaio)



Ideias Russas

Na reportagem de Adolfo Agorio sobre a Rússia existe um trecho sobremodo interessante sobre a questão sexual.

Lenin, esse ogre na opinião dos franceses, inda há de dar o seu nome ao século como o maior reformador social de todos os tempos. Nenhuma criatura operou em maior escala, nem foi mais radical em suas ideias. Semeou como um deus, e até ao derradeiro momento de vida presidiu ao novo estado de equilíbrio social que implantou na Rússia. O tempo irá aos poucos corrigindo sua obra; a adaptação far-se-á; mas ninguém lhe tirará a glória de ter arquitetado o dia de amanhã.

A caudal de diatribes e infâmias que os lesados esguicham sobre o seu nome e difundem pelo mundo inteiro, passará, como passam enxurros. Onde está hoje a massa formidável de libelos impressos na Grã-Bretanha contra o ogre da Córsega? Napoleão, no entanto, purificado, brilha na história com o Perseu de uma Górgona: o direito divino.

É assim que a humanidade caminha — napoleonicamente, leninescamente, aos sacões. A prudência, tão preconizada pelo artritismo dos marqueses de Maricá, é virtude que apenas conserva, como o vinagre conserva o pepino, mas não cria coisa nenhuma.

No que diz respeito à mulher, Lenin aparece como o seu messias. Libertou-a da escravidão doméstica, aboliu o preconceito da sua inferioridade, pô-la em situação de ocupar todos os cargos da república, desde o comissariado do povo até o juizado. O regime de igualdade dos sexos é perfeito, pois. Lenin destruiu o formidável acervo de injustiças acumulado em vinte séculos de helenismo e outros tantos de civilização cristã — isto é, de despotismo do galo.

Houve um formidável sacolejo de forças psicológicas adormidas, vento que varreu e ventilou o ambiente, desde o lar às mais complexas formas de atividade coletiva.

A mulher liberta-se da servidão conjugal. Os direitos de ambos os cônjuges equiparam-se sob um severo regime de responsabilidades e deveres mútuos. A união livre, controlada pelo Estado, não significa a anarquia sexual que pintam os escribas antirrussos a serviço do cômodo status-quo capitalístico. Essa anarquia sexual existe, sim, no regime burguês da mentira monogâmica sem divórcio, monstruoso Moloque que só funciona à custa do mais cruel lubrificante: a prostituição.

O casamento na Rússia repousa unicamente no amor e é mais duradouro que o alicerçado no dinheiro. Recorda Agorio o assombro de um seu companheiro de viagem ao verificar o número ínfimo de divórcios russos. No entanto, se é fácil casar, mais fácil ainda é divorciar; para o primeiro ato basta o comparecimento dos dois interessados perante o oficial civil; para o segundo basta apenas o comparecimento de um.

A humanidade se divide em duas classes: os que possuem imaginação e os que não a possuem. Os imaginativos idealizam e, como idealizam, raro alcançam a felicidade — tanto o real é inimigo do ideal. Vem daí que os imaginativos são em regra infelizes no nosso regime sexual.

Na Rússia não. Madame de Bovary não se suicida. Solta o primeiro marido, inservível por insuficiência de glândula tiroide (devia ser isto), e vai sucessivamente casando até encontrar o eleito da sua fantasia. E acha, pois as almas andam aos pares, a afinidade eletiva é um fato e o tudo é que a sociedade não as impeça de se engancharem.

— Por que motivo, disse uma dama russa a Agorio, havemos de trazer sapatos apertados, que nos magoem o pé, se, trocando-os, podemos tê-los cômodos? Ora, o nosso coração não merece menos que o nosso pé, além de que as feridas nele abertas são de muito maior duração que as causadas pelo sapato defeituoso.

Quem sofre com o regime russo é o homem. Perde a liberdade absoluta de que se goza no regime burguês — liberdade de borboletear de mulher em mulher, clandestinamente, qual um besouro avariado, sem nenhuma consequência funesta para o seu egoísmo. Não mais se regala com o sadismo de fazer mãe a uma virgem e largá-la à sua triste sorte, sob os olhares complacentes do status-quo. Sua responsabilidade torna-se absoluta. O código bolchevista, no fundo simples e mui lógica reação do pobre espezinhado contra o rico prepotente, garante todos os direitos da maternidade. As obrigações do homem neste caso não são para com a mulher, e sim para com a mãe. Ao fundar as bases da família nova, quis Lenin poupar ao seu país o espetáculo degradante da mulher desamparada no seu transe mais nobre, convertida em máquina de abortos e infanticídios, escrava do regime social que faz dela um objeto de compra e venda, um semovente reduzido a campo de experiências dos monstruosos apetites e das abomináveis paixões, não digo humanas, mas homescas.

A mulher trabalha livremente e possui igual ao homem a iniciativa do amor. Pode escolher à vontade. Nenhuma barreira se opõe aos impulsos do seu coração. Contribui para a manutenção da sociedade conjugai e assim afirma sua independência e justifica seus direitos.

Não há na Rússia essa classe de mulheres que vivem em absoluto às costas do marido, qual ostras no espeque. Mais difícil ainda é ver-se o contrário disso, como, por exemplo, o chupim da nossa organização atual.

O problema do celibato, consequentemente, desaparece. A solteirona o é por anomalia de temperamento, já que nada lhe impede de afrontar a experiência matrimonial. No nosso regime, a cuja monstruosidade não atentamos porque o cão não atenta à coleira quando a recebe desde o nascer, milhões e milhões de pobres criaturas mirram no tormento da castidade à força, ao lado de outros milhões que rebolcam nos prostíbulos, devoradas, umas, de histerismos, e outras, da sífilis, para que Mr. Homais, de braço dado ao conselheiro Acácio, possa sentenciar gravemente:

— O casamento é uma instituição divina. Não lhe toquem!

Os homens e as mulheres na Rússia não se olham como inimigos, oscilantes entre o amor e o ódio, polos da mesma exaltação sentimental; não enchem as folhas com o escândalo diário do seu engalfinhamento, seus tiros de revólver, suas facadas. Olham-se como companheiros, iguais nos direitos, iguais nos deveres. E como apesar desta soberania de si mesmas e desse culto reflexivo da própria responsabilidade diz Agorio que nada perderam do encanto feminino, é justo que fechemos os portos aos navios russos que trazem em barris tais ideias.

Viriam perturbar a deliciosa lambança sexual, leda e cega, em que vivemos, com um olho nos bismutos e outro nos macacos de Voronoff...

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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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